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sexta-feira, 8 de março de 2013

VIVA MARIA NILCE A PANTERA CAPIXABA!



O dia oito de março, Dia Internacional da Mulher, era uma data muito especial para a colunista social Maria Nilce Magalhães, locomotiva da sociedade capixaba, proprietária do Jornal da Cidade. Durante muito tempo Maria realizou um badalado almoço que reunia as principais empreendedoras do Espírito Santo para marcar a data e a ascensão do gênero feminino no meio empresarial capixaba, coisa que, em meados dos anos oitenta ainda era relativamente incomum.

O evento e a própria colunista ganharam força e importância ao longo dos anos. No final dos anos oitenta Maria Nilce era já uma mulher madura caminhando firme para os cinquenta anos (morreria assassinada em um nebuloso crime de mando aos quarenta e oito em 1989) e já mudara bastante sua postura na vida pública. Tentava se descolar da pecha de pessoa polêmica e ser respeitada apenas pelo que realmente era: uma mulher que vivia para seu trabalho, casada há mais de vinte anos, com cinco filhos já praticamente adultos.

Comprou um automóvel de quatro portas para andar com motorista sentadinha no banco de trás, vestia-se mais sobriamente e tentava manter longe as polêmicas. Porém, enquanto ganhava força e prestígio, seus inúmeros inimigos, que também envelheciam, redobraram esforços para a prejudicar. Houve um episódio em que uma turma teria tentado espalhar pó de mico (aquele que dá coceira) nos inúmeros convidados que adentravam chiquérrimos a área de eventos do Alice Vitória Hotel.

Muitos lembraram e destacaram, após o escandaloso crime de mando que vitimou Maria Nilce as fofocas que ela publicava – que a todos divertia - e o grande mal que teria feito a inúmeras pessoas. Outros bateram no peito valentemente após ver a carcaça da fera abatida sem nada terem feito para a derrotar; nunca tiveram coragem de a enfrentar e, pior de tudo, alguns destes buscavam sua amizade atrás de alguma rebarba do sucesso e frequentemente filavam uma boia ou um uisquinho em sua casa.

Quantos se indignaram publicamente ou vieram clamar por justiça em nome de uma mulher indefesa assassinada na rua de sua casa, de manhã cedo, num dia de semana comum? Maria Nilce Magalhães foi a primeira a destacar a força de seu gênero e a reconhecer o valor de outras empresárias e ativistas políticas. Quantas vezes Maria Nilce foi homenageada ou lembrada em eventos públicos na cidade de Vitória? Sequer uma rua foi nomeada em sua lembrança. Houve um evento na Assembleia Legislativa em meados da década passada, lembrando vítimas de violência e seu nome sequer foi citado. Maria Nilce permaneceu um tabu e nunca ficou explícita a verdadeira razão...

 
Republico então uma historieta do livro Crônica de Uma Ilha Muito Doida, mostrando o lado pitoresco e divertido desta colunista. Resgata também o famigerado poeta Otinho que, de repente, lá nos anos setenta, teve um baita surto premonitório:

Logo assim que Ângela Diniz foi assassinada (30 de dezembro de 1976), Otinho, nosso poeta louco, foi na banca de revistas do Natal e, ao ver a pantera em todas as capas de revistas, danou a gritar:

- Maria Nilce vai morrer igual a Ângela Diniz!

Num sábado em que eu estava em Camburi tomando banho de mar, passa Otinho e ao ver-me grita para a praia inteira:

- Viva Maria Nilce, a pantera capixaba! – Chamei-o e disse-lhe:

- Estou zangadíssima com você. Que história é esta de gritar em plena na Praça Costa Pereira que eu vou ter o mesmo fim trágico de Ângela Diniz? – E ele inteligentemente saiu-se com esta:

- Mas eu não falei no sentido da devassidão. Falei no sentido da audácia!

 
Ângela Diniz era conhecida como a “Pantera de Minas” e, como Maria Nilce, era considerada uma socialite polêmica. A Revista Época atribui à moça a seguinte frase: “Sou bonita, rica e boa de briga”. Foi assassinada aos 32 anos pelo amante conhecido como Doca Street, ainda segundo a revista, “o assassino mais famoso da década de setenta”. A menção de Otinho à “devassidão” é talvez graças à cobertura sensacionalista, dando ênfase ao uso de drogas e republicando supostas afirmações da vítima a partir de declarações que seu assassino usou para justificar o ato de disparar quatro tiros no rosto da amante:

“- Se quiser ficar comigo vai ter de me dividir com homens e mulheres“.

Maria Nilce Magalhães, Ângela Diniz e tantas outras mulheres foram assassinadas e nem as vítimas, nem seus familiares tiveram condição ou a mesma atenção da midia para contestar as afirmações levianas de seus assassinos. Esse linchamento do cadáver, a posterior criminalização da vítima, é prática corriqueira adotada por muitos advogados de defesa, reproduzida por policiais e publicada na imprensa para “explicar o caso”. Existe nisso tudo: tara, morbidez, falta de ética, injustiça e por aí vai. Volto a dizer, precisamos repensar a Lei que regulamenta a divulgação de informações relativas a atos criminosos, para proteger as famílias e prevenir o preconceito e a injustiça perpetrados, especialmente, contra a mulher.

2 comentários:

Anônimo disse...

quem procura acha!!! pra bom entendedor....

Anônimo disse...

Eu concordo que quem procura acha. Ela era bem explícita. Um assassino acha justificativa com qualquer coisa.