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quarta-feira, 6 de junho de 2012

NOS TEMPOS DO CAFÉ NO BULLYING!

Quando estava comentando a descriminalização da maconha, dois posts atrás, a intenção era comentar também sobre a criminalização do bullying. Não que uma coisa tenha a ver com a outra é que muda muito a realidade quando comparamos com trinta anos atrás. Quando eu era guri, bater e apanhar fazia parte do cotidiano de qualquer moleque e, às vezes, essa coisa não seguia bem uma sequência muito lógica não. Os gordinhos não eram necessariamente os mais perseguidos, nem o eram os mais afeminados.

Lembro de um que estudou comigo no Colégio Martim Lutero, lá pela quinta e sexta séries, que sentava nas primeiras carteiras da classe, usava óculos, era muito branco e delicado; penteava os cabelos por trás das orelhas e andava recatado e pudico como fosse uma pré-adolescente qualquer. Era tão feminino, que, depois de um tempo, passou a ser tratado como qualquer outra garota da classe. Diversão era xingar um colega de veado pra depois rebentar em pancadaria. Fazer isso com o outro não tinha a menor graça, aliás: o óbvio nunca era engraçado.

As meninas também não eram fáceis. Uma ficou “interessada” por mim e, no embalo da paixão irrealizável das crianças, quebrou uma garrafa de Coca-cola na minha cabeça na hora do recreio. Outras já se resolviam entre si e com os caras mais velhos, até trocavam seus favores sexuais por cigarros e maconha. Aliás, antes que vocês digam que estou inventando: foi uma das próprias que, depois de grande, me confidenciou isso. Até pediu segredo e, como vocês podem ler, estou aqui, silencioso como um túmulo. 

Tinha um menino sarará endemoniado que fora apelido de “Teba”, era uma peste e logo virou o saco de pancada oficial do colégio. O Rubinho mesmo, um pirralho atentado, tinha compulsão por surrar o infeliz. E o Zé Carneiro? Baita figurassa, um cara de, sei lá, mais de dois metros de altura, mas que chorava por qualquer coisa. E ninguém podia achar engraçado que o pau quebrava. Como não rir de um gigante chorando que nem criança? E ainda tinha o mesmo nome do cara mais palhaço do Sítio do Pica Pau Amarelo! Fazer o Zé chorar era a mais pura diversão.


Registro da galera reunida pra pelada no pátio do Colégio Martim Lutero, final dos anos setenta. Eu sou o de braços cruzados entre os que estão em pé, Teba é o primeiro em pé à esquerda com a bola debaixo do braço. Nessa foto tem ainda Rubens Elias Faiçal - de pernas cruzadas, o Gelson da Churrascaria Gramado, Eduardo - que tinha apelido de Babuíno e seu irmão que não lembro o nome, Henrique Bucher, Ruy e outros que nem imagino onde foram parar...

A galera do mal perturbava Zé Carneiro até ele começar a chorar e distribuir pescotapas ao acaso, Paris era uma festa! O professor ia à loucura tentando desengalfinhar a massa e despachava todo mundo pra sala do “coordenador”. Pois lá é que o Zé chorava mesmo! O  coordenador mandava parar com aquilo, dizia que não era atitude de homem. Sua psicologia funcionava direitinho: de soluços envergonhados o pranto do Zé se transformava em doídos uivos lancinantes. Era de cortar o coração e doer a garganta: a gente ria de passar mal... Até o infeliz do coordenador acabava rindo. Será que isso era bullying? Hoje capaz até de dar cadeia...

domingo, 12 de fevereiro de 2012

TELEMARKETING ESPERTO TRANSFORMA CLIENTE EM BURRO

Sexta passada eu estava chegando em casa de viagem e toca o telefone, eu nem bem tinha colocado as malas no chão. Do outro lado falava um cara com voz de quem pensa que é simpático dizendo que era da Oi e que tinha uma oferta imperdível para me fazer. Não sei por que, mas sou extremamente grosseiro quando um telemarketeiro me pega assim ao telefone, daí fui logo dizendo que não tinha o menor interesse no que quer que fosse que ele tivesse a me oferecer.

Para minha desagradável surpresa, o sujeito – de quem infelizmente não lembro o nome, porque gostaria muito de poder entrar em contato com a OI para me queixar – deu uma risadinha cínica e disparou o que certamente deveria ser o seu argumento fatal de vendedor bom pra cacete acostumado a lidar com gente e influenciar pessoas:

- O senhor não tem interesse em economizar dinheiro? – Cara: não sei se foi a risadinha, não sei se foi o tom da conversa, mas aquilo me ferveu o sangue, sabe? Fiquei tão puto com a ousadia daquele babaca que a única coisa que consegui dizer foi:

- Não meu amigo: o que eu não tenho é interesse em ficar aqui falando com você! – Desliguei o telefone com um gosto de fel e um sorriso nos lábios, minha esposa estrebuchava de rir da minha reação equina e da resposta cuspida à queima rosca. As pessoas gostam de ver quando os outros perdem a linha, mas não era só isso não: aquele infeliz vinha já pentelhando a paciência da coitada também a semana inteira, até sugerira uma visita à nossa casa para explicar suas “soluções inteligentes”.

