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sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

EM ÉPOCA DE ELEIÇÃO A VACA ESTRANHA O BEZERRO


Um dia chegou junto com minha correspondência uma intimação da Polícia Federal. Estou lembrando disso porque neste ano teremos eleições e os amigos e amigas precisam saber que - como dizia Maria Nilce, citando Nina Chaves - “qualquer descuido pode ser fatal”. Aquela notificação dava margens a se imaginar um caminhão de coisas, mas nenhuma que fizesse o menor sentido. Por que diabos a Polícia Federal estaria me intimando a comparecer para “prestar esclarecimentos” tal dia e tal horário sob pena disso e daquilo? Nunca roubei, nem trafiquei, não sou ordenador de despesas públicas, muito menos o seria um corrupto descolado, dando corridinhas excitadas agarrado a uma mala cheia de dinheiro. Só se me intimaram como testemunha de alguma coisa, mas do quê?


Era fevereiro, uma quinta ou sexta-feira que coincidiu com o início da mais grave crise de segurança pública que o Espírito Santo atravessou, trivialmente conhecida nas ruas como “greve da Polícia Militar”. Inúmeros relatos de assaltos começaram a aparecer em minha pacata vizinhança, vandalismos tornaram-se comuns, cidadãos “honestos” invadiram e saquearam lojas, centenas de pessoas foram assassinadas, o caos tomou conta da cidade. Sair de casa começou a ficar um negócio perigoso, mas eu estava agoniado com aquele mistério e descobri que o único jeito de saber do que se tratava era ir lá na sede da Polícia Federal perguntar... Faltavam ainda duas semanas para minha “audiência”.


Na segunda-feira fomos eu e minha esposa até a sede da PF, onde, infelizmente, pouca coisa haveríamos de descobrir com o escrivão e a aura de mistério que rondava o negócio me deixou ainda mais apreensivo. Continuei pedindo ajuda. Dias antes da audiência descobri que era acusado de cometer crime eleitoral por, supostamente, haver difamado o candidato Lelo Coimbra entre os meus quase 5000 “amigos” do Facebook quando das eleições para Prefeito de Vitória em 2016. Sou muito comedido em críticas a pessoas e instituições e nas redes sociais sou muito mais; desconfio quando falam de caras pelados no museu, não me interessa se Pablo Vittar sabe cantar e, antes de soltar o verbo, estou sempre me perguntando as razões de alguma coisa ter me incomodado. Não havia a menor chance de algo que eu pudesse ter publicado no Facebook ser razão para uma intimação policial.


NA AUDIÊNCIA: VERDADES REVELADAS!


Fico pensando no quanto é que um cara precisa estudar para passar num concurso de delegado da Polícia Federal e desenvolver aquele olhar de quem acha que de você “não resta a menor dúvida”... A advogada que me acompanhou folheou o processo e disse com gravidade que eu estava ali como “indiciado” mesmo, lá pelas tantas surgiu no ar o nome “Vix Rocks”. Eu quase caí da cadeira: “Pera lá. Isso aí não é Facebook não, é um grupo do WhatsApp”. O delegado repetiu desconfiado: “grupo do whatsapp?” Então me mostrou um “print” onde podia ver o número de meu telefone e abaixo uma postagem da qual eu não me lembrava mostrando o Deputado Lelo Coimbra com o Deputado Eduardo Cunha, ambos do PMDB, o último, porém, condenado a mais de 15 anos de prisão na Operação Lava Jato.



