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segunda-feira, 17 de novembro de 2008

MUITA FORMIGA E POUCA CIGARRA: OS MALES DO BRASIL SÃO!

Assisti dois filme-biografias de boa qualidade essa semana. O primeiro é sobre Noel Rosa, uma produção bacana, especialmente levando-se em consideração as limitações nacionais de produção cinematográfica. Pelo menos não é decepcionante e irritante como o filme do Villa Lobos, fico chateado só de lembrar a atuação demente de Antônio Fagundes no papel daquele que deveria ser idolatrado pela massa Brazuca como o Rei da Música, ele ou Tom Jobim, pelo menos. Já pensou coroar Rubens Barrichelo como o nosso Rei da Fórmula 1?

E se vocês acham que estou exagerando na crítica à atuação de Marcos Palmeira e Antonio Fagundes, na ridícula tentativa de mostrar uma pessoa em duas fases distintas de sua vida, façam uma comparação com o recente Piaf “Um Hino ao Amor”, onde, em menos de duas horas, vemos uma moça se transformar em uma senhora recurvada, sem perder a pegada e – especialmente - a alma do personagem. Não é pra menos que Marion Cortillard, a atriz principal, passou a perna em medalhões hollywodianos e levou o Oscar de melhor atriz em 2008.

A parada mais bacana do filme Noel “O Poeta da Vila” é o resgate histórico do cruzamento entre o samba malandro dos negros dos morros do Rio de Janeiro com a mente culta e faiscante do filósofo/poeta, encontro que fomentou o surgimento de frutos maduros ao longo do século elevando o samba ao patamar de maior expressão da música popular Brasileira. Filmes como esses são muito necessários e oportunos, trazem atenção para a vida de pessoas importantes para a construção de nossa cultura e que a grande maioria nem conhece.

Cartola aparece como parceiro e amigo de Noel que foi, aliás, conta a lenda que o sambista foi redescoberto lavando carros nas calçadas do centro do Rio de Janeiro, pelo lendário cronista Sérgio Porto, o “Stanislaw Ponte Preta”. O autor de monumentais canções como "As Rosas Não Falam", amargava um longo e injusto ostracismo causado por problemas de saúde e financeiros. Nossa sociedade moralista, fundamentada na exploração da mão de obra, sempre criticou duramente aqueles que ousam colocar o “trabalho” de lado para se dedicar a criar. Ora, qual é a pessoa normal que fica dez horas presa a uma atividade estafante e depois vai pra casa compor sinfonias e sambas canções? A primeira e maior prova de um artista é a sua capacidade de se libertar.

Outra biografia interessante é o filme “As Aventuras de Molière”. Uma produção do ano passado que nos conta um pouco da vida galante desse conhecido dramaturgo francês contemporâneo de Luis XIV, período rococó de muito oba-oba por aqueles lados, pouco tempo antes do epa-epa convulsivo da Revolução Francesa. Corri no Sebo Monarquia e arrebatei o único volume de Tarfufo que achei por lá, na notícia biográfica que antecede o texto percebe-se que muita coisa foi deixada de fora, como é natural acontecer.

Existe um pequeno paralelo entre as biografias destes dois artistas tão distintos e de épocas distantes: a necessidade de criar que move o ser humano. Ainda que muita gente prefira criar confusão e marcar sua passagem pelo mundo com dor e ranger de dentes. O bonito é ver esse mau exemplo das pessoas que dão uma banana pro mundo formal e se atiram de cabeça nos precipícios da arte. A necessidade de sobrevivência, a interferência da família e o simples medo do fracasso devem ter impedido muita coisa boa de aparecer no mundo. Graças a Deus que ainda tem gente doida pra se arriscar a viver que nem cigarra.

Alguns de meus textos estão sendo publicados no site http://www.robertobeling.com/, passe lá!

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