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quarta-feira, 9 de setembro de 2009

FOI BOM ENQUANTO DUROU

Andei lendo o blog do Gerald Thomas no IG e de lá tirei as seguintes afirmações:


“Se formos analisar o último filme ou CD de fulano de tal, ou a última coreografia de não sei quem, veremos que tudo é uma mera repetição medíocre e menor de algo que já teve um gosto bom e novo. (...) Vejo um mundo nivelado por uma culturazinha de merda, por twitters que nada dizem. Nem bandas ou grupos de músicas inovadoras existem: vivemos num looping dentro da cabeça de alguém. E, ao contrário de Prospero, ele não nos liberta para o novo, mas nos condena pro velho e o gasto!”


Na hora lembrei de uma entrevista que Iggy Pop deu pra Jonathan Shaw na revista Trip, da qual pincei o seguinte comentário:


“Chega a ser irônico que (você - Iggy) esteja conseguindo sucesso e respeito do grande público justamente hoje, num dos períodos mais negros, conservadores e criativamente medíocres da história.”


Também me incomodo com essa sensação de que tem alguma coisa estagnada nesse nosso céuzinho azul, alegre e límpido como diria Vanusa. Porém pode ser que estejamos vivendo um período de transição cultural, um momento global de assimilação de informações antes não disponíveis abertamente, uma respiração no fluxo criativo da Terra. A Internet e tudo o que ela traz a rodo tem grande parcela de culpa nessa reviravolta. Outra coisa a se considerar é a ressaca do momento:


Pois é, depois de algumas décadas de porralouquice, o mundo acordou de bode e resolveu ficar mais caretinha. Sei que logo uns vão argumentar: “Você ficou doido? Nunca teve tanto maluco no mundo como agora!” Pode até ser, mas a doideira não é mais vista como uma coisa bacana e muderna como já foi em outras épocas. Vivemos tempos responsáveis em que não se pode fumar em lugares fechados, nem beber e sair dirigindo, nem transar sem camisinha. Aliás, tudo podemos, mas saber que tem muita gente morrendo por isso nos faz tentar ajudar a não piorar a coisa.


Nas artes vivemos uma ressaca semelhante, o tédio das crianças mimadas que durante décadas chutaram todos os baldes, romperam com todas as convenções para conseguir no final o mesmo resultado: consumo voraz e lixo tóxico, pulmões enegrecidos, enterros de amigos, visitas ao urologista... Nós não fomos salvos pelo amor, diria John Lennon desconsolado, e eu pergunto: nos salvar do quê? Conversava outro dia sobre isso. Qualquer pessoa que leia os livros antigos vai perceber claramente que a raça humana patina nos mesmos problemas filosóficos e espirituais há milênios e que essa dita “evolução” é uma falácia. Se bobear estamos andando para trás...


Era disso que John queria ser salvo? Será que a arte se tornou pequena em face da constatação dessa verdade? Mas não, as pessoas continuam produzindo discos, livros, filmes, peças de teatro, o problema é que a criação parece ter chegado a um limite e a repetição da mesma coisa diferente se tornou aborrecida e cansativa para aqueles que já estão enfiados nessa seara há uns quarenta anos, como é o caso tanto de Gerald Thomas quanto de Jonathan Shaw. Temos a impressão de que a arte só é novidade para os principiantes e que, portanto, é feita por eles e para eles em consumo imediato. Mas como eu disse, isso pode ser só uma impressão... Afinal os entendidos em arte dos anos sessenta torceram ou não o nariz pros Beatles? Ô se não torceram.


Sem dúvida novidades como o Twitter, por exemplo, nos soam bobocas comparadas com a emoção de ouvir Janis Joplin num toca discos Sonata, mas talvez seja injusto compararmos o novo atual com o de outras épocas. Têm muitas coisas bacanas sendo feitas agora que o merecido valor nos escapa e que poderão ser lembradas e amadas durante muito tempo como é, por exemplo, esse boom da Internet e o próprio surgimento de espaços virtuais como os blogs e os ditos “sites de relacionamento”. É uma louca época caretinha, não há nada de revolucionário ou contestador no ar. Algumas de nossas maiores cabeças estão estudando freneticamente para passar em concursos públicos...


