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sábado, 25 de outubro de 2014

O PROBLEMA DE TER TANTO E SER TÃO POUCO



O empresário João se intitulava o “Rei do Triângulo”. Na confusão foi abordado pela Guarda Municipal e afirmou que poderia fazer o que quisesse, já que é muito rico. “Sou milionário, fazer o quê? Tenho muito dinheiro, muito mesmo, tenho dinheiro para jogar fora. Sou o rei do triângulo das bermudas, de tudo, do mundo", disse. João e o filho foram conduzidos para a delegacia após usarem um carro de luxo para fechar a Rua 24 horas na Praia do Canto, em Vitória. Após pagarem a fiança de R$ 14 mil, pai e filho acabaram liberados.

TV Vitória
Redação Folha Vitória em 13/10/2014

Qual a graça de ficar rico “bagaráio” e ninguém saber? Desfrutar da riqueza, certo? Porém, o reles mortal quando põe a mão na grana quer gozar também da respeitabilidade comum aos “poderosos”, quer ser tratado como cidadão “vip” e visto como algo – interna e externamente - muito diferente do povo que se espreme dentro dos ônibus e vive a reclamar da chuva.

Uma vez em um restaurante “de ricos” vi um cara fazendo altas grosserias com o garçom, meu amigo Grilo Falante, que vive de destrinchar a cabeça dos outros, comentou que aquilo era atitude de quem já tinha sido pobre e que a proximidade com o passado incomodava. Muita gente é grossa porque não gosta de lembrar quem é. Ficam piores quando descobrem que o toque de Midas não muda isso.

A notoriedade de alguns “famosos” não está ligada diretamente ao dinheiro, mas a certa posição respeitável dentro de uma comunidade, ao acaso de uma beleza estonteante ou um talento raro genial inato. Reunir uma fortuna é algo admirável, especialmente quando honestamente, mas não faz ninguém ser reconhecido na rua. Quem tem dinheiro é porque se dedicou a ganhar dinheiro, e daí? Não é como vencer um campeonato ou lotar um ginásio com gente pagando pra cantar suas canções.

Nos anos 1970 falava-se com desprezo dos “novos ricos”, cujo (cujo?) mau gosto e falta de “cultura” fazia a diversão de quem achava que uma pessoa fina devia saber que o perfume Patchouli tem propriedades afrodisíacas ou que Fellini era um cineasta italiano e não um coletivo de gatos. Enquanto os esnobes frequentadores da high sonhavam em viver na ponte-aérea Paris-Milão, os novos ricos, que o poderiam fazer, organizavam animadas excursões de pescaria e caça na região do Pantanal.

Quando li a notícia do barraco que rolou naquele domingo no Triângulo das Bermudas - que o Cocó outro dia chamou de “Bobódromo” e eu esquecera o apelido, por sinal, bastante apropriado - lembrei dos “novos ricos” e, ao invés da comum indignação moralista, tive pena. A atitude biruta do auto-intitulado “Rei do Triângulo” foi o mais escandaloso exemplo de baixa auto-estima que já vi e olha que inúmeros outros aparecem de quando em vez.

Ironicamente, como geralmente acontece, desejando mostrar seus carrões e atrair atenções positivas como a vergonha alheia - SQN! - o Rei do Triângulo conseguiu exatamente o inverso e ao pagar caro por isso declarou que a renda não era problema. Ficou bem claro que não. O problema é “ter” tanto e “ser” tão pouco. É se debater em praça pública mostrando para todo mundo que, depois de meio século, não fez ainda a descoberta mais besta da vida: a felicidade reside nas coisas simples e não é o dinheiro que a traz.

Quem dera, ao invés de promover barracos bobocas, esses enricados carentes resolvessem usar o excesso de capital acumulado para apoiar algum artista promissor. Infelizmente não vejo ninguém nessa onda, nem mesmo antigos afortunados. Talvez o contato com pessoas humildes, porém mais cultas e criativas, traga à lembrança os dias difíceis e deles apenas queiram distância. Talvez achem errado bancar “a boa vida dos vagabundos” enquanto deram tanto duro para construir suas fortunas...

