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sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

DEMÔNIO ENTRE OS DEMÔNIOS


Na primavera de 1978 o escritor José Carlos Oliveira (1934-1986) veio se esconder em Vitória para tentar dar um tempo das esbórnias no Rio de Janeiro. Ficou hospedado na residência oficial do Governador do Estado, seu dileto amigo Élcio Álvares, por quem tinha grande respeito. Vide o que diz na página 103 de seu Diário Selvagem:

“Élcio se deitou na cama ao lado da minha às 21h e percebi sua ansiedade. (...) ele morre de medo de voar. (...) Decidido: se for só, irei com ele para lhe dar apoio moral. É o mínimo que posso fazer por esse amigo que desde os 15 anos se mostra psicologicamente cristalino. O bom e honrado rapaz (...) ele guarda as virtudes da adolescência (...) cego e surdo à malícia, à perfídia, à natureza maligna do outro. Desconheço de que maneira se esgueirou entre os demônios em Brasília e alcançou o Palácio Anchieta contra toda expectativa.

Carlinhos diz não saber, mas – pág. 122 - acabou fornecendo uma pista para responder esta questão:

“Atenção: D.J.M., marido de M.N. e preterido pelo Élcio quando desejava ser vice-governador, é agente do SNI ou DOPS ou DOI-Codi, ou tudo ao mesmo tempo.”

Segundo o casal dono do Jornal da Cidade (matutino extinto após o assassinato de Maria Nilce em 1989), Élcio se “esgueirou entre os demônios de Brasília” através da influência de Djalma Juarez Magalhães (O tal D.J.M.), com a promessa de apontá-lo como vice (Segundo artigo de Ueber José de Oliveira: o Presidente da República concedia a prerrogativa ao governador para pessoalmente escolher o seu Vice). Sabe-se-lá-porque Élcio Álvares "preteriu" o jornalista e acabou apontando Carlos Alberto Lindenberg "Carlito" Von Schilgen (1927-1992). 

http://www.periodicos.ufes.br/dimensoes/article/viewFile/6160/4501

Maria Nilce deixou um texto em que diz que nesse período Élcio “tinha tanta liberdade em sua casa que até a porta da geladeira abria.” Entretanto, imediatamente após garantida a nomeação, o novo “Governador Biônico” deu as costas ao casal do Jornal da Cidade. Numa jogada clássica: seduziu, prometeu e depois: “bananas”. Ao contar a história vindo "do lado de lá" e mencionar o eufemismo “preterido” Carlinhos trivialmente confirma esse fato. Mas será que Djalma Juarez Magalhães tinha mesmo toda essa influência em Brasília?

D. J. M. E OS REVOLUCIONÁRIOS DE 1964


Autor de dois bons romances - “Lama no Ventilador” (1973) e “O Anti-cristo” (1975), disponíveis em sebos de várias partes do país - Djalma demonstrava admiração pelos militares “revolucionários”, mas ele não era o único. Nascido em 1930, filho de Fernando Haeckel de Magalhães - gráfico de alguns jornais do Rio de Janeiro e da Revista Manchete – o escritor e os jovens daquela geração acompanharam aflitos as notícias da 2º Grande Guerra, os feitos da Força Expedicionária Brasileira, a tomada do Monte Castello, a vitória dos aliados. Nos “anos dourados” que se seguiram aqueles Marechais e Generais patropis seriam vistos como heróis nacionais, homens que encarnavam de fato o ideal de “morrer pela pátria e viver sem razão”. Os longos anos de chumbo mudariam isso tudo...

Segundo o jornalista Rogério Medeiros, o Jornal A Tribuna - do qual Djalma foi diretor até o final da década de 1960 - foi o único de Vitória a apoiar o que o exército chamava de “Revolução”, mas que até a Igreja Católica era favorável ao golpe. Veja um trecho do que o jornalista do Século Diário diz sobre o assunto:

“Em que pese a contribuição da Igreja em favor do golpe no Estado, o destaque maior era o jornalista Djalma Juarez Magalhães, que dirigia, na época, o jornal "A Tribuna.”
           