A tônica dessa juventude de hoje não é mais curtir a vida, mas garantir uma forma de vida e com isso perde a arte, a poesia, perde um monte de coisa. O artista precisa ter aquela incerta irresponsabilidade para criar algo realmente novo, colocar a mente longe dessa roda do capital, lá na fronteira dos mundos, ainda assim nada garante que ele vá encontrar e nos trazer algo diferente e, pior ainda, que sua arte apesar de inovadora seja realmente aceita e dela possa tirar seu sustento. Muitos já pagaram caro por fazer esse leva e traz e nunca o mundo inteiro soube tão bem disso. A época da inocência acabou e o século vinte um ainda não começou. / E a Era de Aquário? - Olha honey: foi bom enquanto durou...

terça-feira, 8 de setembro de 2009

SEM SOLUÇO NÃO TEM SOLUÇÃO...

Galera ainda nesse semestre estarei lançando o já tão falado Livro do Pó que narra as peripécias incipientes do Roquenrou Botocudo lá pros lados da década perdida. Então, pra começar a semana com bom humor posto aqui uma espécie de "Teaser" da parada, divirtam-se... E aguardem o lançamento.


Zequinha estava, como se diz no zig-zag das colunas sociais: em dias de “Fun For Me”. Tomava-lhe todas como já era de costume se fazer, até que o atacou um soluço muito chato daqueles de bêbado mesmo, não queria passar de jeito nenhum. É uma merda quando isso acontece, não se consegue tragar a fumaça do cigarro sem que venha um soluço junto. Todo mundo da mesa ria... E um falava: - Toma água! - o menino tomava mais cerveja. Outro falava: - Prende a respiração! - mas não adiantava de nada. No meio desse entrevero confuso estava também uma apetecível garota chamada Cabilina.


Cabelos encaracolados e loiros, Cabilina tinha o nariz um pouco curvo e proeminente; magra, mas nem tanto assim e, mais importante de tudo: era um autêntico e, infelizmente, tão raro exemplo daquelas mulheres que só dizem sim. Ela e o cantor mantinham uma espécie de “relacionamento aberto”. Ou seja: sexo completamente desprovido de compromisso. Dava vontade eles “coisavam” e ficava tudo por aí mesmo.


A alcunha de “Cabilina” (“Mulher fiel”: segundo a mais recente edição do autêntico dicionário Juliana Osório de gírias capixabas) era por causa de uma espécie de namorado que a moça dizia que tinha. Só que, ao mesmo tempo, era tão generosa com sua - como direi? Enfim, deixa pra lá. - que acabou ganhando o apelido, numa explicitamente cínica referência ao notório descaso com que abordava a fidelidade conjugal.


E a droga do soluço não passava de jeito nenhum...


Bastante injuriado pelo insistente contratempo, o rapaz convidou a loira do cabelo de miojo pra dar uma volta no tempo.


Saíram caminhando da Rua da Lama, quebraram à direita numa transversal escura se afastando do burburinho dos bares... O silêncio foi tomando conta do entorno. A certa altura a garota acendeu o resto de um baseado e os dois diminuíram o passo, pelo meio da quadra passaram por uma obra fantasmagórica onde os entulhos dividiam o espaço com as sombras e o breu noturno. Zeca teve, a princípio, a idéia de entrar lá pra fazer xixi, mas numa espécie de associação livre pegou Cabelina pela mão e furtivamente invadiu aquela futura moradia da classe média, foram passando por entre os vãos dos tapumes até encontrar um cantinho que fosse ainda mais escuro...


Não penso que seja necessário me aprofundar em detalhes pornográficos, não é? Unicamente, a título de ilustração, acrescento que a moça usava um daqueles vestidinhos pretos chamados “trapézio” muito fáceis de se descoisar, se é que vocês vão me entendendo... Então foi ali mesmo que tudo rolou. Os dois em pé, naquele cantinho escuro da obra. Aquele uniforme da era Dark revelou-se muito próprio praqueles momentos impróprios em que uma compulsão doida despacha a razão e o pudor para as “cucuias”. Ainda bem que não apareceu ninguém pra estragar a brincadeira, chapados do jeito que estavam iam fazer o quê? Na hora Zeca nunca pensava nesses detalhes, muito tempo depois se tocou, por exemplo, que nem tinha usado camisinha.


Rapidamente estava o casal outra vez na rua, fumando e conversando animadamente, caminhando tranqüilos e aliviados de volta pro Tio Quinzinho. Era como se nada de mais tivesse acontecido, como se apenas houvessem usado um banheiro pra se aliviar...


