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domingo, 3 de abril de 2016

SACIANDO A LARICA JUVENIL

É difícil falar de um filme sem estragar o prazer de quem ainda não viu e confesso que tenho dificuldade de segurar essa onda, porque me encaixo num pequeno grupo que não liga pra esse tipo de coisa. Quer dizer, eu ligo, mas não vou deixar de ver um filme que tô a fim porque me contaram o final. Então se você ainda não viu o recém-lançado Batman Versus Superman, vou logo avisando: esse texto tem spoilers!


Como todo eterno fã maluco por gibis, quando apareceu o “Superman: O Filme” eu dei a doida. Estudava de tarde e disse que não ia à escola porque queria assistir à primeira sessão, naquela época nem sei se havia estreia de filme. Foi um catupê dos diabos! Tomei uns cascudos, fiquei de castigo e me acabei de berrar. A confa infernizou a soneca que mamãe costumava dar depois do almoço. Lá pelas tantas arrumaram alguém para me levar “naquela porcaria”.

Depois disso não me emendei mais, toda vez que aparece alguma coisa sobre o homem de aço eu fico logo de orelhas em pé. E eis que agora estreia o tão esperado e marqueteado Batman Versus Superman. Então fui lá assistir, ora se não. Exclusive, fiquei impressionado com a velocidade da modernidade, as lojas do Shopping já exibiam um monte de produtos do filme: camisetas, bonecos, máscaras, siri recheado e o cacete.


Quantos anos será que eu tinha, na época do velho Superman? Resolvi pesquisar e um nome me veio à mente: Hans Donner! Joguei no Google impressionado com minha memória de elefante, pois não é que me apareceu o marido da Globeleza? Sai fora capeta! O nome certo do diretor do filme era Richard Donner! Morri de sunga branca, mas descobri o ano do lançamento oficial da película: 1977. Só não sei quando chegou aqui, mais precisamente no saudoso (pero no mucho) Cine Paz.

Lembro no final de 1976 quando o Cid Moreira chamou a reportagem do Fantástico: “Um ano com dois setes: veja o que dizem os especialistas”... Ora, pois, pois... Se hoje nem os meteorologistas acertam uma previsão, imagina naquela época. Se bem que tinha o matemático Oswald de Souza... E também aquela ridícula zebrinha da loteca (loteca?). Putz! Depois dizem que a televisão piorou...

Senão vejamos: eu havia completado dez anos em 1975, então só faria doze anos no finalzinho de 77. Era, portanto, quase um pré-aborrescente. Tá achando que eu era veio pra dar piti por causa de super-herói? Fique sabendo que lá no “Suvaco da Perua” bem que tinha um cara que de vez em quando saia correndo pela Avenida Rio Branco vestido de Super-Homem com capa vermelha, siri recheado e o cacete (bisei!).


Ah, sei lá, mil coisas... Não gostei muito desse filme novo não. É escuro, o roteiro é confuso e me parece redundância dizer que o melhor é a Mulher Maravilha. Aliás, a atriz se chama Gal Gadot, uma modelo judia, israelense, sei-lá-das-quantas, mas o nome Gal é bacana, a Bahia é um barato. Na contra mão, achei chato e caricato o Lex Luthor de Jesse Eisenberg, por sinal, outro judeu... Já estava vendo a hora em que alguém ia circuncidar o bilau do super-homem com kriptonita.

A impressão que o filme dá é aquela quando a gente tá com muita fome e pede um sanduba-super-monstro (hoje chamam sanduba de lanche) daqueles que o Dionízio fazia no trailer do Dionicão (essa semana circulou a triste notícia de seu falecimento, aos 59 anos) e depois não consegue nem mastigar direito. O Bacon, saca? Pra quê o bacon, cara? Então, acho que foi excesso desse tipo de coisa.


E olha que eu nem falei ainda do Batman Afleck, porque o mais esquisito foi ver aquele cara do filme M-Buterfly (como é o nome dele?) no papel do Alfred! Vou te contar... Os cegos já não podem ver! Enfim, por ser um fã de carteirinha acho que acabei relevando algumas bolas fora do filme, mas com reservas Até porque o Super-homem morre no final pra ressuscitar no ano que vem. Se é que vão dar conta de lançar o próximo filme em um ano, duvi-dê-ô-dó.

