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sexta-feira, 16 de novembro de 2012

UM POUCO DE ENGENHARIA MUSICAL

Recentemente a imprensa de Vitória-ES deu destaque à história de Rony Chagas, o chamado “pedreiro pianista”; um jovem trabalhador braçal que “despontou” para o mundo porque aproveitava suas horas de folga para dedilhar as 88 teclas na residência em reforma de uma advogada no centro da cidade. O fato foi tratado pela mídia como algo assombroso e peculiar, mas curioso mesmo foi o interesse da população em torno do assunto - afinal, inusitado “ma non troppo” - enquanto os tópicos mais acessados são geralmente sobre fofocas de famosos e sangrentos casos policiais.  
 
Pois o blog do ITC tem para contar uma história de transformação social mais profunda e contundente: a trajetória do maestro e professor do projeto Canto na Escola, Elias Salvador, que começou a vida trabalhando como mecânico e abandonou as “repimbelas e parafusetas” para se dedicar profissionalmente à regência em canto coral. O professor Elias termina no final do ano o curso superior de licenciatura em música pela Faculdade de Música Maurício de Oliveira - FAMES, com um trabalho escrito sobre suas descobertas musicais e o resultado alcançado em seu trabalho com as crianças da EMEF Governador Lindenberg, em Barro Branco na Serra.

Elias Salvador em meio aos alunos e outros músicos em concerto recente.
 
Blog do ITC: Vamos começar por onde?

Elias Salvador: (Tímido) Não sei... (Risos).

Blog do ITC: Você tem quantos anos Elias?

Elias Salvador: Faço trinta em março do ano que vem.

Blog do ITC: Você começou a estudar música onde, quando e por quê?

Elias Salvador: A influência da música na minha vida foi dentro da igreja Assembleia de Deus. Meus pais são evangélicos e eu comecei a aprender lá, cantando, tocando bateria, depois violão.

Blog do ITC: Quantos anos você tinha quando começou a tocar violão?

Elias Salvador: Foi aos doze anos de idade.

Blog do ITC: E quem te ensinou?

Elias Salvador: Eu tenho um irmão músico autodidata que toca muito bem, mas ele não tem conhecimento teórico como eu tenho hoje. Não lê música, mas é um grande profissional, o nome dele é Daniel. Ele tanto compõe quanto toca, faz letra, toca bossa nova, ele é muito bom mesmo pra música, mas de ouvido. E hoje ele é empresário em São Paulo, a música é só um hobby pra ele.

Blog do ITC: Mas pra você não...


Elias Salvador: Eu, aos dezenove anos, quis realizar meu sonho que era aprender a ler partitura. Porém, todos que eu procurava para aprender não me ensinavam. Na realidade eu sempre tive vontade de mexer com música então a minha irmã Eliane entrou no coral da CST (Hoje ArcelorMittal Tubarão)...

Blog do ITC: A família é grande então?

Elias Salvador: É grande, somos oito filhos e eu sou o caçula. E minha irmã me levou para cantar no coral com ela. E quando eu entrei no coral da ArcelorMittal Tubarão foi uma mudança na minha história, eu já sabia ler música, tinha feito um ano de teoria musical na minha igreja. Então fiquei cinco anos no coral, tive essa vivência musical e foi lá que eu me encantei pela música profissional mesmo, de querer fazer coral. Então passei a ensaiar o coral da igreja, comecei a tocar o saxofone lendo partitura...

Blog do ITC: E isso só olhando o trabalho do maestro Adolfo Alves e de Alice Nascimento?

Elias Salvador: Foi a minha referência e inspiração, eu, praticamente, ia aos ensaios pra cantar, mas também para aprender. Observava tudo, os detalhes da regência a condução do ensaio e foi isso que me deu esse “feedback” para fazer igual na minha igreja e depois o desejo de cursar também uma faculdade de música... Eu trabalhei como mecânico na ArcelorMittal Tubarão e lá todo mundo me falava pra fazer uma faculdade de engenharia mecânica, porém eu sabia que se um dia fosse fazer uma faculdade seria de música, porque é o que está no meu sangue. Eu gosto muito de música. 

