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sábado, 5 de março de 2016

MARIA NILCE SUBSTANTIVO MULHER

Polêmica é um substantivo feminino, mas está longe de ser exclusividade do universo das mulheres como muitos marmanjos gostam de acreditar. A cidade de Vitória conheceu uma jornalista que viveu cercada de polêmicas, “barracos” que não eram a principal característica de seu trabalho, mas foram importantes porque fomentaram a lenda da mulher guerreira e geravam um interesse enorme por tudo que aquele furacão fazia na sociedade dos capixabas. Essa mulher se chamava Maria Nilce Magalhães e Maria Nilce era a minha mãe.

A maior parte das pessoas vive entediada e encalacrada, presas a empregos, casamentos e eterna insatisfação. Por isso precisam de tragédia como entretenimento, ficam muito excitadas ao saber que de repente alguém “deu a doida”, xingou o padre, largou o marido, roubou a empresa ou saltou da terceira ponte. A mente dessas pessoas é pequena, não porque querem, mas porque é assim que são. Apesar disso, ou por causa disso mesmo, uma parcela desse conjunto resolveu ser grande e outras, reconhecidas como “elite” ou “alta sociedade”, não viram com bons olhos a ascensão de nanicos, porque ser grande toma espaço e não se pode dividir o que é muito, pois sempre o consideram muito pouco.

No tempo de Maria Nilce (1941-1989) quando se apontava os “grandes” de Vitória estava se falando exclusivamente de homens, as mulheres eram educadas nas prendas do lar, preparadas para obedecer ao marido, cuidar da casa e dos filhos. Nos anos 1970 Maria Nilce foi uma daquelas que diversas vezes “deu a doida”, bateu de frente com um governador da ditadura e colocou no chinelo muitos “homens da imprensa”. Em dado momento atingiu o status de celebridade e como estas foi perseguida e difamada, mas devolvia os insultos e ridicularizava os desafetos em sua coluna. Sua presença incomodava, não é exagero afirmar que algo da polêmica que a cercava vinha do preconceito com sua condição de mulher.

A colunista do Jornal da Cidade pode não ter sido a primeira, nem a maior, mas de sua geração foi quem melhor conseguiu captar a imagem de “self made woman” e se transformou no símbolo da mulher capixaba bem sucedida. Além de colunista social de apelo junto ao público, era também uma empresária competitiva e inteligente, sabia vender e valorizar seu produto, uma de suas frases preferidas era: “quem trabalha não conhece fracasso”. Não foi à toa que escolheu o dia internacional da mulher para congregar as empresárias “da terra” em um evento que celebrava a independência de seu gênero.
 
A empresária do setor automotivo e cafeeiro Zuca Coser, falecida em 2009, com a colunista Maria Nilce 
No final da década de 1980, Maria Nilce consolidara posição no jornalismo e sua popularidade seguia em escala ascendente. Planejava construir uma sede moderna para o Jornal da Cidade, andava badalada na sociedade carioca, viajava pelo mundo e acirrava as críticas contra uma parcela perigosa da elite capixaba. O almoço que a jornalista promoveu em comemoração ao dia internacional da mulher no ano de sua morte reuniu quatrocentas mulheres, donas de grandes empresas, profissionais liberais e até representantes da política nacional como as deputadas federais Sandra Cavalcanti e Rita Camata.
 
Sandra Cavalcanti, deputada federal carioca discursa durante as comemorações do Dia Internacional da Mulher.
No dia 14 de março de 1989, Maria Nilce publicou em sua coluna um texto relatando o clima pesado que cercou o “Almoço da Mulher” naquele ano e classificou as ameaças de seus desafetos como “terrorismo”. Era um prenúncio do que aconteceria poucos meses depois: o assassinato covarde que pôs fim a uma disputa velada pelo direito de uma jornalista se expressar contra a necessidade de calar essa pessoa. Um crime de mando contra uma mulher indefesa, que posteriormente foi culpabilizada pela própria morte, na revista Manchete foi dito que ela “falava demais” e a mídia sempre a reduziu às tais “polêmicas”.
 