Santa mancada, Batman! Contei o final!


Descanse em paz mestre-cuca Dionízio. Imagino o céu se enchendo do cheiro juvenil de seus Brandenburgues, saciando a larica noturna dos eternos adolescentes... 

sábado, 2 de janeiro de 2016

NÃO PERCA A OPORTUNIDADE!

Pode ler tranquilo que este texto não contém estraga prazeres (spoilers)

Fui assistir ao sétimo Guerra nas Estrelas, o subtitulado “Despertar da Força”. É bem difícil ignorar esse “campeão de bilheterias” – eu não consigo - um pouco por causa do marketing avassalador, outro tanto porque é uma boa série mesmo e seu sucesso estrondoso ficou marcado com sabre de luz no imaginário de minha geração.

Foi no saudoso – pero no mucho – Cine Paz onde travei conhecimento com essa saga estelar, seus heróis e vilões, o lado negro da força e a implícita brancura saxônica do bem, anterior à moda, portanto, equivocada em tempos politicamente corretos. A trilha sonora espetacular, os colecionáveis coadjuvantes robóticos, o peludo Shewbacca e seus uivos dolorosos e engraçados.

Chegam os anos da adolescência madura e a trilogia deságua na televisão aberta, agora rola a onda de ignorar porque é coisa do tempo de infância; mas vem um domingo de tarde, o Guerra nas Estrelas está sendo repetido pela milésima vez e a força te captura de novo: caraca, que legal! A vontade de ter um sabre de luz é grande, mas agora a moda são as espadas ninja.


Na virada do milênio o George Lucas resolve contar o início da saga e bate a desconfiança: “évem esse gringo de novo atrás do meu dinheiro”, mas é impossível escapar ao misto de convívio social e campanha publicitária. Enquanto isso, algumas lojas “geek” vendem réplicas bacanas do Millennium Falcon e do R2D2 que custam tão caro que o mais justo e viável é guardar apenas a lembrança.
                                                                                                                  
Virado no modo cinéfilo experiente, certos momentos da nova trilogia precedente decepcionam o adulto em que me tornei. São inúmeros os clichês desgastados e as expressões de lobo mau do Anakin Skaywalker (Hayden Christensen) – muito criticadas até hoje - acusam um ator mal escolhido; mas muitas outras coisas além dos penteados da senadora Padmé (Natalie Portman) são legais. Nessa altura da vida Guerra nas Estrelas faz parte da família, com seus defeitos e qualidades.


NOVAMENTE UMA NOVA ESPERANÇA

Quase quarenta anos depois é anunciada mais uma leva da velha saga estelar. Com um bocado de gente comentando comecei a me preparar para a ida ao cinema, aproveitei o feriado de Natal e revi os seis episódios anteriores. A oferta abundante de filmes em casa me deixa preguiçoso, porém, a aventura dentro dos conformes cinéfilos proporciona contato com o público que é sempre divertido, mesmo quando aborrecido.

Na fila do MacDonalds – prefiro sanduba e fritas que pipoca – bem na minha frente há duas mocinhas com o pai, um cara mais ou menos de minha idade. Distraído vejo mensagens no WhatsApp e Facebook, penso em fazer uma selfie e postar, mas a ideia soa boboca. Nem vi quando o pai das meninas se afastou e lá pelas tantas, naquele burburinho infernal, entreouvi a que parecia mais velha - regulavam pelos quinze anos - confidenciar:

-  ... E quando eu resolvi deixar ele não fez nada.

O pai voltou, as garotas mudaram de assunto, nada mais ouvi nem me foi permitido assuntar. Fosse eu Carlinhos de Oliveira teceria uma teia enorme de comentários a partir da maneira como as meninas movimentavam inconscientemente os braços e as pernas. Contidas entre a infância e a puberdade,      entre a proteção e a liberdade, entre o tédio comportado e o desejo do prazer.

Na livraria encontro uma edição capa dura enorme da obra From Hell do Alan Moore, penso até em comprar, mas custava uma baba e a história de Jack o Estripador não me interessa tanto assim. Aparece Caê Guimarães, que agora deve estar como eu escrevinhando sua experiência intergaláctica, trocamos ideia e desejamos sorrindo que nem crianças e crianços: “a força esteja conosco”. 

