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quinta-feira, 24 de setembro de 2009

A BAIXARIA É O DESTEMPERO DA VIDA?


Um cara filma e assovia, o que ele quer? A moça está histérica, como as crianças que fazem pirraça, manda o cara enfiar o assovio no cú! Ao longe os cães ladram e as pessoas se divertem. Um psicólogo é convocado para opinar e disse que essa banalização do mau uso da Internet é ruim para as relações. O jovem Pedro, pivô da confusão, não pensa assim, posa sorridente em todos os jornais, vive plena e alegremente seus quinze minutinhos de fama. Os internautas criticam duramente o psicólogo por sua caretice, querem ter direito aos barracos e democratizar a baixaria... Não, o que temos hoje ainda não é o bastante...


Em um dia do passado distante apareceu uma linda garota no escritório em que eu trabalhava, ao alvoroço de sua presença seguiu-se a decepção: dentro de nossas regras ela veio parar em minha mesa de trabalho. Logo iniciaríamos um pequeno romance, era uma mineirinha estalando de nova, uma espécie de pré-lançamento na cidade. Aliás, adoro antiguidades: moro em um prédio antigo, sempre tive carro velho, a única coisa que naquela época ainda despertava minha ambição por novidades situava-se no campo dos relacionamentos afetivos ou dos puramente carnais, se é que vocês me permitem fazer uso de um termo tão caretinha e, ao mesmo tempo, autofágico e estrambótico.


Vivíamos épocas difíceis e fartas ao mesmo tempo, uma espécie de atualização do célebre drama de Hamlet: “Ter ou não ter, eis a questão!” – Possuir, tomar posse, conquistar. Depois de ter o que fazer? Saímos duas ou três comportadas vezes, eu já estava começando a ser acossado por aquela sensaçãozinha chata de que “aquilo não era bem o que eu queria” quando rolou um tremendo grilo. Tínhamos combinado um cinema para aquela noite, no final da tarde a mineirinha me liga aos prantos dizendo que seus pais tinham a proibido de continuar me vendo.


- Foi a dentista Juca, foi a dentista! – Família tradicional de Belo Horizonte, recém chegada na cidade dos capixabas a matriarca resolveu sondar o novo namorado da filha numa consulta dentária - Até hoje, nem que eu quisesse, poderia conceber situação mais espantosamente ridícula - A dentista não me conhecia realmente, disse apenas o que já tinha ouvido falar de minha pessoa: absurdos amigos, calúnias sonoras de fazer corar a namorada sem chip do tal sorridente Pedro. Finalizou seu relatório aconselhando a matrona a afastar a filha para o mais longe possível de minha terrível - e extremamente periculosa, drogada e prostituída, filha de satã - presença.


Era difícil acreditar no que eu ouvia, eu estava no trabalho e logo tinha um pequeno exército querendo ver a cor do sangue da tal “Doutora” Margareth sei-lá-das-quantas que me tinha em tão má conta. Escorado numa das máximas preferidas de Macunaíma resolvi tirar aquela história a limpo: “Falaram mal, preparar o pau!” Descobri que o consultório da peste ficava apenas a uma quadra de onde eu trabalhava, sem nem pensar parti furibundo para ação; cheguei tremendo de raiva, devia ter levado alguém do escritório para me acalmar. A secretaria disse que “a Doutora” estava chegando. Esperei em pé na ante-sala, resfolegando de um lado pro outro, balançando a crina e batendo os cascos no chão que nem cavalo bravio. Aiôu Silver!


Passou um tempo e me acalmei um pouco, mas não achei uma boa a queda de rotação do motor, então caprichei olhares implacáveis de matador sanguinário, facínora foragido dos livrinhos de bang-bang do passado. Logo apareceu uma mulher vestida de branco sorrindo e cumprimentado a todos: nunca tinha visto aquela infeliz em toda a minha vida e pelo jeito nem ela, que me olhou amigavelmente, fazia a menor idéia de quem eu fosse. A infeliz foi entrando e eu, sem deixar chance de reação pra cretina da secretaria dela, a popular secretina, invadi o consultório grudado em seu desagradável pandeiro, parecia - e me sentia mesmo - a encarnação do demônio. “É hoje que eu vou a forra!” (Dentes de Sabre – Uncanny X-Men N° 243, pg. 94)