Almoço de Comemoração ao Dia Internacional da Mulher em 1989

No dia oito de março não é comum evocar a lembrança da jornalista Maria Nilce Magalhães e suas ações pioneiras em prol da valorização do empreendedorismo feminino capixaba. Deu trabalho calar a fera, mais trabalho ainda tem a elite para apagar sua presença da memória do povo. Mas, sabe minha mãe? Eu, que nunca me dirigi à senhora sua pessoa assim publicamente, estou ainda por aqui pra lembrar com saudade e com carinho da sua genialidade e de suas birutices – a Milla que virou gringa diz que você era gifted - e sei que tem um montão de gente bacana por aqui que se lembra de você assim também.

Quando comemoramos mais um Dia Internacional da Mulher, primeiro de tudo devemos orar, rezar ou meditar pela presença invisível ou mesmo a ausência de tantas e tantas mulheres impunemente espancadas, violentadas e assassinadas.  Em seguida peço ao menos um pouco de respeito à vida e à memória dessas vítimas, quase sempre perseguidas e difamadas, simplesmente por representarem a fragilidade nessa cadeia. E desejo que todas as mulheres tenham, sempre, o verdadeiro direito à liberdade de expressão e dignidade para viver e ser o que quiser e fazer de seu corpo e da sua história o que melhor lhe aprouver!

Segue o texto escrito por Maria Nilce:

No Dia Internacional da Mulher, quando esta cronista realizava um almoço para mais de quatrocentas mulheres, no salão do Alice Hotel, seu proprietário, Toninho Neffa, avisado anteriormente por telefonemas anônimos de que alguns gays iam até lá acabar com a festa, assustou-se com a presença de dois indivíduos estranhos que entraram no hotel sem camisa e pensando ser os travestis telefonou para a polícia e pediu reforço.

Soubemos depois que o autor dos telefonemas foi o comerciante Jadyr Primo, que também ensaiou a molecagem de mandar travestis para a porta do hotel para jogar pó de mico nas senhoras. Ali dentro do Alice estavam senhoras do maior respeito, todas dignas da maior admiração. Sobretudo, senhoras de idade como dona Josefina Hilal, como a mãe de Lourdinha Raizer, entre outras que não mereciam passar pelo susto que passaram.

Eu espero que as mulheres que estiveram naquele almoço não esqueçam do mal que ele me fez, pois desde as nove horas da manhã que este indivíduo passa trotes para minha casa, fazendo terrorismo e eu, apesar de saber de tudo, estive à frente do almoço, sorteando brindes, homenageando as aniversariantes, cuidando para que nada estragasse o brilho daquele dia que era só nosso e para que todas mulheres ali presentes não fossem perturbadas em nada. Se entrasse alguém para estragar a nossa festa, eu me jogaria na frente para defender as mulheres que ali estavam convidadas por mim.

Eu morreria por elas...
 
Último registro de Maria Nilce com seu filho Juca Magalhães:
foto de Heitor Bonino
Maria Nilce Magalhaes foi morta a tiros no dia cinco de julho de 1989, o julgamento de alguns dos envolvidos no assassinato levou quase vinte e cinco anos, as investigações não apontaram os principais mandantes do crime.
A investigação do crime contra Maria Nilce foi marcada por afirmações preconceituosas à mulher e propositadamente abagunçada, vide a manchete de A Gazeta


Início da desrespeitosa reportagem da Revista Manchete
Jornal do Brasil


domingo, 17 de maio de 2015

MARIA NILCE É HOMENAGEADA NA PEÇA INVEN7ARIO



Lilian Casotti revivendo a beleza de Maria Nilce

Na quarta-feira que vem, dia 20 de maio, será reapresentada a peça INVEN7ÁRIO. Espetáculo apresentado pela Companhia de Teatro da Fafi, com direção artística e dramaturgia de Leonardo Patrocínio e um elenco de jovens atores que estavam se formando quando da primeira representação que aconteceu no Theatro Carlos Gomes no dia 16 de dezembro do ano passado. O grupo teve coragem de, pela primeira vez, resgatar um pouco da trajetória da colunista Maria Nilce Magalhães. Fui até o Facebook para recuperar meus comentários da época:

Foi muito emocionante a estreia da peça Inventário, ontem à noite no Theatro Carlos Gomes. Um resgate histórico do jornalismo e da literatura capixaba nos anos 1970, com destaque para as figuras femininas como Lacy Riberio, Bernadete Lyra, Carmélia e Maria Nilce Magalhães, entre outros e outras. O que eu gostei mais no teatro foi sentir a admiração das pessoas, a vontade de reviver Maria Nilce e aquela época quando nossa ilha era "muito doida"... O grupo mostrou muita garra num texto de tema forte, reproduziram o tom de indignação que tenho sufocado na garganta há décadas, só por isso já valeria ter estado lá para os assistir, mas teve muito mais. Cenas delicadas e bonitas como quando recitaram um trecho do poema Desespero do livro “Eu, Maria Nilce”, nessa hora eu chorei que nem criança.

"Morrer...
Nunca mais ver Maio com seus amores
Nunca mais ver junho com seus balões
Nem a primavera repleta de flores.
Morrer...
Não mais ter para mim um verão quente
Muita luz, as praias repletas de gente
A alegria que só o verão pode trazer.
Morrer...
Não mais dirigir meu carro
Em disparada louca pelas estradas
Numa alegria sem fim"...

Nessa hora me bateu uma sensação inesperada de orgulho pelas palavras ingênuas deixadas por minha mãe lá nos anos 1960 e agora valorizadas com aquela interpretação sensível do grupo ali no palco do Carlos Gomes, 25 anos depois de sua morte, idiota e covarde do jeito que foi. Alice Nascimento me viu soluçando e segurou minha mão, por tudo o que acontecia, de repente eu tive uma sensação muito legal de que não estava mais sozinho...

INVEN7ARIO: dia 20 de maio (Não percam! É só essa representação)
Local: ALDEIA SESC ILHA DO MEL 2015. (Antigo Teatro Glória)
Horário: 19:00h.
Os ingressos serão vendidos uma hora antes do início da peça, valores:

R$ 4,00 INTEIRA
R$ 2,40 CONVÊNIO/COMERCIANTE
R$ 2,00 MEIA ENTRADA/COMERCIÁRIO

Centro Cultural Sesc Glória
Av. Jerônimo Monteiro, 428, Centro, Vitória.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

PREGUIÇA



 
No dia 10 de junho de 1989, em sua coluna do Jornal da Cidade, a jornalista Maria Nilce publicou a crônica intitulada “Preguiça” que hoje republico para curtir uma lufada de ar dos anos 1980. Esse resgate veio através da descoberta de um acervo do extinto periódico, hoje muito bem guardado na casa de um amigo, cuja (cujo?) identidade prefiro não revelar porque corre o risco de alguém tentar dinamitar sua casa. Basta lembrar o que aconteceu com o acervo remanescente do jornal doado pela família aos cuidados da Biblioteca Estadual e, posteriormente, descartado ou destruído em episódio criminoso até hoje obscuro.

Para ler mais sobre o assunto leia a matéria publicada em 05/09/2011 no prestigioso site Observatório da Imprensa. Aliás, modestamente falando, um dos melhores textos que escrevi:


A crônica de Maria Nilce que republico traz peculiaridades de seu estilo que denota naturalidade em transformar o privado em público. Por exemplo, fala de minha pessoa, seu filho, sem o menor trabalho de contextualizar, dizer de quem se trata. Era como se todo mundo que lesse sua coluna soubesse quem eram as pessoas que a circundavam e tivessem interesse em sua vida pessoal. Já reparei essa mesma característica em outros escritos de colunistas daqui, sobretudo, Jorginho Santos.  

