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terça-feira, 7 de agosto de 2012

DO PRELÚDIO AO BAIÃO: POR QUÊ NÃO?

Texto de Juca Magalhães publicado originalmente no Caderno Pensar do último sábado (04 de agosto de 2012)...  

Durante o último Festival de Inverno de Domingos Martins ficou marcada a grande diversidade musical das atrações, o que nos faz pensar no benefício causado pelo “choque cultural”: uma forma criativa e interessante de circular mensagens sonoras entre grupos e públicos considerados estanques. Frequentemente vejo muita gente de fora do contexto musical manifestar a expectativa do Festival se focar mais na música erudita. É interessante notar que geralmente pensam assim os leigos, porque os que se interessam por música sabem que muitas vezes do estranhamento vem a inspiração. Foi o caso de Claude Debussy, um dos homenageados do Festival em 2012.

Em 1889 aconteceu em Paris a famosa Exposição Universal, onde, segundo os estudiosos Jean e Brigitte Massin, o gamelão javanês deixou uma “marca indelével” na música do compositor francês. Ainda segundo os autores acima, havia no final do século dezenove uma espécie de internacionalização cultural, um grande interesse por contato com diferentes formas artísticas. É evidente que essa prática é importante e que, como dizem os americanos, de vez em quando é necessário “to think outside the box“. Então qual é o problema de num Festival de Música termos uma apresentação da Escola de Samba MUG? Ou mesmo do mega famoso Falamansa?  

Pensar fora da caixa é entender que nosso gosto pessoal não determina o que é bom, e que, por essas e por outras, Eric Clapton dizia: “em cada multidão tem um melhor guitarrista do mundo”. Para entender os rumos do Festival de Inverno de Domingos Martins é preciso atentar para a sua importância cultural que emana muito especialmente da programação didática, digamos assim, do evento. Essa iniciativa nasceu, e assim se mantém, com o propósito formador para o estudante de música. Durante cinco dos nove dias de realização do Festival acontece uma extensa e intensa programação de oficinas com professores muito renomados em nível internacional. Essa parte da programação é sempre obscurecida “midiaticamente falando” pelos shows populares, porém, estes são também muito importantes para aquela.

Ninguém estuda música sem o desejo de se apresentar publicamente. Quando alguém começa a tocar, seja o instrumento que for, quer logo mostrar pra família, pra seu amor, para os amigos e, se bobear, até pra fazer raiva aos inimigos. Todo aspirante a músico sonha em pisar num grande palco e todo professor sabe que a experiência é crucial pro amadurecimento do aluno. No estudo da música tudo se direciona para as apresentações, os concertos, os shows, sejam lá quantas denominações tenham. Esse momento é uma encruzilhada de interesses que partem em várias direções, portanto, definir a programação de um grande Festival de maneira a contemplar a maior diversidade possível e ainda assim manter a qualidade é um desafio.  

O que acaba acontecendo é que um evento tão grande e tradicional vai criando suas próprias pernas, ou seja: o festival acontece na cidade de Domingos Martins, sua programação envolve também o sentimento das pessoas do lugar. Imagine alguém entrar no seu carro ou em sua casa e querer determinar o que você vai escutar? A convergência desses vários interesses define o perfil do Festival e também é fator determinante para seu sucesso. Os grandes shows populares atraem pessoas que vão assistir orquestras, bandas sinfônicas, corais, cameratas, duos, quartetos e sabe-se-lá mais o quê e os estudantes de música terão a tão desejada prova de fogo perante um grande público em suas primeiras apresentações, em um grande palco dividido com astros da música. Isso tudo se traduz em enriquecimento cultural para tanta gente que é difícil quantificar com certeza.

No final tudo soma e o que parece destoar, na verdade, é importante dentro da programação. Poderia ser como é em Campos do Jordão, o tradicional Festival de São Paulo, modelo para este de Domingos Martins? Não creio. Simplesmente porque se trata de um universo cultural completamente diferente. Cada uma dessas iniciativas segue seus passos individuais porque afetam um determinado tecido social, visa o bem comum e não o desejo de um grupo restrito de pessoas. Se em Campos do Jordão o Festival é voltado para a música dita “erudita” é porque um grande conjunto de fatores proporcionou a situação, havemos de guardar as devidas proporções entre uma coisa e outra e entender a construção da realidade como ela é e não como gostaríamos que fosse.