- Escuta aqui “Doutora” Margareth: você me conhece? – A mulher me encarou sorrindo e fazendo uma careta engraçada, parecia pensar que se tratava de algum tipo de brincadeira. Repeti a pergunta agora demonstrando uma certa tensão na voz o que a assustou e fez com que instintivamente se colocasse atrás da cadeira odontológica, sei lá o nome daquela porra. – Olha bem pra minha cara “Doutora” e agora me diz: a senhora me conhece? – Finalmente ela disse que não, parecia curiosa com o desfecho de alguma brincadeira ou piada. – Pois é, eu sou Juca Magalhães!


- Ai meu Deus! – Colocou a mão sobre o peito e sentou em uma cadeira como se fosse enfartar. Fia das unha miseráviiii!!!


- Meu Deus é o escambau! (Subindo o tom) Como é que você sem nem me conhecer me difama do jeito que você fez hein “Doutora”?! (Sobe mais um pouco) Que merda é essa?!! (Gritando e dando porrada na mesa) Você é doida?!!! – O consultório era em uma daquelas salinhas comerciais, a mulher fez menção de se levantar e tentar se evadir, mas logo me coloquei entre ela e o corredor. Lá de fora, na sala de recepção, comecei a ouvir o zum zum zum. – Pega esse telefone agora e liga pra família da minha namorada, diz que você se enganou de pessoa, que tudo o que você falou não tem nada a ver comigo. Aliás, fala a verdade: que você é doida e que fala mal de todo mundo mesmo, que é um tique nervoso que você tem e que eu dei azar de ser sua vítima dessa vez.


- Eu vou ligar... Olha, você me desculpa.


- Não quero ouvir desculpa, não vim aqui pra ouvir desculpas, porque não se faz o que você fez. O que eu quero é que você ligue agora para a mãe da menina que está lá chorando por sua causa e quero que ligue aqui na minha frente. Anda, pode ligar! – Tremendo que nem vara verde a miserável ligou e desmentiu tudo, disse que tinha sido um mal entendido, mas meu ódio não estava sanado, nem de longe; acho que nunca vai estar, nem que eu a tivesse processado, estripado ou estapeado estaria. Só de relembrar esses fatos tão distantes na memória revivo claramente aquela amarga sensação de injustiça e de indignação que envenena o sangue da gente. Eita!


Fiquei tão desgostoso com todo furdúncio que passado pouco tempo mandei aquele namorico careta – com o qual eu já andava desanimado mesmo - pras cucuias. A confiança e o respeito são as bases de uma boa relação e - falando especialmente dessa ex-futura-sogra de tradicional família mineira – uma pessoa que dá ouvidos e crédito a qualquer merda que ouve pela rua não merece nossa consideração, muito menos privar de nosso apreço e de nossa companhia. Nunca mais vi a tal linda mineirinha, deve estar por aí casada e cheia de filhos. Agora, a tal “Doutora” eu descobri essa semana no Orkut de uma amiga, daí lembrei da história e resolvi mostrar pra todo mundo esse retrato agridoce...


Tomara que o tempo tenha trazido algum juízo para a "Doutora" Margareth não-sei-das-quantas ( aliás, sei sim mas o juízo e a prudência me impedem de dizer) como trouxe para mim, mas se não tiver também que se foda né? Todo mundo espera sempre o pior das outras pessoas, a baixaria é o destempero da vida.


quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Poemas encontrados em meio a lembranças...


Labirinto:


Eu, eternamente seu.

Seu, eternamente eu

Seu eu, eternamente

Eternamente seu, eu


Morte Prematura


Amores deram certo

Amores deram errado

Medo, medo; medo, medo!

Estou só, estou acompanhado


Estou perdido, eu fui encontrado

Seu amor é muito cedo

Era vidro e se quebrou

Medo, medo; medo, medo!