... Talvez – e infelizmente mais provável - sequer pensem no assunto.

sábado, 24 de maio de 2014

QUEM NASCE ZÉ NÃO MORRE JOHNNY



“A ditadura perfeita terá as aparências da democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão sequer com a fuga. Um sistema de escravatura onde, graças ao consumo e ao divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão”.

Aldous Huxley – catado no Facebook do Grilo Falante

Li um artigo criticando a atual onda radical conservadora de alguns velhos representantes do BRock, como Lobão, Roger do “Ultraje a Rigor” e agora os Titãs. Contrariamente ao cara que escreveu, não vi razão pra surpresa, muito menos para indignação. Quem nasceu rebelde sem calça não haveria de morrer fazendo algum rastro de sentido, ou haveria? Quem viveu – muitos deles ainda vivem - sob a égide hedonista da máxima “drogas, sexo e roquerou”, não pode querer dar a doida do avesso e clamar pela volta da ditadura? Não só pode, como suspeito que precise. Em tempo: para que serve a liberdade se não sabemos o que fazer de nossa vida?

Os que estão prontos – e muito provavelmente ávidos - para o linchamento estético e moral dos nossos velhos roqueiros não podem esquecer que o artista popular é uma antena que capta e destila versões elaboradas – na maioria das vezes nem tanto - do senso comum; enquanto os que vão contra as verdades estabelecidas patinem em uma “impopularidade” acadêmica. Eis um dos principais dramas da sociedade, a “verdade verdadeira” – ou mesmo a música verdadeira - sempre existiu e circula livremente por aí, só que ninguém dá a menor pelota. Digo “sempre” num sentido figurado, mas dessa verdade já se fala no Mito da Caverna de Platão...

Isso tudo pode nos remeter, ou não, a um artigo meio “mea culpa” em que o maestro Julio Medaglia descreve seu desalento com o fim do sonho de igualdade social comunista que acalentara em alguma altura da vida. Lamentou o fato dos revolucionários bolcheviques não terem liderado o capitalismo, disse que com sua notória incompetência até este dariam um jeito de fazer naufragar. Talvez por isso, maestro, Elvis Presley sempre teve muito mais imitadores do que Igor Stravinsky. A liberdade tem um preço, dizem ser a eterna vigilância. Ora, babe, “ignorance is bliss”, Grace Gianoukas devia ter uma pitada de razão ao reclamar que “ser intelectual dói!”.

Enquanto isso tudo borbulhava no caldeirão da Madame Min, o site do IG anuncia uma pesquisa entregando que a maioria da população é contra a liberação da maconha. Opinião considerada careta e “baixo astral” por qualquer militante do rock cioso de sua “maluquez”. É também contraditória, porque em outro lugar li que esse mesmo povinho brazuca nunca viveu tão entupido de calmantes como o Rivotril. E, não bastasse o torpor farmacêutico, andou-se também divulgando que estamos entre os vinte maiores consumidores de cerveja do mundo... Pelo menos isso e fora todo o resto... Aliás, o Véio Gagá sempre dizia que “o resto é que é o bom”.

Talvez as posições cambiantes e incongruentes dos roqueiros - ora rebelados contra “o sistema”, ora defendendo a volta da ditadura - tenham a ver com as teorias da sociedade líquida de Zygmunt Baum, talvez não. A verdade é que a grande maioria das pessoas é imediatista e prática em suas relações, inclusive aquelas de caráter político e partidário. A mentira tem pernas curtas e a memória também, prova disso é que a classe média já se iludiu com os militares uma vez e agora flerta com esse “recordar é viver”. Talvez as cadeias invisíveis tragam não só a insônia, mas os pesadelos. Se não incomodasse alguma coisa dentro doida o que seria então?