Eu já caí na tentação, como tantas pessoas, de criticar a grande mídia por só valorizar e destacar muito especificamente os “grandes shows populares”, como os que agora aconteceram com Dominguinhos e Falamansa no Festival de Inverno de Domingos Martins 2012. Atualmente gosto de imaginar que tudo isso converge para ajudar uma criança que aprende violino a crescer musicalmente. Parece coisa de maluco, mas é assim que eu a percebo, aliás, todo mundo tem direito de discordar, mesmo porque eu não falo em nome da organização do Festival de Inverno de Domingos Martins, o trabalho que desenvolvi lá foi totalmente periférico, mas como cidadão capixaba, melômano e músico bissexto posso confortavelmente emitir essas opiniões.

Deixar de lado preconceitos musicais é uma boa prova de maturidade cultural, basta pensar no sentimento de profundo respeito e carinho que todos os grandes compositores sempre tiveram pelas manifestações populares. Portanto minha gente: Viva Debussy! E viva também Luiz Gonzaga! Do prelúdio ao baião: por que não?

sábado, 4 de agosto de 2012

KRONICA DE DOMINGO: DEUS ME LIVRE E GUARDE DE VOCÊ


“Um compositor vienense, dotado de algum mérito mas que não se comparava com Haydn, tinha um prazer especial em encontrar nas composições deste pequenas incorreções. Muitas vezes procurava Mozart para lhe mostrar alegremente onde descobrira algumas negligências de estilo. Mozart tentava sempre mudar de conversa; por fim, não podendo mais, disse-lhe uma vez num tom brusco:

- Senhor, se nos adicionassem aos dois, mesmo assim não achariam ainda com o que fazer um Haydn.”

Stendhal – A Vida de Mozart

Ontem vi pela Internet uma piada dizendo que se atualmente um livro tiver uma página que seja já vai ser grande demais para a molecada ler, mas, afinal, quem é que se importa realmente com a molecada de hoje? Todo intelectual também já foi um garoto boboca que amava os Beatles e os Rolling Stones. (Todo?) Sei lá, a verdade é que uma hora os guris vão amadurecer e querer saber “de qual é” das pessoas que abriram os caminhos; deixa inchar e curtir seus roques, porque quando os hormônios arrepiam os cabelos da nuca a saída é uma só.

Sempre pensei e alardeei não me importar muito com as aparências, a sinceridade acachapante é uma das mais famosas características dos sagitarianos típicos como eu. Não a enxergo como um defeito, mas como a afirmação autóctone de um modus vivendi. Sou observador, mas frequentemente deixo escapar coisas óbvias; sou assim como todo mundo é; ou quase todos instintivamente ingênuos. Nossa mente nos sabota. Nesse instante mesmo, há pelo menos umas três ou quatro outras coisas bem mais importantes a fazer do que estar escrevendo este texto e, no entanto...


Por serem basicamente diferentes de mim, as pessoas que se preocupam como serão julgadas pelos outros despertam minha aversão profunda, até mesmo certo desprezo; simplesmente porque sempre achei mais gostoso, digamos assim, me lixar pro que pensariam ou deixariam de pensar de minha gloriosa (cujo?) pessoa. Talvez seja uma questão de valores, talvez seja um problema de criação, talvez seja apenas o meu jeito idiota de ser. Mas nada disso é bem verdade, tá legal? No fundo eu me preocupo sim; meu desejo de negar essa atitude é já uma constatação disso.

Estranha e me incomoda quando vejo gente me olhando atravessado, fico encafifado me perguntando do por que. Dentro de mim sinto com absoluta certeza que não fiz nada para aquela pessoa querer me fuzilar sorrindo, sempre esqueço que têm umas três ou quatro que eu também não gosto só porque “não fui com a cara”. A diferença é que se alguém me incomoda eu não dou conta de disfarçar, quero logo “falar umas verdades”, distribuir uns coices de centauro e sair de perto, mas tem muita gente que não nos suporta justamente por não conseguir deixar de orbitar...

