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sábado, 5 de março de 2016

MARIA NILCE SUBSTANTIVO MULHER

Polêmica é um substantivo feminino, mas está longe de ser exclusividade do universo das mulheres como muitos marmanjos gostam de acreditar. A cidade de Vitória conheceu uma jornalista que viveu cercada de polêmicas, “barracos” que não eram a principal característica de seu trabalho, mas foram importantes porque fomentaram a lenda da mulher guerreira e geravam um interesse enorme por tudo que aquele furacão fazia na sociedade dos capixabas. Essa mulher se chamava Maria Nilce Magalhães e Maria Nilce era a minha mãe.

A maior parte das pessoas vive entediada e encalacrada, presas a empregos, casamentos e eterna insatisfação. Por isso precisam de tragédia como entretenimento, ficam muito excitadas ao saber que de repente alguém “deu a doida”, xingou o padre, largou o marido, roubou a empresa ou saltou da terceira ponte. A mente dessas pessoas é pequena, não porque querem, mas porque é assim que são. Apesar disso, ou por causa disso mesmo, uma parcela desse conjunto resolveu ser grande e outras, reconhecidas como “elite” ou “alta sociedade”, não viram com bons olhos a ascensão de nanicos, porque ser grande toma espaço e não se pode dividir o que é muito, pois sempre o consideram muito pouco.

No tempo de Maria Nilce (1941-1989) quando se apontava os “grandes” de Vitória estava se falando exclusivamente de homens, as mulheres eram educadas nas prendas do lar, preparadas para obedecer ao marido, cuidar da casa e dos filhos. Nos anos 1970 Maria Nilce foi uma daquelas que diversas vezes “deu a doida”, bateu de frente com um governador da ditadura e colocou no chinelo muitos “homens da imprensa”. Em dado momento atingiu o status de celebridade e como estas foi perseguida e difamada, mas devolvia os insultos e ridicularizava os desafetos em sua coluna. Sua presença incomodava, não é exagero afirmar que algo da polêmica que a cercava vinha do preconceito com sua condição de mulher.

A colunista do Jornal da Cidade pode não ter sido a primeira, nem a maior, mas de sua geração foi quem melhor conseguiu captar a imagem de “self made woman” e se transformou no símbolo da mulher capixaba bem sucedida. Além de colunista social de apelo junto ao público, era também uma empresária competitiva e inteligente, sabia vender e valorizar seu produto, uma de suas frases preferidas era: “quem trabalha não conhece fracasso”. Não foi à toa que escolheu o dia internacional da mulher para congregar as empresárias “da terra” em um evento que celebrava a independência de seu gênero.
 
A empresária do setor automotivo e cafeeiro Zuca Coser, falecida em 2009, com a colunista Maria Nilce 
No final da década de 1980, Maria Nilce consolidara posição no jornalismo e sua popularidade seguia em escala ascendente. Planejava construir uma sede moderna para o Jornal da Cidade, andava badalada na sociedade carioca, viajava pelo mundo e acirrava as críticas contra uma parcela perigosa da elite capixaba. O almoço que a jornalista promoveu em comemoração ao dia internacional da mulher no ano de sua morte reuniu quatrocentas mulheres, donas de grandes empresas, profissionais liberais e até representantes da política nacional como as deputadas federais Sandra Cavalcanti e Rita Camata.
 
Sandra Cavalcanti, deputada federal carioca discursa durante as comemorações do Dia Internacional da Mulher.
No dia 14 de março de 1989, Maria Nilce publicou em sua coluna um texto relatando o clima pesado que cercou o “Almoço da Mulher” naquele ano e classificou as ameaças de seus desafetos como “terrorismo”. Era um prenúncio do que aconteceria poucos meses depois: o assassinato covarde que pôs fim a uma disputa velada pelo direito de uma jornalista se expressar contra a necessidade de calar essa pessoa. Um crime de mando contra uma mulher indefesa, que posteriormente foi culpabilizada pela própria morte, na revista Manchete foi dito que ela “falava demais” e a mídia sempre a reduziu às tais “polêmicas”.
 