Na pseudo-invisibilidade da Internet muita gente adota posições veementes, pessoas amáveis e inteligentes que admiro, adotam posições públicas bastante duras, fazem críticas como fossem neo-revolucionários, ecos de outros cacarecos. Por que será que não questionam esse impulso como um produto destilado do inconsciente coletivo? Talvez, por isso, seja possível encontrar evidências de que a atual moda de linchamentos tenha começado a se espalhar no mundo virtual. É preciso dizer o diabo de quem não se conhece, aliás, é preciso eleger um diabo e depois o destruir. O problema é que o diabo não existe, mas maioria das pessoas acredita nele e vivenciam uma espécie de retorno do misticismo da idade média.

Para aqueles cujos heróis morreram de overdose, sobreviver é querer entender o mundo, não conseguir e então reclamar que nada nunca fez sentido. Então sentem sua postura como uma forma de inteligência e esta é reconhecida e reforçada por muitas pessoas. Talvez o que incomode nessa postura não seja a falta de questionamento, mas a falta de sentido. Outra antiga proposição, igualmente sem resposta. Então, pelo menos para um número bem grande de internautas, é muito mais fácil por a culpa de suas frustrações nos outros, atualmente na Presidente do Brasil e em seu partido. Esse papel já foi de muitos outros, inclusive dos militares. É um círculo vicioso riscado na água, breve descobrirmos de verdade qual é o daquele “imagina na Copa”... E então? E então nada.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

TERAPIA RUSSA PODE SER A CURA DEFINITIVA PARA A INSÔNIA



Existe uma galera que curte procurar e se intrigar com fatos misteriosos da humanidade, especialmente se a ciência não der conta de explicar. Vocês devem conhecer muita gente assim, eu mesmo tenho a maior tara por essas paranoias: o famoso mapa de Piri Reis, as linhas de Nazca, A Atlântida (Aquela que afundou, não a que pegou fogo), o Triângulo das Bermudas (O das Bahamas) e, logicamente, os discos voadores, conhecidos pela sigla U.F.O. - no Brasil O.V.N.I. - os infames Objetos Voadores Não Identificados, que muita gente já viu, fotografou e filmou.

Como as autoridades “espaciais” intergaláticas até reconhecem que alguma coisa estranha existe, mas não dão conta de dizer o que é; a galera da “teoria da conspiração” vem a algumas décadas defendendo a ideia de que “os americanos estão nos escondendo a verdade”. Sei lá como e por que, construiu-se uma relação patética e infantil, algo como: “Olha menino enjoado: os alienígenas estão mesmo entre nós e os discos voadores existem, mas essas coisas não são pro seu bico, tá? Se mijar na cama porque ficou com medo tu vai ver só o tamanho da surra...”

Falando em infância, tô pra te dizer, assim por escrito, que quando fedelho meu desejo de ver um disco voador era maior até do que o de conhecer Papai Noel, mas bem maior mesmo. Quando tenho insônia – o que não é comum, mas acontece – um dos meus passatempos prediletos enquanto espero o dia clarear é vasculhar a internet atrás de notícias sobre as novas descobertas nas escavações da pirâmide de Gizé e suas câmaras secretas, ou o legado atlante enterrado embaixo da Esfinge e os últimos e mais escabrosos avistamentos de naves espaciais alienígenas.

Esta semana recebi um email do meu amigo e guru místico afro-disíaco, o Grilo Falante, todo encafifado e prenhe de fim do mundo, porque um blog estava alardeando com estardalhaço que o primeiro ministro russo Dimitri Medvedev tinha admitido sem querer, na televisão, a existência dos discos voadores. Disse mais que quando assumiu o cargo lhe foram passados os dados sobre as bombas nucleares e uma pasta dizendo que os ETs estavam mesmo vivendo infiltrados em nosso mundo, citava até o filme Men in Black... Uau! Tinha cara de gozação... E, infelizmente, era.

Como fizeram com Fernando Henrique Cardoso quando disse “esqueçam tudo o que eu escrevi”, alguns blogueiros pegaram declarações off record de Medvedev fazendo todo o tipo de piada e publicaram que a verdade estava sendo finalmente revelada! Esse negócio de brincar com coisa séria é um perigo, lembro que um advogado carioca estava voltando de Nova York quando houve o 11 de setembro e, na hora de embarcar, foi perguntado por um policial da alfândega se estava levando alguma arma. Fazendo ironia na hora e com a pessoa errada o cara não só disse que sim, mas que estava armado até os dentes. Perdeu o voo, mas não perdeu a piada.