Somente no cinema tive certeza de que aquele é o lugar certo para assistir esse tipo de filme, porque é como ver um jogo no estádio. A plateia era formada por muitos fãns antigos, uma torcida fervorosa que fez da exibição uma espécie de conferência Jedi. As expressões de deleite e surpresa, os aplausos no auge dramático amplificaram a minha fruição da trama, transformaram uma simples ida ao cinema num momento mágico, como fora no passado e para o qual é sempre bom retornar.

Então não me pergunte se o filme é bom, se eu gostei ou se é mais do mesmo. Aliás, não me pergunte por que certas coisas são indispensáveis nessa vida complicada da gente. Vá lá e descubra, não quero estragar a surpresa de nenhum padawan à procura de um mestre Jedi que lhe desperte força suficiente para sair do conforto de sua galáxia distante. Considere o desejo frustrado daquela bela menina moça e seu namoradinho que conheceu na pele a velha máxima de Rabelais:

“A oportunidade é um cavalo sem rabo”.

domingo, 16 de junho de 2013

OUVIDO OBSOLETO



Uns têm ouvido absoluto, o meu é obsoleto...
Bolão, citado por Henrique Cazes

Cansado, mas muito cansado mesmo, deitei no sofá e tentei terminar de ver “Por trás do Candelabro” (Behind The Candelabra, 2013) a cinebriografia do polêmico caso de amor entre o pianista Liberace e um rapazinho que não sabia o que era um Popótis, mas sonhava em ser veterinário, aliás, como Hitler. Fama, grana e poder, uma provisão contínua de bofes e alguns implantes nas áreas certas, a vida de Liberace era; foi sua morte também, aliás, “my lifestyle determines my deathstyle”.

 
Chamado de Lee pelos íntimos, o pianista precursor do Glam e das fantasias de bailes de carnaval nunca saiu do armário, sua história é, portanto, triste, sufocada, EGOísta; é também fruto dos tempos atuais, quando o drama dos relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo não se presta mais a ser piadinha para relaxar as tensões da classe média. O ponto alto está na interpretação engajada de Michael Douglas e Matt Damon, um casal inusitado vamos combinar...

Acabei dormindo ali mesmo, o sofá ganhou, quer dizer, o sono venceu, capotei. Lugar de dormir é na cama e a alvorada seria com o Algazarra. Fui dormir e ao invés de ler a bíblia, peguei uma revistinha do Drácula, uma história idiota em que o senhor das trevas se envolvia com os nazistas. Não consegui ler nem dois quadros apaguei de vez.

Sabe quando você mergulha e vai voltando para a superfície e vê o céu lá em cima, mas não consegue ouvir nada porque seus ouvidos ainda estão debaixo d’água? Pois é, acordei assim, com aquela sensação de que um barulho estava lá na superfície, mas eu não sabia o que era. Porém, o barulho me acordou... E era uma mulher gemendo bem alto, “ais” e “uis” com aquela característica mesmo que vocês estão aí imaginando com suas mentes poluídas.

É coisa muito rara um barulho me despertar. Na verdade penso que o que me acordou não foi o som em si, mas o inusitado daqueles gemidos em meio ao silêncio. Fiquei lutando contra a curiosidade porque sabia que precisava continuar a dormir, descansar. Pensei em levantar e ver em qual apartamento estava rolando o babado, depois pensei em pegar o gravador e registrar aquela magistral e sonora trepada para depois mostrar pros amigos e, sobretudo, ao síndico.  

Quando acordei contei o caso para Alice, minha mulher, que achou super engraçado e disse que não tinha ouvido nada e ela tem o sono mais leve do que o meu. Esqueci e fomos tocar, quando voltamos vem Alice me dizer com aquela peculiar excitação: eu acho que eles tão transando de novo! Corremos para a área de serviço e lá estavam os gemidos: altos e espaçados...

Não eram de prazer, aquilo era dor! Havia alguém sofrendo em nosso prédio, enquanto eu pensava as mais cabeludas bobagens.

