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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

FUGA PRA DEBAIXO DO NARIZ


"Então, Calebe fez calar o povo perante Moisés e disse: Eia! Subamos e possuamos a terra, porque, certamente, prevaleceremos contra ela".

Números Cap. 13, v. 30.

No dia 04 de fevereiro de 2013 a polícia capixaba divulgou a notícia da prisão de José Alayr Andreatta, réu condenado em todas as instâncias judiciais como mandante do assassinato da jornalista Maria Nilce dos Santos Magalhães, ocorrido em 05 de julho de 1989. As surpresas dessa prosaica captura foram muitas, afinal, Andreatta estava foragido desde julho do ano passado e - muito longe de se esconder em alguma caverna no Cazaquistão - curtia uma espécie de aposentadoria em Jardim da Penha, bairro praiano, considerado nobre na cidade de Vitória.

Atentem para o detalhe irônico na camiseta "submarina" que Andreatta usava no momento de sua prisão. É ou não para pensar que o sujeito "estava mergulhado"? (Imagem da TV Gazeta-ES)




A reportagem anunciando a prisão de José Alayr Andreatta, veiculada na 2ª Edição do telejornal da Rede Gazeta, afiliada Globo no Espírito Santo, adotou um ar curiosamente respeitoso para com o foragido da justiça. Mesmo tom distante e asséptico, é bom dizer, adotado de maneira geral pela mídia capixaba com relação ao caso Maria Nilce ao longo do tempo. O repórter tratou Andreatta como “empresário” e disse que a prisão fora “por acaso”. Afirmação que passa subjetivamente – sem intenção talvez - a ideia de que o empresário fora preso “por engano”. A frase foi a seguinte:


O empresário José Andreatta foi preso por acaso, ele saia de um supermercado no bairro Jardim da Penha em Vitória, quando foi reconhecido pelo delegado Danilo Bahiense.


Nem é preciso ler nas entrelinhas que, apesar de foragido, Andreatta não era necessariamente um perigoso bandido procurado, tanto que há meses morava despreocupado num bairro bacana e super populoso. Na questão da captura, o trabalho da polícia tem todo o mérito, mas o “esconderijo” do meliante surgiu através de uma denúncia anônima. Logo em seguida o repórter fornece um resumo do caso, mas bota resumido nisso, com o seguinte arremate:


O empresário José Andreatta foi apontado como mandante do assassinato, foi a júri popular em 2006 e condenado a 13 anos de prisão. O empresário recorreu da sentença em liberdade, mas teve todos os recursos negados. Não havendo mais possibilidade de recorrer, a justiça mandou prender.


Eu estou ficando maluco ou essa frase dá a entender que o homem foi preso por uma espécie de  implicância da justiça? Ora, ainda em 1989 a polícia federal apurou que esse tal Andreatta fretara o voo que dera fuga aos pistoleiros que mataram Maria Nilce e reuniu inúmeras outras provas de que o mesmo participara ativamente da articulação do crime enquadrando-o como mandante. Acontece que, com o chamado “amplo direito de defesa” - entenda-se, mais de vinte anos de recursos e apelações - o criminoso não havia sequer cumprido um dia na prisão. Somente em 2006 (!) José Alayr Andreatta foi julgado e condenado a 13 anos de cadeia. A reportagem prossegue dizendo que o mandato de prisão fora expedido em julho de 2012 e que "o empresário, na época, não foi encontrado".


Pois bem, foi se esconder debaixo do nariz da sociedade capixaba, entenda-se, o cotidiano nada clandestino dos botecos e supermercados de Jardim da Penha. Era mais um entre os inúmeros “tiozinhos gente boa” que frequentam o Pezão e o Bar dos Coroas. Ontem um conhecido meu, dono de um bar em Bairro República, disse que tomou um susto quando viu a notícia. Reconheceu Andreatta como frequentador regular de seu estabelecimento, inclusive, na companhia de policiais.  


Outra coisa curiosa são os comentários do delegado durante a reportagem, porque - sei-lá-porque - deram a entender que o Andreatta seria um coitado, vivendo em um apartamento minúsculo e dependendo da ajuda financeira de amigos. Será que era então para ter pena dele? O pior é que ninguém deu conta de explicar quem eram esses tais que ajudaram o empresário em sua doce clandestinidade pública. E, quinto parágrafo: quando foi que acobertar foragido da justiça deixou de ser crime?