A única coisa séria que tem na tal entrevista é a cara de Medvedev, porque a repórter está rindo o tempo todo e é possível ouvir gargalhadas vindo dos bastidores. O primeiro ministro ainda aproveitou pra tirar um sarro do Obama, dizendo que ele deveria revelar logo a verdade, o que é um forte indício, o mais contundente que já vi até hoje, de que essa chorumela infantil de que os americanos sabem tudo é realmente uma grande bobagem. Posso estar errado e gostaria muito de estar, porque finalmente poderia sanar a curiosidade em relação aos ETs, mas o melhor é aceitar logo que Papai Noel não existe... Embora o Premier Russo tenha confirmado isso também.
   
Veja abaixo o vídeo de Medvedev e atente para o fato de que o filme ao qual ele se refere não tem nada a ver com a mega famosa produção de Hollywood, é um documentário russo ruim pra cacete. Pelo que entendi, o fato do primeiro ministro ter mencionado a “obra” faz parte da gozação. Peguei no youtube e até tentei assistir ao “Men in Black” das estepes, mas nas duas tentativas adormeci misteriosa e profundamente. Aí tem, não é? Tem sim, inclusive, um remédio infalível para a minha próxima crise de insônia...


NO PRÓXIMO POST

Em breve A Letra Elektrônica vai publicar algumas matérias de jornais que descobri de uma misteriosa aparição de discos voadores aqui na pacata cidade de Vitória em meados de 1972. O fenômeno foi confirmado por outros estados e, logo em seguida, um dos tais misteriosos artefatos explodiu no espaço aéreo da cidade de Muniz Freire. Segundo as autoridades, a partir desse estranho fato, os munizfreireanos (é assim?) passaram a tentar, sem sucesso, reivindicar o título de capital secreta do universo que, todo mundo sabe, pertence até hoje a Cachoeiro do Itapemirim...  



terça-feira, 6 de dezembro de 2011

MOVIMENTO PELO PERDÃO DO GRILO FALANTE

Pra te falar a verdade eu nunca soube dizer direito onde e quando nasceu a minha implicância com Tom Zé, que, coitado, nem deve saber da minha gloriosa existência, aliás, melhor assim, porque não gosto da música do cara e pronto. Nunca ouvi nada dele que eu gostasse e não tenho a menor esperança que um dia ainda vá ouvir. O meu amigo Danny Boy é radical assim também, só que a implicância dele é muito pior do que a minha: ele odeia Milton Nascimento, tema muito mais robusto pra se arrumar confusão...

Lembrando agora, a minha implicância com o Tom Zé - que me fez ressalvar que ele era bem mais Zé do que Tom - pintou depois que vi o filme “Desconstruindo Tom Zé”, um exercício canhestro para tentar comprovar a genialidade do músico baiano. Fui ver o filme curioso para conhecer “seu trabalho” e contrariando qualquer expectativa óbvia o filme quase não tem música, a não ser uma sucessão de intervenções pseudo-intelectuais. Classifiquei o cara como “Zé” (ponto) e não pensei mais no assunto...    

Quando convidado por Elaine Rowena para participar novamente do projeto Canto Solidário – que este ano homenageou a Tropicália – aceitei com a natural satisfação dos artistas revisitados, nem imaginei que o destino irônico ia justamente me brindar com a missão impossível de interpretar em pleno no Charles Ghomes uma música do “gênio de Irará”. O título era “São, São Paulo”. Pela cidade eu nem achei ruim (Saravá Jura Fernandes!), se eu tivesse que eleger uma segunda cidade no Brasil a terra da garoa seria a minha escolha, mas a música...

