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domingo, 3 de outubro de 2010

MAIS CONSIDERAÇÕES CULTURAIS


Como falei em minhas “reminiscências e considerações culturais”, fiquei triste em ir a Belo Horizonte e constatar uma mentalidade muito diferente da capixaba e - acrescentando idéias ao que Alvarito disse em seu desabafo - suspeito que a mídia seja apenas parte de um problema que está arraigado em mecanismos sociais mais profundos, mais difíceis de lidar. Mahler, amargurado com seu país, dizia que quando o fim do mundo chegasse correria pra Viena, porque lá as coisas só chegavam com vinte anos de atraso. Vocês já devem ter sentido a mesma coisa aqui por nossa ilhotinha.

A eventual indiferença da mídia local soa como ofensa pessoal, porque esta representa nossa sociedade, e de vez em quando menospreza o trabalho de artistas de nossa cultura enquanto idolatra bobagens que vêm de fora. Nem posso me queixar disso, afinal tenho inúmeros contemporâneos atuando nos principais veículos de informação e deles tive enorme atenção quando do lançamento de O Livro do Pó. O que incomoda é a insuficiência de meios para alcançar um maior número de pessoas, afinal “você pode levar um cavalo até a água, mas não pode fazê-lo beber”.

As coisas só vão mudar quando o próprio capixaba pegar seus filhos e, ao invés de ir ao shopping e lá ficar zanzando a tarde inteira, levar a uma exposição, a um museu, a uma peça de teatro ou a um concerto de música clássica. Só o que se gasta com estacionamento no shopping já paga uma meia entrada, isso quando a atração cultural não é gratuita. O artista aqui vive na mão dos pechincheiros, pessoas que sabem o preço de tudo, mas não sabem o valor de nada. Trocariam elas um lanche no Macdonalds por um livro? E, mais ainda: leriam realmente esse livro?

Essa situação só vai ser mudada com a valorização do ensino complementar veiculado às artes, tanto público como privado, ou seja, tem que acontecer também uma radical mudança de mentalidade de pais e educadores que não se preocupam em formar o ser humano de maneira integral e estão pensando que cumpriram sua missão ao preparar um monstrinho para competir no mercado de trabalho. Esse último pensamento complementa coisas que venho escrevendo aqui ultimamente. Lembram do texto sobre as pessoas mal educadas? Pois é, somos nós nessa refrega: esbarrando, buzinando e xingando uns aos outros, isso quando não se faz coisa pior...    

3 comentários:

Ricardo disse...

Ei, caro Juca...
Concordo plenamente com suas palavras. Agente viaja e observa como a cultura é valorizada em outros Estados. Em julho estive em Porto Alegre e visitei alguns museus e bibliotecas por lá. Tudo funciona diferente do "referencial" que se tem por aqui.
Sobre cultura e tenho minha experiência particular. Sou pernambucano e quando vim para o Espírito Santo (17 anos) sofri um desamparo total. Naquele Estado na época quando vim para terras capixaba, o movimento Manguebeat estava no auge. Chico Science e Fred 04 e cia estavam dominando o Brasil e o mundo com o novo movimento. Eu pensava: "tudo acontecendo e eu aqui. neste mundo... ou melhor, neste fim de mundo". Sentia que aqui faltava alguma coisa. Mesmo assim ia nos shows. Desde Porrada!!!, Deadfish, Undertown, Pride, The Rain e outras bandas legais que existiram por aqui. Pena que o movimento musical nunca teve a devida atenção como você falou. Tudo rola de forma underground. Afinal sem apoio tudo fica a mercê... Quando veio o movimento de Manimal, Casaca etc, pensei... creio que agora o capixaba vai valorizar a cultura. Bem, parecia que seria a hora, mas tudo aqui tenta-se se manter. Sem apoio, os artistas percebem logo que se quiserem prosseguir e fazer sua arte, devem ir para outras localidades. Ficar aqui é o fim... aí não há cultura que se sustente. É como cria que depois bate asas e vai embora.
Pois é... quando li este escrito, remeteu-me essas lembranças. Aí começei a estrever aquilo que me veio a mente, como uma sessão de psicanalise, onde a associação livre é o fundamento... rs
Abraços e até mais,
Ricochagas

Juca disse...

Oi Juca!!!

Nossa, falou tudo!!!!
A falta de valorização da nossa Ilha, da nossa cultura é supreendente, muitos sabem exatamente o nome de todas as lojas que o Shopping Vitória, mas ninguém sabe os pontos históricos do Centro de Vitória, ou quantos já entraram no Palácio Anchieta, ou visitaram o MAES, ou o Solar Monjardim?? Isso que nem vamos falar de bibliotecas né? as pessoas nem sabem que o estado é o único que possui bibliotecas públicas em todos os municípios... lógico que umas em estado lamentável.. mas isso é outra discussão.

Parabéns pelo texto!!! Amei amei!

Ah encontrei 2 exemplares do livro Mulheres do Espírito Santo, foi seu pai que escreveu, né? Djalma Juarez Magalhães.

Abração
Cleydmara Santos

Anônimo disse...

Fala Juquinha!!!

Estava lendo seu texto e parei na frase: "o próprio capixaba pegar seus filhos e, ao invés de ir ao shopping e lá ficar zanzando a tarde inteira, levar a uma exposição, a um museu, a uma peça de teatro ou a um concerto de música clássica".

Isso é utopia cara. A cada dia o livro, a música, e o filme perdem espaço pro post, pro hit, e o blockbuster. Ah e não vamos esquecer do "eu não li, mas o pastor falou."

Desculpa cara, mas depois desse domingo da mentira eu acordei meio azedo.

Abraço.

Arruda