Verão doido, sol de
lascar, calor dos infernos! E a água mineral que de repente acabou? Ligo correndo
pra um telefone qualquer daqueles pregados na porta da geladeira e a moça do
outro lado disse que não me conhecia. Então empatamos querida, darling, fófis:
não faço a menor ideia de quem você seja. Imagino que trabalhe para um dessas empresas
que entregam garrafões de água e botijas (cujo?) de gás. Cerveja talvez? Minha curiosidade
não chega a tanto.
- Moço: pro rapaz
bater a água aí na sua casa ele vai verificar a validade do galão. – Estranhei
a frase como um todo, fiz a moça – tinha voz de moça - repetir só de sacanagem. E não é que ela repetiu? Então eu disse um distante "tudo bem" e desliguei com aquele sorriso sacana
nos lábios, enquanto procurava no diabo do galão – que nós chamamos de garrafão
- a sua validade da qual eu nem suspeitava e descobri que era 2013. Numa viagem
mental relaxei pensando que 2013 ainda estivesse muito longe. Minha mulher
passou comentando sonolenta que ficar sem água de manhã é pior do que assistir
ao Big Brother. Penso que ao último há várias alternativas, para a água que
acabou só nos resta esperar o rapaz vir “bater”.
Não sei se vocês
repararam: mas esse “bater a água” que ela usou foi o negócio que me deixou com
aquela sensação esquisita de Inspetor Clouseau. Comecei a pensar sobre essa
palavra “bater”, aliás, um verbo que para mim nunca foi grande coisa, talvez
pela sua ligação reativa com aquele outro, o apanhar, que me remete a lembranças
infantis mal ranqueadas. Danei a matutar,
desenvolver o tema, e descobri que o verbo “bater” pode ser usado numa embaralhada de situações, é uma espécie de coringa do PT-BR.
O nosso coração bate,
tem gente mais sofisticada que diz que ele pulsa e pros mais animadinhos e
escalafobéticos ele repulsa na batida dos tambores e na animação do carnaval
que se aproxima. O liquidificador, ao invés de misturar o suco, bate. Os carros
não colidem, batem. O relógio bateu não sei quantas horas da madrugada. Fulano saiu
daqui e foi bater lá em Guriri. É comum dizer que alguém bateu o recorde. Enfim, o verbo bater é
usado até para a masturbação. Inclusive a mental, especialmente a minha, como nesse
pequeno texto “batido” nas teclas do computador, talvez para clarear as ideias
numa puta manhã de sol.
Inspirada por Rubem Braga...
Homenagem pelo seu aniversário de 100 anos, no próximo dia 12 de janeiro. Coisa que, espero, também não seja uma ideia muito “batida”...
Vitória, 09 de janeiro
de 2013.