Estar só e reviver

Liberdade e esperança

Leão desdentado, cavalo manso


Casa vazia e em paz

Como em um cemitério

O coração descansa ... Jazz



terça-feira, 15 de setembro de 2009

PARA ANDAR PELO CAMINHO DOS BONS

Para andares pelos caminhos dos bons,

e te conservares nas veredas dos justos.


Provérbios 2:20

Todo mundo gosta de reclamar, somos velozes e furiosos na hora de “meter o pau” – também disponível na versão XXX do termo. Exercer a crítica é nossa forma de auto-afirmação. Quando dizemos que ninguém faz nada certo, pressupõe-se que faríamos melhor: ou não? Quando surge um problema a primeira coisa que pensamos é no culpado, nunca no que fizemos para que o aborrecimento viesse bater à nossa porta. Muitas vezes quando estou procurando alguma coisa dentro de casa penso logo que a empregada “escondeu”, dou pinotes, pergunto a minha mulher onde ela “enfiou” o que eu procurava. Pouco tempo depois lembro que eu mesmo tinha largado no carro.


Um tempo atrás recebi um email cheio de afirmações senso e lugar comum com relação a problemas nacionais tão antigos como o pau Brasil. Falava muito mal dos funcionários públicos. Ponderei de volta que hoje em dia o atendimento das empresas privadas estava tão ruim ou pior, vide os planos de saúde, as empresas de telefonia, os bancos – a maioria em nada difere dos públicos, nada! – e por aí vai. Ultimamente tenho percebido mudanças, grandes mudanças. Tenho mais aborrecimentos lidando com empresas privadas do que com públicas. Lembro uma vez que tive inúmeros problemas com a operadora Vivo e a moça do Procon – que me atendeu de maneira atenciosa, educada e rápida – me disse pra nem me iludir em trocar de empresa, as reclamações contra as outras eram iguais ou piores.


Não sei se eu estava abençoado hoje, mas como já disse: sou mão aberta para reclamar e pão duro na hora de agradecer. Penso que isso não deve ser mais assim. Fui abastecer o carro de manhã, parei num posto da Avenida Leitão da Silva perto do Centro de Convenções de Vitória. Lembrei que estava na hora de trocar o óleo do motor – desta vez sem conotações libidinosas – fui atendido por um rapaz esperto que disse que faria a troca em oito minutos. Como estava calor minha mulher foi tomar um sorvete e eu fiquei fiscalizando o serviço. Não demorou e estava pronto. Enquanto ela passava o cartão falei que ia calibrar os pneus, o rapaz logo se ofereceu para o fazer e como minha mulher demorava resolveu lavar os vidros.


Nas eleições passadas colei um adesivo de meu candidato no vidro de trás do carro e aquela desgreta nunca mais saiu, várias vezes pedi para o pessoal do lava-jato dar um jeitinho e ninguém deu conta da tarefa. O rapaz do posto falou comigo: “é só colocar querosene”. Falei que nem dinamite tirava aquele plástico endemoniado. Ele riu e voltou com um pano encharcado de álcool combustível, na mesma hora a porcaria grudada a mais de um ano saiu todinha. Fiquei besta e perguntei o nome dele: “É Sandro”. – e ainda comentou orgulhoso – “Tem muita gente com má vontade por aí doutor...” Agradeci muito ao Sandro e ainda disse que seu bom atendimento era coisa rara na cidade. Ô se não é. Mas as coisas estão mudando.


Do posto eu tinha uma pedreira (imaginária) pela frente, precisava resolver um problema de minha carteira de trabalho e fui orientado a procurar outro posto, o de atendimento da Justiça do Trabalho na Casa do Cidadão, ali em Maruípe. Para minha surpresa fui quase de pronto atendido por uma mulher tranqüila e simpática chamada Denise que me deu todas orientações, esclareceu minhas dúvidas e me encaminhou para um rapaz chamado Vanderlei que montou meu processo e em questão de uma hora estava resolvido o que eu temia ser uma enorme aporrinhação. Rapaz, até cafezinho eles me serviram! Agradeci muito o tratamento que me dispensaram, mas acho que com esse texto muito mais gente vai poder saber dos quantos e tantos bons brasileiros estão por aí trabalhando direito e educadamente, fazendo toda diferença, enquanto nós continuamos ávidos por criticar.


