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domingo, 7 de abril de 2013

O ESTRANHO OFÍCIO DE ESCREVER



Li faz pouco tempo que a falta de assunto é um dos melhores temas para escrever e foi drama ou solução para meus heróis de antigamente - ultimamente mais presentes - Rubem Braga e Fernando Sabino. Gostaria mais de ler os outros de quem eles falam muito (como Paulo Mendes Campos, Helio Pelegrino e o nosso Carlinhos Oliveira), mas, curiosamente, não é nada fácil encontrar livros nas livrarias, especialmente quando estamos querendo e quando estamos precisando é que não achamos mesmo.

Tanto Rubem Braga quanto Fernando Sabino escreveram crônicas sobre as necessidades e as dificuldades de se parar de fumar o danado do cigarro. Falam do vício como uma antiga paixão, uma loucura obsessiva cheia de esses e não como um vício para o qual hoje muita gente torce o nariz. Acho que ambas as crônicas foram escritas em meados dos anos oitenta e, salvo engano a do Rubem vem do livro “Recado de Primavera” e a do Sabino vem de “A Falta que Ela me Faz”.

É muito fácil criticar um vício quando a pessoa nunca teve necessidade dele, é como padre fazendo sermão sobre o amor conjugal, aconselha, analisa, mas não entende bem do assunto... E, como diz o Góis, se entende não deveria. Reproduzo-lhos então uma croniqueta de Fernando Sabino sobre esse miserê estranho e solidário do ofício de escrever, só para emprestar uma dimensão da dor e da delícia que se equilibravam diariamente os nossos cronistas.

Lançamento da Editora Sabiá na cobertura de Rubem Braga. Os três crônistas a seguir mencionados estão em pé, da esquerda pra direita: Paulo Mendes Campos, Rubem Braga e Fernando Sabino. Fecha o seleto grupo Carlinhos Oliveira. Sentados estão Vicícius de Moraes e Sérgio Porto (aka Stanislaw Ponte Preta) e no chão Chico Buarque de Holanda.
 
ÉRAMOS três condenados à crônica diária: Rubem no “Diário de Notícias”, Paulo (Mendes Campos) no “Diário Carioca” e eu no “O Jornal”. Não raro um caso ou uma ideia, surgidos na mesa do bar, servia de tema para mais de um de nós, às vezes para os três. Quando caiu um edifício no Bairro Peixoto, por exemplo, três crônicas foram por coincidência publicadas no dia seguinte, intituladas respectivamente: “Mas não cai?”, “Vai Cair” e “Caiu”.

Até que um dia, numa hora de aperto, Rubem perdeu a cerimônia:

- Será que você teria aí uma crônica pequenininha para me emprestar?

Procurei nos meus guardados e encontrei uma que talvez servisse: sobre um menino que me pediu um cruzeiro para tomar uma sopa, foi seguido por mim até uma miserável casa de pasto na Lapa: a sopa existia mesmo, e por aquele preço. Chamava-se “O Preço da Sopa”. Rubem deu uma melhorada na história, trocou “casa de pasto” por “restaurante”, elevou o preço para cinco cruzeiros, pôs o título mais simples de “A Sopa”.

Tempos mais tarde chegou a minha vez – nada como se valer de um amigo nas horas difíceis:

- Uma crônica usada, de que você não precisa mais, qualquer uma serve.

- Vou ver o que posso fazer – prometeu ele.

Acabou me dando de volta a da sopa.

- Logo esta? – Protestei.

- As outras estão muito gastas.

Sou pobre mas não sou soberbo. Ajeitei a crônica como pude, toquei-lhe uns remendos, atualizei o preço para dez cruzeiros e liquidei de um vez com ela, sob o título: “Esta Sopa Vai Acabar”.
     
Fernando Sabino 
Crônica "O Estranho Ofício de Escrever"
Livro "A Falta Que Ela Me Faz", Editora Record, 1980.

2 comentários:

Anônimo disse...

Muito bom: tudo!

Esse texto nos dá a exata dimensão do objeto "linguagem" enquanto instrumento de sobrevivência. Vou arquivá-lo ,e mostrar aos mas (sic) iniciantes.
Abraço,Juca, e muito obrigado !

Marcos Tavares

Fanzine Episódio Cultural disse...

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