Imagem do site Folha Vitória, só a título de ilustração, não é a postagem de que trata este texto: http://midias.folhavitoria.com.br/files/2015/08/534750150-lelo-entrega-documento-a-eduardo-cunha.jpg
O delegado explicou: alguém do grupo se ofendeu com aquela postagem e – através dos advogados da coligação do então candidato a Prefeito de Vitória - ofereceu denúncia ao Ministério Público que enviou à Polícia Federal para investigar. E ali estava eu sentado na Polícia Federal com a mais absoluta cara de tacho, por causa de algum bom e velho “roqueiro” capixaba. A advogada relaxou e disse que não era comum condenar ninguém em “crime eleitoral” por postagem num grupo privado de poucas pessoas. Pelo menos agora eu estava entendendo o que estava acontecendo... Era o rock, sempre metendo a gente em encrencas. Quem mandou não fazer parte de um grupo de pagode ou sertanejo universitário...


TRADICIONAL FAMÍLIA (DO ROCK) CAPIXABA


Reportagem de A Gazeta sobre o Rock Capixaba nos anos 1980


O “Vix Rocks” foi fundado faz uns dois ou três anos por integrantes, em sua maioria, de diversas bandas de BRock e heavy metal capixaba. Tem pouco mais de 40 participantes - em 2016 devia ser menos ainda - dentre estes alguns de meus mais costumeiros comparsas, com ficha corrida de mais de 30 anos de crimes contra as regras musicais e as etiquetas sociais. Obviamente nem todos ali se conhecem, tem os amigos dos amigos, membros de gerações diferentes e alguns fãs de rock. Botar a boca no trombone para tentar desentocar o autor da denúncia não me pareceu uma estratégia muito inteligente, tinha que tentar descobrir por outros meios. Enquanto isso, avisei ao moderador do grupo o baixo astral que estava rolando, resolvi esperar para ver no que o processo ia dar e depois, confesso, simplesmente esqueci.


O episódio aumentou o incômodo que eu já sentia com o caráter radical de direita e conservador adotado pela maioria dos membros daquela rede social que tinha o Rock‘n’Roll como premissa. Como assim “roqueiro conservador”? Não era para ser a antítese da caretice e questionar as hipocrisias da sociedade? Aliás, nada tenho contra os radicais de direita ou até da esquerda: se Lula e Bolsonaro aparentam serem forças antagônicas, suas intenções e capacidades me parecem muito semelhantes. O detalhe é que da vez que apareceu um roqueiro defendendo o PeTê o “drive” da gritaria foi insano, mas a coisa não foi parar na delegacia. Então descobri, da pior forma, que quando pega fogo na política capixaba o buraco é mais embaixo. Vacilo é querer discutir a política local onde a maioria passa o ano debatendo as prosopopéias do futebol nacional, até mudaram o nome do grupo para Vix Rocks F.C.


Religião é outro assunto delicado para se discutir naquele grupo de roqueiros, a única vez que me lembro rolou um pega-pra-capá danado. Um participante resolveu divulgar pensamentos ateus ou agnósticos e foi duramente chamado às falas por alguns católicos, suspeito, não praticantes. Atitude incoerente para quem, ao mesmo tempo, diz que tem “Sympathy for the devil”; admiradores de pérolas sacras como “The Number of The Beast”, “Shout at the Devil” e “Highway To Hell”. Eu acho complicado meter no mesmo saco religião e satanismo como se fossem coisas fantásticas de um mundo imaginário. Ou dorme com o ar-condicionado a mil por hora; ou toma banho com a água pelando. Os dois, ao mesmo tempo, não dá!


Um último aspecto bastante conservador a ser comentado, mas não menos importante, é o moralismo hard rocker. No ano passado ou retrasado um “roqueiro das antigas” chegou chutando o balde - como se fosse “o maior rock” compartilhar as velhas práticas ancestrais de acasalamento - postou logo uma saraivada de fotos de muié pelada e vídeos de gente fazendo saliência... Daqui a pouco tava uma gritaria danada! Alguns argumentaram que tinham filhos pequenos que futucam o celular, o que até faz sentido, mas a maioria se incomodou mesmo foi com o caráter impróprio das postagens; ou seja, que aquele era um grupo “de família” e não lugar para aquela baixaria. O indivíduo só não foi expulso porque se retirou recitando mantras que não sei como é que o corretor deixou passar: “fuck’ya all mother fuckers!”...