Outra peculiaridade eram os diversos erros de datilografia que vazaram na revisão. O tal amigo - cioso e ciumento do acervo - explicou com acidez: “Também pudera, o povo daquele oficina onde funcionava a gráfica do jornal vivia bêbado!” Afirmação que pode até soar um pouco exagerada, mas faz parte do folclore da época e da má fama que gozava (sofria?) a qualidade da impressão do referido periódico. É bom lembrar que a oficina funcionava até as madrugadas boêmias e havia um boteco bem ao lado...

Bom e ruim é outra questão que o tempo nos faz meditar. Folheando agora o Jornal da Cidade, a tal infame “qualidade de impressão” soa bem mais, digamos assim, vintage do que apropriadamente defasada. O fato é que o periódico trazia conteúdo inédito diariamente e, especialmente, a explosiva coluna de Maria Nilce gozava de inegável apelo comercial. Apesar de não ser tão bacana como outros concorrentes, impressos em Offset, o Jornal da Cidade é até hoje perfeitamente passível de agradável leitura.

Uma característica básica do texto de Maria Nilce era a necessidade de autoafirmação, de valorização da mulher trabalhadora, que vence e que às suas expensas circula pelas mais badaladas cidades do mundo. Era uma pequena falha rastaquera que perseguia a colunista e, aliás, a maioria de seus pares e amigos vidrados em ostentações e sentimentos de inveja, talvez para não parecer o que realmente eram para o resto do mundo. De tempos em tempos Maria Nilce publicava verdadeiras “cartas de intenções” - como é o seu primeiro livro “Eu Maria Nilce” - textos em que defendia seus valores e sua forma de atuar junto à sociedade. O que segue não é bem o caso, serve mais como direito ao ócio criativo... Boa leitura e bom domingo.

            Preguiça

Na hora do almoço, Juca evocou uma música de Vinícius de Moraes que eu considero deliciosa porque fala em preguiça:

“Um velho calção de banho, um dia p’ra vadiar...”

Ah... Um dia p’ra vadiar... E durante o resto do almoço conversávamos sobre isto, sobre a maravilhosa perspectiva de ter um dia inteiro p’ra vadiar.
            E então eu disse ao Juca:
            Sou tão obsecada (sic) por trabalho que quando saio de férias e fico à toa batendo pernas pelas ruas de Paris, Roma ou Londres, me culpo o tempo inteiro de não estar trabalhando.
            – Você precisa fazer análise – retrucou Juca, que passa por uma fase cheia de mistérios.
            E depois de comer uma rabada maravilhosa daquelas de partir com o garfo, joguei-me na cama com o telefone fora do gancho, compressas de chá preto sobre os olhos e dormi como uma morta.
            Quando acordei, não acreditei no que meus olhos viram. Já passava das três da tarde. E, por incrível que pareça, lá estava eu rolando na cama cheia de preguiça. Vontade danada de ficar mais um pouquinho naquele bem-bom, mas e os compromissos? Ah, que ótimo seria ficar hoje curtindo essa preguiça aqui na cama, sem ter nada o que fazer, rolando p’ra lá e para cá agarrada ao travesseiro.
            Cadê a eletricidade habitual dona Maria Nilce? Cadê aquela energia incrível que lhe bota acordada e de pé às cinco e meia da manhã todos os dias? Que preguiça idiota é essa?
            ...Não faz mal a ninguém e não é nenhum crime se sentir preguiçosa um dia.
            Eu sou adepta de todos os pecado (sic) capitais (no original “capitalsitas”). Gula, então, nem se fala. Mas preguiça não é coisa para uma mulher como eu, movida a gasolina azul (precursora da aditivada), supositório de pimenta malagueta, que é mais elétrica do que dez mil quilowatts (no original “Kiliowatts”), como se justifica então essa preguiça que se abateu assim de repente?
            Mas tudo tem seu tempo já dizia Eclesiastes.
            Vai ver (no original “via”), ontem foi o meu tempo de preguiça.  

sábado, 5 de julho de 2014

MARIA NILCE: 25 ANOS DE CRIMINALIZAÇÃO!