Comecei a ouvir e parei pela metade, fulo da vida!  De cara percebi que o refrão baladinha era praticamente idêntico a um trecho da principal canção do musical A Noviça Rebelde (!) e que, para piorar, logo descambava para um ritmo nordestino cujo acento se entranhava em três longas estrofes carregadas de versos intencionalmente intrincados, um porre de se decorar. Joguei a toalha e comuniquei que não ia cantar “aquela porcaria”, mas Elaine e Aguilar me convenceram, alegando que as outras músicas eram tão difíceis quanto (ruins?) e que eu poderia transformar em hardcore (?).


 A sugestão era até engraçada, mas eu sabia que não ia funcionar, entre outras razões, porque a banda de acompanhamento não era o Silence Means Death e eu não sou da família Cavalera. Numa espécie de Síndrome de Estocolmo, aprendi a música para, pelo menos, me preparar psicologicamente pros ensaios e acabei até quase gostando. Compartilhando de meu gosto musical e fãzona de Julie Andrews, aonde eu fosse cantando com o violão por dentro de casa minha mulher vinha atrás fechando as portas para não escutar. Sim, no dia do ensaio desabou um pé d’água medonho e o estúdio do Xuxinha fica pra lá de Itaparica em Vila Velha, região conhecida como “A Veneza Brasileira”. Dessa vez nadei e não morri na praia.

Chegou a hora do Show e eu naquela adrenalina típica, o cantor Marcos William me sacaneou dizendo que eu não precisava ficar tão tenso, mas também não era ele quem ia cantar Tom Zé, enquanto Jace Theodoro, no espírito do canto solidário, disse que quando ele não fica nervoso as coisas não rolam direito. Vinguei a galera do mal invertendo o refrão do Zé Irará para o da Noviça Rebelde, mas suspeito que o público nem percebeu. Ninguém conhecia a música, então só pra complementar o tanque, após os educados aplausos, saí do palco marchando e cantando: dó é pena de alguém, ré quem anda para trás...

Ah sim: e isso tudo fantasiado de Tropicália, tá? Peguei emprestada uma camisa estampada com o Grilo Falante que, aliás, está até agora sem falar comigo por conta de meu desrespeitoso artigo sobre sua incógnita pessoa. Preciso me desculpar, mas nem sei como, não é coisa fácil: a palavra é que nem pedra lançada, não volta. Ajudem amigos e leitores da Lektra, vamos fazer uma corrente positiva para o Grilo Falante me perdoar? Completei o “visual” com um velho chapéu de praia e enormes óculos de plástico azul que as crianças usam pra cantar “O Bom” nas apresentações do Coral.



Só fiquei mais tranqüilo quando, depois do espetáculo, encontrei meu amigo Antonio Ramos Barboza, Secretário de Cultura de Vila Velha, que tinha assistido tudo e ficou surpreso de saber que eu tinha feito parte da apresentação. Se ele não me reconheceu, corre o risco de ter passado batido pro resto do universo também, né? Até agora não vi nada no Youtube, não que eu tenha procurado, obviamente. Resumindo meu povo: quem viu, viu e quem não viu vai poder ver no dia 19 de janeiro quando o espetáculo será repetido. Chora Fender Stratocaster!

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

EUFEMISMOS MOTO-CLUBE: DINHEIRO FÁCIL

Na semana passada recebi uma intimação de meu amigo Grilo Falante:


“Juquinha, queria saber por que você ainda não escreveu no blog sobre aquele encontro de motoqueiros que você apresentou. Me divirto contando essas histórias pra amigos e você até hoje não escreveu. Senta o dedo moleque!”


É curioso como certos jargões e eufemismos tomam proporções de coisa importante dentro de um grupo. Quando saltei de para-quedas uma das primeiras coisas que me orientaram no curso foi sobre a importante diferenciação entre pular e saltar. Diziam que quem pulava era sapo, para-quedista saltava. Importante isso, né? Faz uma diferença... Que nem esse negócio de moqueca capixaba e o resto ser peixada... Semana passada vi aquele filme da Garota de programa, curiosa relação: quando estava tudo bem o cara se referia ao trabalho dela como uma coisa bacana, acompanhante de alto nível e coisa e tal. Quando brigavam a primeira coisa que ele fazia era dizer o quanto ela não passava de uma puta rampeira que vivia de trepar por dinheiro.