END IN THE AND... (MAIS DEUS É MAS)


No fundo a caretice de alguns “rebeldes sem calça” reformados não era o meu problema principal, o problema é que por causa de unzinho deles a Federal tava no meu pé. Situação tão constrangedora que a versão local do Romeu Tumba até falou que eu deveria o comunicar se fosse me ausentar da cidade! Liguei pro Berry, que conhece melhor a outra galera do Vix Rocks, o cara parecia não acreditar. Disse que nem sabe fazer um “print” e comentou: “a sua postagem não tem comentário algum, é como se dissesse: olha só que absurdo estão falando do Dr. Coimbra”. E a cronologia do negócio? A postagem foi compartilhada em outubro, afinal “o elevador” do candidato não subiu para comparecer ao segundo turno. Em novembro foi lançado um livro sobre os 50 anos do Porto de Tubarão, com texto de minha autoria, que contou com a presença do referido Deputado Federal.

O Deputado Federal Lelo Coimbra, Joel Rangel, atual Diretor-geral 
da Assembleia Legislativa do Espírito Santo e uma amiga, 
na noite de lançamento do livro Tubarão da Ponta ao Porto...
Ontem telefonei para a delegacia da Polícia Federal e me informaram que o processo estava “arquivado”. Espero que encontrem coisa mais consistente para investigar, como a denúncia da BBC de que existe um exército de perfis falsos na Internet contratados para influenciar eleições: (http://www.bbc.com/portuguese/brasil-42172146). A reportagem cita nominalmente políticos capixabas como o governador do Espírito Santo, Paulo Hartung, e o Senador Ricardo Ferraço. Com a evidente importância que os meios digitais alcançaram no processo eleitoral, não posso deixar de cogitar de que todo esse imbróglio em que fui envolvido pode ser um “trabalho de formiguinha” dos advogados da classe política para tentar inibir a atuação de formadores de opinião, independentes ou não. Estamos em janeiro, então não consegui falar com ninguém no Ministério Público, mas me pergunto: qual o número de pessoas que passaram pelo constrangimento de ter que ir prestar esclarecimentos à Polícia Federal e, por pouco ou quase nada, foram indiciadas por crime eleitoral?


Isso tudo aconteceu – é preciso ressaltar – durante a mais grave crise de segurança pública que o Estado do Espírito Santo atravessou.


E para provar que sou um bom repórter investigativo, também não consegui descobrir quem foi o membro do Vix Rocks que teve a ideia marota de me desferir aquela guitarrada nas costas. Os advogados que contatei sempre desconversaram, aparentemente receosos do barraco que ia dar. Quem sabe com esse texto o coelho não sai da cartola? Sei que deve ser uma pessoa “do bem” e honesta - como eu gosto de imaginar que sou - que se deixou levar pela piração das disputas partidárias, como lembrou meu primo Everaldo em sua agro-sabedoria: “eleições é tempo de vaca estranhar o bezerro”. Para bom entendedor uma teta basta. O importante é saber que nesse ano em que iremos escolher Presidente da República, Governador do Estado, Senadores e Deputados Federais e Estaduais, não podemos ser intimidados por jogadas de tapetão, mas, com inteligência continuar a denunciar os maus políticos e filtrar com quem a gente compartilha informações pelas redes sociais.


Um 2018 de Paz, Sabedoria “And Justice For All"!


Juca Magalhães está comemorando dez anos de “autuação” como Blogger de A Letra Elektronica e é autor das obras “Da Capo”, “O Livro do Pó” e “Tubarão da Ponta ao Porto, Vitória em Transformação”.

Um comentário:

Elizeu disse...

Kafka se inspirou no Brasil do século XXI. Não é possível algo mais surreal para impressioná-lo n'O Processo.