Elias (1° à direita) com parte da equipe do projeto Canto na Escola, tendo ao centro a maestrina Alice Nascimento

Blog do ITC: E sua família achava o quê disso?

Elias Salvador: É... Tive pouco apoio... Meus pais queriam que eu fosse mecânico mesmo (Risos)... Mas eu sabia o que eu queria pra mim e no dia que passei na Faculdade de Música do Espírito Santo – Fames, falei para o meu encarregado na ArcelorMittal Tubarão: “Eu quero que me mande embora pois quero estudar...” Mas ainda fiquei lá por mais um ano.

Blog do ITC: Você era mecânico de quê, o que você fazia lá exatamente?

Elias Salvador: Mecânico a diesel; consertava caminhão, máquinas...

Blog do ITC: Era uma coisa que te deixava frustrado?

Elias Salvador: Eu não tenho nada contra. Quem está na área de mecânico e não tem curso superior se sente realizado, porque ganha um salário razoavelmente bom e às vezes se acomoda, acha que está “bombando” em ser mecânico. Quando eu fiz o vestibular e passei, eu vi que o meu sonho ia muito além daquilo. Eu hoje me sinto realizado três vezes mais, porque eu fui muito criticado quando larguei a mecânica para trabalhar com música, foi um período muito difícil, mas eu venci aquele preconceito todo e hoje sou realizado. Já até recebi propostas para voltar a trabalhar de mecânico, mas não penso em voltar.

Blog do ITC: Mas como é que você entrou na Fames?

Elias Salvador: Na igreja que eu frequentava tinha uma amiga “Eunice Del Fin” que estava se formando na Fames. Ela foi a pessoa que me informou de quando ia ser o vestibular, então me preparei, estudei muito, me dediquei e passei em décimo segundo lugar no curso superior de licenciatura em música.

Blog do ITC: Como veio então a regência de coral?

Elias Salvador: Quando comecei a cantar no coral ArcelorMittal Tubarão, passei a observar a regência, vendo como eram conduzidos os ensaios, a dinâmica. Da mesma forma como o Adolfo levava os ensaios eu fazia com o meu coral na igreja e a partir de então isso foi me dando a prática da vivência musical, tive muitos erros e alguns acertos e hoje estamos aí.

Sequência de fotos do maestro em ação regendo o Coro Canto na Escola
 
Blog do ITC: No Canto na Escola você é hoje o professor de coral que está a mais tempo, como é essa experiência com a molecada, você já tinha trabalhado com projeto social antes?

Elias Salvador: Eu fui monitor da banda experimentalna Fames, que é hoje a banda jovem. Tudo bem que eram crianças musicalizadas, mas foi uma experiência muito boa. Quando eu comecei a trabalhar no Canto na Escola foi uma experiência fantástica, porque as crianças vão por livre e espontânea vontadepara estudar música. Logo no início eu tive um embate, porque elas estavam muito bagunceiras, iam lá pra fazer bagunça, queriam brincar e cantar uma música só, não queriam aprender música.

Blog do ITC: Como é que você fez pra controlar essa turminha que era mais “barra pesada”?

Elias Salvador: É difícil, você tem que realmente ter “cartas na manga” pra você conseguir dominar...

Blog do ITC: O que você fazia?

Elias Salvador: Eu conversei com nossa assistente de coordenação, que era a Ana Claudia, perguntei se podia tomar minhas decisões e tive todo apoio. Então comecei a enviar bilhete para os pais falando do comportamento ruim dos filhos, outros eu levei para a coordenadora e aos poucos eles foram entendendo que o que eu queria fazer era uma coisa muito séria, um coral de fato. Daí uns começaram a cobrar dos outros e hoje eu já tenho esse retorno deles. Se algum faz bagunça os próprios colegas chamam a atenção, dizem que estão ali para aprender. O meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) está sendo feito com os meninos de Barro Branco.