Comecei a matutar sobre as impressões erradas que temos de outras pessoas. Nessa nossa mania de adivinhar o que o outro está pensado e como não temos direito de nos meter na vida de ninguém. Não podemos viver das impressões sonoras que o mundo traz até nossos ouvidos, precisamos exercitar a cautela com relação às interpretações de nossa mente, porque, além de ficar uma hora dessas com cara de babaca, podemos, sem querer, sermos muito cruéis...


terça-feira, 11 de junho de 2013

13 COMÉDIAS ROMÂNTICAS PARA O DIA DOS NAMORADOS!



Para comemorar o dia dos namorados - aliás, tema do primeiro post da Letra Elektrônica no longínquo ano de 2008 quando então eu reclamava da data – resolvi fazer uma listinha com treze (pra dar sorte) comédias românticas. É filme pra fazer qualquer marmanjo suspirar disfarçadamente, quanto mais às meninas que já naturalmente nos obrigam a ir ao cinema com cara de emburrado ver filme meloso de Drew Barrymore.

Os filmes estão apresentados pela ordem do ano em que foram produzidos e não sei direito quando ou como foi que os vi - alguns no cinema e outros na televisão. Para mim é Impossível fazer um ranking entre esses filmes, todos me fizeram chorar de rir e de emoção, então os apresento por ordem de produção. Segue, porém, a pontuação do IMDB (Internet Movie Database) que é sempre muito influente como referência:

  1. Quanto Mais Quente Melhor (Some Like It Hot, 1959) IMDB: 8.4. Marlyn Monroe, Tony Curtiss e Jack Lemmon.
Quer ver como se faz uma comédia matadora? Junte um galã, um comediante e a maior gata da época, qualquer época. Pegue um roteiro que tenha uma premissa maluca, mas verossímil, embora muitas vezes isso não seja necessário, e, contando com uma química inexplicável temos “Quanto mais quente melhor”. Tudo deu certo. Nesse filme a Marilyn estabelece o padrão para o que seria chamado de “loira burra” e, com curvas abundantes e insinuantes quilinhos a mais, faria as modelos atuais parecerem postes ou gravetos.


  1. Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (Annie Hall, 1977) IMDB: 8.2. Woody Allen e Diane Keaton.
É preciso amadurecer para gostar desse filme, considerado a obra prima de Woody Allen. Tem piadas surpreendentes e bastante citadas como “masturbação é fazer sexo com a pessoa que a gente mais ama” e por aí vai. Algumas piadas ficaram datadas, mas o principal para se entender esse filme de título tão idiota em português (quem será que cometeu esse vacilo?) é saber que às vezes precisamos passar por grandes desilusões, separações dolorosas e criar calos no coração para entender e se identificar com uma história de amor.


 3. O Céu Pode Esperar (Heaven Can Wait, 1978) IMDB: 6.8
Warren Beatty e Julie Christie

É uma daqueles filmes que parecem ter alguma coisa de mágico e nos capta pelo eterno sentimento de separação de algo que nos complete, a lenda do amor romântico que seremos capazes de reconhecer mesmo após morrer e renascer. Não tão bem ranqueado quanto os outros, esse filme passava muito na televisão quando eu era guri, uma hora achei vendendo o DVD nas Lojas Americanas e passei a o rever eventualmente. O final é bonito de chorar.

 
  1. Victor ou Victória (Victor Victoria, 1982) IMDB: 7.4. Julie Andrews e James Gardner
  1. Tootsie (1982) IMDB: 7.4. Dustin Hoffman e Jessica Lange.
São duas produções muito românticas, matadoras e deliciosamente bem interpretadas, podem também serem entendidas uma como o inverso da outra, já que no primeiro uma mulher se faz passar por homem e no segundo é o contrário - como já disse, premissas malucas e atuações magníficas, especialmente do baixinho Dustin Hoffman - mas quem levou o Oscar de melhor atriz foi Jessica Lange, provando que além de linda era também talentosa.

 
Em Victor ou Victória temos uma trilha sonora muito inspirada do imortal Henri Mancini e Julie Andrews bela e respeitável em meio a uma história cheia de piadas contra o preconceito machista e referências à alegria do universo gay. O elenco de atores coadjuvantes é fabuloso, muito melhor do que os principais no que diz respeito á performance teatral, com destaque para Lesley Ann Warren e Robert Preston.