De repente o rapaz sentiu falta de alguma coisa, parou no meio da rua e começou a se apalpar metendo as mãos nos bolsos da calça e da camisa, enquanto a Cabilina o olhava curiosa e, meio pastel, começou também a futucar a bolsa sem nem saber o que procurar. Ficaram assim um tempo até que o cara se deu conta do que era:


Finalmente o desgraçado do soluço tinha passado!

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

NOVO FILME "BRUNO" É DE RIR PRA NÃO CHORAR


Borat - filme do ator Sasha Baron Cohen - foi a melhor comédia que assisti nos últimos cinco ou dez anos, só ri mais do que nessa película quando eu mesmo traduzi um musical francês de 1967 (Duas Garotas Românticas) colocando nas legendas todo o tipo de sacanagem que me ocorreu, especialmente nas canções.


Em sua novíssima produção "Bruno", tentando manter as brincadeiras infames, o comediante inglês teve que mudar de personagem senão não ia mais conseguir enganar ninguém e fazer das suas, até aí tudo bem, o problema é que ele não mudou a estrutura de um filme para o outro, ficou com cara de pratinho requentado feito com sobras do almoço de domingo.


Não sei o que os homossexuais vão pensar, mas não achei o filme ofensivo, a intenção é mostrar o preconceito e a homofobia contra os caras que resolvem pegar outros caras. Exatamente como no Borat, Bruno provoca o tempo todo e tenta divertir através das reações indignadas das pessoas, mas peca no exagero e no lugar comum. O que no Borat soava como refinamento e surpresa, uma pessoa ingênua num país estranho, em Bruno abundam (exclusive isso) delírios de uma bicha louca atrás da fama a qualquer preço.


No mais a fórmula é a mesma da produção anterior, Bruno é um apresentador de TV estrangeiro que vai para a América junto com um assistente. No meio da história eles brigam no final eles voltam. Se Borat já foi um filme daqueles ame ou odeie, Bruno vai ser muito mais, sobram piadas escatológicas - pirus de borracha voando a torto e a direito - e alusões sexuais que soam infantis ou ofensivas para muitos segmentos diferentes da sociedade. Está longe de ser um filme ruim, mas confesso que eu esperava mais.


Já a comédia “Se Beber Não Case” é humor de qualidade bem mais refinada, faria uma ressalva apenas ao título, afinal o original em inglês é The Hangover, ou A Ressaca, mas as distribuidoras adoram meter as palavras amor, namoro e casamento em qualquer filme pra ver se atrai o público feminino pro cinema. As garotas que caíram nessa esperando uma comedia romântica não devem ter ficado muito satisfeitas: A ressaca trata do universo cachaceiro e irresponsável dos meninos, mas não é pastelão não, comédia de adolescente bebum e suas aprontações bobocas, o roteirista se aproveita da nossa conhecida amnésia alcoólica para construir uma aventura sobre a - tão rara - amizade sincera.


A Ressaca me lembrou um outro filme com argumento cachaceiro e refinamento semelhante que por aqui foi batizado “Entre Umas e Outras”: dois amigos saem visitando vinícolas na Californication à título de despedida de solteiro e se metem em inúmeras situações dramáticas, mas tratadas sob o viés do humor, afinal, tem certas coisas que nos acontecem na vida que só rindo mesmo.


“Se Beber Não Case” tem seqüências impagáveis e aparições surpresa como a do lendário boxer Mike Tyson e um pequeno japonês desmunhecadamente louco. O grande lance do roteiro é pegar aquelas situações constrangedoras que a maioria de nós já passamos e constatar que no final das contas, ao invés de ficarmos envergonhados, acabamos morrendo de rir de nossa própria piração... Depois ficamos falando que nem Cazuza em sua canção Mais Uma Dose: Por quê que a gente é assim?


Pois é, fazer quê né? O médico pediu pra não contrariar... É, aliás, como dizia Chico Anízyo na época em que ainda era engraçado - e isso faz é tempo: A merda atirada não volta ao Jucu, não apita na curva: não espera ninguém! Evoé Baco!! Guentahê que eu vou tomar mais uma...

terça-feira, 1 de setembro de 2009

VIVA MAURÍCIO DE OLIVEIRA!!!