De tudo para mim ficou apenas uma simples questão bastante incômoda: como é que pode um Zé Mané que eu não faço a menor idéia de quem seja tomar a liberdade de telefonar para minha casa sem que eu peça porcaria nenhuma ou dê autorização e ainda por cima me chamar de burro a título de argumentação de venda?

O pior é que, em minha raiva súbita, eu nem sequer me dei a chance de explicar pro cara o quanto sua atitude era para mim imbecil. E sabe o que mais? Instigados (motivados?), porcamente treinados e ainda remunerados por sujeitos que se dizem e realmente se imaginam de “nível superior” esses chatos profissionais estão soltos por aí impunes, gastando ouvidos ao alcance de uma simples linha telefônica...

Portanto amigos façam essa mensagem circular: a única maneira de conseguirmos diminuir a idiotice no mundo e fazer com que os idiotas, ou seus responsáveis, caiam na real que o são.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

UM SECRETÁRIO SEM EDUCAÇÃO...

A confusão começou mesmo quando desabou a chuva. Até então eu estava me sentindo um corredor em fim de maratona, ou então quando você chega em casa, entra no elevador e se dá conta de uma vontade inexplicável, premente, autoritária de correr pro banheiro... Mas quando a chuva caiu...

O sujeito atravessou a multidão - que oscilava fácil e velozmente entre ordem, resignação e revolta – e começou a gritar com as moças do balcão:

- Minha filha, você não está entendendo! Eu vou entrar nesse avião é agora!! – Falava e olhava à sua volta, um dos que seus olhos meio esbugalhados encontrou foram os meus. Não sei porque ele fazia isso, fico aqui me perguntando. Era como se quisesse mostrar ao redor que ele sim era quem sabia lidar com aquela situação e que, consequentemente, não era uma ridícula “vaquinha de presépio” como todos os demais que pacientemente esperavam uma solução.

O sujeito tinha um sotaque nordestino carregado como aqueles que a gente só vê no cinema ou nas novelas, “vice”? Tinha uma cabeça chata e calva que, dado o sotaque, lhe conferia um ar correto, como fora uma caracterização tradicional do personagem para aquela cena. De repente, em meu tédio conformado, esqueci dele. Lembrei quando ele desferiu uma tapa estrondosa no balcão e gritou que era Secretario de Educação de... Obviamente era um Estado do Nordeste... João Pessoa? É esse que tem a capital em Natal? Se for, então era esse. Ora vejam só: um Secretário de Educação...

Mamãe era boba que nem essas pessoas que gostam de viajar à Paris para comprar perfumes, vinhos e roupas. Ela sempre contava divertida o caso da amiga que, isso lá nos anos setenta, pegou um produto numa loja de conveniência na “Chanselises” e colocou na bolsa “esquecendo-se” de pagar. Na hora de sair da loja foi abordada gentilmente pelos seguranças que estavam ali justamente para ativar a memória dos mais desavisados. A mulher achou um absurdo ser incomodada e protestou em bom português com tempero capixaba:

- Vocês não podem fazer isso comigo! Eu sou primeira dama de Aracruz!!!   

Não sei bem o que o tal do Secretário “cabra-macho” queria em seu “piti” monumental. Talvez que o Aeroporto abrisse para levá-lo embora, que a chuva parasse com aquela má vontade dela e deixasse os aviões voltarem a pousar e decolar, que o caos virasse ordem, que o mundo finalmente se dignasse a girar ao seu redor porque um governador do nordeste o escolhera para representar a Educação não só em sua terra, mas em todo o país como ele bem o demonstrava ao inverso.

Depois de arrepiar para cima das meninas novinhas da Gol, no que ele auferia um incerto prazer masculino de poder, acabou indo para outra sala conversar com o gerente. Tinha já uns dois ou três caras de terno com fones o cercando quando isso aconteceu. Esqueci dele novamente, aliás, esquecemos. Quando passamos uma perrengue daquelas temos tendência a fazer amizades temporárias. Foi o Rodrigo que, passados sei lá, duas horas, lembrou.

- E aquele cabra esporrento que fim será que levou?

- Eu sei lá... - Nem queria saber, só queria ir embora para casa, mas isso não aconteceria tão cedo.

- Será que deram um jeito de colocar ele num vôo? – Com aquela chuva, pensei, só se fosse pro avião cair e depois colocar a culpa na divina providência.

Era por volta de sete da noite, eu estava do lado de fora do Aeroporto de Manaus esperando a Van que nos levaria ao hotel e conversava com o pessoal da Gol, quando o cara reapareceu, rodeado de alguns assessores, um até simpaticamente me pediu fogo para acender um cigarro, daí não pude deixar de ouvir a conversa que se seguiu.

- Olha aqui minha filha, aquela sua amiga hoje escapou por pouco de tomar umas lambadas, vice? Ela escapou por pouco! – Como ele tinha costume de falar e olhar para mim eu, já de saco cheio e estourado, comentei em voz alta pra todo mundo ouvir:

- Êh cabra macho hein? – Seus olhos esbugalharam minha pessoa e eu completei sorrindo, mas quase chamando pra porrada. – Bater em mulher é covardia rapá!