quarta-feira, 9 de setembro de 2009

FOI BOM ENQUANTO DUROU

Andei lendo o blog do Gerald Thomas no IG e de lá tirei as seguintes afirmações:


“Se formos analisar o último filme ou CD de fulano de tal, ou a última coreografia de não sei quem, veremos que tudo é uma mera repetição medíocre e menor de algo que já teve um gosto bom e novo. (...) Vejo um mundo nivelado por uma culturazinha de merda, por twitters que nada dizem. Nem bandas ou grupos de músicas inovadoras existem: vivemos num looping dentro da cabeça de alguém. E, ao contrário de Prospero, ele não nos liberta para o novo, mas nos condena pro velho e o gasto!”


Na hora lembrei de uma entrevista que Iggy Pop deu pra Jonathan Shaw na revista Trip, da qual pincei o seguinte comentário:


“Chega a ser irônico que (você - Iggy) esteja conseguindo sucesso e respeito do grande público justamente hoje, num dos períodos mais negros, conservadores e criativamente medíocres da história.”


Também me incomodo com essa sensação de que tem alguma coisa estagnada nesse nosso céuzinho azul, alegre e límpido como diria Vanusa. Porém pode ser que estejamos vivendo um período de transição cultural, um momento global de assimilação de informações antes não disponíveis abertamente, uma respiração no fluxo criativo da Terra. A Internet e tudo o que ela traz a rodo tem grande parcela de culpa nessa reviravolta. Outra coisa a se considerar é a ressaca do momento:


Pois é, depois de algumas décadas de porralouquice, o mundo acordou de bode e resolveu ficar mais caretinha. Sei que logo uns vão argumentar: “Você ficou doido? Nunca teve tanto maluco no mundo como agora!” Pode até ser, mas a doideira não é mais vista como uma coisa bacana e muderna como já foi em outras épocas. Vivemos tempos responsáveis em que não se pode fumar em lugares fechados, nem beber e sair dirigindo, nem transar sem camisinha. Aliás, tudo podemos, mas saber que tem muita gente morrendo por isso nos faz tentar ajudar a não piorar a coisa.


Nas artes vivemos uma ressaca semelhante, o tédio das crianças mimadas que durante décadas chutaram todos os baldes, romperam com todas as convenções para conseguir no final o mesmo resultado: consumo voraz e lixo tóxico, pulmões enegrecidos, enterros de amigos, visitas ao urologista... Nós não fomos salvos pelo amor, diria John Lennon desconsolado, e eu pergunto: nos salvar do quê? Conversava outro dia sobre isso. Qualquer pessoa que leia os livros antigos vai perceber claramente que a raça humana patina nos mesmos problemas filosóficos e espirituais há milênios e que essa dita “evolução” é uma falácia. Se bobear estamos andando para trás...


Era disso que John queria ser salvo? Será que a arte se tornou pequena em face da constatação dessa verdade? Mas não, as pessoas continuam produzindo discos, livros, filmes, peças de teatro, o problema é que a criação parece ter chegado a um limite e a repetição da mesma coisa diferente se tornou aborrecida e cansativa para aqueles que já estão enfiados nessa seara há uns quarenta anos, como é o caso tanto de Gerald Thomas quanto de Jonathan Shaw. Temos a impressão de que a arte só é novidade para os principiantes e que, portanto, é feita por eles e para eles em consumo imediato. Mas como eu disse, isso pode ser só uma impressão... Afinal os entendidos em arte dos anos sessenta torceram ou não o nariz pros Beatles? Ô se não torceram.


Sem dúvida novidades como o Twitter, por exemplo, nos soam bobocas comparadas com a emoção de ouvir Janis Joplin num toca discos Sonata, mas talvez seja injusto compararmos o novo atual com o de outras épocas. Têm muitas coisas bacanas sendo feitas agora que o merecido valor nos escapa e que poderão ser lembradas e amadas durante muito tempo como é, por exemplo, esse boom da Internet e o próprio surgimento de espaços virtuais como os blogs e os ditos “sites de relacionamento”. É uma louca época caretinha, não há nada de revolucionário ou contestador no ar. Algumas de nossas maiores cabeças estão estudando freneticamente para passar em concursos públicos...