Coordenei o cerimonial da Prefeitura de Vila Velha por uns cinco anos de muito trabalho e dedicação quase exclusiva: se não era à prefeitura era aos bicos que eu arrumava por fora. Um desses pintou numa sexta-feira: um cara apareceu querendo um apresentador para um encontro de motociclistas que ia rolar o fim de semana na Ponta da Fruta. Não bastasse ser longe pra caralho o cara ainda queria pagar uma miséria - tipo cinqüenta paus por dia - e ficou tentando me convencer a topar a roubada. Falei que não poderia, inventei uma história, mas que ia arrumar alguém e que se não conseguisse eu mesmo o faria... E foi nessa que entrei pelo cano de escape. Ninguém topou a empreitada, nem o Wllisses (assim mesmo) um amigo que mora na Barra, pô, pertinho da Ponta da Fruta. Tive eu mesmo que ir, numa má vontade filha de acompanhante de alto nível, pra lá.


O organizador do evento era um cara chamado Dondoni, fundador e único membro do motoclube O Estradeiro Solitário, a única inscrição do grupo não era por falta de candidatos: dizia ele que se aceitasse mais alguém deixaria de ser solitário, ora... Era um coroa alto e magérrimo com um bigode fino e gigantesco, lembrava o pintor Salvador Dali. Tinha um triciclo todo paramentado ou como diria Paulão Sardemberg: mais enfeitado que sela de burro de cigano. Me avisou logo de cara pra tomar o cuidado de não chamar motociclista de motoqueiro de jeito nenhum! Era uma ofensa para a classe rebaixar suas nobres figuras aos inséticos motoboys, castas impuras que viviam de fazer merda pelo tráfego das grandes cidades lotando os hospitais públicos com suas patuscadas.


Além de ser longe e do cachê ruim, o evento era interminável, a primeira noite foi de um tédio inacreditável, varias vezes troquei as denominações motocoisadas, talvez porque não conseguisse perceber mesmo a diferença. O encontro fora montado numa grande extensão de terra batida ao longo da praia esquerda da Ponta da Fruta. Tinha um palco cedido pela prefeitura onde se apresentaram bandas de rock o que aliviou um pouco meu drama; completava o cenário barracas de bebidas, comidas e breguétes de motociclista: adesivos, isqueiros em forma de caveira, revolver, granada e facas, canivetes, lanternas, jaquetas, o diabo à quatro. A estética era Heavy Metal anos setenta com muitas concessões e emprestimos ao movimento Hippie, inúmeros velhos calveludos e pançudos desfilavam suas motos e jaquetas de clubes com latinhas de cerveja na mão. Born to be wild, yeah!


No dia seguinte resolvi levar Alice comigo pra ver se ajudava o tempo a passar, só que antes de seguir pra Ponta da Fruta demos uma parada estratégica na casa de Alvarito - então Secretário de Cultura - pra ajudar a escolher os finalistas de um concurso de bandas que estava acontecendo em Vila Velha. Compondo o júri estavam também Adson e Helinho “Bico Doce”, guitarrista cuja alcunha já insinua muita coisa. Começamos a ouvir as músicas, eram mais de cem, e tome de Alvarito abrir uma cerveja atrás da outra. Lá pelas tantas eu já estava de saco cheio, dei a sugestão de examinar as letras e eliminar sem nem ouvir as músicas que rimassem “amor com dor”, todos concordaram, mesmo porque a onda da birita começou a bater e eu precisava ainda apresentar o encontro dos meta-queiros, heavy-motors, enfim a roubada em que eu tinha me metido.


