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sábado, 7 de maio de 2016

MARIA NILCE MAGALHÃES POR MARCOS TAVARES

Para lembrar o Dia das Mães, com carinho e saudades.
Texto publicado em “capítulos” no Facebook no início de maio de 2016.

“A vida se perpetua
mesmo nos putrefatos restos
quando o ser se anula.
Entre odores e microorganismos,
noutra forma de existir,
a vida se reorganiza”.

(in Gemagem, pg.52. Datado de 17-01-1978)

Nona filha de Tertuliano Tauribio dos Santos e Ana Cleta dos Santos, nasce na fazenda Fundão dos Índios, no Distrito de Timbuí (Fundão, ES), em 23 de Julho de 1941.

Então moça simples, mas bela sempre, aí a conhece o já renomado jornalista [ Djalma Juarez Magalhães ], com quem casa em 1961, logo indo para Vitória(ES), berço dos filhos Fernanda, Milla, “Juca” e Paloma.

Nomeia-se apenas “Maria”. Em 1967, precursora, no jornal A Tribuna passa a redigir coluna social intitulada MSM.

Sua forte personalidade exerce magnetismo, fascínio, admiração, até em ícones da então vigente inteligentsia: Amylton de Almeida, Rogério Medeiros, Glecy Coutinho, Carmélia M. de Souza, Xerxes Gusmão, Mariângela Pellerano, Fernando Tatagiba, Marien Calixte, Marcos Alencar, Milson Henriques.

Muitos desses são revistos na peça teatral Inven7ário – o fim de uma época, que, realizada por alunos do Curso de Teatro (FAFI, 2014), traz à cena a efervescente década de 70. Maria Nilce é, assim, com justeza, encarnada pela atriz Lilian Casotti.

Mesmo avessa a churrasco e cerveja, é bem sucedida em filantropia: festas beneficentes quebram marasmo da então pacata Ilha, fosse almoço para guardas de trânsito, fosse para arrecadar fundos a asilo ou orfanato.

Também detestando futebol, vai a estádios, a ginásios esportivos, ocasiões de festival de música, plateia de pé a gritar o seu nome, empunhando faixas, a jogar confetes.

Promove desfile de modas e deles participa como jurada (até de concurso de Miss Espírito Santo). Em evento no Ginásio do SESC (Parque Moscoso), multidão entoou-lhe o clássico “Ave Maria”. Apoteose já em vida.

Versátil, na TV Vitória produz e apresenta o programa “Coisas e Gente Muito Importantes”. Primeira jornalista a surgir, em nível nacional, na “telinha”, integra júri do “Hora da Buzina” (TV Globo) apresentado por “Chacrinha”.

Feminista em boa dose, Dia Internacional da Mulher jamais lhe passa em branco: para mulheres pobres promove suculento almoço.

Rebelando-se contra um colunismo só bajulador das elites, em sua coluna inicia Maria Nilce uma espécie de vertente “informativa”, propositiva até, na qual a seguem outros notáveis quais Jorginho Santos, Nirlan Coelho, Tao Mendes, Carlos Vaccari, Geraldo Bulau, Cesar Viola.

Espírito irônico, irreverente, é endeusada e, também, satanizada. Atrai leitores ávidos em saber vícios, virtudes e vicissitudes das personalidades capixabas de maior relevância.

Em 1986, crianças de Dores do Rio Preto (ES) remetem-lhe um abaixo-assinado contra matança de cães e gatos, por misterioso envenenador, e sua coluna [ no Jornal da Cidade ], com nota solidária, brada indignação.

Com predicativos para ser mais uma “dondoca” colunável, renuncia às facilidades e futilidades cotidianas e, por crença quase cega, idealista, opta pelo mais difícil trajeto, em que tanto espinhos quanto rosas colhe.

Assim encerra sua vida terrena: tomba atingida por cinco projéteis plúmbeos. Pistoleiros cumprem empreitada de gente poderosa e influente, alvo de sérias denúncias: de escusos negócios, de contrabando até.

Fato deu-se na manhã de 5 de Julho de 1989. Reafirma relatório da Polícia Federal a CPI do Narcotráfico, que aponta autores e mandantes.