A tônica dessa juventude de hoje não é mais curtir a vida, mas garantir uma forma de vida e com isso perde a arte, a poesia, perde um monte de coisa. O artista precisa ter aquela incerta irresponsabilidade para criar algo realmente novo, colocar a mente longe dessa roda do capital, lá na fronteira dos mundos, ainda assim nada garante que ele vá encontrar e nos trazer algo diferente e, pior ainda, que sua arte apesar de inovadora seja realmente aceita e dela possa tirar seu sustento. Muitos já pagaram caro por fazer esse leva e traz e nunca o mundo inteiro soube tão bem disso. A época da inocência acabou e o século vinte um ainda não começou. / E a Era de Aquário? - Olha honey: foi bom enquanto durou...

terça-feira, 8 de setembro de 2009

SEM SOLUÇO NÃO TEM SOLUÇÃO...

Galera ainda nesse semestre estarei lançando o já tão falado Livro do Pó que narra as peripécias incipientes do Roquenrou Botocudo lá pros lados da década perdida. Então, pra começar a semana com bom humor posto aqui uma espécie de "Teaser" da parada, divirtam-se... E aguardem o lançamento.


Zequinha estava, como se diz no zig-zag das colunas sociais: em dias de “Fun For Me”. Tomava-lhe todas como já era de costume se fazer, até que o atacou um soluço muito chato daqueles de bêbado mesmo, não queria passar de jeito nenhum. É uma merda quando isso acontece, não se consegue tragar a fumaça do cigarro sem que venha um soluço junto. Todo mundo da mesa ria... E um falava: - Toma água! - o menino tomava mais cerveja. Outro falava: - Prende a respiração! - mas não adiantava de nada. No meio desse entrevero confuso estava também uma apetecível garota chamada Cabilina.


Cabelos encaracolados e loiros, Cabilina tinha o nariz um pouco curvo e proeminente; magra, mas nem tanto assim e, mais importante de tudo: era um autêntico e, infelizmente, tão raro exemplo daquelas mulheres que só dizem sim. Ela e o cantor mantinham uma espécie de “relacionamento aberto”. Ou seja: sexo completamente desprovido de compromisso. Dava vontade eles “coisavam” e ficava tudo por aí mesmo.


A alcunha de “Cabilina” (“Mulher fiel”: segundo a mais recente edição do autêntico dicionário Juliana Osório de gírias capixabas) era por causa de uma espécie de namorado que a moça dizia que tinha. Só que, ao mesmo tempo, era tão generosa com sua - como direi? Enfim, deixa pra lá. - que acabou ganhando o apelido, numa explicitamente cínica referência ao notório descaso com que abordava a fidelidade conjugal.


E a droga do soluço não passava de jeito nenhum...


Bastante injuriado pelo insistente contratempo, o rapaz convidou a loira do cabelo de miojo pra dar uma volta no tempo.


Saíram caminhando da Rua da Lama, quebraram à direita numa transversal escura se afastando do burburinho dos bares... O silêncio foi tomando conta do entorno. A certa altura a garota acendeu o resto de um baseado e os dois diminuíram o passo, pelo meio da quadra passaram por uma obra fantasmagórica onde os entulhos dividiam o espaço com as sombras e o breu noturno. Zeca teve, a princípio, a idéia de entrar lá pra fazer xixi, mas numa espécie de associação livre pegou Cabelina pela mão e furtivamente invadiu aquela futura moradia da classe média, foram passando por entre os vãos dos tapumes até encontrar um cantinho que fosse ainda mais escuro...


Não penso que seja necessário me aprofundar em detalhes pornográficos, não é? Unicamente, a título de ilustração, acrescento que a moça usava um daqueles vestidinhos pretos chamados “trapézio” muito fáceis de se descoisar, se é que vocês vão me entendendo... Então foi ali mesmo que tudo rolou. Os dois em pé, naquele cantinho escuro da obra. Aquele uniforme da era Dark revelou-se muito próprio praqueles momentos impróprios em que uma compulsão doida despacha a razão e o pudor para as “cucuias”. Ainda bem que não apareceu ninguém pra estragar a brincadeira, chapados do jeito que estavam iam fazer o quê? Na hora Zeca nunca pensava nesses detalhes, muito tempo depois se tocou, por exemplo, que nem tinha usado camisinha.