Almoço de Comemoração ao Dia Internacional da Mulher em 1989

No dia oito de março não é comum evocar a lembrança da jornalista Maria Nilce Magalhães e suas ações pioneiras em prol da valorização do empreendedorismo feminino capixaba. Deu trabalho calar a fera, mais trabalho ainda tem a elite para apagar sua presença da memória do povo. Mas, sabe minha mãe? Eu, que nunca me dirigi à senhora sua pessoa assim publicamente, estou ainda por aqui pra lembrar com saudade e com carinho da sua genialidade e de suas birutices – a Milla que virou gringa diz que você era gifted - e sei que tem um montão de gente bacana por aqui que se lembra de você assim também.

Quando comemoramos mais um Dia Internacional da Mulher, primeiro de tudo devemos orar, rezar ou meditar pela presença invisível ou mesmo a ausência de tantas e tantas mulheres impunemente espancadas, violentadas e assassinadas.  Em seguida peço ao menos um pouco de respeito à vida e à memória dessas vítimas, quase sempre perseguidas e difamadas, simplesmente por representarem a fragilidade nessa cadeia. E desejo que todas as mulheres tenham, sempre, o verdadeiro direito à liberdade de expressão e dignidade para viver e ser o que quiser e fazer de seu corpo e da sua história o que melhor lhe aprouver!

Segue o texto escrito por Maria Nilce:

No Dia Internacional da Mulher, quando esta cronista realizava um almoço para mais de quatrocentas mulheres, no salão do Alice Hotel, seu proprietário, Toninho Neffa, avisado anteriormente por telefonemas anônimos de que alguns gays iam até lá acabar com a festa, assustou-se com a presença de dois indivíduos estranhos que entraram no hotel sem camisa e pensando ser os travestis telefonou para a polícia e pediu reforço.

Soubemos depois que o autor dos telefonemas foi o comerciante Jadyr Primo, que também ensaiou a molecagem de mandar travestis para a porta do hotel para jogar pó de mico nas senhoras. Ali dentro do Alice estavam senhoras do maior respeito, todas dignas da maior admiração. Sobretudo, senhoras de idade como dona Josefina Hilal, como a mãe de Lourdinha Raizer, entre outras que não mereciam passar pelo susto que passaram.

Eu espero que as mulheres que estiveram naquele almoço não esqueçam do mal que ele me fez, pois desde as nove horas da manhã que este indivíduo passa trotes para minha casa, fazendo terrorismo e eu, apesar de saber de tudo, estive à frente do almoço, sorteando brindes, homenageando as aniversariantes, cuidando para que nada estragasse o brilho daquele dia que era só nosso e para que todas mulheres ali presentes não fossem perturbadas em nada. Se entrasse alguém para estragar a nossa festa, eu me jogaria na frente para defender as mulheres que ali estavam convidadas por mim.

Eu morreria por elas...
 
Último registro de Maria Nilce com seu filho Juca Magalhães:
foto de Heitor Bonino
Maria Nilce Magalhaes foi morta a tiros no dia cinco de julho de 1989, o julgamento de alguns dos envolvidos no assassinato levou quase vinte e cinco anos, as investigações não apontaram os principais mandantes do crime.
A investigação do crime contra Maria Nilce foi marcada por afirmações preconceituosas à mulher e propositadamente abagunçada, vide a manchete de A Gazeta


Início da desrespeitosa reportagem da Revista Manchete
Jornal do Brasil


sexta-feira, 8 de março de 2013

VIVA MARIA NILCE A PANTERA CAPIXABA!



O dia oito de março, Dia Internacional da Mulher, era uma data muito especial para a colunista social Maria Nilce Magalhães, locomotiva da sociedade capixaba, proprietária do Jornal da Cidade. Durante muito tempo Maria realizou um badalado almoço que reunia as principais empreendedoras do Espírito Santo para marcar a data e a ascensão do gênero feminino no meio empresarial capixaba, coisa que, em meados dos anos oitenta ainda era relativamente incomum.

O evento e a própria colunista ganharam força e importância ao longo dos anos. No final dos anos oitenta Maria Nilce era já uma mulher madura caminhando firme para os cinquenta anos (morreria assassinada em um nebuloso crime de mando aos quarenta e oito em 1989) e já mudara bastante sua postura na vida pública. Tentava se descolar da pecha de pessoa polêmica e ser respeitada apenas pelo que realmente era: uma mulher que vivia para seu trabalho, casada há mais de vinte anos, com cinco filhos já praticamente adultos.