Para colocar a cereja no bolo, o repórter abre o microfone para que o “empresário”, após tudo descrito aqui, tenha nova oportunidade de balbuciar sua inocência no telejornal de maior audiência do Espírito Santo.


Não tinha motivo nenhum pra matar, dentro do processo não tem uma prova, não tem nada contra mim. Eu nunca tive... Num fui condenado nada. Por que ia matar essa mulher?


O homem parecia desorientado, o que é natural quando a casa cai, enquanto isso o repórter explicava que “para a justiça José Andreatta mandou matar Maria Nilce por vingança”. Vem então o delegado Danilo Bahiense que, aliás, merece todo nosso respeito e admiração pela prisão deste assassino, reproduzir involuntariamente as velhas lorotas ditas por Andreatta no estilo do crime organizado que tem a notória prática de transformar a vítima em réu para justificar covardias e atrocidades.


Ele disse que a jornalista extorquia alguns empresários e estava querendo extorqui-lo também e ele não aceitou. E ela acabou divulgando de que ele teria se casado com um travesti naquela ocasião. Segundo consta esta teria sido a motivação.

Neste momento está entendido o crime, certo? Defesa da honra, só para justificar o último argumento, porque os anteriores são mentiras cabeludas, mas nada disso foi explicado para o público; foi, isso sim, veiculado impunemente, torno a dizer, no televisivo de maior audiência do Espírito Santo. Alguém pode explicar qual era a empresa poderosa que esse senhor Andreatta era dono em 1989 que mereceria o achaque da colunista social de maior importância e, ela sim, uma empresária bem sucedida, proprietária do segundo maior jornal de circulação diária na cidade de Vitória?


Em suma, todo o episódio dessa reportagem absurdamente desrespeitosa para com a memória de uma pessoa assassinada a sangue frio num caso que chocou o país é apenas a prova de que temer, respeitar, dar ouvido e até razão a “alta bandidagem” é ainda algo bastante trivial na sociedade capixaba. A culpa não é do repórter, nem é dos entrevistados. A criminalização de Maria Nilce, e de muitas outras vítimas de casos escabrosos, começa lá atrás e tem a ver com a corrupção de muita gente respeitada, temida e considerada “importante” no Espírito Santo. E a grande mídia - por pressão, influência e sobrevivência - com estes sempre foi conivente e condescendente.


José Alayr Andreatta foi julgado e considerado culpado, que cumpra sua dívida com a sociedade. Porém, é bom lembrar que as investigações da polícia federal o consideraram um “peixe pequeno” e que havia indícios do envolvimento de gente bem acima dele na hierarquia do “crime organizado” no Espírito Santo. A promotoria da época lamentou o fato de não ter sido possível chegar aos maiores financiadores do crime escabroso que vitimou Maria Nilce. Somente com muito custo conseguiram indiciar alguns dos operativos, os homens de campo e, ainda assim, só agora, quase vinte e quatro anos depois, um deles foi parar na cadeia. Agora, nos resta ainda saber se o "empresário" vai ficar mesmo por lá...


Segue o link da reportagem da TV Gazeta comentada acima, para que todos possam julgar a partir de sua própria percepção:




Para quem não sabe nada do crime que vitimou Maria Nilce Magalhães segue reportagem publicada no prestigioso site do Proyeto Impunidad que denuncia o assassinato de jornalistas na América Latina:




E segue outro texto de Juca Magalhães sobre o assunto, publicado no site Observatório de Imprensa, tido como o mais importante sobre jornalismo no país.



http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_o_ultimo_crime_contra_o_jornal_da_cidade

domingo, 21 de outubro de 2012

CRÔNICA DE DOMINGO: MARCELO RAUTA, UM TALENTO EM ASCENSÃO NA MÚSICA CLÁSSICA



“Trajetória de um músico que se destaca no cenário nacional provoca uma reflexão: quantos compositores e artistas extraordinários se perdem devido à falta de oportunidades?”

Texto publicado ontem (20 de outubro de 2012) no caderno Pensar de A Gazeta.