Rapidamente estava o casal outra vez na rua, fumando e conversando animadamente, caminhando tranqüilos e aliviados de volta pro Tio Quinzinho. Era como se nada de mais tivesse acontecido, como se apenas houvessem usado um banheiro pra se aliviar...


De repente o rapaz sentiu falta de alguma coisa, parou no meio da rua e começou a se apalpar metendo as mãos nos bolsos da calça e da camisa, enquanto a Cabilina o olhava curiosa e, meio pastel, começou também a futucar a bolsa sem nem saber o que procurar. Ficaram assim um tempo até que o cara se deu conta do que era:


Finalmente o desgraçado do soluço tinha passado!

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

"NOITE FELIZ" AUTO DE NATAL


Tô aqui lembrando como é que eu comecei a sentar o dedo na Letra Elektrônica, foi há uns seis meses atrás, naquele dia dos namorados. Fomos jantar no tal do Zé da Pizza e o cara tava fazendo uma "promoção", cobrando cinqüenta “real” o cabeção, porque antes do crack da bolsa podia-se tomar dessas liberdades. Neste último domingo estivemos também numa abominável, porque estrambótica, Estância no Vale do Moxuara que me fez lembrar aborrecimentos passados, mas prometi não escrever a respeito até as mordidas (picadas?) de borrachudo pararem de coçar.

O Zé da Pizza proíbe criança de entrar em seu estabelecimento e agora me ocorre que, ao invés de ter me espanado de lá, aquele barbudo mal humorado devia ter era me barrado, afinal, não tenho a menor mentalidade. Por falar nisso, já dizia São Manuel Bandeira: Deus conserve as minhas criancices! Mas das coisas ruins podemos tirar boas experiências, pensando nisso: será que alguém já montou um blog com o nome de Síndrome da Pollyana? Digo isso porque depois de não comer a pizza que o Zé amassou, fiz um texto esculhambante e enviei para todos meus amigos, não demorou e alguns começaram a me intimar a escrever com regularidade, então aqui estou de novo e a culpa é de vocês.

Mas desta vez tô chegando em cima da hora pra fazer um convite à essa juventude semi-nova de retina descolada, esses filhotes da década perdida e seus rebentos, demais familiares e amigos. Na despedida de 2008 e também de oito anos de administração do Prefeito Max Filho teremos muitos eventos acontecendo na cidade de Vila Velha, destes quero destacar a apresentação do Auto de Natal intitulado “Noite Feliz”. A peça tem texto e direção de Alvarito Mendes Filho, Secretário Municipal de Cultura e, como o nome já diz, é uma adaptação da tradicional história do nascimento de Cristo.

O elenco do Auto de Natal é praticamente composto por servidores da Prefeitura de Vila Velha, eu mesmo participo como São José, Dona Sirlene Juffo faz o papel de Isabel, entre outros atores amadores e profissionais que voluntariamente colaboram para a realização desta singela encenação natalina. O Auto é uma adaptação livre, coloquial e atual da história que está na bíblia: tem o presépio com José, Maria e Jesus no Estábulo, os Reis Magos, Herodes e até uma linda árvore de natal humana, culminando com a chegada do Papai Noel. Há coisa de uns três anos atrás (vide foto) foi encenado na mesma Praça Duque de Caxias com enorme sucesso.

Confesso que, todas as vezes em que participo do Auto de Natal, tenho uma enorme vontade de transformar essa história em comédia, fico sempre imaginando uma situação engraçada, ou uma maneira de surpreender o público com alguma tirada de non sense. Felizmente, nenhuma das minhas idéias iconoclastas (blasfemas diriam alguns) foi aceita pelo diretor. Quem sabe algum dia eu não peço autorização a Alvarito e monto uma versão cômica da peça? Pena que os católicos geralmente não vejam com tanto bom humor as piadas feitas em relação às coisas consideradas santas e espiritualizadas. Eu sempre achei que ter espírito e ser engraçado eram coisas semelhantes. Mas quem sou eu pra achar alguma coisa? Então vamos lá prestigiar o trabalho desse seu amigo e seus coleguinhas, é um programa muito bacana pra se levar especialmente aquela criança feliz que quebrou o nariz, foi pro hospital tomar Sonrisal...

