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domingo, 21 de março de 2010

DEDO DE MOÇA E OS CORAÇÕES VAGABUNDOS

Eu demorei a ver o filme Coração Vagabundo com o Caetano Veloso porque muita gente tinha dito que era chato, que Caetano é um cara pedante, que é arrogante e o caralho à quatro. Mais tarde acabei lendo também algumas opiniões positivas com relação ao roteiro, chamando atenção para pequenas historinhas que interligam alguns assuntos de maneira delicada e criativa e pude ver que realmente é assim.


Bom, o filme é do cara, então tem hora que Caetano soa pedante mesmo. Isso fica claro quando o cantor explicita sua posição contrária a qualquer tipo de religião, com a qual eu hoje concordo inteiramente, também acho que John Lennon estava certo: imagine se não houvesse religião. Outro momento é quando ele diz que a música da América é a mais importante do planeta, seguida da Cubana... É o mesmo que dizer que o Brasil não é o país do futebol, soou como assunto para levantar polêmica e nada mais.


Mas teve uma hora do filme que eu achei muito gozada. Chegando no Japão o cantor baiano tomou um severo pente fino na alfândega e reclamou que um cara tinha enfiado a mão em seu pinto, que tinha pegado e apertado. Depois reclamou com aquele sotaque preguiçoso: “poxa, eu nem conheço o cara...” Daí eu pensei: quer dizer então que se fosse um conhecido tava tudo certo? Isso me remeteu a uma outra história...


Trabalhei em uma empresa em que o gerente era um cara arrogante e prepotente daqueles de dar raiva. Sabe aquele sujeito, enquanto indivíduo, que optou por ser calveludo? Pois é, cabelos “on do lados”, ou seja só dos lados mesmo. Pra começar o cara era fumante inveterado e pitava seu cigarrinho fosse onde estivesse. Quando alguém reclamava que o ambiente era de ar-condicionado ele logo falava: “Bem lembrado!” E acendia um cigarro.


Caminhava de cabeça bem erguida e tinha o costume de proferir suas frases como se estivesse desafiando todo mundo pra porrada, era barrigudinho, usava a camisa um pouco aberta para mostrar o peito cabeludo e ostentava um sonoro bigodão, vai guardando... Num domingão de tarde volta essa boa bisca da cachaçada e é parado pela polícia. Os canas nem notaram o grau de doideira do infeliz, o problema maior é que ele não tinha documento do carro. Daí nosso gerente fez exatamente o que não devia, agiu com a polícia como se estivesse falando com seus comandados:


- Como assim apreender meu carro? Vocês estão pensando que estão falando com quem? Quê apreender meu carro o quê gente, me libera logo que eu não posso ficar aqui perdendo tempo não?! – Os policiais se entreolharam sérios e o mais forte falou calmamente.


- Senhor, vamos conversar lá dentro, nos acompanhe por favor... – Entraram numa sala e fecharam a porta, daí pediram pro bigodudo repetir o que dissera do lado de fora. Não deu tempo nem de entender a pergunta e o tabefe estalou em seu rosto, o cigarrinho voou longe. Foi aí que ele começou a chorar.


- Não me bate gente, não me bate! – Voltou pra casa de táxi. Ou foi de buzão? Nem sei. O problema mesmo é que a carteira de motorista e o carro tinham sido apreendidos. Daí que na segunda de ressacão e a pé, Branco – esse era o nome do infeliz – teve que pedir ajuda ao seu comandado com quem menos travara cordialidades: um negão chamado Dedo de Moça, que tinha contatos e amigos influentes dentro da polícia.


Uma semana depois Dedo de Moça veio me confidenciar todo o ocorrido. Uma das primeiras coisas que os policiais contaram divertidos - antes de resolver a parada pro companheiro - é que tinham dado uns tapas pra enquadrar aquele indivíduo alteradinho e muito entranharam do negão se dar ao trabalho de ir lá recuperar a carteira prum sujeito tão arrogante e babaca. Antes fosse só isso, enfim isso não era tudo.


No sábado, depois do expediente, Branco estava se sentindo agradecido por recuperar seu possante, uma Marajó vermelha, e convidou Dedo de Moça pra tomar umas cervejas na Curva da Jurema, pagodinho tradicional, tudo nos conformes. Encheram a lata. Quando foram embora era já final da tarde e o negão se assustou com o gerente o seguindo, dando farol alto, buzinando pra chamar sua atenção. Encostou no Calçadão de Camburi e foi lá perguntar pro maluco o que é que ele tinha esquecido. Daí ouviu o seguinte:


- Não esqueci nada não Dedo de Moça, eu to é querendo te chamar pra gente ir prum motel! – Bom, eu quase cai da cadeira quando ele me contou isso, nem imaginava que nosso gerente fosse gay, daí perguntei.


- E o que foi que você fez?


- Eu? Ué, eu falei pra ele que eu era casado, pra ele me respeitar...


- Porra Dedo de Moça! Isso lá é resposta que se dê? Quer dizer então que se você fosse solteiro você tinha ido pro motel com o cara? – Se levantando e ficando bravo:


- Ah Juca! Eu sei lá que porra foi que eu falei!

7 comentários:

Carla Teixeira disse...

Ótima, Juca! :-))

Anônimo disse...

Hoje consegui ler, Juca. Boa!

Abs,

Marcos

Anônimo disse...

BOA TARDE, JUCA.
ADOREI A CRÔNICA, PARABÉNS.
DURO É SABER QUANTOS FRUSTRADOS E ENRUSTIDOS INFELIZES DE TODAS AS ÁREAS TEMOS QUE SUPORTAR DESPEJANDO SEU FEL EM NOSSO QUOTIDIANO.
UM BEIJO,
ROWENA

Anônimo disse...

Show de bola Juca! Não conhecia esse talento seu nõ maneiro vo passar
adiante com certeza!
Parabéns!

Manfredo

Anônimo disse...

Olá, Professor!
Passei na Lektra e me diverti com algumas histórias, tipo o que importa é o estado civil e não as atitudes. rsrs.

Outras no entanto, confirmaram um sentimento triste: como a vida ficou banalizada. Ex. Nossa, mataram o Fulano, R. E daí?
Você não se choca? R. Eu não o conhecia. Caramba, não importa, era uma pessoa. R. ja morreu, antes ele do que eu.

Enfim, matar não significa nada, é como abrir a geladeira e pegar um copo d'agua.

Luzia

Anônimo disse...

Ei professor.
Essa história me lembrou um filme: O closet, do Francis Veber.
Quando puder ( se quiser) assista. Achei uma boa comédia. Ah, falando em comédia, me diverti muito com uns textos aqui.
Bjs,
Danubia.

joelma disse...

Muuuuuuuuuuito boa, vc puxou essa do fundo do baú o que me fez lembrar os velhos tempos na mesma empresa, não que "DEDO DE MOÇA" seja lá um cara muuuuuuito confiável..aliás sempre o achei um tanto quanto "Forrest Gump"...mas esta talvez tenha sido uma das melhores que ele tenha contado.

Abraços.
Parabéns
Jo