Então é um saco aquela pessoa cujo (cujo?) único assunto é falar mal de outra, que se corrói por dentro quando vê algo bem feito, que se diverte e até fica feliz exaltando o erro de quem está dando a cara à tapa. Justamente aquele tipo de pessoa idiota de corpo e alma que não traz nada de relevante pra cena, e se tentou não conseguiu e então passou a viver de produzir e disseminar veneno e mendigar amizades traiçoeiras. Gente vampirizante assim é preciso ter bem longe, mas é como falei: elas se achegam; porque precisam sugar a vitalidade dos que estão vivos, dos que estão fazendo o que elas não têm nem coragem, nem competência pra fazer.

Termino então com o “Tema do Cadinho”, uma REZA da sacrossanta Rita Lee para desbaratinar e espanar pra bem longe essa inhaca de mau olhado...


Deus me proteja da sua inveja
Deus me defenda da sua macumba
Deus me salve da sua praga
Deus me ajude da sua raiva
Deus me imunize do seu veneno
Deus me poupe do seu fim

Deus me acompanhe
Deus me ampare
Deus me levante
Deus me dê força

Deus me perdoe por querer
Que Deus me livre e guarde de você

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

RAPIDINHAS DO FESTIVAL DE INVERNO 2012

Esta décima nona edição do Festival de Inverno de Domingos Martins levou o conceito de "choque cultural" ao extremo. O exemplo mais explícito aconteceu no início da noite de domingo quando rolou um encontro de violeiros com o som mais raiz que o sertanejao já concebeu e na sequencia entrou uma orquestra de cordas polonesa tocando Mozart, Respighi e o melhor do repertório clássico. Taí um clique da Orquestra Capela Bydgostiensis que é regida pelo brasileiro José Maria Florêncio. 


O Capela tinha já se apresentado no Festival do ano passado e enquanto eu conversava com o regente comentei da peça Orawa do compositor Wojcieck Kliar que eu tinha gostado muito. Daí ele disse que ia apresentar a peça outra vez porque era a mais moderna do repertório e sabia que o público não ia lembrar. Só que na hora da apresentação Florêncio explicou que o grupo ia reprisar a peça a pedido de uma pessoa do lugar, pensando que eu fosse local. Bom, certamente estávamos distante demais da Polônia...

Um dos momentos mais tocantes - em vários sentidos - do Festival de Inverno de Domingos Martins foi o da apresentação da Fames Jazz Band. As participações especiais de Antonio Paulo Filho e de Dalila Gusmão foram de dar um nó na garganta. O Toninho, como é conhecido o maestro, se fora nascido do lado de cima (levando-se em conta o mapa mundi tradicional) seria reconhecidamente uma lenda do jazz. Na foto vemos Dalila, nervosa com a estréia, assumindo os teclados da Jazz Band. Para quem não está entendo, a moça é deficiente visual e figura queridíssima na Faculdade de Música. Pura emoção!


Os pequeninos integrantes da Orquestra Jovem do Festival de Inverno encantaram o público. A coordenadora da oficina de prática de orquestra, Mozineide Schultz, estava impressionada com a seriedade e o profissionalismo dos meninos e meninas. Na foto tem a Manu, a menorzinha, esperando a hora de entrar em ação sob regência do professor e maestro Ademar Rocha. 


A penúltima atração do Festival de Inverno de Domingos Martins foi a dupla sertaneja Edson Mineiro e Goiano - que curiosamente é de Vila Velha - e o líder da banda tem aquele jeitão despachado e brincalhão das pessoas do interior. Como o público demorou um pouco pra se achegar do palco ele disparou o comentário: "Vem pra cá minha gente, num deixa nóis passá vergonha sozinho não!"