Por Juca Magalhães

No Rio de Janeiro existe uma Associação de Violões criada para promover o ensino do instrumento mais popular do país com projetos sociais, um programa na Radio MEC (Violões em Foco), saraus e que realiza anualmente desde 2003 uma seleção de “novos talentos” destacando um compositor brasileiro e oferecendo premiações em dinheiro aos três primeiros colocados. Nesta edição de 2012, cuja (cuja?) abertura aconteceu no último dia 20 de outubro, o homenageado é o capixaba Marcelo Rauta.

Graduado e mestre em composição pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, premiado em concursos e autor de obras para várias formações da dita “música clássica”. No final de 2011, Marcelo Rauta lançou o disco Rerigtiba, uma amostra de suas peças, sobretudo, para violão. Teve, também nesse ano, o seu Salmo 100 incluído na turnê internacional do coral Canarinhos de Petrópolis que postou no Youtube um belo registro em vídeo apresentando a música de Rauta numa catedral em Bonn.

COMPOSITOR NO INTERIOR

Talvez mais incrível que o prolífero talento desse jovem capixaba ainda desconhecido de seus conterrâneos seja a história de sua vida. Longe de ser educado em um rico ambiente cultural que se imagina forjar os grandes compositores de música de concerto, o menino nasceu em Guarapari (05/03/1981) e logo foi morar na zona rural da cidade vizinha, Anchieta. Um município que em 2010 (segundo o site da Prefeitura) tinha pouco mais de vinte e três mil habitantes.

Após terminar a quarta série primária veio uma mudança importante, para prosseguir nos estudos o menino passou a morar com a mãe na sede do município. Marcelo tinha então em torno de dez anos. Um dia brincando na casa do colega Paulo Henrique Cunha Gonçalves viu lá um instrumento que despertou sua curiosidade...

- O que é isso?
– É um teclado... Serve para fazer música.
- Música? E o que é música?
- Ué, você nunca viu o Caçulinha tocando no Domingão do Faustão?

Criado na fazenda Dois Irmãos, sem energia elétrica muito menos televisão, Marcelo não conhecia nada daquilo. Seu amigo ligou o instrumento e tocou um trecho da nona sinfonia de Beethoven. Desnecessário dizer que o menino ficou maravilhado com a novidade e propôs um escambo: “eu te ensino matemática e você me ensina a mexer nesse negócio”. O engraçado é que o compositor confessa hoje não saber mais nada de matemática e o amigo trabalha como contador.

Logo Marcelo intercalava parte do dia na escola, corria em casa para almoçar e todo o resto do tempo ficava mexendo no teclado. A mãe de seu amiguinho era estudante do instrumento um pouco mais experiente e também compartilhou de boa vontade o que já havia aprendido, mas em pouco mais de um semestre a avidez musical do menino esgotou as possibilidades da escolinha improvisada. Naquele momento o destino se intrometeu na história, como nos conta o próprio compositor:

“Eis que surge em Anchieta um projeto que a prefeitura estava implantando. ‘Música para a comunidade’. Aí, foi daqui de Vitória a professora Ângela de Souza Cruz, minha primeira professora de piano. Ela viu que eu tinha talento, começou a me dar aulas e me preparou, inclusive, para a prova da Fames que na época era ainda chamada Escola de Música. Foi onde eu estudei o terceiro básico e dali já pulei para o curso superior.”

MÚSICA, NEM PENSAR!

É preciso explicar que, a princípio, o interesse incomum de Marcelo pela música foi ignorado por seus familiares: não incentivaram, não investiram, mas tampouco proibiram. Só na hora de escolher um curso superior é que todo mundo resolveu opinar. Uns diziam que devia estudar medicina, outros achavam direito melhor: mas música? Nem pensar! Música era coisa de vagabundo, ia acabar desempregado e morrer de fome. O pior é que nem se pode acusar seus parentes de ignorância, o preconceito com o “mundo das artes” persiste em todas as camadas sociais.

Junto com o estudo de música Marcelo começou a compor música de concerto, era como se uma coisa estivesse diretamente ligada à outra, o que geralmente não é tão simples. Mesmo sem noção das regras básicas de composição (forma, harmonia, contraponto, orquestração etc) o jovem criava partituras e as submetia à opinião de músicos mais experientes como os maestros Helder Trefzger e Leonardo Davi que reconheceram seu talento e o aconselharam a estudar no Rio de Janeiro, porque no Espírito Santo ainda não havia curso superior de composição (Só neste ano de 2012 a UFES deu início ao bacharelado na área).