Coro formado pelos alunos do projeto Canto na Escola em Barro Branco na Serra, posando para a posteridade.
 
Blog do ITC: Qual é o tema?

Elias Salvador: Canto Coral no Ensino Fundamental: percepções desta prática sob a ótica dos alunos coristas.

Blog do ITC: E como você fez, com entrevistas?

Elias Salvador: Sim, primeiro foi feita uma redação onde eles falaram do que fazem, o que gostam, como é a vida deles. Falam da relação da família deles com a música, a relação deles com a música também. Muitos escreveram que o professor tem que cobrar mesmo, porque se ele não cobrar os ensaios viram uma bagunça só. Então eles mesmos já sabem, já reconhecem, que é preciso ter alguém para colocar limite.  

Blog do ITC: Quem é que está te orientando nessa pesquisa?

Elias Salvador: É o professor e doutor Alessandro da Silva Guimarães. 

Blog do ITC: E quando é que termina e você se forma?

Elias Salvador: Agora no final do ano (Dezembro 2012).

Blog do ITC: Boa sorte então Elias e muito obrigado pela entrevista.

domingo, 21 de outubro de 2012

CRÔNICA DE DOMINGO: MARCELO RAUTA, UM TALENTO EM ASCENSÃO NA MÚSICA CLÁSSICA



“Trajetória de um músico que se destaca no cenário nacional provoca uma reflexão: quantos compositores e artistas extraordinários se perdem devido à falta de oportunidades?”

Texto publicado ontem (20 de outubro de 2012) no caderno Pensar de A Gazeta.

Por Juca Magalhães

No Rio de Janeiro existe uma Associação de Violões criada para promover o ensino do instrumento mais popular do país com projetos sociais, um programa na Radio MEC (Violões em Foco), saraus e que realiza anualmente desde 2003 uma seleção de “novos talentos” destacando um compositor brasileiro e oferecendo premiações em dinheiro aos três primeiros colocados. Nesta edição de 2012, cuja (cuja?) abertura aconteceu no último dia 20 de outubro, o homenageado é o capixaba Marcelo Rauta.

Graduado e mestre em composição pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, premiado em concursos e autor de obras para várias formações da dita “música clássica”. No final de 2011, Marcelo Rauta lançou o disco Rerigtiba, uma amostra de suas peças, sobretudo, para violão. Teve, também nesse ano, o seu Salmo 100 incluído na turnê internacional do coral Canarinhos de Petrópolis que postou no Youtube um belo registro em vídeo apresentando a música de Rauta numa catedral em Bonn.

COMPOSITOR NO INTERIOR

Talvez mais incrível que o prolífero talento desse jovem capixaba ainda desconhecido de seus conterrâneos seja a história de sua vida. Longe de ser educado em um rico ambiente cultural que se imagina forjar os grandes compositores de música de concerto, o menino nasceu em Guarapari (05/03/1981) e logo foi morar na zona rural da cidade vizinha, Anchieta. Um município que em 2010 (segundo o site da Prefeitura) tinha pouco mais de vinte e três mil habitantes.

Após terminar a quarta série primária veio uma mudança importante, para prosseguir nos estudos o menino passou a morar com a mãe na sede do município. Marcelo tinha então em torno de dez anos. Um dia brincando na casa do colega Paulo Henrique Cunha Gonçalves viu lá um instrumento que despertou sua curiosidade...

- O que é isso?
– É um teclado... Serve para fazer música.
- Música? E o que é música?
- Ué, você nunca viu o Caçulinha tocando no Domingão do Faustão?

Criado na fazenda Dois Irmãos, sem energia elétrica muito menos televisão, Marcelo não conhecia nada daquilo. Seu amigo ligou o instrumento e tocou um trecho da nona sinfonia de Beethoven. Desnecessário dizer que o menino ficou maravilhado com a novidade e propôs um escambo: “eu te ensino matemática e você me ensina a mexer nesse negócio”. O engraçado é que o compositor confessa hoje não saber mais nada de matemática e o amigo trabalha como contador.