O dia 05 de julho de 2014 marca a passagem dos 25 anos do assassinato da colunista social Maria Nilce Magalhães. No panorama público desde então ficaram marcadas as controvérsias da investigação, as suspeitas quanto à verdadeira identidade dos mandantes, mas, sobretudo, perseguiu a vítima um movimento recorrente para lhe impingir culpa. Para as pessoas do povo Maria era uma mulher corajosa, que ousava falar a verdade; porém, seus detratores ajudados pela imprensa formaram e difundiram a opinião de que a colunista do Jornal da Cidade “falava demais, procurou e mereceu o fim que teve”.

 
Salvo raras exceções, o nome Maria Nilce só é lembrado pela imprensa durante os períodos de julgamento dos envolvidos em seu assassinato. Nestas ocasiões é mencionada a faceta polêmica da colunista e o crime que a vitimou, construindo o raciocínio lógico de que uma coisa teria a ver com a outra. Não há uma reportagem, nos dois jornais diários de Vitória ou nas televisões locais, que já tenha mostrado um perfil histórico dessa empresária pioneira, ou da escritora, a mulher à frente de seu tempo e a influência que sua coluna teve durante duas décadas no cotidiano capixaba. Uma parte da cidade lembra a colunista com admiração, outra parece querer apagá-la da memória. Maria Nilce nunca foi alvo de homenagens póstumas oficiais, não há sequer um logradouro ou espaço público com seu nome em Vitória.

Só para recordar: Maria Nilce Magalhães foi a mais importante colunista social do Espírito Santo, uma mulher de rara beleza e temperamento forte. Comandava o Jornal da Cidade, junto com o esposo Djalma Juarez, um periódico de publicação diária que chegou a ser o segundo mais lido da capital. Escreveu cinco livros com uma visão naive e cômica dos personagens da política e do cotidiano da Vitória tropicalista. Foi pioneira do colunismo na televisão, na virada da década 1960 para 1970, inclusive como jurada no Programa do Chacrinha. No auge de sua bem sucedida carreira, aos 48 anos, foi assassinada por pistoleiros profissionais na rua em que morava na Praia do Canto, quando chegava à academia de ginástica às sete horas da manhã.

 
O movimento de criminalização de Maria Nilce foi engendrado por seus principais inimigos, então pessoas influentes – amplamente aceitas como “gente de bem” da High Society Capixaba - que há anos posavam de vítimas de uma mulher descontrolada que gratuita e impunemente os expunha ao ridículo. A impávida difamação que se seguiu ao crime teve várias frentes de trabalho, desde o boca a boca nos salões de beleza, departamentos públicos e botequins da cidade, até charges e reportagens em jornais locais ou mesmo nas grandes revistas nacionais. Deste último grupo é emblemática uma “matéria” publicada semanas após o crime pela revista Manchete.

O texto - de autoria do jornalista Tarlis Batista (falecido em maio de 2002) - aborda o assassinato de Maria Nilce de forma nada respeitosa. O próprio título já estabelece um tom debochado, como se tratasse de um caso a ser investigado pelo Inspetor Clouseau: 
 

Sem se dar ao trabalho de verificar a veracidade do que lhe era dito, o autor conseguiu reunir uma verdadeira coletânea das maledicências mais comuns usadas para difamar a colunista. O texto é sensacionalista e desleixado, mesmo levando-se em consideração o fato de que Tarlis Batista atuava como jornalista esportivo e não investigativo. No parágrafo de abertura, em destaque, o autor deliberadamente assume um tom de reprovação à conduta da “colega de profissão”...

“Maria Nilce encontrou uma trágica morte, por ela prevista numa de suas colunas, por falar demais, num estilo considerado pouco ortodoxo”.