Ao apoiar a “revolução” Djalma mostrara idealismo, mas - como dizia Rogério Medeiros - sua participação fora panfletária, o escritor e jornalista não era membro do Exército; apenas acreditou que naquele momento o golpe era o melhor caminho para o país. Rogério lembra que no dia seguinte toda a imprensa capixaba se transformara: “A Gazeta virou golpista no dia dois de abril, tirou a direção (o diretor era Eloy Nogueira da Silva), botou o General (Darcy Pacheco de Queiroz, cunhado de Carlos Lindenberg) e tirou o Cariê”. Em Brasília, o alto comando militar confiava em Djalma, portanto, sua opinião quanto ao futuro governador de seu Estado, em alguma instância, deveria ser realmente relevante. 

Maria Nilce lembra, porém, que a maior desavença do casal com o governador não fora por conta daquela jogada clichê de prometer mundos e fundos para depois fechar a porta. Em seu quarto livro, intitulado Postais de Minha Vida, a colunista conta que Djalma - nascido em Vitória, mas criado no Rio de Janeiro desde os cinco anos – acreditara realmente nas promessas do “amigo” e ficara tão decepcionado que até pensava em voltar para a “Cidade Maravilhosa”. Maria foi procurar Élcio Álvares, tentava também entender o que acontecera e pedir sua ajuda. Descobriu, porém, que o governador nada tinha a oferecer além do mesmo jogo de sedução barata em troca de promessas vazias:

- Élcio, o Djalma está muito decepcionado com você, que lhe prometeu mundos e fundos e agora passa todo o tempo a evitá-lo. Pede a ele Élcio para não ir embora.
Abismada, vi Élcio colocar a mão em cima de minha coxa esquerda e me dizer carinhosamente: - Deixa ele ir embora. Deixa ele ir que a partir do dia quinze de março vou tomar conta de você, vou fazer de você a dona deste Estado, vou fazer do Jornal da Cidade o maior jornal deste estado.
Fiquei lívida. Primeiro, porque tinha Élcio Álvares como um irmão e aquele procedimento não era de um irmão. Segundo, eu fiquei decepcionadíssima, pois tinha uma enorme admiração por ele e constatei naquele instante estar diante de um canalha.

EXÉRCITO DO BEM - EXÉRCITO DO MAL

Voltemos à afirmação de Carlinhos Oliveira, hospedado na casa de um Governador Biônico do regime militar, de que um declarado opositor do governo seria um agente secreto do SNI ou coisa que o valha. Como pode ser isso? Os fatos históricos mostram que havia forças conflitantes dentro do exército, resta descobrir com clareza quem era do bem e quem era do mal aqui no Espírito Santo. Os arquivos do Dops – hoje disponíveis para consulta - mostram que o casal do Jornal da Cidade fora constantemente monitorado pelos milicos capixabas. Rogério Medeiros conta que Djalma, mais de uma vez, sofreu com a perseguição do exército:

Tinha uma briga de grupo. O Djalma tinha criado uma situação adversa para ele no 38º BI. Atuava como fosse uma liderança do movimento militar e se ligava em cima. E os caras daqui ficavam putos porque ele não dava confiança. Djalma jogava lá em cima, então os caras armaram para prender Djalma. Ditadura meu amigo...

Ungido pelos militares, após "preterir" Djalma e ser empossado, Maria Nilce conta que Élcio Álvares usou de sua influência para secar as fontes de renda do Jornal da Cidade e depois radicalizou ao tentar sem sucesso enquadrar o casal desafeto na Lei de Segurança Nacional, o que poderia gerar prisão de até seis anos (!) Não satisfeito, "aquele bom e honrado rapaz", em duas ocasiões mandou apreender a edição inteira do periódico causando-lhes grande prejuízo. O fato foi arrolado no inquérito dos “investigadores” do Dops sobre Maria Nilce Magalhães:

  
É digno de nota o fato dos infames “Arquivos Confidenciais do Dops” não trazerem realmente uma investigação. São alguns tópicos reunindo os mesmos comentários maliciosos que circulavam pelos botequins e salões de beleza de Vitória, no melhor (ou pior) estilo “onde tem fumaça tem fogo”. O “espião” não apresenta um documento contundente sequer, a não ser as notas debochadas publicadas pela colunista. Uma inclusive que mostra o quanto o “medo mortal de voar” que atormentava o governador - mencionado por Carlinhos - já fazia parte do folclore capixaba. Ho... Ho... Ho...