Alice que nessa época ainda não tinha carteira de motorista ficou puta com a minha bebedeira irresponsável e sussurrou no meu ouvido: se você tomar mais uma cerveja eu te largo aqui e vou embora de ônibus! - Dei um pulo da cadeira: Alvarito! Suspende a cerveja! - Helinho “Bico Doce” me olhou desconsolado que nem criança de castigo: Porra bicho, eu passo vinte anos estudando música e agora você vem me dizer isso? Suspende a cerveja?! - Saí de lá razoavelmente embriagado e ainda era dia, por algum milagre conseguimos chegar na Ponta da Fruta ilesos e Dondoni, aborrecido com meu atraso, veio logo com a programação, a primeira coisa que eu apresentaria seria uma missa celebrada pelo padre Eduardo Magalhães. Pensei com minhas champinhas de garrafa: agora é que fudeu meio mundo!


Meu xará de sobrenome chegou vestido a caráter em uma grande moto de corrida: botas, macacão, luvas, capacete e tudo o mais. Após estacionar embaixo do palco, subiu na parada e veio elogiar minha voz pedindo para ler na abertura a Oração do Motociclista, cara... E eu com aquele bafo de onça concordei. O que mais podia fazer? Li a oração e, para minha surpresa, os presentes participaram demonstrando uma dócil religiosidade, especialmente para quem ostenta orgulhosamente camisetas e adesivos com demônios, inferno e outros ícones satânicos. Ao longo da missa o padre motoqueiro realizou o milagre de sua transmutação visual, trocando o uniforme de moto-velocidade pela tradicional batina e os demais apetrechos comuns ao seu ofício, mas o ponto alto dessa celebração foi a entrada da bíblia:


Apesar de solitário no moto-clube Dondoni tinha lá sua companheira que parecia muito a fim de dar um jeito de roubar a cena e de certa maneira conseguiu quando coube ao casal anfitrião realizar a entrada do livro sagrado. O Estradeiro Solitário chegou na frente do palco através da multidão pilotando barulhentamente o seu grande triciclo com a patroa em pé na garupa como fora uma sacerdotisa wicca, vestida do jeito nada discreto que só as adolescentes muito bem apetecidas teriam coragem e Deus sabe que... Bem, não era o caso. Quando a moto estacionou na frente do palco a mulher ostentava triunfante uma bíblia enorme como se fosse um troféu de equipe vencedora da copa do mundo, era o espetáculo das - não mais tão - raparigas em flor.


Para não ficar atrás, no intervalo entre um show e outro, o Estradeiro deu um jeito de adentrar o palco dentro de um caixão - um caixão mesmo - que chegou trazido por uma procissão de moto-coisos portando tochas, ao som de uma música fúnebre que Dondoni me disse ser uma marcha qualquer, mas que era a abertura do disco Radioactivity do Kraftwerk, banda alemã pioneira do rock eletrônico. Depois de sua entrada triunfal o anfitrião do encontro fez um discurso amalucado em que afirmou, entre outras coisas, que a calça que estava usando era de um uniforme nazista que ele tinha dado um jeito de catar de um italiano em uma de suas viagens à Europa. Putz...


De madrugada já estávamos de saco cheio de matar tempo e, sobretudo, das prosopopéias dos delinqüentes senis. Alice estava tão cansada e aborrecida que falou: “amor eu te pago o dobro pra gente ir embora daqui agora”. Era mais de duas da manhã e eu ainda estava lá por honra da firma, se é que isso existia. Após apresentar o último show da madrugada fui cobrar a grana de Dondoni e anunciar que estava me arrancando. Deitando-se estrepitosamente num tablado de madeira, o Estradeiro - que já devia estar mais pra lá do que pra cá - meteu a mão no bolso da calça de couro de onde retirou duas notinhas de cinqüenta. Antes de estendê-las para mim insistiu para ficarmos até o final e voltarmos no dia seguinte, o que neguei já no limite da paciência que ele me esgotou dizendo com ironia: - Eita dinheirinho fácil hein?

segunda-feira, 22 de junho de 2009

TÁ CHEGANDO O PRIMEIRO ANIVERSÁRIO DA LETRA ELEKTRÔNICA


Durante muito tempo relutei em ter um blog, saca? Achava um modismo internetóide, coisa de gente “muderna” e, apesar de as vezes escrever até mais do que posto na Letra Elektrônica, rolava uma preguiça danada desse compromisso com forma e regularidade que os blogueiros têm. Vai daí que de vez em quando me aconteciam uns textos pequenos, retratinhos revolts do cotidiano que eu compartilhava com amigos e alcançaram uma certa popularidade, começou a rolar a cobrança pra não parar ou para organizar melhor essa minha coisação escrivinhatória.