Como imaginar aquele rapaz tímido que mal conhecia Vitória se mudando para o Rio de Janeiro? Para começar havia a dificuldade financeira - na primeira vez que tentou estudar na Fames, foi preciso abandonar o curso após três meses por não poder pagar as passagens – depois havia um concorrido vestibular para entrar na UFRJ. A princípio Marcelo fez o esperado, concluiu o “segundo grau” e resignadamente começou a cursar ciências contábeis em Guarapari. Três períodos depois não aguentava mais. Resolveu arriscar o futuro no Rio, cidade que até então nem conhecia, e foi aprovado em segundo lugar no curso de composição dando início aos estudos em 2003.

Para poder se virar na “Cidade Maravilhosa” o jovem compositor fez entrevista com a assistente social da Universidade e conseguiu provar ser merecedor da chamada “bolsa auxílio” no valor de apenas trezentos reais para custear todas as suas despesas: aluguel, alimentação, tudo. Sua família ficou chocada do rapaz se aventurar numa cidade tão perigosa onde não conhecia ninguém. Marcelo conta que também ficou com medo, mas logo se acostumou. Achou o carioca receptivo, os professores notaram seu talento e lhe deram atenção, no segundo ano conseguiu outra bolsa, a coisa foi melhorando e entre o curso de graduação e o mestrado passaram sete anos.

UMA INEVITÁVEL REFLEXÃO


A partir de certo momento de sua vida acadêmica o capixaba começou a colecionar premiações importantes, como consta no site da Academia Brasileira de Música: “Venceu o ‘Concurso Nacional de Composição para Orquestra de Câmara – Prêmio Sesiminas de Cultura’. Premiado no ‘Concurso Quintanares de Quintana’ em comemoração aos 100 anos de nascimento do poeta Mário Quintana, com sua obra para soprano e piano Ah! Os Relógios – obra lançada em livro e CD pela UFRJ. Venceu o ‘Concurso de Composição Niemeyer – 100 anos’, com sua obra Trio nº3-Igreja de São Francisco – obra lançada em livro e DVD pela UFRJ. Venceu o ‘II Concurso de Composição Claudio Santoro para Jovens Compositores’ com sua obra Psalmus 67”.

Logo após defender sua dissertação de mestrado em 2010, Marcelo ficou sabendo que haveria seleção para professor substituto dos cursos de bacharelado e licenciatura na Faculdade de Música do Espírito Santo. Veio, fez a prova e, como costuma ser, passou. Voltou para ficar perto da família e, numa inesperada inversão de valores, por questões financeiras. “A concorrência no Rio é grande, a remuneração de professor ficou mais interessante aqui no Espírito Santo”. Bom para os alunos capixabas que podem aprender um pouco da arte musical com esse gênio de trajetória insólita na qual se revela um misto de predestinação com muita determinação e coragem.

A história de Marcelo Rauta nos ensina muita coisa e provoca uma inevitável reflexão: quantos outros potenciais compositores e artistas extraordinários estiveram e ainda estão relegados à própria sorte neste país de tantas e tão grandes desigualdades? Quantos estão sem acesso à educação, sem força psicológica para romper as barreiras do preconceito contra sua arte ou encarar as dificuldades financeiras e conquistar sua independência vivenciando plenamente seu talento e criatividade? Quanto será que perdemos enquanto cultura com tudo isso?

No final deste ano a Faculdade de Música do Espírito Santo - Fames vai publicar em livro a pesquisa de mestrado de Marcelo Rauta que tem o título: “Reminiscências do Choro N° 10 de Heitor Villa-Lobos na Sinfonietta N° 4 de Marcelo Rauta: um estudo comparativo.” Não por acaso as obras em questão são de compositores nascidos no mesmo dia 5 de março, até aonde vão essas coincidências é difícil precisar. Tudo que sabemos é que Marcelo Rauta é um nome que evoca uma missão para a sociedade civil organizada: criarmos meios – que hoje não existem - de fomentar talentos como o dele e os ajudar a se desenvolver e frutificar.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

CULTURA E TERRITÓRIO CAPIXABAS: DIVERSIDADE, BELEZA e FUTURO

Faz tempo que não rola uma participação especial aqui na Letra Elektrônica e como nossa especialidade é descer o malho no capixabismo, vem aí um texto pregando exatamente o contrário que é só pra provar que nós somos que nem o Chacrinha: "viemos pra confundir..."