Logo Marcelo intercalava parte do dia na escola, corria em casa para almoçar e todo o resto do tempo ficava mexendo no teclado. A mãe de seu amiguinho era estudante do instrumento um pouco mais experiente e também compartilhou de boa vontade o que já havia aprendido, mas em pouco mais de um semestre a avidez musical do menino esgotou as possibilidades da escolinha improvisada. Naquele momento o destino se intrometeu na história, como nos conta o próprio compositor:

“Eis que surge em Anchieta um projeto que a prefeitura estava implantando. ‘Música para a comunidade’. Aí, foi daqui de Vitória a professora Ângela de Souza Cruz, minha primeira professora de piano. Ela viu que eu tinha talento, começou a me dar aulas e me preparou, inclusive, para a prova da Fames que na época era ainda chamada Escola de Música. Foi onde eu estudei o terceiro básico e dali já pulei para o curso superior.”

MÚSICA, NEM PENSAR!

É preciso explicar que, a princípio, o interesse incomum de Marcelo pela música foi ignorado por seus familiares: não incentivaram, não investiram, mas tampouco proibiram. Só na hora de escolher um curso superior é que todo mundo resolveu opinar. Uns diziam que devia estudar medicina, outros achavam direito melhor: mas música? Nem pensar! Música era coisa de vagabundo, ia acabar desempregado e morrer de fome. O pior é que nem se pode acusar seus parentes de ignorância, o preconceito com o “mundo das artes” persiste em todas as camadas sociais.

Junto com o estudo de música Marcelo começou a compor música de concerto, era como se uma coisa estivesse diretamente ligada à outra, o que geralmente não é tão simples. Mesmo sem noção das regras básicas de composição (forma, harmonia, contraponto, orquestração etc) o jovem criava partituras e as submetia à opinião de músicos mais experientes como os maestros Helder Trefzger e Leonardo Davi que reconheceram seu talento e o aconselharam a estudar no Rio de Janeiro, porque no Espírito Santo ainda não havia curso superior de composição (Só neste ano de 2012 a UFES deu início ao bacharelado na área).

Como imaginar aquele rapaz tímido que mal conhecia Vitória se mudando para o Rio de Janeiro? Para começar havia a dificuldade financeira - na primeira vez que tentou estudar na Fames, foi preciso abandonar o curso após três meses por não poder pagar as passagens – depois havia um concorrido vestibular para entrar na UFRJ. A princípio Marcelo fez o esperado, concluiu o “segundo grau” e resignadamente começou a cursar ciências contábeis em Guarapari. Três períodos depois não aguentava mais. Resolveu arriscar o futuro no Rio, cidade que até então nem conhecia, e foi aprovado em segundo lugar no curso de composição dando início aos estudos em 2003.

Para poder se virar na “Cidade Maravilhosa” o jovem compositor fez entrevista com a assistente social da Universidade e conseguiu provar ser merecedor da chamada “bolsa auxílio” no valor de apenas trezentos reais para custear todas as suas despesas: aluguel, alimentação, tudo. Sua família ficou chocada do rapaz se aventurar numa cidade tão perigosa onde não conhecia ninguém. Marcelo conta que também ficou com medo, mas logo se acostumou. Achou o carioca receptivo, os professores notaram seu talento e lhe deram atenção, no segundo ano conseguiu outra bolsa, a coisa foi melhorando e entre o curso de graduação e o mestrado passaram sete anos.

UMA INEVITÁVEL REFLEXÃO


A partir de certo momento de sua vida acadêmica o capixaba começou a colecionar premiações importantes, como consta no site da Academia Brasileira de Música: “Venceu o ‘Concurso Nacional de Composição para Orquestra de Câmara – Prêmio Sesiminas de Cultura’. Premiado no ‘Concurso Quintanares de Quintana’ em comemoração aos 100 anos de nascimento do poeta Mário Quintana, com sua obra para soprano e piano Ah! Os Relógios – obra lançada em livro e CD pela UFRJ. Venceu o ‘Concurso de Composição Niemeyer – 100 anos’, com sua obra Trio nº3-Igreja de São Francisco – obra lançada em livro e DVD pela UFRJ. Venceu o ‘II Concurso de Composição Claudio Santoro para Jovens Compositores’ com sua obra Psalmus 67”.