Demonstrando mais inteligência do que educação, dessa vez ele deu as costas e foi embora. Isso era por volta de sete da noite e o meu vôo só sairia às quatro da manhã... Depois ponderei com meus botões que eu fora bastante inconseqüente em minha abordagem corrosiva, não costumo fazer essas coisas, como disse, estava cansado como um corredor no fim da maratona que descobre que tem dez quilômetros extras para percorrer. É nessas horas que mora o perigo e que todo descuido pode ser fatal.

domingo, 19 de setembro de 2010

"OXIGÊNIO" - A GENEALOGIA DOS BABACAS

Tem coisas que a gente escuta por aí que nos tiram o fôlego e a presença de espírito: ficamos sem nem saber o que dizer. Eu estava num lugar muito bem longe daqui e fui apresentado a um senhor sorridente e falador, daqueles que se envolvem com a coisa pública porque estão convencidos de que o mundo realmente precisa muito de sua ajuda. Conheci várias pessoas assim em minha passagem por empresas públicas e privadas: presunçosos, arrogantes, egomaníacos, sem a mínima percepção do que realmente são e do quanto são mal vistos e criticados.

Conversava sobre os babacas com minha mulher, dizia que os sujeitos ricos e inescrupulosos eram uns babacas, ela aparteou lembrando que estes pelo menos faziam alguma coisa e ganhavam mais dinheiro do que muita gente boa inteligente. Babacas mesmo são esses caras que, apesar de tão brilhantes, não conseguem equalizar a vida financeira. Retirei uma tréplica da manga. “Babe: tem sujeitos que são babacas porque não fazem nada da vida e isso é certo. Têm outros que seria muito melhor que não fizessem, mas eles teimam em fazer e por isso mesmo serão sempre lembrados como uns babacas.”

Voltando ao tal senhorzinho daquela terra distante do primeiro parágrafo, fui apresentado como escritor e comentei que estava com um projeto para fazer uma segunda edição do meu livro sobre a OFES, atualmente esgotado e que tinha o inscrito em uma determinada Lei de Incentivo. Imediatamente tomei um balde de água fria:

- Ah, mas num vai passar não.

- Porque não?

- Ora, uma das principais regras para edição de livros nessa Lei é que seja inédito. Seu livro é inédito? – Eu tinha acabado de dizer que era uma segunda edição, mesmo assim balancei a cabeça negativamente. O sujeito prosseguiu falante e de certa maneira satisfeito por ter percebido em meu rosto aquele lampejo de decepção. Sua capacidade de causar esse sentimento nas pessoas lhe conferia uma sensação de poder da qual só babacas experientes têm capacidade de desfrutar. Pior foi o exemplo que ele me deu:

- Você veja só: eu fiz parte da comissão que selecionava esses livros não faz muito tempo, teve uma vez que me apareceu por lá um tal dum “livro de harmonia”. Sabe o que eu fiz? Fui pesquisar na Internet, descobri um monte de outros livros de harmonia e desclassifiquei o espertinho! - Minha surpresa foi tanta que fiquei mudo, aliás, o que dizer perante essa mega ignorância? Quais são os caminhos que levam à comissão de literatura uma pessoa que não sabe distinguir uma obra de um gênero? É esse o tipo de babaca que deveria ficar dentro de casa, o babaca que nem sabe que é babaca e que ainda exibe desserviço com orgulho.

- Contei a história para um amigo, dizendo de minha estupefação, afinal seria o mesmo que dizer que não se deve escrever um romance policial porque já tem um monte de outros.

- E o que você falou pra ele?

- Eu não falei nada, eu nem soube o que dizer. – Daí ele emendou solidário:

- A gente fica sem ar!

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

QUANDO A MÚSICA VIRA BARULHO E VOCÊ REFÉM

O PROGRAMA NACIONAL DE EDUCAÇÃO E CONTROLE DA POLUIÇÃO SONORA - SILÊNCIO foi instituído pela Resolução CONAMA nº 2, de 8/3/90 considerando a necessidade de estabelecer normas, métodos e ações para controlar o ruído excessivo que interfere na saúde e bem estar da população. A coordenação do programa SILÊNCIO compete ao IBAMA (atentem para o detalhe).


Amigos, senão vejamos:


Por mais piada pronta que pareça, um dos pontos prediletos dos bandeiraços e barulheiras dos candidatos a políticos ultimamente têm sido quase em frente à sede do IBAMA na Avenida Beira Mar. Tudo bem o cara não querer o voto do cidadão consciente, agora pra que despertar antipatia não é? Todos os anos são os mesmos chavões, as mesmas frases feitas, aqueles sambões sobre o cara ser o cara... Fico me perguntando até onde essas práticas ultrapassadas ainda atingem o eleitor e até onde são feitas simplesmente por mau costume.


O horário predileto da zoeira é o chamado happy hour, que nesse caso de feliz passa a não ter muita coisa. Em baixo do meu prédio o som de um certo candidato a deputado estadual estava tão alto e irritante que seria capaz de despertar a revolta de um defunto surdo e isso oito andares acima da rua! E sabe o que é pior no jingle da política? Ele gruda na memória musical como fosse uma gosma pegajosa: quando você vê a coisa tá lá te incomodando e voltando, voltando, repetindo... Ainda fica reverberando por dentro muito tempo depois do barulho ir embora.


Uma vez fiquei preso num engarrafamento com um destes carros de propaganda da deputada... Não digo o nome por, sei lá, preguiça? Enfim um carro tocava o jingle a toda altura, sim, ninguém tinha para onde correr e o DJ sabia disso. Sabe o que aconteceu? Nunca mais esqueci a “música”... “E todo mundo grita Rá-ré-rí-ró-Rô...” Vocês também devem conhecer o resto, faz tempo, mas lembro até hoje! Não sei se isso só acontece com quem estudou música e tem o ouvido mais sensível, sei lá.