No Newseum, memorial nova-iorquino a jornalistas que, mortos por retaliação ao ofício de noticiar, acabaram por virar triste notícia, nome de Maria Nilce consta.

Marcos Tavares é um capixaba da gema do ovo. Teimoso como muitos destes ilhéus, insiste (felizmente) em escrever contos e poemas que vêm sendo publicados desde 1987. Segundo “justificativa” de seu livro Gemagem “a preocupação com a linguagem formal é uma de suas características, é considerado um dos mais representativos poetas capixabas a despontar nos anos 1980”.´

Marcos Tavares (na ponta esquerda) com Elpídio Sant'anna e Juca Magalhães

sábado, 28 de novembro de 2015

O MAL DOS CRONISTAS


“Rubem (Braga) adorava dar em cima de mulher de amigo. Tinha uma boa saída para a sua falta de vergonha na cara:

– E você quer o quê? Que eu dê em cima da mulher dos inimigos?” 

Comentário atribuído a Raquel de Queiroz.


Na primavera de 1978 quando veio espairecer nas terras capixabas, José Carlos Oliveira estava muito mais preocupado com a repercussão do lançamento de seu livro Terror e Êxtase (particularmente o autor o chamava de 1001) do que com a badalação que poderia haver em torno de sua atormentada figura. Na página 114 de seu Diário Selvagem, por exemplo, Carlinhos se ressente da forma como foi retratado pelo colunista Hélio Dórea.

“27 de setembro – Fim das férias. Mesquinharias capixabas: nos dias de Maciel, Alaíde pediu uma nota sobre 1001 ao colunista Hélio Dórea. Não saiu nada. Hoje saiu. Ela se mostrou vitoriosa. Mulher ingênua! Saiu ontem uma nota no Ibrahim e o seu copiador daqui incluiu que sou chique, colunável em nível nacional. Só por isso. Gentinha de merda! Depois eu conto mais”.

Com esse desabafo furibundo Carlinhos demonstra ter algum entrevero em particular com o colunista – ou então a implicância era com os que se dedicavam ao, sorry periferia, assaz provinciano colunismo capixaba - e não propriamente com o gênero de coluna social. Afinal, valoriza a nota dada por Ibrahim Sued (1924-1995, considerado o inventor do colunismo social brasileiro) e ainda termina fazendo graça, mencionando um bordão que seria muito repetido pelos deslumbrados escarafunchadores da high society.

Desde o início da passagem de Carlinhos pelo Espírito Santo, confesso, estava com medo que sua fúria se voltasse na direção de meus pais. Afinal, os jornalistas Maria Nilce e Djalma Juarez Magalhães eram inimigos ferrenhos de seu prezado amigo e anfitrião - o então Governador do Espírito Santo, Élcio Álvares - e imaginava que críticas, inevitavelmente, apareceriam... E apareceram. Porém, ao invés de puramente ofensivos, os comentários forneceram um panorama bastante rico, único e real daquele período. 

Carlinhos, eventualmente, menciona frases popularizadas pela colunista Nina Chaves, famosa por introduzir moda e estilo na imprensa nacional, como na Página 105 ele fala: “Como dizia a Nina Chaves – qualquer descuido pode ser fatal”. Com isso esclareceu a origem de um jargão muito usado por Maria Nilce: “Todo descuido pode ser fatal”, provando que, como na televisão, também em sociedade “nada se cria tudo se copia”.

No início das férias Carlinhos ficou alternando estadias entre a Residência Oficial do Governador, em Vila Velha; visitas ao hotel Porto do Sol de seu amigo João Dalmácio, em Guarapari e a casa de Victor Martins em Manguinhos, onde, por sinal, botou olho gordo na beleza deslumbrante da namorada do amigo, a Judith. Naquela época, Vitória, Praia da Costa e Manguinhos eram núcleos distintos e distantes, não havia a sensação que hoje temos de estarmos na mesma cidade, separados por engarrafamentos.