Aos que se assustam com perspectivas otimistas vai um conselho: não leiam este artigo.

É clássico definir-se cultura como “um conjunto que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os hábitos e aptidões adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade” (Edward B. Tylor).

O termo cultura pode abrigar uma infinidade de outras definições, pois este mesmo conjunto que o forma varia de acordo com a sociedade que o abriga, a qual sempre irá interpretá-lo à sua maneira.

Usando e abusando do termo, entretanto, podemos afirmar que nós, capixabas, abrigamos em nossa cultura o melhor retrato da diversidade do continente Brasil, e dela temos prova exatamente no viés da nossa identidade.

Nossa identidade cultural é tão complexa e multifacetada que pode ser confundida com "não identidade" por um desavisado. Não somos facilmente identificáveis, mas somos facilmente admiráveis, pois somos, ao mesmo tempo, botocudos, guaranis, africanos, portugueses, alemães e italianos, sírios e libaneses, só pra citar a parte maior do caldeirão que nos forma.

É nesse caldeirão, panela de barro, que produzimos qualidade de vida entre as melhores do continente e começamos a pisar no precioso e infinito território denominado futuro. Somos agora não só minério, celulose, café e navios: somos petróleo, somos software, design, tecnologia em meio ambiente, e nosso limite, repito, é o infinito.

Somos também mar e montanha, areia e pedra, quente e frio, norte e sul. Somos moqueca e polenta, peixe e paca, orquídea e beija-flor, altos e baixos Jucus e Guandus.

De Guarapari, o paraíso de praias radioativas que resiste heroicamente a décadas de maus tratos, até Pedra Azul, nosso monumento de granito que desabrocha hoje seu potencial turístico internacional, quem visita o Espírito Santo é invariavelmente tomado de surpresa e encanto.

Nós, hoteleiros capixabas, presenciamos dia após dia essa descoberta e deslumbramento, seja dos capixabas, com sua própria terra, seja dos visitantes brasileiros e de todo o mundo, com a terra bendita do Espírito Santo.


Do alto da Pedra Azul, agora candidata na UNESCO a Patrimônio Natural da Humanidade, até o Convento da Penha, futuro Patrimônio Cultural e Histórico do Planeta, fica fácil vislumbrar que o novo século nos trouxe o momento de colher os frutos das sementes plantadas por gerações de valorosos capixabas, que trabalharam e confiaram neste futuro que se faz presente.

Leonardo Tristão,
Diretor da Pousada Pedra Azul, Informático e capixaba fanático.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

SERÁ QUE UM DIA AINDA TEREMOS JEITO?



O texto lá abaixo foi publicado originalmente no caderno Pensar de A Gazeta, curiosamente ou não, no dia do aniversário de nuestra vetusta capital do Espírito Santo (08 de setembro passado), cuja (cuja?) festa teve showzinho de Fabio Junior e tudo mais. Infelizmente isso não foi suficiente para colocar a orla botocuda em destaque nacional (cadê o delegado Fabiano Contarato?). 

 
A Globo deu a maior corda pra festa de Olinda com uma linda e longa reportagem, no final, a loira apresentadora do Jornal Hoje falou à seco "Hoje é também aniversário de Vitória: Parabéns." Nosssa moquecada ficou tão sem graça que era melhor até não ter falado nada. Parecia aniversário de criança em orfanato, embora, confesso (e a porra), nunca tenha presenciado nenhum...

Segue o texto como foi publicado na página 04 do Pensar - exceto a epígrafe de advertência - com o título de "A diferença entre ação cultural e evento"...


Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las.

Voltaire



Faz um tempão fomos convidados a representar o rock (imaginem) numa reunião com responsáveis pela gestão estadual da cultura. A ideia era captar uma visão da realidade dos “artistas da terra” (bananas, como diria Alexandre Lima) e ajudarmos a definir metas e diretrizes com relação às ações e fazeres públicos. Daquela reunião lembro muito de um senhor que fazia parte de um regional tradicional (acho que era o mestre Aquiles) e que lá pelas tantas se encheu do blábláblá e perguntou assim: “vocês estão esperando eu morrer para me homenagear? Façam alguma coisa agora!”