“NOITE FELIZ” AUTO DE NATAL
Texto e Direção de Alvarito Mendes Filho

Onde: Praça Duque de Caxias
Centro de Vila Velha-ES
Datas: 19 e 20 de dezembro
Horário: Sempre às 20 horas
Entrada Franca.

Elenco: Vanussa Andrade, Juca Magalhães, Marcelo Zan, Ilma Capaz, Carina Tonassi, Mayara Bacelar, Hingridy Fassarela, Wellington Suisso e Sirlene Juffo (servidores da prefeitura de Vila Velha), Mariana Veiga, Jocleiton Oliveira, Claudia Gomes, Alexandre Toster, Thiago Mothé Guimarães e Edwaldo Almeida.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

O VELHINHO SEMPRE VEM?

Maldita televisão, maldito Drácula! Rodo os canais a esmo tecendo comentários sarcásticos e fazendo troça de tudo o que aparece. Tem um cara com chafarizes nas axilas, dá vontade de pedir para ele esperar um pouquinho e jogar umas moedas, quem sabe não dá sorte. E eu que já não simpatizava com aquela marca de desodorante...

Mas falando nisso, o natal está chegando, olha só que bacana. Os telejornais logo voltam suas baterias para os consumidores e as expectativas dos comerciantes. Vejo entrevista com uma mocinha dizendo que o natal é uma época boa pro comércio, porque as pessoas se sentem "compelidas" a consumir. Ou seja: ela gosta porque não tem escapatória pra ninguém. E eu que detesto um eufemismo...

Muita gente se endivida no natal, conseguem exatamente o contrário do que desejaram inicialmente. Não pode haver tranqüilidade familiar sem o devido equilíbrio financeiro, em pouco tempo estarão todos se descabelando por conta de bobagens quebradiças e efêmeras sujeitas a modismos ultra passageiros. Faz tempo que penso em escrever sobre isso.

Lembro bem da época em que todo mundo saía de noite pra encher a cara, entre outras coisas - aliás, o veio Gagá dizia que isso é que era bom - e dirigia de volta pra casa impunemente, bem, quase todos voltavam, mas nem cinto de segurança era obrigado usar. Na televisão passava direto propaganda de cigarro, tinha uma muito palha do Camel, com um cara de roupa de safári ou os maiores sucessos de Arena Rock com as esportivas propagandas do cigarro Hollywood, o sucesso.

Tudo isso mudou não é? Salvo em festinhas de embalo - baladas? - hoje quando vemos uma pessoa fumando é como se ela estivesse sofrendo algum mal, soltando fumaça como um motor prestes a bater biela. Imagino que vai chegar o dia em que o apelo escandaloso pelo consumo puro e simples também será visto como algo prejudicial à saúde da sociedade.

Sim, porque tem muita propaganda informativa legal, as do Jadir Primo, por exemplo, eu acho inofensivas, mas tem gente que apela. Morro de rir, pra não chorar, quando vejo, por exemplo, carro anunciado por "apenas" sessenta e tantos mil reais! Num país como o Brasil, com toda essa desigualdade social, é preciso ter muita cara de pau pra fazer uma afirmação dessas num canal aberto de tv.

Somos "compelidos" a consumir o ano inteiro, poucos têm como escapar do dia dos pais, das mães, dos namorados, das crianças, fora que as pessoas comemoram todo ano seus próprios aniversários e datas especiais! Mas o que me incomoda mesmo é essa chantagem de consumo descarada associada justamente ao nascimento de um cara que transgrediu dessa sociedade autofágica que, por sinal, o engoliu, triturou e transformou suas idéias em coisa muito diferente.

Cante comigo então, bem feliz, felizão, a canção mais hipócrita e perversa desse ideal consumista do repertório natalino: Mas por que é que Papai Noel, não se esquece de ninguém? Seja rico, seja pobre o velinho sempre vem...