Quando finalmente resolve visitar Vitória, ou mais precisamente o famigerado restaurante do Ferrinho, é que Maria Nilce e Djalma Juarez Magalhães (Páginas 121 e 122) são finalmente mencionados.

“Almocei com ferrinho. Apareceu M.N., a fofoqueira do Jornal da Cidade. Ferrinho me transforma o metabolismo; há algo ansioso nele e algo mais que ansioso: maligno. M.N. também. (...) A proximidade de pessoas doentes da alma – Ferrinho, Maria Nilce – provoca a perturbação psicossomática que me faz sofrer o estômago (...) Atenção: D.J.M., marido de M.N. e preterido pelo Élcio quando desejava ser vice-governador, é agente do SNI ou DOPS ou DOI-Codi, ou tudo ao mesmo tempo."

Maria Nilce autografando seu terceiro livro "Como o Diabo Gosta" que foi lançado justamente no Restaurante do Ferrinho
Diferente do episódio com o antigo colunista de A Gazeta é preciso levar em consideração que o desprezo que Carlinhos demonstra pela “fofoqueira do Jornal da Cidade” revela também uma subjetiva influência da amizade e de solidariedade com o Governador e sua esposa; ambos, sistemática e ingenuamente – na maioria das vezes - ridicularizados por Maria Nilce em sua coluna diária. A razão dessa birra seria uma mal explicada “traição” – mal explicada na minha memória – que levou os donos do Jornal da Cidade a fazer oposição ao Governo de Élcio Álvares de forma bastante aberta e folclórica. Como era época da ditadura, em que os companheiros da imprensa geralmente tocavam pianinho, com suas loucuras Maria Nilce consolidaria neste período a imagem de mulher guerreira e corajosa...


Capa do terceiro livro de Maria Nilce, lançado em 1979.
É interessante observar que Carlinhos fala de Maria Nilce como se já a conhecesse “de outros carnavais” e menciona que algo nela o perturba tanto física quanto emocionalmente. Ora, a colunista do Jornal da Cidade estava no auge de sua beleza exuberante e quem ler o diário vai perceber logo de início que o escritor era – para dizer o mínimo - um tarado pervertido contumaz. O fato de sequer mencionar os atributos físicos da “fofoqueira”, revela que Carlinhos, parecido com Rubem Braga - aliás, dizem que era mal dos cronistas – só tinha tesão mesmo pelas mulheres dos amigos. Vide a epígrafe. E para saber mais, no link abaixo, acesse o excelente texto abaixo de autoria de Juremir Machado, intitulado: O Canalha do Rubem Braga.



       NA PRÓXIMA EDIÇÃO

    O diário de José Carlos Oliveira ajuda a Letra Elektrônica a desvendar um episódio mal explicado da década de 1970. Para tanto vamos abrir os arquivos do Dops e revelar o que o Exército pensava sobre o casal dono do Jornal da Cidade...



sábado, 21 de novembro de 2015

O VENTO SOPRA NO MICROFONE

Saio de casa faltando dez minutos. Na porta de casa o gato Simba me olha todo dia com a mesma questão: “aonde você vai?” Boa pergunta. Coloco os óculos de sol na cabeça e às vezes esqueço onde estão. Enquanto espero o elevador desembolo o fio e plugo o fone no celular. Abro a tela e clico num ícone laranja no formato de um daqueles grandes fones de ouvido. Tenho um desses, mas não dessa cor, obviamente.

Obviamente por quê?

Porque sim. Vá encher o saco de outro. - O player de música (podia ser de outra coisa) oferece algumas opções de reprodução, inclusive a aleatória que conheci recentemente. Gostei desse negócio. É como uma rádio que só toca músicas que eu escolhi e não tem propagandas, mas também não tem surpresas. Atirem no pianista!

Outro dia coloquei uma gravação recente da Sinfonia Fantástica de Berlioz, música na qual não pensava fazia tempo. Muitas vezes essa operação demora um pouco, ao sair na claridade da rua quase não enxergo mais o visor. Cumprimento vizinhos, gente voltando da “acadimia”, passeando com o cachorrinho, conde falando aos passarinhos.