  
Talvez, por conta dessas “investigações” mal enjambradas o governador nunca tenha conseguido meter Maria Nilce e Djalma Juarez Magalhães na cadeia. E olha que ele tentou. Na pior (ou melhor) das hipóteses os militares ajudaram do ponto de vista histórico na elaboração deste texto, porque, após atentados a bomba e outros atos terroristas, muito pouca coisa do acervo do Jornal da Cidade chegou aos nossos dias. Foi uma agradável surpresa encontrar aquelas notinhas irreverentes colecionadas a título de “alta espionagem” e, ainda por cima, com a chancela de "confidencial". Para maiores informações com relação ao desaparecimento do acervo do Jornal da Cidade acesse o link abaixo:


A LENDA DA MULHER CORAJOSA E GUERREIRA

Pesa ainda contra o governo Élcio Álvares o fato de que os donos do Jornal da Cidade não seriam os únicos perseguidos durante seu mandato. Em sua coluna de O Globo do dia nove de agosto de 2014, a jornalista Míriam Leitão afirma o seguinte: “o início da minha vida profissional foi tumultuado pela perseguição da ditadura. No Espírito Santo, fui demitida de um jornal por ordem do governador Élcio Álvares”. O jornalista Rubinho Gomes escreveu um excelente artigo para o site Século Diário, rememorando este fato em detalhes:

Élcio passou a interferir diretamente na redação de A Tribuna. Foi quando ele exigiu da direção do jornal a demissão da jornalista Miriam Leitão (que havia sido presa em 1972) e outros que ele considerava "subversivos", como o estudante de Medicina Gustavo do Vale, o jornalista Jô Amado, o catarinense Nei Duclós, dentre outros. É bom lembrar que Miriam e Gustavo haviam sido presos naquele grupo acusado de integrar uma célula do PCdoB e que foi vítima de bárbaras torturas no quartel de Vila Velha do 38º Batalhão de Infantaria, fato que acaba de ganhar repercussão nacional, após anos de silêncio.  


Com esse panorama fornecido por Rubinho é possível perceber que os responsáveis pela repressão militar no Espírito Santo pertenciam ao 38º BI e seguiam ordens, fora o alto comando, do próprio governador. É possível, portanto, inferir que a “atenção” que Carlinhos dá ao fato de Djalma ser “agente do SNI ou DOPS ou DOI-Codi, ou tudo ao mesmo tempo”, pudesse ser fruto de “contrainformação” (fofoca em nível militar). Essa "informação" foi difundida pelos inimigos dos donos do Jornal da Cidade com o propósito de enfraquecer a influência e a credibilidade alcançada, especialmente por Maria Nilce, após ridicularizar impunemente o mandato inteiro daquele governador biônico do Espírito Santo. Vide a conclusão do texto “Quatro anos dentro de um túnel”:

Dos quatro anos do governo Élcio Álvares eu obtive uma enorme lição de vida, ganhei o respeito e a admiração de uma cidade inteira que não me viu dobrar os joelhos em momento algum. Saí desse túnel escuro muito mais forte, com uma enorme experiência e no dia seguinte em que Eurico Rezende assumiu o governo eu corri para a praia e como uma gaivota feliz levantei voo gritando aos quatro ventos um enorme bom dia para minha aurora que finalmente surgia. 

Maria Nilce e Djalma Juarez Magalhães 
NA PRÓXIMA POSTAGEM

Ainda com base nas memórias de Carlinhos Oliveira aprofundaremos este assunto investigando as “ligações perigosas” que podem ter contribuído para o surgimento do crime organizado no Espírito Santo. Movimento brutal e sangrento – de estilo plata o plomo - que virou mainstream na terra dos capixabas durante a década de 1990. 

sábado, 28 de novembro de 2015

O MAL DOS CRONISTAS


“Rubem (Braga) adorava dar em cima de mulher de amigo. Tinha uma boa saída para a sua falta de vergonha na cara:

– E você quer o quê? Que eu dê em cima da mulher dos inimigos?” 

Comentário atribuído a Raquel de Queiroz.


Na primavera de 1978 quando veio espairecer nas terras capixabas, José Carlos Oliveira estava muito mais preocupado com a repercussão do lançamento de seu livro Terror e Êxtase (particularmente o autor o chamava de 1001) do que com a badalação que poderia haver em torno de sua atormentada figura. Na página 114 de seu Diário Selvagem, por exemplo, Carlinhos se ressente da forma como foi retratado pelo colunista Hélio Dórea.