No detalhe: Edson chamando "meu povo e minha pova" pra dançar
 
Uma das participações mais surpreendentes e bonitas do Festival de Inverno de Domingos Martins foi de Jamie Machler (informação de Edilson Barboza diretor da Fames), uma norte americana de Seatle muito tímida que veio às terras tropico-capixabas para participar da oficina de sanfona e concertina - que aconteceu em Melgaço - e cantou uma canção de Luiz Gonzaga com um sotaque delicioso, mesmo porque a moça não entendia uma vírgula de nosso idioma.  


Edilson disse que a moça chorou copiosamente na hora de voltar pra gringolândia, talvez porque tenha descoberto o sentido da máxima proferida pelo saudoso Tom Jobim:

"Viver nos EUA é maravilhoso, mas é uma merda; viver no Brasil é uma merda, mas é maravilhoso!"



CURIOSIDADE INÚTIL: Chamava atenção em Domingos Martins o triciclo "Ghost Ride" (SIC), como diria meu amigo Paulo Sardenberg, mais enfeitado que sela de burro de cigano... 



O pessoal do mega famoso grupo Falamansa quando chegou ao Festival viu o grande painel com Luiz Gonzaga no palco e se intrigou com a outra figura, queriam saber quem era. Veio então um rapaz da produção descobrir e me pediram para explicar que aquele era Claude Debussy, compositor francês, o cara do impressionismo etc. Enquanto o salameléktrico rapaz agradecia, eu, que ia apresentar o show, aproveitei pra também tirar as minhas dúvidas: agora me fala um pouquinho quem é o Falamansa porque eu também não sei... 

O maestro Helder Trefzger conversando com o público durante a linda apresentação da Orquestra Camerata SESI, atrás vemos o painel que intrigou o Falamansa... Falassério...

terça-feira, 17 de julho de 2012

RAPIDINHA CULTURAL DA BOA

Voltando à nossa cidade a sensacional orquestra Capella Bydgostiensis, tive o prazer de os apresentar o ano passado durante o Festival de Inverno de Domingos Martins e fiquei de queixo caído com a qualidade musical. O repertório apresentado foi moderno e instigante, ficou na memória especialmente uma peça chamada Orawa do compositor polonês Wojciech Kilar que eu nem conhecia e virei fã.

Lembro que o grupo chegou muito apreensivo com relação à sonorização, afinal iam se apresentar no palco principal de frente para a praça e, geralmente, nessas ocasiões o som fica uma tristeza. Só ficaram mais tranquilos quando eu disse que era a equipe do Loudness e o maestro descobriu que o engenheiro de som era Maurício Trindade, o mesmo da virada cultural de São Paulo onde onde a Orquestra já havia se apresentado. Quem perdeu essa apresentação fantástica no ano passado vai se programando, segue abaixo o convite...


O Capela Bydgostiensis chega de novo na época do Festival de Inverno de Domingos Martins, mais especialmente na noite de abertura. Portanto, não poderei os ver, porque estarei fazendo curso intensivo para picolé elektrônico lá em Campinho, emprestando minha voz pelo segundo ano consecutivo neste evento que é o mais chique e badalado da música de concerto em terras capixabas. 

Vale a pena conferir toda a programação do Festival no link abaixo
http://www.festivaldomingosmartins.com.br/?secao=programacao

sábado, 6 de agosto de 2011

PASSANDO O FRIO COM UMA BRUSCHETTA QUENTINHA

Fazia um frio danado em Domingos Martins, agora deve estar ainda pior, eu sou um daqueles caras que ficou famoso por agüentar e gostar do calor na mesma medida em que as temperaturas geladas me deixam com tremeliques bate queixo de Aborígenes Lessa. Não é que eu não goste do frio, acho até bom pra variar do tradicional bafo escaldante de Vitória, mas no final tenho que admitir: eu não suporto bem essa parada.

“Coisa de pobre!” Comentou um rapazinho muderno que vestia um longo sobretudo cinza chiquérrimo e um estrondoso tênis amarelo laranjada artificial, cuja (cuja?) cor torna-se interessante quando dita com sotaque de quem usa dentadura: lharanjhada. A mais de cem metros de distância dava pra sentir seu perfume. Nada discreta, a bunita. Não liguei pra provocação, até acho interessante, afinal as pessoas entram para a estória, inclusive esta, da maneira que conseguem, não é verdade?