... E no parágrafo final da reportagem, de forma dramática coloca a cereja no bolo:

“Com um detalhe: quase todos acham que Maria Nilce contribuiu para que a sua morte ocorresse naquelas circunstâncias”.

A confusão em torno do assassinato de Maria Nilce fez um jornalista de A Gazeta afirmar que a investigação era feita por uma "Loucademia de Policia".
No miolo do texto de três páginas Tarlis Batista vai construindo um perfil de Maria Nilce baseado nas investigações quando ainda eram realizadas pelo delegado Claudio Guerra, que logo seria afastado do caso e preso, mas também utiliza uma série de meias-verdades e até mentiras grosseiras. O trecho que segue parece retirado de algum roteiro de novela ao afirmar que a colunista seria responsável por um suicídio: 

“Assim aconteceu com o marido de uma socialite que gostava de prevaricar. Tantas foram as notas publicadas por Maria Nilce que a mulher dele cometeu suicídio: seu corpo foi encontrado com a coluna de Maria Nilce numa das mãos”.  

Depois é mencionada a calúnia que se tornaria a predileta e mais repetida, especialmente pelos inimigos da jornalista e acusados do crime: a de que Maria Nilce chantageava empresários e políticos para faturar.

“Contam na cidade que uma das armas que ela utilizava para captar anúncios era a ameaça: só deixava de divulgar este ou aquele caso de uma dama ou empresário se ele fizesse doações para manter o Jornal. Quem não aceitasse esse jogo - diz-se em Vitória – sofria as consequências”.

Nota-se que com as difusas ressalvas “contam” e “diz-se”, Tarlis Batista até tenta dotar seu texto de um caráter de isenção, dando a entender que aquela seria a opinião das pessoas. Mas que pessoas eram essas? Isso o jornalista não diz. Teria sido mais justo e ético se revelasse o autor das acusações como a do suicídio, porque eram muito graves. Supondo que não fosse possível revelar a “fonte” - mesmo porque nada daquilo seria passível de comprovação - então que não as publicasse. Graças a essa atitude deplorável os leitores da Manchete em todo o país assimilaram um cenário imaginário como verdadeiro e tão negativo que dava margens a se pensar que o covarde assassinato da colunista fora simplesmente um ato de justiça divina.

Tarlis Batista não pode hoje nos dizer quem foram as pessoas entrevistadas à época em que veio a Vitória levantar os dados para sua reportagem. Porém, Fernanda Magalhães Carlos de Souza, filha mais velha de Maria Nilce lembra bem do episódio com o jornalista porque, de tantas reportagens negativas e detratoras à vítima, a família havia combinado de não falar mais com a imprensa. O repórter da Manchete então “forçou a barra” insinuando que a família não queria o receber porque ele era negro e que já tinha ouvido falar que Maria Nilce era racista. Fernanda ainda lembra que Tarlis comentou que seu contato em Vitória era Nirlan Coelho.

O Jornalista Tarlis Batista posando com amigas na Marquês de Sapucaí
 
Hoje em dia atuando somente como psiquiatra, Nirlan Coelho Evangelista chegou a escrever uma coluna no Jornal da Cidade, na primeira metade dos anos 1970. A antiga secretária do periódico, Regina Lourenço, lembra que o rapaz teve muito apoio de Maria Nilce para custear o curso feito na faculdade particular de medicina EMESCAM. Tempos depois Nirlan passaria ao rol dos inimigos de Maria, ao se aliar ao seu principal concorrente, o colunista Hélio Dórea de A Gazeta, o qual passou a substituir “interinamente”. O também colunista Jorginho Santos, da Revista Class - que começou no jornalismo através de Maria Nilce e trabalhou com ela por oito anos - lembra que:

“Nirlan foi fazer residência no Rio e lá fez relacionamento com as pessoas. Chegou a trazer gente de fora para festas, foi responsável pelo relacionamento de Hélio Dórea no Rio com Hildegard Angel, com esse povo da alta.”