Ganho a rua ouvindo a Killer Queen, aquela que guarda Moet Chandon num armário bacaninha (onde foi parar o trema nesse teclado?); ao dobrar a esquina aperto o passo, sinto um calo no pé esquerdo e tenho aquela sensação chata da distância: falta sei-lá-quanto para chegar. Logo estou submerso em pensamentos, olhos grudados no chão converso comigo sem fazer agora a menor ideia do assunto...

Depois de uns três minutos passava pela calçada do Senac e o dispositivo aleatório escolheu um noturno de Chopin com Guiomar Novaes, peça que andei batucando uns tempos atrás. De novo tenho a sensação de distância, espaço/tempo. Respiro e sinto que ao pensar existo. Alguém pichou que a TEG é foda, que diabos é a TEG? Maldita seção central, difícil fazer aquela sequência de oitavas! Cadê tempo para estudar?


O vento sopra no microfone - como será que faz para desligar essa bustrenga? (saudade dessa palavra) - depois lembro que ouvir música com aqueles pequenos dispositivos enfiados no ouvido não é a coisa mais saudável. Ao contrário de agradecer o aviso do fabricante - a música alta pode ocasionar perda de audição - fico é puto da vida. Dá vontade de ouvir no toco, mais alto até do que o volume máximo oferece...

... Reconheço que sou um pouco infantil, autoestragativo e buscador de limites. Como nessa relação com os carros, os tais “chatomóveis”. Se não é seguro correr por aí que nem um doido, por que os fabricam tão velozes e competitivos?

Agora vem o João com seus para-pa-pá... Alguém dá um berro na plateia. “Ái meu Deus!”


Sete minutos e cinquenta e pouco: Cheguei!


sábado, 14 de novembro de 2015

SUICÍDIO LITERÁRIO - TUTORIAL

Estou lendo o “Diário Selvagem” de Carlinhos Oliveira (José Carlos Oliveira 1934-1986), escritor que saiu de Vitória ainda adolescente e fez carreira como cronista do Jornal do Brasil. Já ouvira falar muito de Carlinhos, mas nunca tivera em mãos alguma obra sua. Venho lendo devagar, porque são memórias pessoais e não uma história propriamente organizada: esbórnias intermináveis, muitos problemas de saúde, episódios amorosos frustrados perpetrados por um sujeito sexualmente inseguro, nanico (1,59m) e magrelo.
Os comentários iniciais são muito centrados na vida sexual e são também, muitas vezes, surpreendentes. Como quando Carlinhos confessa, por exemplo, suas recorrentes fantasias homossexuais, Página 21:

“20 de setembro, domingo – No Degrau [1]um rapaz me tascou um beijo na boca – beijo de amante. Ainda estou deveras perturbado. Qualquer hora dessas, as circunstancias ajudando, enfrento o problema homossexual.”

Vais saber a quais circunstancias Carlinhos se referia e também não fica claro se a questão homossexual era realmente “problema” ou solução, vide página 39.

  “Espero que X. me chupe o pau daqui a pouco. Relaxa. Ela me disse que o Z. só pensa em sacanagem (não bebe, não fuma, adora uma suruba e sonha com um garotinho que o enrabe. Eu também, de vez em quando...)”.