Logo após defender sua dissertação de mestrado em 2010, Marcelo ficou sabendo que haveria seleção para professor substituto dos cursos de bacharelado e licenciatura na Faculdade de Música do Espírito Santo. Veio, fez a prova e, como costuma ser, passou. Voltou para ficar perto da família e, numa inesperada inversão de valores, por questões financeiras. “A concorrência no Rio é grande, a remuneração de professor ficou mais interessante aqui no Espírito Santo”. Bom para os alunos capixabas que podem aprender um pouco da arte musical com esse gênio de trajetória insólita na qual se revela um misto de predestinação com muita determinação e coragem.

A história de Marcelo Rauta nos ensina muita coisa e provoca uma inevitável reflexão: quantos outros potenciais compositores e artistas extraordinários estiveram e ainda estão relegados à própria sorte neste país de tantas e tão grandes desigualdades? Quantos estão sem acesso à educação, sem força psicológica para romper as barreiras do preconceito contra sua arte ou encarar as dificuldades financeiras e conquistar sua independência vivenciando plenamente seu talento e criatividade? Quanto será que perdemos enquanto cultura com tudo isso?

No final deste ano a Faculdade de Música do Espírito Santo - Fames vai publicar em livro a pesquisa de mestrado de Marcelo Rauta que tem o título: “Reminiscências do Choro N° 10 de Heitor Villa-Lobos na Sinfonietta N° 4 de Marcelo Rauta: um estudo comparativo.” Não por acaso as obras em questão são de compositores nascidos no mesmo dia 5 de março, até aonde vão essas coincidências é difícil precisar. Tudo que sabemos é que Marcelo Rauta é um nome que evoca uma missão para a sociedade civil organizada: criarmos meios – que hoje não existem - de fomentar talentos como o dele e os ajudar a se desenvolver e frutificar.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

DO PRELÚDIO AO BAIÃO: POR QUÊ NÃO?

Texto de Juca Magalhães publicado originalmente no Caderno Pensar do último sábado (04 de agosto de 2012)...  

Durante o último Festival de Inverno de Domingos Martins ficou marcada a grande diversidade musical das atrações, o que nos faz pensar no benefício causado pelo “choque cultural”: uma forma criativa e interessante de circular mensagens sonoras entre grupos e públicos considerados estanques. Frequentemente vejo muita gente de fora do contexto musical manifestar a expectativa do Festival se focar mais na música erudita. É interessante notar que geralmente pensam assim os leigos, porque os que se interessam por música sabem que muitas vezes do estranhamento vem a inspiração. Foi o caso de Claude Debussy, um dos homenageados do Festival em 2012.

Em 1889 aconteceu em Paris a famosa Exposição Universal, onde, segundo os estudiosos Jean e Brigitte Massin, o gamelão javanês deixou uma “marca indelével” na música do compositor francês. Ainda segundo os autores acima, havia no final do século dezenove uma espécie de internacionalização cultural, um grande interesse por contato com diferentes formas artísticas. É evidente que essa prática é importante e que, como dizem os americanos, de vez em quando é necessário “to think outside the box“. Então qual é o problema de num Festival de Música termos uma apresentação da Escola de Samba MUG? Ou mesmo do mega famoso Falamansa?  