 
  1. Feitiço do Tempo (Groundhog Day, 1993) IMDB: 8.1Bill Murray e Andie MacDowell
Imagine-se preso no mesmo dia, e ainda por cima sendo o mal humorado do Bill Murray. O filme foi visto como uma metáfora por várias correntes religiosas, mesmo porque tem um lance do bem que o atravessa, de deixar o egoísmo de lado e valorizar as pessoas e seus sentimentos. É bonito, é romântico e é também muito engraçado, tudo na medida certa.

 
  1. Muito Barulho Por Nada (Much Ado About Nothing, 1993) IMDB: 7.3. Kenneth Branagh e Emma Thompson.
  1. Quatro Casamentos e um Funeral (Four Weddings and A Funeral, 1994) IMDB: 7.0. Hugh Grant e Andie MacDowell. 

Esses dois filmes têm em comum a força do casamento no ideário humano, a importância do encontro pré-estabelecido entre a virilidade masculina e o encanto feminino numa união que representa a fertilidade e a continuidade não só da raça humana, mas do eu, daquilo que somos e do quanto é importante festejar esse encontro. Especialmente a versão Shakespeareana de Branagh é celebração e êxtase num elenco estelar e inspiradíssimo. Lindos todos os dois.


  1. Melhor É Impossível (As Good As it Gets, 1997) IMDB: 7.7. Jack Nicholson e Helen Hunt
O amor e o mau humor, a superação não só de uma condição física, mas emocional na busca da realização e da capacidade acessar afeto. Para mim é a atuação definitiva de Jack Nicholson e a consagração merecida do talento de Helen Hunt. É, seguramente, o melhor filme daquela década onde tudo é perfeito e Mr. Nicholson ainda consegue extrapolar e roubar cada centímetro de cada cena...  



  1. Um lugar Chamado Notting Hill (Notting Hill, 1999) IMDB: 6.9. Hugh Grant e Julia Roberts
Equilíbrio perfeito entre o casal que forma o par romântico do elenco, atores coadjuvantes muito bem escolhidos em atuações hilárias e um roteiro verossímil e emotivo na medida certa. Uma produção, permeada pelo capricho, bom gosto e, especialmente, equilíbrio entre humor e emoção. A cena que mostra a passagem do tempo na rua em que acontece a feira é de uma criatividade e delicadeza que agora me pergunto qual a razão de ser tão pouco lembrada e valorizada.


  1. Alta Fidelidade (High Fidelity, 2000) IMDB: 7.5. John Cusack, Jack Black, etc...
É uma rara comédia romântica mais para meninos do que para meninas, como o é também o filme a seguir. Ora, os brutos também amam e, às vezes, abrem o coração. Também é um filme de amor pela música e a influência dela nas relações, a trilha sonora dos namoros é coisa que todo mundo guarda com carinho na memória. Mesmo que depois não sejamos mais assim, é muito legal de vez em quando alguém vir nos lembrar.


  1. Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembrança (Eternal Sunshine Of a Spotless Mind, 2004) Jim Carrey e Kate Winslet. IMDB: 8.4
Vi esse filme no cinema e passei um meio vexame, porque depois que ele acabou eu não conseguia parar de chorar e nunca nada do gênero havia acontecido comigo antes. Se você tem preconceito com Jim Carrey saiba que esse é um filme sério (melhor dizendo, as partes engraçadas não são com ele) e, de longe, a sua melhor atuação no cinema. O final é doloroso como um grito de amor que não quer mais calar.


  1. A Garota Ideal (Lars and The Real Girl, 2007) IMDB: 7.4. Ryan Gosling.

É o mais maluco da lista, disparadamente o mais criativo e o único que envolve o amor como um todo social. A dificuldade de amar ou, como em Melhor é Impossível, acessar o afeto é o tema, elaborado de maneira criativa e doce. Muitas vezes é preciso cruzar oceanos para encontrar o que precisamos, às vezes precisamos da ajuda dos outros, de compreensão e do carinho. É uma história sobre alteridade, bonita de doer e surpreendentemente inteligente; é pura fantasia, mas, depois de o ver, ficamos com muita vontade de ajudar o mundo a mudar para melhor. E esse deve ser o objetivo de qualquer obra de arte.
Feliz Dia dos Namorados Galera!

domingo, 2 de junho de 2013

COMO ESQUECER UMA NOITE INESQUECÍVEL?