“27 de setembro – Fim das férias. Mesquinharias capixabas: nos dias de Maciel, Alaíde pediu uma nota sobre 1001 ao colunista Hélio Dórea. Não saiu nada. Hoje saiu. Ela se mostrou vitoriosa. Mulher ingênua! Saiu ontem uma nota no Ibrahim e o seu copiador daqui incluiu que sou chique, colunável em nível nacional. Só por isso. Gentinha de merda! Depois eu conto mais”.

Com esse desabafo furibundo Carlinhos demonstra ter algum entrevero em particular com o colunista – ou então a implicância era com os que se dedicavam ao, sorry periferia, assaz provinciano colunismo capixaba - e não propriamente com o gênero de coluna social. Afinal, valoriza a nota dada por Ibrahim Sued (1924-1995, considerado o inventor do colunismo social brasileiro) e ainda termina fazendo graça, mencionando um bordão que seria muito repetido pelos deslumbrados escarafunchadores da high society.

Desde o início da passagem de Carlinhos pelo Espírito Santo, confesso, estava com medo que sua fúria se voltasse na direção de meus pais. Afinal, os jornalistas Maria Nilce e Djalma Juarez Magalhães eram inimigos ferrenhos de seu prezado amigo e anfitrião - o então Governador do Espírito Santo, Élcio Álvares - e imaginava que críticas, inevitavelmente, apareceriam... E apareceram. Porém, ao invés de puramente ofensivos, os comentários forneceram um panorama bastante rico, único e real daquele período. 

Carlinhos, eventualmente, menciona frases popularizadas pela colunista Nina Chaves, famosa por introduzir moda e estilo na imprensa nacional, como na Página 105 ele fala: “Como dizia a Nina Chaves – qualquer descuido pode ser fatal”. Com isso esclareceu a origem de um jargão muito usado por Maria Nilce: “Todo descuido pode ser fatal”, provando que, como na televisão, também em sociedade “nada se cria tudo se copia”.

No início das férias Carlinhos ficou alternando estadias entre a Residência Oficial do Governador, em Vila Velha; visitas ao hotel Porto do Sol de seu amigo João Dalmácio, em Guarapari e a casa de Victor Martins em Manguinhos, onde, por sinal, botou olho gordo na beleza deslumbrante da namorada do amigo, a Judith. Naquela época, Vitória, Praia da Costa e Manguinhos eram núcleos distintos e distantes, não havia a sensação que hoje temos de estarmos na mesma cidade, separados por engarrafamentos.

Quando finalmente resolve visitar Vitória, ou mais precisamente o famigerado restaurante do Ferrinho, é que Maria Nilce e Djalma Juarez Magalhães (Páginas 121 e 122) são finalmente mencionados.

“Almocei com ferrinho. Apareceu M.N., a fofoqueira do Jornal da Cidade. Ferrinho me transforma o metabolismo; há algo ansioso nele e algo mais que ansioso: maligno. M.N. também. (...) A proximidade de pessoas doentes da alma – Ferrinho, Maria Nilce – provoca a perturbação psicossomática que me faz sofrer o estômago (...) Atenção: D.J.M., marido de M.N. e preterido pelo Élcio quando desejava ser vice-governador, é agente do SNI ou DOPS ou DOI-Codi, ou tudo ao mesmo tempo."

Maria Nilce autografando seu terceiro livro "Como o Diabo Gosta" que foi lançado justamente no Restaurante do Ferrinho
Diferente do episódio com o antigo colunista de A Gazeta é preciso levar em consideração que o desprezo que Carlinhos demonstra pela “fofoqueira do Jornal da Cidade” revela também uma subjetiva influência da amizade e de solidariedade com o Governador e sua esposa; ambos, sistemática e ingenuamente – na maioria das vezes - ridicularizados por Maria Nilce em sua coluna diária. A razão dessa birra seria uma mal explicada “traição” – mal explicada na minha memória – que levou os donos do Jornal da Cidade a fazer oposição ao Governo de Élcio Álvares de forma bastante aberta e folclórica. Como era época da ditadura, em que os companheiros da imprensa geralmente tocavam pianinho, com suas loucuras Maria Nilce consolidaria neste período a imagem de mulher guerreira e corajosa...