Pensar fora da caixa é entender que nosso gosto pessoal não determina o que é bom, e que, por essas e por outras, Eric Clapton dizia: “em cada multidão tem um melhor guitarrista do mundo”. Para entender os rumos do Festival de Inverno de Domingos Martins é preciso atentar para a sua importância cultural que emana muito especialmente da programação didática, digamos assim, do evento. Essa iniciativa nasceu, e assim se mantém, com o propósito formador para o estudante de música. Durante cinco dos nove dias de realização do Festival acontece uma extensa e intensa programação de oficinas com professores muito renomados em nível internacional. Essa parte da programação é sempre obscurecida “midiaticamente falando” pelos shows populares, porém, estes são também muito importantes para aquela.

Ninguém estuda música sem o desejo de se apresentar publicamente. Quando alguém começa a tocar, seja o instrumento que for, quer logo mostrar pra família, pra seu amor, para os amigos e, se bobear, até pra fazer raiva aos inimigos. Todo aspirante a músico sonha em pisar num grande palco e todo professor sabe que a experiência é crucial pro amadurecimento do aluno. No estudo da música tudo se direciona para as apresentações, os concertos, os shows, sejam lá quantas denominações tenham. Esse momento é uma encruzilhada de interesses que partem em várias direções, portanto, definir a programação de um grande Festival de maneira a contemplar a maior diversidade possível e ainda assim manter a qualidade é um desafio.  

O que acaba acontecendo é que um evento tão grande e tradicional vai criando suas próprias pernas, ou seja: o festival acontece na cidade de Domingos Martins, sua programação envolve também o sentimento das pessoas do lugar. Imagine alguém entrar no seu carro ou em sua casa e querer determinar o que você vai escutar? A convergência desses vários interesses define o perfil do Festival e também é fator determinante para seu sucesso. Os grandes shows populares atraem pessoas que vão assistir orquestras, bandas sinfônicas, corais, cameratas, duos, quartetos e sabe-se-lá mais o quê e os estudantes de música terão a tão desejada prova de fogo perante um grande público em suas primeiras apresentações, em um grande palco dividido com astros da música. Isso tudo se traduz em enriquecimento cultural para tanta gente que é difícil quantificar com certeza.

No final tudo soma e o que parece destoar, na verdade, é importante dentro da programação. Poderia ser como é em Campos do Jordão, o tradicional Festival de São Paulo, modelo para este de Domingos Martins? Não creio. Simplesmente porque se trata de um universo cultural completamente diferente. Cada uma dessas iniciativas segue seus passos individuais porque afetam um determinado tecido social, visa o bem comum e não o desejo de um grupo restrito de pessoas. Se em Campos do Jordão o Festival é voltado para a música dita “erudita” é porque um grande conjunto de fatores proporcionou a situação, havemos de guardar as devidas proporções entre uma coisa e outra e entender a construção da realidade como ela é e não como gostaríamos que fosse.

Eu já caí na tentação, como tantas pessoas, de criticar a grande mídia por só valorizar e destacar muito especificamente os “grandes shows populares”, como os que agora aconteceram com Dominguinhos e Falamansa no Festival de Inverno de Domingos Martins 2012. Atualmente gosto de imaginar que tudo isso converge para ajudar uma criança que aprende violino a crescer musicalmente. Parece coisa de maluco, mas é assim que eu a percebo, aliás, todo mundo tem direito de discordar, mesmo porque eu não falo em nome da organização do Festival de Inverno de Domingos Martins, o trabalho que desenvolvi lá foi totalmente periférico, mas como cidadão capixaba, melômano e músico bissexto posso confortavelmente emitir essas opiniões.

Deixar de lado preconceitos musicais é uma boa prova de maturidade cultural, basta pensar no sentimento de profundo respeito e carinho que todos os grandes compositores sempre tiveram pelas manifestações populares. Portanto minha gente: Viva Debussy! E viva também Luiz Gonzaga! Do prelúdio ao baião: por que não?

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

RAPIDINHAS DO FESTIVAL DE INVERNO 2012

Esta décima nona edição do Festival de Inverno de Domingos Martins levou o conceito de "choque cultural" ao extremo. O exemplo mais explícito aconteceu no início da noite de domingo quando rolou um encontro de violeiros com o som mais raiz que o sertanejao já concebeu e na sequencia entrou uma orquestra de cordas polonesa tocando Mozart, Respighi e o melhor do repertório clássico. Taí um clique da Orquestra Capela Bydgostiensis que é regida pelo brasileiro José Maria Florêncio. 