Chegou uma hora que meus pés começaram a doer em algum lugar lá por dentro dos ossos, talvez também pelo cansaço de ir e vir pra cá e prá lá desde o meio dia e eram já três da manhã. Fora de casa, fora da rotina, sem hora direito pra comer ou dormir a cabeça entrou numas de não desligar mais, daí você não descansa e no dia seguinte tem tudo outra vez, quer dizer, é diferente, mas o tempo e o frio: germânicos que nem nazistas, eles não negociam cara.

A chuva começou a cair no sábado e não nos ajudou em nada, embora os lavradores estivessem achando bom: já reparou que tudo que pode ser ruim também pode beneficiar alguém e vice-versa? Eu nem levara um guarda-chuvas, não pensei que fosse precisar, não conseguia me lembrar de ter visto chuva em Domingos Martins em outra ocasião. E agora estavam lá aquelas nuvens vagas e difusas repousando preguiçosas sobre a mata das montanhas que circundam a cidade.

Fui tomar uma cerveja longe da galera, não queria ser um mau exemplo pra ninguém, nem tampouco passar a madrugada naquela friaca completamente de careta. Comprei um latão de Skol quase fora da muvuca e, apesar de ser o único - fora os seguranças - que vestia terno, duas moças locais puxaram conversa comigo. Logo danaram a reclamar da programação dizendo que não era interessante pros jovens. Daí argumentei: mas o que vocês queriam? O Rest-argh-t? Não souberam me dizer. Ah! O vinho cru das montanhas, a sombra das raparigas em flor...

Na Pousada Azul, onde eu estava muito bem hospedado toda manhã rolava uma “bruschetta”. Pode rir. Quem não acharia o nome desse quitute engraçado? Aliás, a cena inteira era propícia a piadas. No café da manhã, um frio do cacete, vinha Dona Lucinda, aquela mãezona, falar: Juca você quer comer uma bruschetta quentinha? Well Boris, considere que minha mulher tinha ficado lá em casa né? Portanto, como me negar a comer uma bruschetta quentinha na pousada da Dona Lucinda? É como dizia Rita Lee: Ninguém é de ferro, mas meus nervos são de aço...

terça-feira, 2 de agosto de 2011

DEPOIS DO FESTIVAL

No domingo passado terminou o 18° Festival de Inverno de Domingos Martins, ficaram boas historias e algumas constatações ponderadas. O fechamento do Hotel Imperador é praticamente um crime de lesa patrimônio turístico e cultural do Espírito Santo. O amigo Paulo Fonseca da empresa de turismo Etérea, disse de uma pesquisa onde a cidade de Domingos Martins é apontada como o destino número dois de turistas no Espírito Santo, perdendo só pra capital Vitória. Se fosse uma aposta eu teria marcado Guarapari e me cambado, como diria Tom Zé, aliás, mais Zé do que Tom.

Daí que o comércio local resolveu aproveitar para faturar de maneira canhestra. Tô eu vendo uma galera circulando com grandes taças de vinho pra lá e para cá. “Muito chique esse pessoal daqui hein?” Pensei com meus botones, mas no dia seguinte encontro o amigo Eustáquio Palhares que revelou a verdade: a taça era compulsória, a garrafa de vinho custava, vamos dizer uns vinte reais, mas só era vendida com a taça e esta custava mais sete. Por essas e por outras nossa equipe ficou local do boteco Galeto de Prata, um abraço pro Foguinho e pro Guimarães, vulgo Formiga.

Salvo raras exceções não rolou baixaria durante o festival, o que é certamente uma das explicações para a mídia não ter dado tanta importância ao evento. Uma das tais exceções veio inesperadamente do palco principal. Um senhor da prefeitura me contou constrangido que o cantor Emilio Santiago, soltou um tremendo palavrão durante sua apresentação: “Quando a gente ouviu naquelas caixonas de som - “Baralho! (pra não dizer outra coisa) O som tá muito alto!” - minha mulher quase caiu da cadeira... O cantor carioca parece que de suave tem só a voz, sua equipe deu um piti danado e acaba que sua participação foi das mais sem graça da programação.