Então, se levarmos em consideração o nosso mundo interior, a poluição sonora ganha dimensão de pesadelo, passa pro subjetivo. É como uma idéia fixa, diferente de um barulho qualquer, uma sirene de ambulância, por exemplo, não tem letra e melodia, não invade sua memória e sai fazendo estragos como um vírus de computador. A pessoa que resolve interferir no universo dessa maneira tem que saber o dano que está causando. Simplesmente não votar num candidato que está pouco se lixando pro seu bem estar não é resposta que chegue, deveria haver alguma outra forma de punição. Mas se nem com o Ibama eles se importam, quanto mais com a gente...

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

RAPIDINHAS SÓCIO CULTURAIS: ELEIÇÕES 2010

Mal começou o horário eleitoral pipocam as piadas sobre as bizarrices que aparecem na televisão. Sem dúvida o Tiririca "pior que tá não fica" é o campeão. Localmente falando muita gente tem destacado personalidades controversas como a "modelo" Andreia Schwartz, a persistência do excêntrico personagem Jardel dos Idosos, entre outros. Eu me surpreendi quando vi o Gratz fazendo propaganda para senador na televisão, é como diz o Simão com relação ao Maluf, prova que a Lei do ficha-limpa não pegou...

Em sua propaganda o ex-presidente da assembléia legislativa comenta que tem um blog na internet e que lá conta os podres de seus inimigos ou algo assim. O endereço é o que segue http://jcgratz.blogspot.com/ Os posts são poucos e todos recentes, comentam de uma reunião entre políticos adversários em tom de denúncia e uma outra história sobre o Banestes. A matéria principal, óbvio ululante, critica a Lei da Ficha Limpa. De tudo que vi bateu uma sensação de alívio, tempestade ao largo do navio e o eleitorado parece concordar, afinal o blog criado em julho tem apenas oito seguidores e no twitter apenas vinte e cinco.

Mas vamos falar de cultura local que é o que nos interessa, porque todos nós somos candidatos a público: Hoje tem concerto da Orquestra Filarmônica do Espírito Santo com regência de Helder Trefzger, sobrenome capaz de rivalizar consoantes com o de madame Schwartz, segue o convite:


Tem também um convite muito bacana de nosso queridão Charles Paper que está na França velhinho e vai se apresentar lá com transmissão pela Internet:



E pra finalization rola convite para o show Africanismo com Fabinho Carvalho e grupo Manguerê:

terça-feira, 20 de abril de 2010

SABE MAIS QUEM SABE QUE NÃO SABE, SABE?

Pessoas que pensam que sabem, não sabem e ainda pensam que o ignaro é você, é uma situação que rola. Essa questão chegou chegando pela via da lembrança e não da lambança. Estudei piano com um amigo querido e já falecido faz tempo, chamava-se Josué Louzada. Meu professor sempre tentava baixar a minha inflamada bola pianeira lembrando uma frase que até hoje não sei de quem é e que era mais ou menos assim:


“O mau aluno é aquele que pensa que já sabe tudo, se bobear vai querer ensinar ao professor aquilo que ele mesmo desconhece. Esse não vai dar em lugar nenhum, porque em sua arrogância fechou as portas ao conhecimento. Já o bom aluno é aquele que tem consciência que não sabe e por isso mesmo está em busca do conhecimento, esse está aberto a aprender e poderá seguir em frente. Existe também o aluno excepcional, o dito gênio, este sabe e nem sabe que sabe.”


Lembrei de algumas situações engraçadas que passei com pessoas que teimavam estarem certas e que depois de muito brigar chegavam a conclusão de que o “burro” era eu. Tive uma estagiária que teimou comigo – ela da geração Internet – que o verso de um envelope é o lugar onde se escreve o nome do remetente e que a frente seria aquele lugar onde se abre e fecha, por exemplo, uma carta. Nem se Jesus voltasse – a menina era evangélica – teria a convencido do contrário. Eu bem que tentei, mesmo porque estava sendo preparada uma correspondência para enviar e se as etiquetas com nomes de remetente e destinatário ficassem invertidas seria uma baita confusão. No final deixei ela resmungando minha burrice e colando as etiquetas no lugar certo ainda que ela o denominasse errado.



Outra situação comum é a pessoa entrar numa de que você não sabe nada sobre um determinado assunto o qual você domina e o infeliz, supondo ignorância, resolve te testar. Trabalhei em um evento em que apareceu um bebum chato pra cacete – desculpe a redundância – que após tomar uns patrázes resolveu testar meu conhecimento perguntando quantas sinfonias Beethoven tinha composto. Pensando estar conversando com algum musicólogo querendo me aprontar uma pegadinha, disse que se levarmos em consideração a décima que ele havia deixado esboços, inclusive com uma gravação muito comentada... Fui interrompido pelo chato, agora feliz da vida:



- Rá! Num falei que você num sabia de nada! Beethoven só compôs nove sinfonias. Ruárarara! – Que situação bacana, o cara tinha me pegado na contra-mão do conhecimento. Claro que Beethoven compôs nove sinfonias, saber que existem gravações da décima, feita a partir de esboços e querer a incluir no ciclo "oficial" seria um preciosismo que me desqualificaria, por exemplo, em algum teste escrito. O chato foi pensar que estava conversando com alguém que entendia da coisa e no final passar por ignorante, afinal, saber que Beethoven escreveu nove sinfonias é mole, queria ver me responder quantas escreveu Chopin ou Villa Lobos...


