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terça-feira, 10 de abril de 2012
sexta-feira, 16 de março de 2012
OS POMERANOS QUE VIERAM DE AVIÃO...
“Alguns anos atrás uma pomerana capixaba, loira de olhos azuis como todos de sua raça, conheceu um negro de cabelos pixaim, lábios grossos, pele e olhos negros. Meses depois ela entrou em pânico porque estava grávida. O menino nasceu mulato de olhos pretos e cabelo pixaim. Quando o marido chegou para conhecer o filho ela contou essa história: estava andando pela mata de repente encontrou um toco de árvore queimada, com o susto ficou grávida.”
Com apresentação de Maura Miranda e texto de Amylton de Almeida, assim começa o documentário que colocou em evidência para o Brasil os Pomeranos de Santa Maria de Jetibá, então um distrito do município de Santa Leopoldina. Parece estranho começar com uma piada, mas encontrar brasileiros que mal falam o português vivendo há mais de um século dentro do Espírito Santo, desperta espanto, uma óbvia curiosidade e alguma gozação. Uma história parecida já circulou pela Internet: um soldado Americano que passara um ano no Iraque reencontrou a esposa com um barrigão de seis meses. A moça explicou que engravidara ao assistir um filme pornô em 3D...
A então recém criada TV Gazeta empreendeu o documentário de 42 minutos que venceria o primeiro lugar no 1° Festival de Verão da Rede Globo. Filmado em 1977 e veiculado para todo Brasil no dia 2 de janeiro de 1978, Os Pomeranos é um raro registro de Santa Maria de Jetibá, cidade que se desenvolveu velozmente após terem chegado estradas asfaltadas, energia elétrica, e telefone. É até difícil acreditar, mas quando o documentário foi feito nada disso ainda havia por lá.
A equipe vencedora, que desbancou todas as outras retransmissoras da Rede Globo, recebeu um prêmio de 100 mil cruzeiros e quatro passagens para Nova Iorque. A direção geral ficou a cargo de Vladimir Godoy e a coordenação de Marcos Alencar, entre outros profissionais da época bastante conhecidos até hoje.
| A Equipe realizadora de Os Pomeranos, né por nada não, mas o Marcos Alencar ficou a cara da Marly. |
O documentário abordou - e provavelmente - catalisou alguns ícones da cultura Pomerana como a cerimônia de casamento, a música de concertina e bandas de metais, a questão da língua, o aspecto religioso luterano e a dedicação do povo às lavouras que ainda fazem da região o principal fornecedor de hortigranjeiros para a Grande Vitória. Alguns registros valiosos estão eternizados como os depoimentos de figuras chave da região como Francisco Schwarz e Dalmácio Espíndula e até momentos pitorescos quando da entrevista de um colono com o seguinte diálogo:
- Ô Argeu você se lembra quando a sua família veio da Pomerânia pra cá?
- Não me alembro não.
- Mas nem de longe assim, você não tem recordação?
- De longe um pouco de recordação eu tenho, mas não muita. É pouca coisa.
- Você não sabe, ninguém nunca te informou nada quando é que eles vieram, alguma coisa?
- É... Isso eu sêo, de reformação como que eles vinham e tudo isso eu sêo sim.
- Como é que eles vieram pra cá?
- Eles vieram pra cá de avião.
- De avião é? – Nesse momento dá pra ver que o repórter (provavelmente Vladimir Godoy) está segurando o riso.
- De avião. – O pior é que o tal Argeo respondeu com toda segurança e peculiar simplicidade. Nesse momento não fica claro se a intenção era mostrar o isolamento do indivíduo ou, de novo, fazer piada com a ignorância do pomerano. Porém, esse tom desafinado com nossos tempos politicamente corretos, deve ter sido um gancho interessante para captar a audiência da época. Os Pomeranos é um documentário, por tudo isso, que deveria ser reapresentado nos dias atuais e até revisitado, comparando lugares e a trajetória das pessoas mostradas. Afinal, por mais que a região tenha mudado, as pessoas ainda estão por lá e, senão elas, estão seus filhos e netos que ficariam muito felizes de conhecer essas preciosas imagens.
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domingo, 4 de março de 2012
CRÔNICA DE DOMINGO: ETNOCENTRISMO
ETNOCENTRISMO NA VOLTA DOS QUE NÃO FORAM
No capítulo anterior, em Santa Leopoldina um cara me recomendou fazer as curvas da estrada que não era de Santos, ainda assim digo que fiquei feliz em fazer a sua diversão insólita naquele momento glorioso de nossas existências. E, sim, como tinha curvas pra frente de onde estávamos! Quando cheguei em Santa Maria de Jetibá e comentei o assunto – eu sei-lá-quem – me disse que em certos pontos da estrada faz-se tantas voltas que até dá pra ver a placa traseira do próprio carro.
Mas não vamos subir as montanhas ainda, não por esse caminho reto e cheio de curvas, porque Deus escreve por linhas tortas. Vamos tomar aquele da direita que me deixara em dúvida e que valeu outra gozação dos habitantes de Santa Leopoldina há quase trinta anos. Dizem os historiadores que essa estrada foi uma das causadoras da derrocada econômica da região, porque, entre outras coisas, o “Porto de Cachoeiro” perdeu sua utilidade única de transporte das mercadorias para a capital...
Era casamento de Carlão Gazeta, conhecido assim por gostar de contar lorotas e ser portador de novidades. Falando nisso o Carlão tinha dois irmãos que eram bastante conhecidos na Praia do Canto: o Zé Peão e o Caed, mas não vejo nenhum dos três há séculos. Carlão ia casar com uma “filha” de Santa Leopoldina e, obviamente, ninguém cogitou a possibilidade de ir à cerimônia na igreja, mas na festa...