Uns vinte e tantos anos se passaram e, curiosamente, muito pouca coisa mudou com relação a essas reuniões. Compus e gravei algumas músicas; pesquisei, escrevi e publiquei dois livros; estudei, toquei, ensinei e palestrei. Por duas ocasiões trabalhei para secretarias de cultura, conheci boas iniciativas e outras bastante oportunistas e equivocadas. Vi muitos artistas “perderem a razão” perante as mumunhas da coisa pública, uns com bons motivos, outros por desconhecimento assumido. Estes, nem deviam reclamar (mas como o faziam), afinal: como nem estar aí para uma coisa e querer ou imaginar que ela deveria estar aí para você?

Artista é, por definição, alguém que produz arte e “que faz dela profissão”. Porém, quando acontecem essas reuniões políticas com a “classe de artistas” aparece um número grande de pessoas que trabalha eventualmente com arte, mas não cria bens culturais de consumo. São os conhecidos “promotores de eventos”, muitas vezes mais respeitados que os próprios artistas, pelo menos aqui no Espírito Santo. Nessa hora de pensar política pública de base o certo seria separar algumas instâncias entre criar e produzir, mas isso não acontece e dificulta o foco. São tantas vertentes e iniciativas importantes em nossa cultura que estabelecer prioridades é sempre desafio.

Os próprios profissionais lotados em secretarias de cultura até o momento não parecem ter atentado para a necessidade de estabelecer um limite entre “evento” e “ação cultural” e vêem com naturalidade grande parte da verba ser desperdiçada nas festas da cidade. Isso acontece porque não existe uma política clara e definida para a cultura, basta comparar com a educação. As pessoas das secretarias acham que estão “mandando bem” quando “criam” projetos “itinerantes” com oficinas e apresentações que migram pelas comunidades. Já imaginou como funcionariam, ou qual efeito educacional teriam em longo prazo, aulas “itinerantes” de matemática e português?

Em Brasília existe hoje a “Frente Parlamentar em Defesa da Cultura” que concebeu uma carta compromisso a ser assassinada por candidatos a prefeito. O conteúdo da missiva é bacana, mas é também tão abrangente que acaba soando confuso, porque não tenho certeza que seja possível abraçar os “múltiplos aspectos” da dita “diversidade cultural” brasileira e ainda fazer relações com meio ambiente (!). A maioria dos prefeitos não percebe muito bem o que é cultura, menos ainda consegue quantificar sua importância quando a compara com pastas menos subjetivas como saúde e segurança. Não seria a hora de pensar simples e propor soluções pragmáticas?
                                                                                                         
Minha primeira contribuição no Caderno Pensar de A Gazeta foi um texto intitulado “Cultura para quem?” Nele já defendia alguns conceitos que vinham da experiência como professor do curso de biblioteconomia e hoje, cada vez mais, de música popular e erudita. Participei na orientação da tese de conclusão de curso de dois alunos (Lausi e Valmir) que mencionavam a obra "L'action Culturelle dans la cite" (1973) do jornalista e filósofo Francis Jeanson (1922-2009) que defendia ser a única ação cultural válida a de formação, aquela que fornecia instrumentos de trabalho para o surgimento de novos criadores.

 
“O processo de ação cultural resume-se na criação ou organização necessárias para que as pessoas inventem seus próprios fins e se tornem, assim, sujeitos da cultura e não seus objetos.”

É claro que os grandes eventos de uma cidade são importantes, porém são pontuais, portanto, sua relevância enquanto ação cultural é nula, quando muito tem impacto no comércio e no turismo da cidade e talvez devessem ser vistos assim: pelo valor turístico ou cívico que seja, cultural jamais.

Ainda quero ver um candidato a prefeito defender a dissociação entre ação cultural e evento e a criação de núcleos de ensino formal de arte, a exemplo de outras cidades do país, ou mesmo a Venezuela que é referência em ensino de música para o mundo. Existe hoje uma demanda enorme por esse tipo de iniciativa longe de ser atendida. Enquanto os municípios fervem uma ou duas vezes por ano com apresentações públicas de astros nacionais, seus próprios artistas (como o caso do mestre Aquiles) são ignorados e seu talento desperdiçado por falta de uma política formadora que proporcione acesso e o domínio das ferramentas de criação cultural.