Quando esse tipo de situação ou discussão chega no campo da espiritualidade é que a vaca vai mesmo pro brejo. Não são poucos, especialmente os recém-convertidos, plenamente convencidos de suas crenças e que se vêem no dever de as disseminar pelo mundo, supondo antecipadamente que o outro, qualquer outro, é um ignorante e que precisa de sua pregação para se redimir. Pior é quando você dá uma de filósofo elegante para se esquivar do chato e fala “Amigo, eu só sei que nada sei”. Pronto. Bastou admitir sua ignorância e aquele que pensa que sabe – muito provavelmente desconhecendo Sócrates – se vê no direito bíblico de salvar sua alma.


Só a título de “coda”, encontrei hoje uma frase em uma agenda antiga que resume para mim essa questão da espiritualidade, porque estou longe de saber alguma coisa – fora esse negócio das sinfonias de Beethoven - eu continuo sem saber e buscando...


“Os pecados cometidos pelo homem não são uma grande culpa, pois a tentação é poderosa e suas forças irrisórias; a grande culpa do homem é que a cada momento ele pode seguir o caminho de retorno e não o faz” “Quellenangabe”

sexta-feira, 2 de abril de 2010

RODA, RODA, RODA E ANVISA! DOIS MINUTOS PARA O COMERCIAL ELEITORAL


Porque, se em lenho verde fazem isto, que será no lenho seco?

Lucas 31


O sonho de menina dela era comprar um carro pra chamar de seu, o chamado carro zero. Juntou dinheiro, trabalhou duro, mas ainda faltava um bocado de bufunfa pra chegar onde queria. Fuçando daqui e de lá foi aconselhada pelos economistas de plantão a fazer um consórcio e com aquela grana amealhada dar o lance. Eis aí a ponte entre o sonho e a realidade. Na primeira assembléia um maluco deu um lance maior que o seu, na segunda empatou com outro cara e perdeu no sorteio, coisas da vida.


Aquela semana começou infernal, o calor inclusive: era novamente deadline de entrega de projetos, mais o trabalho regular como professor, fora os bicos que me obrigavam a trajar terno o dia inteiro. Não fora a estufa, nada de mais: peguei um trampo que ia de segunda a quarta o dia inteiro e tinha ainda as aulas de noite. Na segunda-feira o negócio demorou, era para ter acabado 18 horas. Quando já era sete da noite fui conversar com meu contratante, não podia ficar nem mais um minuto sequer. Saí de lá que nem um doido. Precisava pegar o carro e vazar para começar a queimar o óleo da meia-noite, veio a notícia pelo celular:


- O carro quebrou! Eu pelejei com ele o dia inteiro e agora ele nem liga. – O fato dela dizer que havia “pelejado com o carro” me deixou preocupado, mas não quis entrar no mérito da discussão sem constatar a real situação do infeliz... Bateria arriada, mistério configurado: fazer o quê àquela hora da noite? Saí que nem um doido de terno e gravata mesmo atrás de um buzão, quando cheguei na universidade faltavam dez minutos para minha aula começar, peguei o finalzinho da festa de recepção aos calouros...


No dia seguinte a maratona seguia impávida, procurei a garantia da bateria e o telefone do cara que me vendeu e consegui usar a hora do almoço para levar o carro ao conserto, passei a sobreviver às custas de coffe-break. A ventoinha tinha dado um tilt e o cebolão não era sopa. De antemão falei que precisaria sair no horário previamente combinado, felizmente a oficina mecânica ficava três quadras de onde estávamos. O mistério continuava, nada de solução para a ventoinha desembestada. Seis da tarde vazo para a universidade com minha mulher de carona e orientações para retirar um fusível e voltar com o carro no dia seguinte: toca o celular dela:


- Como assim advogado? O que é que está acontecendo? – A Agência Nacional da Vigilância Sanitária - Anvisa tinha baixado com a Polícia Federal e a imprensa à tiracolo na lojinha de produtos naturais do cunhadão e estava apreendendo todas as mercadorias, todo o trabalho suado dos últimos anos, mas o pior ainda estava por vir: levaram todo mundo preso! Demoramos um tempo a entender a real dimensão dessa confusão, mesmo porquê parecia que tínhamos entrado num filme de Felini com roteiro de Kafka.


No dia seguinte vimos incrédulos a confa toda na televisão, uma cobertura até respeitosa feita logo cedo pela Rede Gazeta. Só que o delegado - somente a titulo de curiosidade Feliniana e não mórbida: um anão - havia decretado a prisão de marido, esposa e um colega, sem direito a fiança, crime hediondo. Hô yeah! Boris ... E o carro ainda estava com a ventoinha disparada. Não conseguíamos acreditar em tamanho absurdo. De todos meus cunhados, aquele é o mais careta, evangélico, não bebe, não fuma e nem come carne. Como é que pode estar preso no DPJ de Vila Velha, onde cabem trinta pessoas e tem cento e cinqüenta?