Fomos em dois carros: eu dirigindo um Escort branco e Danny Boy num Gol cinza que era da Copa do Mundo de 86 ou 82, sei lá. O problema é que, sem Internet, nem Google Maps - era meados da década de oitenta – ao invés de passar por Cariacica, fomos lá em cima de Santa Tereza e descemos pela tal estrada da perdição: uns trinta quilômetros de terra esburacada passando pelo cucuruto de três montanhas, várias cachoeiras maravilhosas e uma cidade chamada Itapocu... Vai guardando.
Conseguimos chegar bastante atrasados, como reza a praxe, e os carros aos pedaços. A festa estava meia coisada, mas perfeitamente assistível até que um cara descobriu que o povo bobo da cidade (nós), ao invés de passar pela estrada asfaltada e fazer o percurso em trinta minutos, tinha descido pela estrada velha, estragado o carro todo e levado mais de duas horas! A satisfa daquele sujeito me deixa prenhe de curiosidade até hoje: ele saracoteou nossa patetice em altos brados por todos cantos da festa, ria e apontava em nossa direção sem a menor preocupação com o meio ambiente. Não contente, foi à rua chamar o resto do povo da cidade, que não devia ser tantos assim, para não perderem a oportunidade de rir da gente também.
Muitos anos depois me contaram que os moradores de Itapocu – que significa minissaia em tupi guarani – acabaram fazendo um movimento para mudar o nome da cidade. A insatisfação era geral, entre outras coisas, sentiam-se muito constrangidos quando tinham que dizer o nome do lugar onde moravam. Veio então um plebiscito para definir um novo nome para o lugar e sabe qual ganhou?
- Destapocu! – Que traduzido do tupi quer dizer: tira a calça jeans, bota o fio dental...
P.S.
Okay people, parte dessa estória – dane-se a nova gramática – foi inventada por razões, digamos assim, literárias. Itapocu é da língua tupi mesmo e tem várias possíveis traduções, uma delas é Ita = pedra e poku = comprida. O tal vilarejo existiu com esse nome durante muito tempo e acabou sendo alterado para Colina Verde na administração do então prefeito de Santa Leopoldina Argeo João Uliana que foi quem me contou essa história.
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quinta-feira, 1 de março de 2012
FALTA DE SINALIZAÇÃO PROVOCA BULLING NO TURISMO!
Minha relação com o pessoal de Santa Leopoldina começou com uma escolha errada que me valeu uma baita gozação e depois com uma piada que eu juro que foi verdade, aliás: “nóis temu testemunha”. Pensei que aquela coisa inamistosa fosse um sinal de desprezo, de repúdio ao “pessoal bobo da cidade”. Agora não sei mais, talvez o buraco seja mais embaixo. O problema da vida é que a gente repensa as coisas de tempos em tempos. Por exemplo: há uns dez anos eu detestava ter que ir a supermercado fazer compras, hoje não faz mais tanta diferença, apesar de conviver com a absurda realidade dos próprios não fornecerem embalagens para os produtos que vendem.
A cidade que falo hoje conheceu um veloz desenvolvimento sob a alcunha de Cachoeiro de Santa Leopoldina, - segundo eu sei-lá-quem - chegou até a causar o sobrenome da capital secreta do universo que precisou explicitar ser “do Itapemirim” a título de desambiguação. Tinha lá o famoso Porto do Cachoeiro que escoava a produção agrícola da região serrana para a capital e o café estava bombando, logo se tornou a base da economia capixaba. O pior é que isso daria origem à famosa “cotação do café” que até hoje é insistentemente apresentada nos televisivos locais, apesar da maioria da força de trabalho do Estado estar no setor público.
| Uma incrível versão hídrica da cegonha no rio Santa Maria. |
Como se isso tudo não bastasse, Santa Leopoldina foi palco do livro “Canaã” de Graça Aranha, provavelmente a mais importante obra literária que tem o solo do Espírito Santo como cenário e de quebra ainda teve uma ótema (sic) versão cinematográfica dirigida e interpretada em 1973 pelo saudoso (?) Jece Valadão. Por isso tudo e algo mais era de se imaginar que o Leopoldinense se achasse, mais ou menos, como hoje o pessoal da Barra do Jucu. Não deve ter sido fácil para seus habitantes conviver com as histórias de grandeza e da posterior derrocada da economia; de toda aquela opulência e riqueza os nascidos em meados do século passado em diante apenas ouviram falar.
O que talvez explique aquilo que nos aconteceu...
Foi no feriadão de sete de setembro no ano passado, estávamos indo visitar meu amigo/irmão Danny Boy em Santa Maria de Jetibá, cidade que eu mal conhecia até então. Íamos por Cariacica, atravessamos Santa Leopoldina até chegar no que eu suponho que fosse o final da cidade. De lá podíamos seguir reto, mas tinha também uma quebrada à direita com ponte e algo mais, o que não tinha mesmo era a porcaria da sinalização. Como não éramos obrigados a saber que rumo certo tomar, resolvemos parar para perguntar a dois caras que estavam em pé conversando na esquina:
- Bom dia amigos. Pra gente ir pra Santa Maria é só seguir reto? - O cara, meio alemão/mezzo maracachonga, respondeu num tom que oscilava entre a chacota e a reprovação pela bobagem que eu estava dizendo:
- Não é não seu moço: tem que fazer as curvas né!?
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