O terceiro filme do Homem de Ferro é um bom entretenimento, como os outros foram, mas parece que dessa vez ficou faltando alguma coisa. Desde a investida inicial a grande qualidade desse que é o mais divertido da franquia Marvel foi ter conseguido equilibrar ação com humor e fazer a escolha de atores na medida certa. A “Pepper” de Gwyneth Poltrow deu novo gás a sua carreira e é um bom exemplo de que ao fazer menos a moça apareceu mais.

Mas nem quero ficar falando muito do Homem de Ferro III não, quero usar o vilão pra chegar num causo lá do passado, porque o grande lance desse filme é disparado a atuação, de novo, do genial Ben Kingsley. Não posso explicar porque o Mandarim é o melhor do filme pra mó de não estragar a diversão alheia, mesmo porque todo mundo sabe que em filme de ação quem rouba a cena é o vilão.

Kingsley debutou para o mundo com sua interpretação fabulosa de Gandhi. O filme foi lançado em 1983 e eu estava lá na pré-estreia (ou estreia, sei lá) que aconteceu no (eternamente em reforma) Teatro Glória que na época funcionava como cinema. Vi vários filmes legais lá, inclusive, numa dessas dei meu primeiro beijo, com uma colega de escola chamada... Cristina? Cristiane? Enfim, não lembro, mas acho que o filme era “Hair”. Depois tem gente que diz que eu tenho memória boa.

Gandhi foi a produção que bombou naquele ano, portanto, os mil lugares do Glória estavam ocupados. Fui assistir ao filme junto com minha querida e saudosa amiga Ingrid Vervloet, precocemente falecida ainda lá nos anos oitenta. Aquela era uma época em que a gente lia crítica de cinema no jornal, porque tinha o Amylton de Almeida - noves fora seu peculiar costume de elogiar os filmes do Van Dame – o saudoso autor de documentários premiados como “Os Pomeranos” e “Lugar de Toda a Pobreza” era um gênio, e como todos, ir atrás de seus conselhos era um perigo.

Como lembro agora com saudade daquela entrada do Glória! A bomboniere do foyer que parecia um guichê de estação de trem, cheia de bombons serenata e pastilha forte, a grossa cortina vermelha que dava para a sala de exibição, o piso de madeira, o cheiro do cinema! Quando conseguimos entrar a plateia estava já lotada, daí fomos nos aboletar no balcão, uma espécie de camarote lá em cima, de onde cuspiram na minha cabeça, salvo engano, no mesmo dia em que rolou aquele primeiro beijo.

Não me pergunte quem era o mestre de cerimônias daquela peculiar “Opening night” do Gandhi no Cine Glória, mas o cara convidou Amylton, como cineasta e entendido da coisa, para trazer um breve speach aos presentes. Eu-sei-lá quem teve a brilhante ideia de colocar discursos antes da plateia encarar um filme de três horas de duração. Obviamente, o jornalista foi recebido por um sonoro e gélido silêncio, se rolasse aplauso perigava um monte de gente resolver falar. Aquele suspense soou como um aviso, sinal amarelo, mas teve quem ousasse avançar.

A cena foi a seguinte: Amylton caminhou para o palco com um blazer colocado sobre os ombros, o que era uma espécie de moda entre os descolados da época, se é que vocês vão me entendendo. Duas pessoas então ousaram romper o constrangedor silêncio: um rapaz que aplaudiu - animado e solitário que nem ele só - e um garoto sem noção que se estrebuchou de rir da cena...

Esse garoto, como diria o Baleia, era eu!

Minha gargalhada ribombou, Ingrid me estapeou, Amylton falou e a vida seguiu. Quer dizer, o filme finalmente começou e se revelou interminável. Imagine só, depois de tanto entrevero, acabei dormindo e acordei com o tremendo barulho do motor à hélice de um hidroavião. Tomei um baita susto danado, quase caí da poltrona. 

De repente estava eu aqui e só agora me dei conta: era já trinta anos depois!