Mas o delegado decretou a prisão em flagrante, passaram aquela noite algemados, humilhados e foram por fim encarcerados sem direito a fiança com todo o tipo de bandidos. Pessoas de bem que dedicaram a vida inteira à religião e não ofereciam risco nenhuma à sociedade, acusados de crime hediondo por conta de alguns produtos naturais que eram vendidos com aqueles dizeres: bom pra isso, bom pra aquilo. Gente eu não estou mentindo não, isso aconteceu. E sabe o que é pior? A maior parte da mídia embarcou sem nem ouvir o outro lado, aquele dentuço mesmo do programa Balanço Geral ficou lá gritando: cadeia neles! Bom, cada sociedade tem seus Ratinhos e Datenas que merecem.


O deadline do projeto era na sexta e a quinta-feira foi de total correria para tentar libertar aquela família, sabe-se lá o que poderia acontecer com eles dentro da cadeia. Some-se a isso que seus filhinhos, uma menina de seis anos e um menino de dois vieram ficar conosco. As crianças estavam apavoradas com o súbito desaparecimento dos pais, vigiavam uma a outra como se tivessem medo de mais alguém desaparecer do nada. E procure-se advogados para o caso, teve um que pediu setenta mil, outros ponderaram que um mais efetivo custaria por volta de vinte e cinco. Era como um seqüestro, resgate estipulado para a liberdade!


Não sei exatamente em que dia da confusão veio a notícia: o sujeito do lance empatado tinha furado. Ela havia sido contemplada! O carro zero era um sonho que se materializava no meio daquele furacão e foi enfiado no décimo oitavo escaninho até segunda ordem. Eu tinha duas palestras para apresentar naquela quinta-feira, sendo que uma eu nem havia ainda organizado nada. Passei a manhã inteira escrevendo e montando um data show, enquanto os amigos e familiares corriam entre cartórios e fóruns de cinco cidades atrás de certidões que comprovam a idoneidade do que para nós era o óbvio ululante.


E a Anvisa? Ficou bem na fita não é? Defendeu os frascos e os comprimidos com sua operação “Erva Daninha”. Apareceram na televisão, deram entrevistas, mostraram serviço. Nas costas sabem de quem? Sim, do cidadão idôneo, daquele trabalhador indefeso que não oferece perigo nem resistência, que está ali pagando impostos e lutando pelo pão de cada dia. Esses são bons de se achacar! Cadeia neles! O que será que os vizinhos e amigos não tão chegados estariam pensado de toda essa confusão? Ora, pensamos o pior porque tememos o pior também. Julgamos mal para nos sentirmos melhor.


O projeto foi entregue no apagar das luzes, sabe-se-lá como, mas foi. Meus cunhados só ganharam a liberdade na terça de noite, exatamente uma semana depois da confusão começar. E a Anvisa? Continuou sua turnê por aqui fechando farmácias, drogarias e laboratórios como se fossem bocas-de-fumo. Baixou até na Vila Rubim, curiosamente ali não prendeu ninguém e olha que tem erva por lá que até Deus duvida.


No final me deu uma puta revolta e até medo de ser brasileiro, de constatar assustado que a hipocrisia de meia dúzia pode solapar impunemente a liberdade e a dignidade de gente do bem como eu e como você. Se queriam fazer demagogia em ano de eleição - O QUE SUSPEITAMOS - deram um tiro de canhão no pé. Nesta situação que está aí eu não voto nem para síndico da Casa do Chapéu. Aliás, eles é que deveriam ir presos. Cadeia neles! Cadeia Neles!!!


Amigos se alguém por aí tiver o email do presidente Lula, da Dilma, do Ministro da Saúde e do rapaz do Balanço Geral, façam o favor de reenviar essa mensagem para eles. Ou melhor ainda: reenviem para todo mundo do mundo. Não é nada, não é nada, mas uma hora a gente vai sanar essa injustiça!

domingo, 21 de março de 2010

O LADO DE FORA OU QUANDO CAI A FICHA

O lado de fora. A luz forte da manhã. O dia começando para um monte de gente, mas não para mim, eu estava deixando o trabalho naquele instante e pensei: cara isso é loucura. Comecei a desejar uma vida normal, dormir cedo, acordar, tomar café e ir pro trabalho.


Henrique Cazes cita Bolão em seu livro, um frasista que disse o seguinte “Na minha vida de músico eu já fiz de tudo, eu só não fiz sucesso”. Daí me ocorreu de parodiar uma velha canção e dizer: “Todo artista tem que ir aonde a grana está”.


Na minha roda de amizades instrumentais sempre imperou um certo metaleirismo, já falei sobre isso, não é música para ouvir, é música para calar e abalar. Não é música de protesto, é um som que gera protesto e talvez esse seja seu aspecto mais divertido.


Resolvemos então montar uma banda com música dos anos cinqüenta e sessenta, o repertório ia de Paul Lanka a The Everly Brothers, mas o grosso focava a fase inicial do Elvis. Não causamos muita espécie e eu achava que a culpa era da sonoridade estridente, mas talvez fosse por eu ser o cantor da banda, afinal, entoar músicas do Rei (falo de Elvis Presley) nunca foi mesmo o meu forte.


O cachê vinha do couvert e aquela noite estava um verdadeiro fracasso, três ou quatro gatos pingados espalhados pelas mesas e a gente lá tocando a toda altura sessenta músicas divididas em três sets de vinte como fosse para uma multidão.


