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domingo, 20 de dezembro de 2015

DUVIDAR É FUNDAMENTAL

Os velhos é que devem fazer a revolução dos jovens, pelos jovens, porque eles, velhos, não têm nada a perder, exceto a vida.

José Carlos Oliveira in Diário Selvagem – página 203

Hoje tive meu momento Yehudi Menuhin. O grande violinista contou que uma vez estava ouvindo rádio em casa e tocou um concerto para violino, talvez de Beethoven, numa interpretação brilhante, faiscante... E pensou: gostaria de tocar esse concerto desse jeito... Então, esperou até o apresentador dizer quem era aquele violinista e, para sua surpresa, não era outro que não ele mesmo, uns trinta anos antes.

Quando contei essa história alguns amigos acharam blasé, extravagância de gente deslumbrada. A princípio concordei, a afirmação também me incomodou. Achei meio ridículo o cara contar essa história, mesmo que realmente tenha acontecido... Mas, a vida vai indo e dá umas voltas na gente... “E a vida o quê é? Diga lá meu irmão...”.

Hoje de manhã peguei um texto nas mãos, uma publicação recente e de cara gostei da forma como o assunto introdutório foi abordado; sem rodeios, estabelecendo aquela ligação direta com o leitor cujo contrário (cujo?) me incomoda. No segundo parágrafo me caiu a ficha: ora, eu mesmo tinha escrito! Uma querida amiga me pedira para organizar seu perfil e depois o publicou; fazia vários meses, eu nem lembrava mais.

Acho que depois dos cinquenta – e o Yehudi devia ter pra lá de setenta quando contou aquela história – a gente se dá o direito de assumir certas vaidades. E alguém poderia perguntar com surpresa: ora Juca, mas você já chegou aos cinquenta? Pois é. Vai ser amanhã! Entendo e até espero - outra vaidade boboca - o possível estranhamento das pessoas, porque nunca perdi uma incerta atitude jovem – mas isso, de uns temos para cá, de vez em quando me incomoda.


Como foi que deixei passar cinquenta anos assim? Que diabo fiz EU da vida durante meio século? Faz pouco tempo eu andava de bicicleta Monark pelas ruas de paralelepípedo, dava voltas na quadra onde morava puxando pelo barbante uma Lotus preta de plástico, catava mamona nos terrenos baldios para municiar o estilingue. Lembro meu pai e minha mãe, já há muito falecidos, mas que tem hora parece que ainda estão aqui e vão me aparecer para me cantar o parabéns...

Detestava quando me diziam que o tempo ia passar rápido, e agora é muito difícil concordar que aqueles otários – sei-lá-quem – tinham alguma razão. Porém, se pudesse escolher, os jovens ficariam sem saber dessas coisas, porque é um dado que não acrescenta em nada e uma hora cada um vai descobrir qual é... Como eu, agora. Porque dizer para um jovem que ele vai ficar velho é apenas outra forma de dizer: eu sou melhor que você, eu venho de antes, eu sei mais. E isso não é bem verdade.

Mesmo adulto responsável a gente sofre iludido com historinhas que aprendeu sem nunca perguntar: será? O “será?” é fundamental, a música da Legião Urbana not so much. Buscar respostas dá um trabalho danado, mas vale a pena, porque a verdade nos faz capaz de discernir o bom do ruim, mesmo quando o ruim é bom pra cacete. Talvez essa seja a parada do amadurecer, a gente consegue fazer escolhas. Por essas e por outras desconfio que os caras regulam a vida dos jovens por “recalk”, porque acostumaram com a rédea do juízo e sabem que, as vezes, errar é bom bagarai...


Vai ser feliz meu povo! Que eu vou ali acender um cigarro na lua...

2 comentários:

Maria Paula disse...

Nossa, viajei no tempo! Parece que foi ontem, que sentamos em frente a sua casa, vc com a viola e aquela rodinha de cantores adolescentes...
O tempo nao passa rapido, ele vooa, e nos temos que abrir nossas asas para aproveitar o voo!
Amei sua cronica!

Maria Paula disse...

Nossa, viajei no tempo! Parece que foi ontem, que sentamos em frente a sua casa, vc com a viola e aquela rodinha de cantores adolescentes...
O tempo nao passa rapido, ele vooa, e nos temos que abrir nossas asas para aproveitar o voo!
Amei sua cronica!