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quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

CRÔNICA DE RÉVEILLON

Quando eu comecei a escrever a crônica passada tinha intenção de falar sobre a verdade que jaz (jazz?) inerente às cidades e às pessoas, tema que apareceu em uma conversa com o Grilo Falante sobre aquela outra  na qual eu falava de meu pai e algumas de suas histórias. Nessas conversas sempre tenho idéia para textos, o problema é que às vezes eu simplesmente esqueço. Outras vezes não: começo a escrever como se numa carroça puxada por bois: espero para ver aonde a história pensante quer ir e tento a ajudar a chegar lá.

Uma cidade não é uma pessoa, pode até ser descrita através de livros de turismo, fotografias ou cartões postais, mas essa jamais será a sua alma. Dizem que Bram Stoker fez isso em “Drácula”: sem ter jamais posto os pés na Transilvânia deu lá umas pinceladas geográficas para criar um cenário fantasmagórico e situou sua história na Londres em que morava e conhecia. Pela mesma razão, as características físicas de alguém - altura, cabelo, cor da pele e dos olhos - nunca são tão interessantes como uma gagueira ou o costume de piscar os olhos, a compulsão por pequenas mentiras e gestos extravagantes.

Um dos presentes que pintaram em um dos últimos aniversários de Alice foi um curioso livro chamado A Gruta, obra de “realismo fantástico” envolvendo Beethoven e Mozart, mas escrita por um cara de Belo Horizonte nascido no mesmo ano que eu. A descrição de Viena nessa obra é um dos piores exemplos que conheço dessa falta de alma em uma caracterização da, digamos assim: locação. Quando falamos de uma cidade podemos descrever suas praças, pontes e ruas: mas e o ar que se respira e seu veneno? Todos buscam desvendar um lugar quando nele se debatem atrás da vida e é isso o que as grandes obras refletem: é o que Hemingway dizia sobre a verdade.

Os historiadores afirmam que Ludwig van Beethoven media 1.60cm e tinha o rosto marcado pela varíola, obviamente isso é muito pouco para descrever o gigantesco compositor alemão. Pergunte a algum parente seu como era aquele avô que você não conheceu e veja o que será dito: que ele era engraçado ou ranzinza, que era meio surdo, tinha costume de usar ternos alinhados, montar em um burro e ir para a cidade se atualizar das fofocas e notícias da capital. Não importa muito se ele usava dentadura, ou penteava o cabelo à moda dos galãs de cinema. Importa o que a pessoa realmente foi para as outras...

Por isso devemos nos preocupar mais em ser do que aparentar. Fotografias bonitas não serão suficientes para ilustrar o que fomos: ações importam bem mais. Pode imaginar que bacana seria, como vemos nos filmes, alguém falar que “você era gentil com os estranhos”? Para o futuro, talvez seja mais importante lembrar que mantivemos “Elegância Sob Pressão” e que não maltratamos os que nos amam enquanto sorrimos gentilmente para desconhecidos...

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