Maurício de Oliveira morreu. Essas coisas deixam a gente sem palavras, já viu alguém destrambelhar a falar na face da morte? Fica só essa sensação de que alguma coisa nos chateia lá por dentro e que esse sentimento nos persegue, parece pedrinha no sapato, uma dorzinha que dói e a gente nem sabe onde. Junto com esse buraco que se abre quando alguém que conhecemos falece vêm as lembranças. Tive o privilégio de conviver com muitos grandes artistas de nossa cidade e Maurício foi um deles.


Era uma espécie de ocasião solene quando o mestre vinha à nossa casa em Santa Lucia dar aulas de violão para minhas duas irmãs mais velhas. Eu que era menorzinho ficava louco de curiosidade, mas não podia nem passar perto da sala onde as aulas aconteciam, o silêncio reinava austero em toda a casa. Quis o destino que nenhuma das meninas manifestasse talento para o instrumento e coube a mim - anos depois - o resgatar de seu ostracismo. Marretei até aprender a tocar algumas músicas sofríveis, toco até hoje, todos os dias.


“Ninguém escolhe a música, a música escolhe você”, já dizia a minha amiga querida Ana Claudia Nahas, outra que também partiu um pouco cedo. Mas Maurício não, esse levou sua vida de maneira completa, provou estarem errados os que diziam que “música não dá camisa pra ninguém”. O nosso maior e mais bem sucedido escolhido das musas. Deviam rebatizar algum monumento natural com seu nome, algo que tivesse a importância de sua estatura, o Penedo talvez ou o Mestre Álvaro mesmo deveria agora se chamar “Mestre Maurício de Oliveira”.


Quando a gente gosta de tocar um instrumento é natural ter admiração por aqueles que o toquem com mais talento e para mim, no caso de Maurício, não era nem isso. Eu admirava a sua postura. Com certeza a musicalidade, o virtuosismo, eram apenas aspectos exteriores a se admirar no homem Maurício de Oliveira, eu curtia a sua simplicidade, a sua tranqüilidade e o seu bom humor. De quantos destes grandes homens que conhecemos hoje podemos dizer o mesmo? Quisera todos fossem como ele, não músicos geniais, mas pessoas do bem.


Numa das últimas vezes que conversei com Maurício pessoalmente ele estava muito satisfeito e me disse orgulhoso: - Você sabia que agora eu estou tocando com o Manimal? – Logo em seguida colocou o disco pra tocar, fiquei ouvindo o violão solando purinho enquanto o mestre tinha estampada no rosto uma indizível expressão de contentamento, parecia um menino traquinas que conseguira dar uma pernada no tempo.


Teve uma outra ocasião em que ele se apresentou em um projeto que eu coordenava na Igrejinha do Rosário em Vila Velha, não me lembro por que, mas cheguei atrasado à apresentação e - ainda do lado de fora - estranhei uma cantoria na igreja. “Ora, o recital não era instrumental?” Era, só que as pessoas estavam acompanhando o mestre, cantando Carinhoso junto com ele. Que bonito... E o mais incrível é que não faz muito tempo isso, mas a Terra, essa menina sacana, cobra direitinho o seu tributo e a ela todos nós retornaremos um dia.


Então vamos celebrar com orgulho a vida desse homem batalhador da profissão de músico, especialmente porque - graças a Deus - ele escolheu viver nessa difícil terra dos Capixabas trazendo um novo alento a tantas das nossas gerações. Vamos honrar a memória desse pai de família exemplar que atravessou a floresta da vida apenas com sua arte e que num mundo melhor do que este sua música vai para sempre estar brilhando entre as esferas, na harmonia perfeita que preenche o infinito.


Viva Maurício de Oliveira!

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

EUFEMISMOS MOTO-CLUBE: DINHEIRO FÁCIL

Na semana passada recebi uma intimação de meu amigo Grilo Falante:


“Juquinha, queria saber por que você ainda não escreveu no blog sobre aquele encontro de motoqueiros que você apresentou. Me divirto contando essas histórias pra amigos e você até hoje não escreveu. Senta o dedo moleque!”


É curioso como certos jargões e eufemismos tomam proporções de coisa importante dentro de um grupo. Quando saltei de para-quedas uma das primeiras coisas que me orientaram no curso foi sobre a importante diferenciação entre pular e saltar. Diziam que quem pulava era sapo, para-quedista saltava. Importante isso, né? Faz uma diferença... Que nem esse negócio de moqueca capixaba e o resto ser peixada... Semana passada vi aquele filme da Garota de programa, curiosa relação: quando estava tudo bem o cara se referia ao trabalho dela como uma coisa bacana, acompanhante de alto nível e coisa e tal. Quando brigavam a primeira coisa que ele fazia era dizer o quanto ela não passava de uma puta rampeira que vivia de trepar por dinheiro.