DE VOLTA ÀS TERRAS CAPIXABAS

O diário fica mais interessante para nós “os capixabas” quando Carlinhos vem para o Espírito Santo passar alguns dias de férias (Página 93 em diante).
No dia 10 de setembro de 1978 escreve de Vila Velha, estava hospedado na residência oficial do Governador Élcio Álvares (nascido em 1932), seu amigo de folguedos juvenis. O escritor estava em plena loucura do lançamento daquela que seria sua obra mais célebre Terror e Êxtase, particularmente chamada de 1001. Carlinhos demonstra carinho e admiração pelo atual presidente da “Banestes Seguros” e sua família, o que não o impede de acalentar fantasias sexuais com relação à noiva de Elcinho. Fala também com respeito do encontro com jornalistas como Amylton de Almeida, Maura Fraga e Sérgio Egito. Demonstra, porém, pouca condescendência com outras figuras da sociedade local.
Seus comentários jogam um facho de luz sobre certa “elite intelectual capixaba” formada por professores universitários e autores ligados às instituições governamentais, mais respeitados pela posição social que ocupam do que pelas obras que publicam. Acadêmicos interessados em legitimar e institucionalizar o valor de seu próprio trabalho e de alguns autores escolhidos entre seus pares. Não haveria problema nenhum nisso se esse grupo não se comportasse como se os outros escritores não tivessem a mesma capacidade ou qualidade e, pior ainda, esse fato ser largamente aceito como “oficial”. Aliás, não me recordo sequer dessa “convenção” ser questionada por outros autores, talvez por temer um suicídio literário. A tendência é fazer como os mais inteligentes: aceitam a situação, elogiam e adulam essa “elite” para tentar obter reconhecimento de seus escritos. Porque, obviamente, só os integrantes desse grupo são convidados a participar (ou indicar autores) de eventos literários, somente seus livros são selecionados para distribuição em escolas, indicados para o vestibular e por aí vai.
Carlinhos pergunta: “Não é uma sacanagem”?
Sim, porque aquele “rebelde precoce”[2] criado em Jucutuquara dificilmente teria alcançado o reconhecimento desses intelectuais como escritor se tivesse ficado em Vitória.

LITERATURA DE RICO

Segue a reprodução do referido comentário de José Carlos Oliveira, página 101:

“14 de setembro, quinta-feira, 16h – Victor (Martins) me mandou o romance de um capixaba que admira, A Crônica de Malemort, de Reinaldo Santos Neves (Nascido em 1946, Vitória). É filho de Guilherme Santos Neves, um dos professores de português (o outro é Clóvis Rabelo) que me humilharam no Colégio Estadual – no 1º ano ou talvez no 2º - porque eu andava lendo Machado de Assis. ‘Você não tem idade para compreender Machado, rapaz’, disseram eles, expondo-me à zombaria da classe. ‘Leia José de Alencar’, sugeriram. O jovem Reinaldo porém tem garantida a circulação de sua literatura nos colégios capixabas. Isso significa dinheiro no bolso e uma certa estabilidade profissional. Pois está relatado na orelha. Elogiando o Malemort, ‘outro importante ficcionista moderno e professor universitário’, José Augusto Carvalho, prometeu ao artista: publique logo que vou adotá-lo no Colégio Estadual e na Faculdade. Assim ele começa com um público compelido a lê-lo. Não é uma sacanagem? Mas isso acontece em todo o Brasil e só espero que Reinaldo seja mesmo um escritor talentoso. (página 102) Apontamentos fúteis e nada mais, merda. Vou ao ‘Réveillon’[3] – ou ler o tal Malemort, literatura de rico, circulação de estilo oligárquico”.

Que Reinaldo Santos Neves é um escritor talentoso, disso ninguém duvida. Parece, inclusive, ter tentado se descolar ao longo do tempo do peso dessa imagem reverente que lhe impingiram seus admiradores e outros literatos aspirantes. Talvez por isso ainda não integre a vetusta Academia Espírito Santense de Letras; atitude que, por outro lado, dá margens ao raciocínio lógico de ser esse um título que em nada acrescentaria à sua posição como autor.

POUCO ANTES DE MORRER

É curioso pensar que menos de uma década depois Carlinhos voltaria ao Espírito Santo para participar de um projeto como “Escritor Residente” do qual sairia o livro “Bravos Companheiros e Fantasmas” e coube ao autor de Malemort a redação de uma “Nota Final” e a involuntária descrição dos últimos momentos daquele confrade em letras de fama nacional:

“Dez dias antes de sua morte (Carlinhos) concluiu a revisão definitiva das provas paginadas e preparou o texto das orelhas e o conto para a contracapa, que leu com emoção na última oficina literária que estava coordenando, também como parte do projeto Escritor Residente. No hospital ainda houve oportunidade, entre um cigarro proibido e outro, para aprovar o layout final da capa e contracapa, já com o desenho (sugestão sua) do pássaro enigmático. Fez por seu livro, portanto, tudo que lhe cabia fazer”.