 
Na época da reportagem da Manchete, Jorginho, que fora um dos amigos mais fiéis da colunista, havia se tornado um dos principais desafetos. Sua afirmação de que Nirlan Coelho teria inserção junto à imprensa carioca confere bastante sentido para a passagem de Tarlis Batista por Vitória. Passados vinte e cinco anos o colunista da Class tem uma visão muito diferente dos fatos daquela época e concedeu uma entrevista de mais de uma hora para o projeto de um livro que está sendo escrito sobre Maria Nilce. Especialmente com relação às difamações contra a vítima o colunista diz o seguinte:

“Não existia aquela coisa ou você me dá ou eu vou falar mal. Isso é mentira. Com toda a mágoa que eu fiquei de Maria Nilce, eu sempre defendo esse ponto. Esses dias uma pessoa me falou que ela chegava no escritório dele, escrevia alguma coisa, que teve problema com a mulher e falava: ‘Olha, quanto vale esse artigo aqui? Se você não me der sai amanhã’. Eu falei, isso é coisa de quem leu “Chatô”, porque Assis Chateaubriand fazia exatamente isso. Então eu acho que estão confundindo os personagens. Eu nunca vi Maria fazer isso, não tinha isso não. Maria trabalhava muito e muitas vezes não tinha retorno, porque tudo o que fazia era pra plantar dentro do jornal. Depois de muito tempo é que ela começou a viajar e a fazer as coisas. Eu convivi oito anos lá, eu tenho certeza que ela nunca fez isso. Isso estão falando porque ela já morreu, é uma maneira ridícula de querer denegrir a imagem de uma pessoa.

Apesar de reprovar e fornecer uma visão muito negativa da vítima existe um indício muito claro de que a reportagem da Revista Manchete não fora simplesmente encomendada pelos verdadeiros mandantes do crime: baseado nas declarações de Claudio Guerra, Tarlis Batista insinua de forma bastante contundente a causa para o assassinato da colunista do Jornal da Cidade. Porém, após o afastamento do famigerado delegado, as investigações não prosseguiram mais naquela direção.

“Vamos calar de uma vez por todas aquela vaca. Disse uma conhecida dama da alta sociedade de Vitória, em diversas ocasiões antes do crime ser praticado. (...) Esta senhora teve o desprazer de ver divulgada uma nota sobre toda a mecânica de adoção de sua filha, fato que era mantido em segredo para todos, até da moça. (...) As declarações de Waldir praticamente esclareceram todas as circunstâncias que antecederam a morte de Maria Nilce. Permitiram chegar, também, à pessoa que dera início ao esquema: a socialite que tinha uma mansão na Ilha do Boi, uma das áreas mais nobres de Vitória”.

 
Vários outros jornalistas concordam com essa linha de investigação e, como fez Tarlis Batista, também já publicaram algumas vezes a história sem “dar nome aos bois”, afinal, todo mundo em Vitória sabe muito bem de quem está se falando. Rogério Medeiros, Pedro Maia e até o carioca Reinaldo Loio (em uma entrevista à revista Caros Amigos) mencionam a mesma “socialite da Ilha do Boi” como a principal mandante do crime contra Maria Nilce. Será que todos estavam errados ou o poder econômico da conhecida família conseguiu realmente garantir-lhes a mais completa impunidade?  


Vinte e cinco anos depois é patente a forma como em Vitória ainda permanece um tabu com relação à figura de Maria Nilce, enquanto em Nova York seu nome está em um memorial que homenageia jornalistas mortos pelo mundo, o quarto de século de seu assassinato sequer foi lembrado pelos colegas da imprensa capixaba. Até hoje a grande maioria das pessoas de sua cidade assumiu como verdadeiro o panorama muito cruel traçado por jornalistas como Tarlis Batista de que a vítima de alguma forma procurou e mereceu o fim que teve. Esse é um crime para o qual a maioria das pessoas sequer se atenta e, como quase todo o resto, vai permanecer impune.
 
Maria Nilce Magalhães homenageada no Newseum em Nova York