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sexta-feira, 14 de agosto de 2009

FANTASMAGORIK


Um dia você vai ser velho. Talvez um dia, muito antes do que pensa, você vai entrar em seu quarto de dormir e sentir um cheiro que te lembra a infância. Sim, o cheiro mofado e triste das coisas antigas, como sonhos acordados e pensamentos adormecidos que você só sentia quando entrava no quarto da velha que olhava por você quando bem pequeno e que um dia te disse que quando morresse ia voltar para “puxar sua perna”. Por que diabos ela dizia isso?


O vento geme na janela e o amor encolhe dentro do coração, mas não é você, nunca mais será. Você sentiu aquele cheiro estranho que te remeteu ao passado e não era mais antigo: era novo e no presente do grego, nessa hora você soube: aquele cheiro era seu!


Andando pela rua apressado, um casal conversa na esquina, uma moça “bem formada”, especialmente na região dos quadris, gostosa é um adjetivo velho... E dessas coisas você não quer saber mais. O vento traz um perfume quando você passa por eles que conversam como se não existisse mais twitter, nem MSN e Orkut. Mas a dúvida logo te assalta. O cheiro é bom ou ruim? Se for dela é bom, mas e se for dele que exala aquele aroma? Não vai deixar de ser bom, nem tão pouco fará diferença, especialmente pro vento que geme na janela e pro amor que encolhe dentro do coração.


De noite, dormindo, sonhando ou não? Alguém puxa seu pé com força bem na altura da canela. Você não sabia que existe um fundo espiritual naquela história do calcanhar de Aquiles? Não, você não vai cair da cama, apenas acordar assustado e tentar entender o que não tem explicação, como o cheiro úmido que o tempo impregna nas coisas envelhecidas. Uma mão que te agarra forte e te despeja do mundo dos sonhos como se quisesse te levar junto sei lá pra onde! E para quê? Digamos que fosse mesmo aquela velhinha estúpida cumprindo sua promessa fantasmagórica. Que merda isso poderia significar? Vindo lá da porra do além, será que não haveria alguma coisa mais significante pra fazer ou pra dizer?


Você deve ter sido muito especial para aquela velha bruxa, povoou suas lembranças, ela precisava te ver, nem que fosse pra te assombrar pela última vez. Ah! Sim, e ela conseguiu! Aliás, isso também me faz pensar: quem você voltaria para puxar a perna depois de morto? Sim, posso pensar num número grande de opções, mas suspeito que já não haveria muita graça. Fantasma de merda! Nosso mundo está povoado dessas aparições e de seus atos incompreensíveis! É bem como os vivos. Quem há de entender as coisas que as pessoas fazem? Então por que depois de mortas haveriam de encontrar alguma coerência? Muitos acham que sim, talvez por respeito ou medo, sobretudo isso: o pavor da morte.


E por falar nisso, também existe o prazer em provocar medo! No caso dessa velha bem pode ter sido uma paranóia dessas... Sei de pessoas que ficam putas quando percebem que as outras não as temem, existe essa relação burguesa e otária entre o medo e o respeito, especialmente nesses demônios encarnados. Pensava nisso outro dia, em como pode ser difícil e cansativo conviver com gente de valores muito diferentes dos nossos. Pessoas que querem coisas que não queremos, que acham que deveríamos ser diferentes do que somos, que não sabem de nada e que, por isso mesmo, são capazes de tudo...


... E o prazer de incutir medo nas pessoas é só o que resta para se sentirem vivas...

2 comentários:

Chico Arantes e Rica Urso disse...

UAU! Conheço um milhão e pessoas assim; dois milhões de velhinhas com esse todm profético e, aos quase 30 sinto esse cheiro de passado quase todo dia.

Abraço e parabéns
Chico

Juca Magalhães disse...

Obrigado pelo comentário, sinto apenas que vc tb tenha o desprazer de esbarrar com esses seres da solidão...