RETOMANDO ÀS CONCLUSÕES

Ao perceber a valorização de uma obra com base numa ligação “oligárquica” (termo contundente e perspicaz, porque se remete a um: “regime político em que o poder é exercido por um pequeno grupo de pessoas, pertencentes ao mesmo partido, classe ou família”), José Carlos Oliveira conclui conformado: “isso acontece em todo Brasil”. Pois, é possível ir-se ainda mais longe: esse episódio retrata acomodações sociais triviais que sequer parecem condenáveis; como, infelizmente, muitas vezes acontece com o nepotismo ou a corrupção. Antigamente escancarado, como revela o comentário do autor, esse “jogo” com o tempo ganhou ares democráticos: formou-se um grupo com as pessoas de sempre que continuaram a realizar escolhas a partir de gostos e interesses de sua casta, privilegiando familiares e amigos, ao mesmo tempo prejudicando, desmerecendo e relegando ao esquecimento o trabalho de desafetos e outsiders: a popular panela. 

Estaríamos romanceando a realidade? Parece que sim, dado o absurdo; mas é provável que não, dado a própria realidade.

E por aqui ficamos, meditando sobre a razão de certas coisas serem como são...



No próximo texto Carlinhos vai tecer seus comentários de soda cáustica sobre o colunismo social botocudo: “Depois eu conto”...



[1] Tradicional restaurante do Leblon. Existe até hoje.
[2] Título da biografia de Carlinhos escrita por Jason Tércio.
[3] Carlinhos se comprometera a escrever um conto com esse título para a Revista Homem/Playboy.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

SÉRGIO BLANK LANÇA EDIÇÃO DE SUAS OBRAS COMPLETAS!

Olha, desde que o Grilo Falante ficou chateado com um texto meu que ando até com medo de falar mais pessoalmente a respeito dos meus amigos aqui na Letra Elektrônica, mas vou arriscar outra vez. É que o poeta Sérgio Blank vai lançar um livro reunindo toda sua obra e me ligou hoje convidando para comparecer. Na hora me veio a lembrança daquele livro reunindo textos sobre música que abre com uma história ótima de Adolfo Oleare... Já falei com ele para voltar a escrever, mas que nada.

Conheço o escritor Sergio Blank, o popular Nonô, - o apelido eu explico daqui a pouco (será que ele vai ficar chateado?) – desde os píncaros dos anos oitenta, quando Cazuza e Fred Mercury ainda eram vivos e tudo o mais. Ele era amigão de minha irmã mais velha, a hoje cidadã paulistana e doutora psicanalista Fernanda Carlos de Souza, née Magalhães, como diziam antigamente nas colunas sociais.

Sergio era o amigo poeta de Fernanda e freqüentava nossa casa e, conseqüente ou inconsequentemente, os roques amalucados daquela época. Minha irmã tinha uma coluna sobre cultura no Jornal da Cidade que era muito legal e estilosa chamada “Vovó Volúpia”, eram, portanto, confrades nas letras, numa época em que eu era um roqueiro abilolado ávido por fazer trocadilhos com tudo o que fosse.

Lembro que Sérgio Blank tinha dois livros de poemas na época – se tinha outros eu não sei - o “UM,” e o “PUS”, este último logo me dei o direito, tomei a “liberdade poética” digamos assim, de acrescentar os “sinônimos” “botei e coloquei”. Sérgio ficava horrorizado com minhas tiradas bobocas e aí, como geralmente acontece aos patetões, é que eu achava mais engraçado...

Tá legal, o apelido de Nonô era porque nós éramos jovens, moradores de uma ilha de verão escaldante que dura quase o ano inteiro (menos o atual e curioso 2011), com muitas poucas opções de lazer além da praia. E o Sérgio ostentava uma pele mais branca do que a daquele menino do filme Crepúsculo depois de tomar seu coquetel de aguarrás. Além de tudo o rapaz era magro, loiro do cabelo quase branco e gostava de se vestir de preto. Daí alguém, sei lá quem, o apelidou de Nosferatu, que foi abreviado para Nonô, porque pra capixaba um apelido é muito pouco.