Já Monarco mostrou porque é conhecido como a realeza do samba, seu show foi uma saraivada das mais lindas canções do gênero “de raiz”. Acompanhado por quatro senhorezinhos da famosa Velha Guarda da Portela, o show do sambista de 77 anos encantou a todos. No final não teria bis, mas acho que convencido por Edilson Barbosa, diretor da Fames, Monarco voltou e atacou seu samba "Coração em Desalinho" que é tema da novela Insensato Coração, não sem antes comentar satisfeito que cada vez que a música toca na Globo, bate um “cascalho” em sua conta.  

Convencido a voltar, o difícil depois foi fazer Monarco parar outra vez. Um dos músicos que tocava sete cordas chamou discretamente um dos rapazes da produção e falou: “pede pra ele parar senão a gente não sai daqui hoje.” E lá foi o cara puxar, também discretamente, a barra da calça do velho sambista que já não sabe o que é freio de mão há muito tempo, enquanto isso algumas pessoas do público se indignavam ou achavam engraçado, pensando ser alguma espécie de gafe ou combinação.

A tônica do festival foram as apresentações de qualidade e as gratas surpresas como, por exemplo, o som da empresa Loudness que realizou prodígios. Por exemplo: a orquestra Capella Bydgostiensis (ê nome desgraçado) formada por músicos poloneses, sentou e tocou de pronto. Eu nunca vi nada parecido, eles nem sequer checaram a afinação no palco. Posicionaram-se e sentaram o dedo – sem querer desmerecer ninguém - enquanto grupos muito menores de instrumentistas levaram quase uma hora para ajustar o som... Rapaz e como os polacos tocaram! Me senti uma “vaca profana” cantada por um Caetano em ter que falar alguma coisa depois daquele concerto.

O quinteto Fabiano Mayer fez uma linda homenagem ao violonista Maurício de Oliveira que teria completado 86 anos no último dia 17 de julho, receberam no palco o Tião, filho de Maurício, que aproveitou para mostrar uma música chamada “Cadência” de Juventino Maciel que o maior músico do Espírito Santo, em seus últimos dias, sempre pedia para o filho tocar. Isso tudo aconteceu no sábado, sem dúvida o dia mais emocionante do Festival, embora, musicalmente falando, a disputa se torne difícil de comparar com a noite de abertura que teve nossa orquestra com Wagner Tiso, Leci Brandão e Amaro Lima.

Em 2012 tem mais Festival de Inverno de Domingos Martins, inclusive, o tema do ano que vem dá o que pensar aos mais musicalizados, afinal, homenagear-se-á (Íça!) o compositor francês Claude Debussy, conhecido como impressionista e o nosso “Rei do Baião” Luiz Gonzaga que dispensa apresentações. Em outubro teremos, organizado pelo Instituto Todos os Cantos e com cobertura da Letra Elektrônica, o II Festival de Coros Infantis da Serra com patrocínio da Lei Chico Prego e da empresa ArcelorMittal Tubarão. Maiores informações em breve, quem viver não se arrependerá por esperar.


segunda-feira, 25 de julho de 2011

ELEVANDO A TEMPERATURA!


O primeiro fim de semana do décimo oitavo festival de Inverno de Música Erudita e Popular de Domingos Martins foi marcado por grandes apresentações, um frio danado - que era esperado e até desejado por muitos - e uma chuvinha insistente. No cacófago da madrugada o termômetro da praça teimava em marcar dezesseis graus, suspeito até que dali ele não passe pra baixo, porque pra mim tava “fazendo”uns cinco.

Enquanto eu reclamava comigo mesmo que deveria ter me preparado melhor pra enfrentar o general inverno, passa um garotão marombado só de camisetinha regata folgadona. Claro que sua intenção era expor seus predicados musculares com o intuito de pegar alguma das inúmeras alemazinhas que se espalhavam pelo público. Convenhamos que pela lógica meteorológica era mais fácil pegar uma pneumonia...