O Capela tinha já se apresentado no Festival do ano passado e enquanto eu conversava com o regente comentei da peça Orawa do compositor Wojcieck Kliar que eu tinha gostado muito. Daí ele disse que ia apresentar a peça outra vez porque era a mais moderna do repertório e sabia que o público não ia lembrar. Só que na hora da apresentação Florêncio explicou que o grupo ia reprisar a peça a pedido de uma pessoa do lugar, pensando que eu fosse local. Bom, certamente estávamos distante demais da Polônia...

Um dos momentos mais tocantes - em vários sentidos - do Festival de Inverno de Domingos Martins foi o da apresentação da Fames Jazz Band. As participações especiais de Antonio Paulo Filho e de Dalila Gusmão foram de dar um nó na garganta. O Toninho, como é conhecido o maestro, se fora nascido do lado de cima (levando-se em conta o mapa mundi tradicional) seria reconhecidamente uma lenda do jazz. Na foto vemos Dalila, nervosa com a estréia, assumindo os teclados da Jazz Band. Para quem não está entendo, a moça é deficiente visual e figura queridíssima na Faculdade de Música. Pura emoção!


Os pequeninos integrantes da Orquestra Jovem do Festival de Inverno encantaram o público. A coordenadora da oficina de prática de orquestra, Mozineide Schultz, estava impressionada com a seriedade e o profissionalismo dos meninos e meninas. Na foto tem a Manu, a menorzinha, esperando a hora de entrar em ação sob regência do professor e maestro Ademar Rocha. 


A penúltima atração do Festival de Inverno de Domingos Martins foi a dupla sertaneja Edson Mineiro e Goiano - que curiosamente é de Vila Velha - e o líder da banda tem aquele jeitão despachado e brincalhão das pessoas do interior. Como o público demorou um pouco pra se achegar do palco ele disparou o comentário: "Vem pra cá minha gente, num deixa nóis passá vergonha sozinho não!"

No detalhe: Edson chamando "meu povo e minha pova" pra dançar
 
Uma das participações mais surpreendentes e bonitas do Festival de Inverno de Domingos Martins foi de Jamie Machler (informação de Edilson Barboza diretor da Fames), uma norte americana de Seatle muito tímida que veio às terras tropico-capixabas para participar da oficina de sanfona e concertina - que aconteceu em Melgaço - e cantou uma canção de Luiz Gonzaga com um sotaque delicioso, mesmo porque a moça não entendia uma vírgula de nosso idioma.  


Edilson disse que a moça chorou copiosamente na hora de voltar pra gringolândia, talvez porque tenha descoberto o sentido da máxima proferida pelo saudoso Tom Jobim:

"Viver nos EUA é maravilhoso, mas é uma merda; viver no Brasil é uma merda, mas é maravilhoso!"



CURIOSIDADE INÚTIL: Chamava atenção em Domingos Martins o triciclo "Ghost Ride" (SIC), como diria meu amigo Paulo Sardenberg, mais enfeitado que sela de burro de cigano... 



O pessoal do mega famoso grupo Falamansa quando chegou ao Festival viu o grande painel com Luiz Gonzaga no palco e se intrigou com a outra figura, queriam saber quem era. Veio então um rapaz da produção descobrir e me pediram para explicar que aquele era Claude Debussy, compositor francês, o cara do impressionismo etc. Enquanto o salameléktrico rapaz agradecia, eu, que ia apresentar o show, aproveitei pra também tirar as minhas dúvidas: agora me fala um pouquinho quem é o Falamansa porque eu também não sei... 

O maestro Helder Trefzger conversando com o público durante a linda apresentação da Orquestra Camerata SESI, atrás vemos o painel que intrigou o Falamansa... Falassério...

quinta-feira, 28 de junho de 2012

RAPIDINHA CULTURAL URGENTE!