Coordenei o cerimonial da Prefeitura de Vila Velha por uns cinco anos de muito trabalho e dedicação quase exclusiva: se não era à prefeitura era aos bicos que eu arrumava por fora. Um desses pintou numa sexta-feira: um cara apareceu querendo um apresentador para um encontro de motociclistas que ia rolar o fim de semana na Ponta da Fruta. Não bastasse ser longe pra caralho o cara ainda queria pagar uma miséria - tipo cinqüenta paus por dia - e ficou tentando me convencer a topar a roubada. Falei que não poderia, inventei uma história, mas que ia arrumar alguém e que se não conseguisse eu mesmo o faria... E foi nessa que entrei pelo cano de escape. Ninguém topou a empreitada, nem o Wllisses (assim mesmo) um amigo que mora na Barra, pô, pertinho da Ponta da Fruta. Tive eu mesmo que ir, numa má vontade filha de acompanhante de alto nível, pra lá.


O organizador do evento era um cara chamado Dondoni, fundador e único membro do motoclube O Estradeiro Solitário, a única inscrição do grupo não era por falta de candidatos: dizia ele que se aceitasse mais alguém deixaria de ser solitário, ora... Era um coroa alto e magérrimo com um bigode fino e gigantesco, lembrava o pintor Salvador Dali. Tinha um triciclo todo paramentado ou como diria Paulão Sardemberg: mais enfeitado que sela de burro de cigano. Me avisou logo de cara pra tomar o cuidado de não chamar motociclista de motoqueiro de jeito nenhum! Era uma ofensa para a classe rebaixar suas nobres figuras aos inséticos motoboys, castas impuras que viviam de fazer merda pelo tráfego das grandes cidades lotando os hospitais públicos com suas patuscadas.


Além de ser longe e do cachê ruim, o evento era interminável, a primeira noite foi de um tédio inacreditável, varias vezes troquei as denominações motocoisadas, talvez porque não conseguisse perceber mesmo a diferença. O encontro fora montado numa grande extensão de terra batida ao longo da praia esquerda da Ponta da Fruta. Tinha um palco cedido pela prefeitura onde se apresentaram bandas de rock o que aliviou um pouco meu drama; completava o cenário barracas de bebidas, comidas e breguétes de motociclista: adesivos, isqueiros em forma de caveira, revolver, granada e facas, canivetes, lanternas, jaquetas, o diabo à quatro. A estética era Heavy Metal anos setenta com muitas concessões e emprestimos ao movimento Hippie, inúmeros velhos calveludos e pançudos desfilavam suas motos e jaquetas de clubes com latinhas de cerveja na mão. Born to be wild, yeah!


No dia seguinte resolvi levar Alice comigo pra ver se ajudava o tempo a passar, só que antes de seguir pra Ponta da Fruta demos uma parada estratégica na casa de Alvarito - então Secretário de Cultura - pra ajudar a escolher os finalistas de um concurso de bandas que estava acontecendo em Vila Velha. Compondo o júri estavam também Adson e Helinho “Bico Doce”, guitarrista cuja alcunha já insinua muita coisa. Começamos a ouvir as músicas, eram mais de cem, e tome de Alvarito abrir uma cerveja atrás da outra. Lá pelas tantas eu já estava de saco cheio, dei a sugestão de examinar as letras e eliminar sem nem ouvir as músicas que rimassem “amor com dor”, todos concordaram, mesmo porque a onda da birita começou a bater e eu precisava ainda apresentar o encontro dos meta-queiros, heavy-motors, enfim a roubada em que eu tinha me metido.


Alice que nessa época ainda não tinha carteira de motorista ficou puta com a minha bebedeira irresponsável e sussurrou no meu ouvido: se você tomar mais uma cerveja eu te largo aqui e vou embora de ônibus! - Dei um pulo da cadeira: Alvarito! Suspende a cerveja! - Helinho “Bico Doce” me olhou desconsolado que nem criança de castigo: Porra bicho, eu passo vinte anos estudando música e agora você vem me dizer isso? Suspende a cerveja?! - Saí de lá razoavelmente embriagado e ainda era dia, por algum milagre conseguimos chegar na Ponta da Fruta ilesos e Dondoni, aborrecido com meu atraso, veio logo com a programação, a primeira coisa que eu apresentaria seria uma missa celebrada pelo padre Eduardo Magalhães. Pensei com minhas champinhas de garrafa: agora é que fudeu meio mundo!