Aconteceram concertos, shows e recitais imperdíveis, não vou contar tudo senão vocês vão até ficar tristes. Mas confesso que a Leci Brandão me surpreendeu. Cheguei em Domingos Martins no final da tarde quando a temperatura era de dezoito graus, quando caiu a noite baixou pra dezesseis e, inexplicavelmente, pouco depois de Leci entrar no palco o termômetro da praça marcava dezenove graus. Leci fez uma apresentação pra cima e tão alto astral que fez até a temperatura subir!

O pianista Marcelo Verzoni fez um recital todo voltado pra música brasileira, tocou uma linda valsa de Ernesto Nazareth chamada “Confidências” que eu não conhecia. Explicou que era a música favorita de Ruy Barbosa, sempre tocada pelo autor de Odeon quando aparecia a célebre figura da “Águia de Haia”. Na mesma balada o violonista Paulo Pedrassoli homenageou Carlos Cruz com uma suíte belíssima chamada Gravuras de Debret.

O grande destaque dessa primeira parte do festival de inverno foi a participação da música instrumental local, a nossa Orquestra, a Banda da PM e os alunos e professores da Faculdade de Música. Teve quarteto de cordas, orquestra de câmara com meninas de seis, sete anos, lindas. Teve banda pop, coral com homenagem aos Beatles, big band de jazz. E todo mundo tocando muito. É visível - e também é um alívio - perceber o quanto isso tudo é fruto de trabalho competente da Fames que ajudou a elevar a Orquestra Filarmônica do Espírito Santo a outro patamar de sonoridade.                                                                                

Falei que não ia contar tudo, afinal, no próximo fim de semana tem mais: concerto com o pianista Marcelo Bratke, Orquestra Capela Bydgistiensis da Polônia, Emílio Santiago, Monarco da Portela, Fabiano Mayer e seu quinteto, Coro Curumins regido por Paulo Paraguassú. Enfim fiquem de olho no site do festival, agasalhem-se direitinho - ou levem um cobertor de orelha, coisa que não fiz - e cacem o rumo da montanha. Garanto que vocês não vão se arrepender.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

FESTIVAL DE INVERNO COMEÇA HOJE!


Começa hoje (22 de julho – sexta-feira) o tradicional Festival de Inverno de Domingos Martins, uma iniciativa musical da mais alta qualidade que completa duas décadas no ano que vem. Talvez em função das inúmeras reviravoltas que esse evento já passou - que muitas vezes o descaracterizaram completamente - a mídia local não anda, em nossa humilde opinião, dando muita pelota pra coisa. Na maioria dos grandes sites de notícia capixaba não vi nem uma referência sequer, diferente do passado quando o primeiro festival foi capa do caderno dois de A Gazeta, como se vê na reportagem abaixo.



A noite de abertura vai apresentar um bis do concerto realizado ontem com grande sucesso pela Orquestra Filarmônica do Estado do Espírito Santo tendo o compositor e pianista mineiro Wagner Tiso como convidado especial. O maestro Helder Trefzger até escreveu pra puxar nossa orelha elektrônica, porque anunciamos o concerto na quarta e o mesmo aconteceu na quinta. Depois fez a ressalva que os ingressos haviam se esgotado mesmo no dia anterior, talvez com nossa ajuda, talvez não. É então a oportunidade pra gente se encontrar nas montanhas.

A cerimônia de abertura está marcada para as 19 horas, o concerto acontece logo em seguida. Dez e meia entra no palco a cantora Leci Brandão e encerra a noite o meu querido amigo Amaro Lima. No sábado tem uma extensa programação com destaque para a banda da PM com o maestro Rocha. A programação de domingo começa com a Orquestra Camerata do SESI, sob regência do maestro Leonardo Davi, que, aliás, outro dia foi anunciado como Dêivid pelo locutor da TV Gazeta. Hehehe... É Davi mesmo companheiro... Por essas e por outras que a Letra Elektrônica vai estar por lá.

Para acessar a programação completa do Festival clique no link abaixo e não deixe de participar. Estando por lá, me procure pra gente tomar um vinho tinto e curtir os shows...

http://www.festivaldomingosmartins.com.br/programacao.html