Capa do terceiro livro de Maria Nilce, lançado em 1979.
É interessante observar que Carlinhos fala de Maria Nilce como se já a conhecesse “de outros carnavais” e menciona que algo nela o perturba tanto física quanto emocionalmente. Ora, a colunista do Jornal da Cidade estava no auge de sua beleza exuberante e quem ler o diário vai perceber logo de início que o escritor era – para dizer o mínimo - um tarado pervertido contumaz. O fato de sequer mencionar os atributos físicos da “fofoqueira”, revela que Carlinhos, parecido com Rubem Braga - aliás, dizem que era mal dos cronistas – só tinha tesão mesmo pelas mulheres dos amigos. Vide a epígrafe. E para saber mais, no link abaixo, acesse o excelente texto abaixo de autoria de Juremir Machado, intitulado: O Canalha do Rubem Braga.



       NA PRÓXIMA EDIÇÃO

    O diário de José Carlos Oliveira ajuda a Letra Elektrônica a desvendar um episódio mal explicado da década de 1970. Para tanto vamos abrir os arquivos do Dops e revelar o que o Exército pensava sobre o casal dono do Jornal da Cidade...



sábado, 14 de novembro de 2015

SUICÍDIO LITERÁRIO - TUTORIAL

Estou lendo o “Diário Selvagem” de Carlinhos Oliveira (José Carlos Oliveira 1934-1986), escritor que saiu de Vitória ainda adolescente e fez carreira como cronista do Jornal do Brasil. Já ouvira falar muito de Carlinhos, mas nunca tivera em mãos alguma obra sua. Venho lendo devagar, porque são memórias pessoais e não uma história propriamente organizada: esbórnias intermináveis, muitos problemas de saúde, episódios amorosos frustrados perpetrados por um sujeito sexualmente inseguro, nanico (1,59m) e magrelo.
Os comentários iniciais são muito centrados na vida sexual e são também, muitas vezes, surpreendentes. Como quando Carlinhos confessa, por exemplo, suas recorrentes fantasias homossexuais, Página 21:

“20 de setembro, domingo – No Degrau [1]um rapaz me tascou um beijo na boca – beijo de amante. Ainda estou deveras perturbado. Qualquer hora dessas, as circunstancias ajudando, enfrento o problema homossexual.”

Vais saber a quais circunstancias Carlinhos se referia e também não fica claro se a questão homossexual era realmente “problema” ou solução, vide página 39.

  “Espero que X. me chupe o pau daqui a pouco. Relaxa. Ela me disse que o Z. só pensa em sacanagem (não bebe, não fuma, adora uma suruba e sonha com um garotinho que o enrabe. Eu também, de vez em quando...)”.



DE VOLTA ÀS TERRAS CAPIXABAS

O diário fica mais interessante para nós “os capixabas” quando Carlinhos vem para o Espírito Santo passar alguns dias de férias (Página 93 em diante).
No dia 10 de setembro de 1978 escreve de Vila Velha, estava hospedado na residência oficial do Governador Élcio Álvares (nascido em 1932), seu amigo de folguedos juvenis. O escritor estava em plena loucura do lançamento daquela que seria sua obra mais célebre Terror e Êxtase, particularmente chamada de 1001. Carlinhos demonstra carinho e admiração pelo atual presidente da “Banestes Seguros” e sua família, o que não o impede de acalentar fantasias sexuais com relação à noiva de Elcinho. Fala também com respeito do encontro com jornalistas como Amylton de Almeida, Maura Fraga e Sérgio Egito. Demonstra, porém, pouca condescendência com outras figuras da sociedade local.
Seus comentários jogam um facho de luz sobre certa “elite intelectual capixaba” formada por professores universitários e autores ligados às instituições governamentais, mais respeitados pela posição social que ocupam do que pelas obras que publicam. Acadêmicos interessados em legitimar e institucionalizar o valor de seu próprio trabalho e de alguns autores escolhidos entre seus pares. Não haveria problema nenhum nisso se esse grupo não se comportasse como se os outros escritores não tivessem a mesma capacidade ou qualidade e, pior ainda, esse fato ser largamente aceito como “oficial”. Aliás, não me recordo sequer dessa “convenção” ser questionada por outros autores, talvez por temer um suicídio literário. A tendência é fazer como os mais inteligentes: aceitam a situação, elogiam e adulam essa “elite” para tentar obter reconhecimento de seus escritos. Porque, obviamente, só os integrantes desse grupo são convidados a participar (ou indicar autores) de eventos literários, somente seus livros são selecionados para distribuição em escolas, indicados para o vestibular e por aí vai.
Carlinhos pergunta: “Não é uma sacanagem”?
Sim, porque aquele “rebelde precoce”[2] criado em Jucutuquara dificilmente teria alcançado o reconhecimento desses intelectuais como escritor se tivesse ficado em Vitória.