Amanhã - 29 de junho - tem lançamento de dois livros na Faculdade de Música Maurício de Oliveira. A violoncelista e professora da FAMES Raquel Rohr  aborda a obra para celo e piano do professor Alceu Camargo. Tive a satisfação de escrever a orelha para mais essa investida no universo do querido professor Alceu que não tive o prazer de conhecer, mas que é cada vez mais reconhecido como uma das figuras mais importantes no desenvolvimento da música clássica no Espírito Santo. Segue o convite...


CULTURA INÚTIL A GENTE SOMOS...

Você sabe o que é SPAM? Quem ainda não conheceu o grupo de comediantes Monthy Python não sabe o que está perdendo. O humor amalucado desses gringos é dos favoritos entre os nerds cibernéticos que se inspiraram no quadro abaixo para nomear aquelas mensagens em massa que todo mundo recebe propondo aumento de coisas que vão de sua conta bancária ao tamanho de sua genitália. A Letra Elektrônica também é cultura, mesmo que um pouco inútil...


sábado, 9 de junho de 2012

CRÔNICA DE DOMINGO: LOUCURA OU ESPERTEZA?

No verão de 2007 o prefeito da cidade de Aparecida - a “Meca” católica no interior de São Paulo - José Luiz Rodrigues (conhecido pelo apelido de Zé Louquinho), cansado de receber críticas por não conseguir resolver o problema das enchentes na cidade, numa reação irônica, polêmica, cínica etc. publicou uma Lei proibindo terminantemente a ocorrência das cheias em sua região. A medida flagrantemente tresloucada virou piada em todo o país, mas a mesma coisa acontece de tempos em tempos, e pouca gente se dá conta.

Guardadas as devidas proporções, parece que alguém atacou de “Zé Louquinho” no Palácio do Planalto quando o governo brasileiro editou a Lei que tornava obrigatório o ensino de música nas escolas. Assim como o alcaide de Aparecida, o governo federal decretou a resolução da questão sem apresentar soluções mínimas para os evidentes problemas na falta de estrutura das escolas públicas ou mesmo a maioria das privadas. No site do MEC está assim:

A Lei nº 11.769, publicada no Diário Oficial da União no dia 19, altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) — nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996 — e torna obrigatório o ensino de música no ensino fundamental e médio.

A Lei entrou em vigor tendo expectativa por parte dos alunos – tanto dos que desejavam aprender música, quanto dos que temiam ser obrigados a estudar – e gerou debate em nível nacional. Gestores e docentes se questionavam como é que iam fazer para por o projeto em prática. Na grande maioria das escolas não há espaço acusticamente adequado, nem professores habilitados e se houvesse tudo isso: com quais instrumentos os alunos haveriam de estudar?

Inexeqüível na prática a Lei soa mais oportunista do que maluca, porque surge num momento em que a demanda por estudo formal de música cresceu muito, especialmente na última década. Só para dar um ínfimo exemplo local, a Faculdade de Música do Espírito Santo, no início deste ano 2012, ofertou 115 vagas para o curso de iniciação musical e foi surpreendida por 1.900 inscrições. Foram forçados a decidir quais alunos seriam contemplados em um sorteio que lotou o pátio da instituição. 

Pátio da FAMES lotado! Sorteio das vagas para o Curso de Iniciação Musical de Piano e Canto
Sempre que as eleições se aproximam começam a surgir soluções para problemas pesquisados junto à população, algumas são até anunciadas na mídia e causam expectativa. Tempos depois fica claro que aquilo não vai dar em nada mesmo, começam as cobranças e as explicações tortas: que a licitação não deu certo, que o projeto continha erros, que isso ou aquilo. O bom seria se todos fossem mais cínicos e assumidos como o prefeito lá de Aparecida, pelo menos poupava o povo da sensação de sempre ser ludibriado pelo velho golpe da urna.