Duas da manhã era geralmente o horário em que o público rareava e o repertório se esgotava, de repente o boteco lotou, parecia até sacanagem. Uma turma de formandos rodara a cidade e o único lugar aberto que encontraram foi o bar em que estávamos.


Fazer o quê? Tínhamos que faturar aquela grana. Resolvemos começar outra vez: mais sessenta canções de fio a pavio. Não preciso nem mencionar que durante a noite vai-se tomando umas e outras, nada de mais, mas dobrando o turno a coisa ia ficar feia.


Com aquela turma de alegres formandos embriagados o bar virou uma zona, logo os outros notívagos que vagavam que nem almas penadas foram parar lá também. Surgiu um primo meu completamente louco, entrou engatinhando no palco, queria cantar ou dedicar uma canção para uma loira meio gorducha que deveria ser o seu fim de noite.


O nome do lugar era Píer Sielemann, ou algo assim, ficava no pé do Barro Vermelho e era escuro que nem breu lá dentro. Os fundos da casa davam para o canal de Camburi, fora em tempos remotos uma casa de “conveniências” e o novo dono manteve a atmosfera obscura.


No final da noite já era dia, mas não teve galo cantando e se tivesse também quem é que ia escutar? Durma-se com um barulho destes. 120 músicas depois eu estava podre, bêbado e pedindo para morrer de mansinho, mas faturamos um gordo cachê, o Beto, dono do bar estava feliz da vida.


Foi só quando saímos daquele inferninho que vimos o céu azul, as nuvens brancas, era dia claro. Bateu aquela sensação de loucura, saca? Não dava pra continuar assim. Foi naquele instante que eu resolvi escalar a outra face da montanha, mas essa é uma história que vai ficar pra depois.


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

CANÇÃO NO MUNDO DAS ILUSÕES PERDIDAS


Existe em algum lugar uma canção de Buda que li faz tempo e na hora que entrei numas de usar neste texto não consegui mais achar em nenhum dos livros suspeitos. Era um diálogo do mestre indiano com um comerciante, enquanto um cantava as alegrias do ter o outro rebatia com a liberdade de não possuir. Faz pouco tempo recebi um texto que exaltava a superioridade do pensamento dos “ricos” como se estes fossem grandes filósofos, era uma sugestão bem intencionada que defendia mudanças em nossa vida para nos tornarmos mais abastados também. Na hora lembrei daquela passagem budista, me deu vontade de desconstruir o texto ingênuo recebido, fazer paralelos sarcásticos ofensivos, mas desisti por respeito àquela pessoa ou talvez por não me achar mesmo à altura da tarefa.


A trajetória e a companhia das pessoas simples sempre me agradaram e interessaram mais do que a de pessoas poderosas. Sei lá, me parecem mais dignas de admiração, além do mais não existe esse negócio de pessoa simples. Apesar de dividirmos o mundo entre os que têm grana ou não, valorizando os primeiros, mais tarde descobrimos que esse “ter” dinheiro pode ser relativo... Lembram do Homem Aranha que apareceu por aqui faz coisa de uns dez anos? Era um cara descolado e antenado que nem o Chapolim Colorado, estreou nos principais points da cidade a bordo de um carrão importado, pagou generosamente birita pra uns e outros - o dinheiro não era dele mesmo - logo estava muito bem relacionado com a rapaziada bem de vida da cidade. Ao que parece não foram muitos os que questionaram o que aquele completo estranho fazia para ostentar um padrão de vida milionário.


Ganhando a confiança de uns e outras o Homem Aranha foi se tornando uma figura popular, passou o rodo numa gatinha conhecida minha que até o levou em casa pra conhecer a futura sogra. Não demorou e estava sendo convidado para freqüentar casas e apartamentos dos endinheirados da cidade que - mal sabiam eles, ou melhor, depois descobriu-se - nada mais eram do que visitas profissionais de reconhecimento. Passado um tempo o gatuno voltava nas casas que o interessaram escalando as paredes dos prédios, às vezes grandes alturas, coberturas. Foi aí que ganhou a alcunha de Homem Aranha. Minha amiga só descobriu a verdadeira ocupação de seu amado quando o infeliz apareceu em todas as televisões locais, não mais nos chiquérrimos eventos sociais, mas sim na cobertura policial, aquela mesma seguida da cotação do café.


O problema de valorizar as aparências, óbvio ululante, é que elas nos enganam. Quando coloco um terno algumas pessoas me tratam como se fosse um deputado, tudo quanto é mendigo vem me pedir esmola. Daí uma amiga sacana falou: “Isso é porque eles não viram o seu carro Juca!” Tenho um amigo que - apesar do perfil certinho - foi muito malucão quando jovem, fez todo o tipo de besteiras. À medida que amadurecia, foi abandonando os vícios mais nefastos, levando uma vida mais responsável, mas adotando - como se pra compensar - um visual cada vez mais maluco. Fez mil tatuagens, deixou cabelo e barba crescer. Hoje pessoas vêm comentar comigo o quanto nosso amigo ficou doido sem saber que na verdade se deu justamente o contrário...