Comprou um automóvel de quatro portas para andar com motorista sentadinha no banco de trás, vestia-se mais sobriamente e tentava manter longe as polêmicas. Porém, enquanto ganhava força e prestígio, seus inúmeros inimigos, que também envelheciam, redobraram esforços para a prejudicar. Houve um episódio em que uma turma teria tentado espalhar pó de mico (aquele que dá coceira) nos inúmeros convidados que adentravam chiquérrimos a área de eventos do Alice Vitória Hotel.

Muitos lembraram e destacaram, após o escandaloso crime de mando que vitimou Maria Nilce as fofocas que ela publicava – que a todos divertia - e o grande mal que teria feito a inúmeras pessoas. Outros bateram no peito valentemente após ver a carcaça da fera abatida sem nada terem feito para a derrotar; nunca tiveram coragem de a enfrentar e, pior de tudo, alguns destes buscavam sua amizade atrás de alguma rebarba do sucesso e frequentemente filavam uma boia ou um uisquinho em sua casa.

Quantos se indignaram publicamente ou vieram clamar por justiça em nome de uma mulher indefesa assassinada na rua de sua casa, de manhã cedo, num dia de semana comum? Maria Nilce Magalhães foi a primeira a destacar a força de seu gênero e a reconhecer o valor de outras empresárias e ativistas políticas. Quantas vezes Maria Nilce foi homenageada ou lembrada em eventos públicos na cidade de Vitória? Sequer uma rua foi nomeada em sua lembrança. Houve um evento na Assembleia Legislativa em meados da década passada, lembrando vítimas de violência e seu nome sequer foi citado. Maria Nilce permaneceu um tabu e nunca ficou explícita a verdadeira razão...

 
Republico então uma historieta do livro Crônica de Uma Ilha Muito Doida, mostrando o lado pitoresco e divertido desta colunista. Resgata também o famigerado poeta Otinho que, de repente, lá nos anos setenta, teve um baita surto premonitório:

Logo assim que Ângela Diniz foi assassinada (30 de dezembro de 1976), Otinho, nosso poeta louco, foi na banca de revistas do Natal e, ao ver a pantera em todas as capas de revistas, danou a gritar:

- Maria Nilce vai morrer igual a Ângela Diniz!

Num sábado em que eu estava em Camburi tomando banho de mar, passa Otinho e ao ver-me grita para a praia inteira:

- Viva Maria Nilce, a pantera capixaba! – Chamei-o e disse-lhe:

- Estou zangadíssima com você. Que história é esta de gritar em plena na Praça Costa Pereira que eu vou ter o mesmo fim trágico de Ângela Diniz? – E ele inteligentemente saiu-se com esta:

- Mas eu não falei no sentido da devassidão. Falei no sentido da audácia!

 
Ângela Diniz era conhecida como a “Pantera de Minas” e, como Maria Nilce, era considerada uma socialite polêmica. A Revista Época atribui à moça a seguinte frase: “Sou bonita, rica e boa de briga”. Foi assassinada aos 32 anos pelo amante conhecido como Doca Street, ainda segundo a revista, “o assassino mais famoso da década de setenta”. A menção de Otinho à “devassidão” é talvez graças à cobertura sensacionalista, dando ênfase ao uso de drogas e republicando supostas afirmações da vítima a partir de declarações que seu assassino usou para justificar o ato de disparar quatro tiros no rosto da amante:

“- Se quiser ficar comigo vai ter de me dividir com homens e mulheres“.

Maria Nilce Magalhães, Ângela Diniz e tantas outras mulheres foram assassinadas e nem as vítimas, nem seus familiares tiveram condição ou a mesma atenção da midia para contestar as afirmações levianas de seus assassinos. Esse linchamento do cadáver, a posterior criminalização da vítima, é prática corriqueira adotada por muitos advogados de defesa, reproduzida por policiais e publicada na imprensa para “explicar o caso”. Existe nisso tudo: tara, morbidez, falta de ética, injustiça e por aí vai. Volto a dizer, precisamos repensar a Lei que regulamenta a divulgação de informações relativas a atos criminosos, para proteger as famílias e prevenir o preconceito e a injustiça perpetrados, especialmente, contra a mulher.