LITERATURA DE RICO

Segue a reprodução do referido comentário de José Carlos Oliveira, página 101:

“14 de setembro, quinta-feira, 16h – Victor (Martins) me mandou o romance de um capixaba que admira, A Crônica de Malemort, de Reinaldo Santos Neves (Nascido em 1946, Vitória). É filho de Guilherme Santos Neves, um dos professores de português (o outro é Clóvis Rabelo) que me humilharam no Colégio Estadual – no 1º ano ou talvez no 2º - porque eu andava lendo Machado de Assis. ‘Você não tem idade para compreender Machado, rapaz’, disseram eles, expondo-me à zombaria da classe. ‘Leia José de Alencar’, sugeriram. O jovem Reinaldo porém tem garantida a circulação de sua literatura nos colégios capixabas. Isso significa dinheiro no bolso e uma certa estabilidade profissional. Pois está relatado na orelha. Elogiando o Malemort, ‘outro importante ficcionista moderno e professor universitário’, José Augusto Carvalho, prometeu ao artista: publique logo que vou adotá-lo no Colégio Estadual e na Faculdade. Assim ele começa com um público compelido a lê-lo. Não é uma sacanagem? Mas isso acontece em todo o Brasil e só espero que Reinaldo seja mesmo um escritor talentoso. (página 102) Apontamentos fúteis e nada mais, merda. Vou ao ‘Réveillon’[3] – ou ler o tal Malemort, literatura de rico, circulação de estilo oligárquico”.

Que Reinaldo Santos Neves é um escritor talentoso, disso ninguém duvida. Parece, inclusive, ter tentado se descolar ao longo do tempo do peso dessa imagem reverente que lhe impingiram seus admiradores e outros literatos aspirantes. Talvez por isso ainda não integre a vetusta Academia Espírito Santense de Letras; atitude que, por outro lado, dá margens ao raciocínio lógico de ser esse um título que em nada acrescentaria à sua posição como autor.

POUCO ANTES DE MORRER

É curioso pensar que menos de uma década depois Carlinhos voltaria ao Espírito Santo para participar de um projeto como “Escritor Residente” do qual sairia o livro “Bravos Companheiros e Fantasmas” e coube ao autor de Malemort a redação de uma “Nota Final” e a involuntária descrição dos últimos momentos daquele confrade em letras de fama nacional:

“Dez dias antes de sua morte (Carlinhos) concluiu a revisão definitiva das provas paginadas e preparou o texto das orelhas e o conto para a contracapa, que leu com emoção na última oficina literária que estava coordenando, também como parte do projeto Escritor Residente. No hospital ainda houve oportunidade, entre um cigarro proibido e outro, para aprovar o layout final da capa e contracapa, já com o desenho (sugestão sua) do pássaro enigmático. Fez por seu livro, portanto, tudo que lhe cabia fazer”.

RETOMANDO ÀS CONCLUSÕES

Ao perceber a valorização de uma obra com base numa ligação “oligárquica” (termo contundente e perspicaz, porque se remete a um: “regime político em que o poder é exercido por um pequeno grupo de pessoas, pertencentes ao mesmo partido, classe ou família”), José Carlos Oliveira conclui conformado: “isso acontece em todo Brasil”. Pois, é possível ir-se ainda mais longe: esse episódio retrata acomodações sociais triviais que sequer parecem condenáveis; como, infelizmente, muitas vezes acontece com o nepotismo ou a corrupção. Antigamente escancarado, como revela o comentário do autor, esse “jogo” com o tempo ganhou ares democráticos: formou-se um grupo com as pessoas de sempre que continuaram a realizar escolhas a partir de gostos e interesses de sua casta, privilegiando familiares e amigos, ao mesmo tempo prejudicando, desmerecendo e relegando ao esquecimento o trabalho de desafetos e outsiders: a popular panela. 

Estaríamos romanceando a realidade? Parece que sim, dado o absurdo; mas é provável que não, dado a própria realidade.

E por aqui ficamos, meditando sobre a razão de certas coisas serem como são...



No próximo texto Carlinhos vai tecer seus comentários de soda cáustica sobre o colunismo social botocudo: “Depois eu conto”...



[1] Tradicional restaurante do Leblon. Existe até hoje.
[2] Título da biografia de Carlinhos escrita por Jason Tércio.
[3] Carlinhos se comprometera a escrever um conto com esse título para a Revista Homem/Playboy.