Meu xará de sobrenome chegou vestido a caráter em uma grande moto de corrida: botas, macacão, luvas, capacete e tudo o mais. Após estacionar embaixo do palco, subiu na parada e veio elogiar minha voz pedindo para ler na abertura a Oração do Motociclista, cara... E eu com aquele bafo de onça concordei. O que mais podia fazer? Li a oração e, para minha surpresa, os presentes participaram demonstrando uma dócil religiosidade, especialmente para quem ostenta orgulhosamente camisetas e adesivos com demônios, inferno e outros ícones satânicos. Ao longo da missa o padre motoqueiro realizou o milagre de sua transmutação visual, trocando o uniforme de moto-velocidade pela tradicional batina e os demais apetrechos comuns ao seu ofício, mas o ponto alto dessa celebração foi a entrada da bíblia:


Apesar de solitário no moto-clube Dondoni tinha lá sua companheira que parecia muito a fim de dar um jeito de roubar a cena e de certa maneira conseguiu quando coube ao casal anfitrião realizar a entrada do livro sagrado. O Estradeiro Solitário chegou na frente do palco através da multidão pilotando barulhentamente o seu grande triciclo com a patroa em pé na garupa como fora uma sacerdotisa wicca, vestida do jeito nada discreto que só as adolescentes muito bem apetecidas teriam coragem e Deus sabe que... Bem, não era o caso. Quando a moto estacionou na frente do palco a mulher ostentava triunfante uma bíblia enorme como se fosse um troféu de equipe vencedora da copa do mundo, era o espetáculo das - não mais tão - raparigas em flor.


Para não ficar atrás, no intervalo entre um show e outro, o Estradeiro deu um jeito de adentrar o palco dentro de um caixão - um caixão mesmo - que chegou trazido por uma procissão de moto-coisos portando tochas, ao som de uma música fúnebre que Dondoni me disse ser uma marcha qualquer, mas que era a abertura do disco Radioactivity do Kraftwerk, banda alemã pioneira do rock eletrônico. Depois de sua entrada triunfal o anfitrião do encontro fez um discurso amalucado em que afirmou, entre outras coisas, que a calça que estava usando era de um uniforme nazista que ele tinha dado um jeito de catar de um italiano em uma de suas viagens à Europa. Putz...


De madrugada já estávamos de saco cheio de matar tempo e, sobretudo, das prosopopéias dos delinqüentes senis. Alice estava tão cansada e aborrecida que falou: “amor eu te pago o dobro pra gente ir embora daqui agora”. Era mais de duas da manhã e eu ainda estava lá por honra da firma, se é que isso existia. Após apresentar o último show da madrugada fui cobrar a grana de Dondoni e anunciar que estava me arrancando. Deitando-se estrepitosamente num tablado de madeira, o Estradeiro - que já devia estar mais pra lá do que pra cá - meteu a mão no bolso da calça de couro de onde retirou duas notinhas de cinqüenta. Antes de estendê-las para mim insistiu para ficarmos até o final e voltarmos no dia seguinte, o que neguei já no limite da paciência que ele me esgotou dizendo com ironia: - Eita dinheirinho fácil hein?

sábado, 29 de agosto de 2009

MEUS EUFEMISMOS PREDILETOS: ALTERIDADE NA MELHOR IDADE

O tempo recuperado aos idiotas, o mundo está repleto deles, montes, zilhões de imbecis. Um som trinou perto de mim e disparou o gatilho da memória. As máquinas de escrever, tec, tec, tec, tlin! Convivi com esse som desde a mais tenra infância, mas a lembrança que me veio foi de um senhorzinho endemoniado que trabalhava numa sala próxima à minha. Não o desprezava simplesmente porque ele era um velho, como a maioria fazia, ele é que era detestável mesmo e se não fosse assim já estaria morto. Ele se alimentava das confusões que criava à sua volta, se guardasse suas frustrações dentro do peito o coração já não teria agüentado há muito tempo.