Nessa onda preguiçosa de não ter um blog comecei postando alguns desses meus textos no do meu querido amigo o “Grilo Falante”, que tinha o nome de A Vingança de Prometeu. Era um desses ditos “espaços literários” com contos mirabolantes e complexos. Esse cara acabou fazendo uma série de amizades internauticas pelo Brasil e outros escritores afins, uns nem tanto, o visitavam e comentavam seus textos, daí ele ia no blog do amigo e comentava também e ficavam assim naquela rasgação de seda que os iludia com uma espécie sutil de popularidade. Minha participação melou o barato e em pouco tempo Prometeu deu fim à sua Vingança.


Acho que o Grilo ficou grilado porque os comentários feitos aos meus textos eram diferentes dos que faziam aos dele, que minhas histórias suscitavam debates enquanto as suas recebiam os tradicionais “muito bom o seu texto” e “bacana isso que você escreveu”. Nunca ninguém tinha o xingado ou comentado um texto seu com putaria, os meus... Logo entrou numa de que aquilo tudo não passava de um teatrinho de egos e abandonou a empreitada. Eu achei muito divertida a experiência e, como todo amigo sacana, ainda falei: num te disse que essa parada não tinha nada a ver?


Lembro muito bem até hoje de um tiro desses que levei no ego, o primeiro talvez. Foi no primário. Eu desenhava por diversão e passatempo, porque sempre achei a escola um porre. Adorava revistas de super-heróis, ainda adoro, então tentava reproduzir o Super-homem, o Batman e um dia minha professora ficou encantada com um desenho que eu tinha feito do Popeye, indicou meu desenho para participar de uma exposição e anunciou para toda a classe. Cheguei em casa me sentindo uma espécie de Monet, Rembrandt ou Massena, para ser mais regional.


A exposição estava marcada para o domingo lá no falecido Clube Vitória, point bacana da sociedade anos setenta capixabesca, de frente pro Parque Moscoso. Toda a família se arrumou para assistir ao meu debut no mundo das artes, eu estava feliz como criança quando fica doente: no centro das atenções. Circulando pelo local da exposição é que me foi cair a ficha: tinha tantos e tantos desenhos expostos que nem consegui encontrar o meu. Fiquei como o Pequeno Príncipe quando descobriu na Terra um campo enorme com inúmeras flores como a que ele tanto amava e que pensava ser única. Descobri que eu também não era.


Mas, enfim, por que estou contando essa historinha? Porque no próximo dia 07 de julho A Letra Elektrônica comemora um ano de atividade blogueira e bateu a onda de agradecer a vocês que têm me lido e incentivado desde o início. Nunca quis fazer um blog agressivo ou ficar bancando o dono da verdade, arbitrando o que é bom e o que é ruim em nossa sociedade botocuda conservadora e hipócrita. Tem muita coisa legal no mundo pra se dizer e o próprio ato de escrever é uma delas, compartilhar isso com vocês obtendo comentários e críticas é mais legal ainda, é fundamental.


Graças a vocês meus textos hoje estão republicados em sites como o do Professor Roberto Belling, sem falar nas participações especiais no Moquecada e em outros blogs amigos -, mantendo a gente em contato enquanto ainda estamos aqui. Ontem recebi um convite, que muito me envaideceu, para participar de uma mesa redonda em um encontro nacional de blogueiros. Entre tanta gente boa escrevendo é muito legal ser lembrado assim, mas isso não é o mais importante: o mais importante é manter nossas idéias circulando, porque pedra que não rola cria limo. I'm like a rolling stone...