Hoje um escritor de responsa, já com muita estrada de militância na literatura, Sérgio Blank vem a público lançar uma edição de suas obras completas sob o sujestivo título de "Os Dias Ímpares". Será na Biblioteca Pública do Espírito Santo, dia 13 de Dezembro às 19:00 (Cacilda! Tô vendo agora que é no mesmo dia do disco da Vera da Mata e acabaram de me convidar para trabalhar em um evento no Rio). Av. João Baptista Parra, nº165, Praia do Suá. Vitória, ES. Maiores informações: 31379349 e 31379351. 

Mas você, agora que acabou o Brasileirão, não deixe de ir não... E um beijo no coração! Tá legal, não tá mais aqui quem falou não. Rima rica, rima pobre, rima classe média alta, petulância, patuscada, patavinas...

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

DOIS NOVOS LIVROS EM PAUTA

Amanhã, dia 29 de novembro e no dia primeiro de dezembro serão lançados dois livros de autores brasileiros nascidos no Espírito Santo. O primeiro é uma obra jurídica publicada pela Editora Revista dos Tribunais de autoria de Marcos Dessaune, aquele mesmo do livro "Histórias de um Superconsumidor".

Marcos iniciou a carreira na praia da produção de música clássica e jazz, trabalhou com artistas como Tom Jobim, Oscar Peterson e Paul Badura Skoda, entre outros. Posteriormente graduado em direito o autor vem desenvolvendo um importante trabalho na área de defesa do consumidor que é tema novamente de sua atenção no livro "Desvio Produtivo do Consumidor: O prejuízo do Tempo desperdiçado.

O livro, que tem prefácio de Claudia Lima Marques e apresentação de João Batista Herkenhoff, será lançado a partir de 19 horas no restaurante Spetin na Rua João da Cruz, Praia do Canto, ao lado do Banestes. Segue um trecho do conteúdo e uma reprodução da capa:

“Em um mundo em que imperam a especialização profissional, a interdependência das pessoas e as necessárias relações de consumo, a missão implícita de qualquer fornecedor é “liberar os recursos produtivos” do consumidor. Ou seja, é dar ao consumidor, por meio de produtos e serviços de qualidade, condições para que ele possa empregar seu tempo nas atividades de sua preferência.

Contudo, incontáveis profissionais, empresas e o próprio Estado, em vez de atender ao cidadão-consumidor em observância à sua missão, acabam fornecendo produtos e serviços defeituosos ou exercendo práticas abusivas no mercado, contrariando a lei.


Para evitar maiores prejuízos, o consumidor se vê então forçado a desperdiçar o seu valioso tempo – desviando-se de atividades como o trabalho, o estudo, o descanso, o lazer – para tentar resolver esses problemas de consumo, que o fornecedor tem o dever de não causar.”


 Quem lança livro novo também é o premiado autor Pedro Nunes, muito conhecido, entre outras, em função de sua obra "Vilarejo e Outras Histórias", adotada nos vestibulares de 1995 e 1996. Pedro também milita na divulgação da literatura feita no Espírito Santo pela Internet no site Tertúlia http://www.tertuliacapixaba.com.br/ um dos poucos que hoje servem para mitigar a nossa dificuldade de acesso às informações do gênero, segue abaixo o convite para o lançamento que será na Biblioteca Estadual:



 O ARREMATE QUE NOS É POSSÍVEL:

Acho que já ficou meio rastaquera e boicoió perguntar isso, mas por que será que tantos livros importantes veem à público praticamente ignorados pela mídia do Espírito Santo, enquanto reportagens de página inteira são oferecidas aos novos livros de Jô Soares e Danuza Leão? Se a idéia é deliberadamente ignorar os fatos do Espírito Santo, a mídia local deveria abordar apenas os crimes escabrosos e a política dos grandes centros culturais do Brasil, deixando de lado as "menores" atrocidades locais. Então, não custa perguntar: se é interessante expor e transformar em showbizz o sofrimento do povo capixaba, por que não é interessante divulgar o que é bacana e se produz aqui?