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quinta-feira, 29 de outubro de 2009

O BARCO DO ROCK NÃO É TITANIC MAS AFUNDA!


“Fomos criados vendo televisão para acreditarmos que um dia seríamos milionários, deuses do cinema e estrelas do rock, mas nós não somos. Devagar vamos aprendendo isso.”


Trecho do filme Clube da Luta


Nos meus dois últimos textos falei de sexo, depois das drogas e agora – pra arrematar – resolvi falar de Rock And Roll. Um tempo atrás eu criticava a forma que a indústria cinematográfica tenta atrair o público feminino usando sempre as mesmas três palavras mágicas: amor, coração e paixão, gênero cinematográfico que um jornalista local classificou carinhosamente de “filme de menininha”. A minha mesmo se derrete toda quando vê um desses “tags” - apesar de minha expressão de tédio – e enquanto eu sacaneava essa onda dela tomei na cabeça uma resposta bem inesperada: “Não vem não, que quando o filme tem Rock no título você também fica doido pra ver”.

Pior que é verdade, nunca tinha parado pra pensar nisso... A gente se faz de esperto, se reveste de um elaborado verniz intelectualóide, mas a indústria cultural existe há muito mais tempo, de maneira que nem nos damos conta de que foram esses mesmo “empresários inescrupulosos” que formaram nossos hábitos – tudo bem que à custa do trabalho de muitos bons artistas – mas de repente me descobri um rebelde de boutique. Ter um gosto, o meu gosto, me faz ser apenas “diferenciado” e para a indústria cultural isso não tem o menor problema: sou só mais um consumidor para o qual ela já estava pronta a atender.


Todo esse longo colóquio introdutório está rolando porque vi ontem o novo filme “O Barco do Rock” - uma produção do mesmo pessoal que fez os deliciosos “Quatro Casamentos e um Funeral” e “Um Lugar Chamado Notting Hill”. Como era de se esperar a película é caprichada e conta com a presença de vários atores de peso, inclusive Philip Seymour, Keneth Branagh e Rhys Ifans que desde sua aparição como “Spike” - o atrapalhado e maluco inquilino do filme Notting Hill – vem nos devendo atuações mais marcantes e convincentes.


Não tem catzo nenhum a ver, mas esse negócio de barco do rock me lembrou daquele Catamaran que ficava no meio do mar da Curva da Jurema, lembram? Fui em uns dois bons roquenrous ali, um dos poucos lugares realmente diferentes para se ir em Vitória. Que fim terá levado?



O Barco do Rock é uma rádio pirata que funciona em um navio atracado no Mar do Norte e, para desespero das autoridades, tinha grande popularidade na sisuda Inglaterra dos anos 60. A Grã-Bretanha vivia o auge de bandas fundamentais para a história do gênero como os Beatles e os Rolling Stones, estes, por sinal, mencionados verbal e musicalmente diversas vezes, diferente do quarteto de Liverpool que, apesar do imenso sucesso, pareceria óbvio demais para a trilha sonora de um filme sobre a rebeldia e a contestação do Status Quo. Amigos: são muitas referências ao longo do filme e, desnecessário dizer, a trilha sonora é deliciosa. O ponto fraco vem do roteiro que parece indeciso na condução do drama e o resultado final é frouxo e indefinido.


Talvez o problema desse filme é que somente a história da rádio pirata não seria suficiente para sustentar a trama de um longa-metragem, então vêm os tradicionais dramas paralelos: falta de mulher do homem embarcado, adolescente que não sabe quem é o próprio pai e prestes a perder a virgindade, o cara do governo que é malvadão e caricato. Enfim, temas recorrentes no cinema e que no final soam desgastados e ingênuos para o público de roqueiros maduros ao qual se destina. Antes que eu esqueça, essa coisa do menino no meio da bagunça dos marmanjos roqueiros me lembrou de cara o ótimo “Quase Famosos”, que surfa em ondas bastante semelhantes à dessa produção, só que com mais sucesso.


Faltou ao Barco do Rock pelo menos uma personagem central carismática que justificasse o tanto de gente boa trabalhando no filme, a sensação ao final é de desperdício de talento. Todos papéis são equilibrados demais e por isso ninguém se destaca pro bom ou pro ruim, no final fica aquela sensação de leite morno. As revelações e os desfechos vão sendo cozinhados, mas acontecem sem surpresas, viram anti-clímax. As músicas – classificar de ótimas seria pouco, como já disse – não refletem muito bem a trama ou o drama de um personagem, como acontece tão naturalmente em Notting Hill, isso só para dar um exemplo. Enfim, o filme é tudo o que poderia ser e não é...


É um filme de Rock antes de tudo, uma homenagem a esse gênero musical que revolucionou o mundo certinho dos ingleses, porém soa oportunista como o lançamento de uma boa coletânea de músicas dos anos sessenta e muito pouco mais do que isso. Compare com o fundamental “A Festa Nunca Termina” que narra a história da cena de Manchester e você vai entender melhor a diferença. Minha garota acertou, sou um fanático por rock mesmo e caio que nem um patinho toda vez que vejo a lingüinha do Rolling Stones ou a placa da Route 66, o problema é descobrir que eu também fui criado pela televisão acreditando que seria um astro do roquenrou e que por mais que critique a indústria cultural de uma forma ou de outra estarei sempre inserido em seu contexto, pensando dentro de uma bolha, e isso também vale para você que se deu ao trabalho de me ler até aqui.


No filme O Clube da Luta tem também uma outra frase muito boa que nos leva a várias reflexões: “as coisas que você possui acabam te possuindo.” Pegando esse gancho eu pergunto: até onde somos o que pensamos ser porque fomos criados para ser assim? Ou melhor: se percebemos que não somos exatamente aquilo que a sociedade que nos criou nos fez acreditar ser, então o que somos e o que verdadeiramente precisamos para sermos felizes? Essas são perguntas muito boas não é? Começo então a entender o porque de tanta gente gostar de apanhar ou precisar se drogar para viver a vida... É que no final tudo se resume a drogas, sexo e rock and roll.


2 comentários:

Poesia aos gritos disse...

Visitei o seu. Agora visite o meu. :D
Meu Blog, menino!!

Anônimo disse...

Ainda não assisti à esse filme. Bem, não me incluo no clube dos "roqueiros maduros", massss.....tbm não me sinto atraída por roteiros "tíbios"...
Em contrapartida, o rock no título me atrai bastante. Sem falar na trilha sonora, né?! Também não resisto a lingüinha dos stones, nem tampouco ao som que eles produzem. Demais! Não custa nada conferir.... hehehe
Esses trechos extraídos do filme "O clube da luta", me fizeram refletir por alguns minutos. Gostei das inferências que pude fazer partindo desses trechos.
Adorei a leitura! Muito prazerosa....
Parabéns Juca!!!

Abraços

Amanda Dessaune Ruas