Enquanto isso, com um bom papo e o visual certo os bandidos continuam a abrir portas e destruir vidas sem o necessário questionamento. Você mesmo já parou para se perguntar de onde é que veio a fortuna de algumas pessoas ditas “ricas”? Pode ser até alguém próximo de você que endinheirou de forma meio sem sentido ou outro que posa de rico faz tempo e não se sabe de onde o dinheiro vem, sempre tem alguma explicação que ninguém vai se dar ao trabalho de verificar, mesmo porque a festa em torno da opulência simplesmente abafa o questionamento... É aí que a bandidagem deita e rola! Imagine, ser um sociopata extremamente perigoso e ao mesmo tempo adorado e respeitado por todos! E o pior é que isso acontece, todos temos nossas histórias pra contar...


Amigos, não me entendam mal, não estou dizendo que é feio ser rico ou que a pobreza pode ser uma espécie de virtude (tá doido!), gostaria muito que a riqueza banalizasse para todos e que pudéssemos morar com conforto, andar de carrão, ter assistência médica, viajar para Europa todo ano - ou para onde nos desse na telha - e ter a liberdade de só fazer o que estivesse a fim, sem as preocupações do trabalho e do dia a dia. Talvez, se isso ocorresse, passaríamos a valorizar o caráter e a decência das pessoas, e - como acontece com os sábios - cultuar as mentes que criam coisas belas e úteis e as coisas simples da vida que são a chave da plenitude e a prova real de nossa humanidade.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

NAVEGAR É PRECISO: NEM QUE SEJA PELA NET


Nunca fiquei tanto tempo sem escrever nem postar na Letra Elektrônica, nunca tantos fizeram tão pouco por tantos em tão pouco tempo. Mas foi a chuva que choveu, o sol que rachou, o estômago que embrulhou e o tempo que de repente me desapareceu, passou, escorreu por entre os dedos. Que diferença faz? Por causa daquela chuva medonha a empresa que me fornecia Internet ficou semanas fora do ar. Que loucura impensável é hoje ser um excluído virtual! É como se desaparecêssemos do mundo real também. Pessoas não conseguem mais nos contatar, muito menos conseguimos responder, simplesmente ridículo e impensável comparado com o que vivíamos a dez, quinze anos, mas hoje é assim.


Daí, puto da vida com a situação e empolgadão com a tal da banda larga resolvi luxar e contratar os tais 10 megas da GVT, ia ter até que mudar o número da linha de telefone que está comigo faz coisa de trinta anos, mas que diferença isso faz? Hoje em dia as pessoas se falam e se encontram mesmo é pela Internet, o telefone que se dane! Pra começar, apesar de tanta velocidade, levaram sete dias fúteis (eu sei que parece conta de mentiroso) pra vir aqui instalar a parada: o que se revelou impossível. No meio do caminho tinha uma tubulação obstruída - canos silenciosos, nervosa calmaria - quando viram o problema me largaram falando sozinho, a velocidade deles é outra meu irmão! Uma alternativa que me deram foi a de cancelar o pedido, achei simpática, inclusive. Ainda assim reclamei, mas o supervisor local nem quis avaliar a situação, mandou dizer que eu teria que fazer a obra - ou seja: quebrar piso e paredes do corredor do meu prédio - para ter a honra de ser atendido. São as a dores e as delícias de se abocanhar um mercado e navegar em céu de brigadeiro.


Pior foi a tal da Oi que já dominou esse mercado também, se não me engano foi a última a dropar essa onda da Internet com pacotes como o Oi Conta Total que virou febre a coisa de um ano, passando a perna na concorrência. A linha telefônica que uso vem lá da época da saudosa Telest, naquele tempo obscuro uma linha destas valia um dinheirão e não era nada fácil de conseguir, hoje é moleza o difícil é pagar a conta. Fui lá ver questões de portabilidade, na mesma rua do Rosário de tantas lembranças infantis, lugar onde meus pais tiveram uma redação do Jornal da Cidade nos anos setenta. Fui recepcionado por um grupo de três ou quatro patetas vestidos de palhaços que faziam uma fuzarca de dar dó, era uma e pouco da tarde, estava quente pra burro e eu ainda não tinha almoçado...


Não a Oi não resolveria meu problema, nem de “obas e olás”, nem um cantinho e um violão, nenhum orixá pra fazer uma rima. Que saco! Quando a GVT furou, resolvi apelar para o Velox, mas assim me disseram que no meu prédio não tinha barramento para proceder a instalação, me senti um morador do “cafundó dos Judas” como diria Lavínia, aquela velha desgrenhada. O pior de tudo é ser atendido por uma fulana com voz assexuada de máquina de gravação eletrônica que nem sabe onde fica Bento Ferreira. E eu falava: querida, eu moro a duas quadras da Prefeitura da Capital do Estado, como assim aqui não tem barramento, como assim o sistema não atende? Bom, eles nem tchunfs...


Quem acabou me salvando foi a Net, fato curioso é que vivi a mesma situação com eles há pouco mais de um ano quando também dropavam sozinhos a onda do mercado, fartos de demanda e clientes e não se coçaram muito em achar uma solução para meu problema, acabei sendo salvo pela SuperI que lutava cliente a cliente por uma fatia do mercado, pena que entraram nessa barafunda. Esse desprezo infantil de quem está bombando me lembrou aquela piada do português que ouviu falar que no Brasil o sujeito tropeçava no dinheiro pela rua, daí ele emigrou e, por alguma coincidência, logo que desembarcou se deparou com uma grande maçaroca do vil metal caída no chão, deu de ombros e comentou cansado da travessia atlântica: amanhã começo a catar.