Pagava muito caro quem tinha de conviver com sua detestável figura. Um pulha, um medíocre, todos o sabiam, até ele, por isso era tão detestável: porque não agüentava mais chafurdar na própria lama. Não ser ninguém era uma tortura, por isso precisava do reconhecimento alheio, não no sentido de distinção, mas de ciência de sua presença e essa só vinha após seus barracos lamentáveis, só assim o percebiam, o notavam. Era um babaca notável e ainda por cima era um velho. Nas festas e inaugurações lá ia ele atrás dos organizadores para ter o nome citado nos agradecimentos às pessoas importantes, ficava furioso quando recebia de volta aquele olhar de escárnio e desprezo, o que ele interpretava como inveja, mas mais furioso ficava quando a expressão era de pura perplexidade ou ironia.


- Como assim? Você não sabe quem eu sou?


- Eu sei amigo... E você sabe?


Via sua secretária indo e voltando com uma folha de papel nas mãos, ele estava ditando um ofício e nunca ficava satisfeito com o texto. Mas foi nessa que ele se fudeu, que caiu na real do tempo irrecuperável. Olhava com desdém a secretaria se afastar de volta para sua sala a fim de realizar as correções que apontara, parecia se divertir fazendo isso só de sacanagem, só para poder vê-la dando meia-volta e se afastar rebolando o pandeiro. Segundos depois ela voltou com o texto corrigido.


- Ué, mas já?


- Eu fiz no computador.


- Ah...


Que decepção, nada mais do tec-tec das máquinas de escrever, nada mais de ter o prazer infantil de mandar a secretária bater um ofício enorme várias vezes por conta de uma ou duas vírgulas idiotas. Recostou-se na cadeira entediado, olhou o texto em cima da mesa a secretaria ainda o fitava paciente como se o ofício fosse um mingau e ela fosse a sua babá. Que graça tinha em mandar a secretária rebater o texto se ela não ia mais o rebater? Computadores de merda, maldita modernidade. Lembrou de um trocadilho idiota muito em voga na época: computador não fala, só computa.


Acho que as pessoas se incomodam com os velhos porque suas presenças lembram aos jovens que um dia eles serão velhos também. As pessoas de mais idade, pra piorar, gostam de ressaltar sua experiência dizendo aos jovens que o tempo passa rápido. Por quê essa preocupação com a velocidade se perdemos tanto tempo com coisas e pessoas idiotas? Lembro de Buda, sim, o príncipe Sidarta Gautama, a quem os pais tentaram impedir de ter contato com as agruras do mundo: feiúra, pobreza, doenças. O jovem vivia trancado no palácio onde cuidavam para que tudo ao seu redor fosse sempre perfeito, nunca tinha visto sequer uma flor murchar e morrer... A presença dos idosos nos obriga a saber que um dia também iremos por esse mesmo caminho e que ele aumenta cada vez mais a sua velocidade e que se hoje não temos mais o tec-tec das máquinas de escrever temos muitas outras formas de ver o tempo se perder.


In recovered time: Alteridade é o pressuposto de que todo homem social interage e interdepende de outros indivíduos. (fonte Wikipédia).

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Balanço Geral ES - Rave

Olha, essa semana está profícua (Eita!) em piadas escabrosas e acontecimentos tão curiosos que nem dá pra comentar. Temos, por exemplo, o surgimento da Flunfa. Sabe o que é? Não? Então, é aquela sujeirinha que se acumula no umbigo, o nome é esse: flunfa. Tem gente que até se dedica a pesquisar o assunto, como a flunfa se origina e coisa e tal. Acho que é daí que vem aquela antiga expressão nordestina: afiofó e aflunfa o fole. Enfim: sei lá...

Outro assunto curioso e igualmente inútil é o desaparecimento de Belchior que está sendo muito comentado em toda a Internet, ontem mesmo Marcos Mion fazia várias brincadeiras à respeito na MTV. Confesso que vi Belchior ali na Barra do Jucu não faz muito tempo almoçando com alguns amigos meus depois, ou antes, de uma apresentação no Barracústico. Vai ver ficou encalhado por lá, a Barra tem dessas coisas... Aliás, a Barra do Jucu está para o município de Vila Velha assim como a cidade de Cachoeiro está para o Espírito Santo, quiçá para o Universo. Se é que vocês me entendem...

Pra arrematar segue um videozinho imperdível que é um bom exemplo desse finzinho de agosto, o mês do desgosto. Hehehehe. O link foi enviado por uma amiga que não conseguiu comentar e, tenho que dizer, amigos: eu também fiquei sem palavras... Vejam e depois comentem, se puderem, agora eu sou fã desse cara. Será que ele já tem comunidade no Orkut?




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