sábado, 25 de outubro de 2014
O PROBLEMA DE TER TANTO E SER TÃO POUCO
sábado, 24 de maio de 2014
QUEM NASCE ZÉ NÃO MORRE JOHNNY
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
TERAPIA RUSSA PODE SER A CURA DEFINITIVA PARA A INSÔNIA
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
MOVIMENTO PELO PERDÃO DO GRILO FALANTE
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
EUFEMISMOS MOTO-CLUBE: DINHEIRO FÁCIL
“Juquinha, queria saber por que você ainda não escreveu no blog sobre aquele encontro de motoqueiros que você apresentou. Me divirto contando essas histórias pra amigos e você até hoje não escreveu. Senta o dedo moleque!”
É curioso como certos jargões e eufemismos tomam proporções de coisa importante dentro de um grupo. Quando saltei de para-quedas uma das primeiras coisas que me orientaram no curso foi sobre a importante diferenciação entre pular e saltar. Diziam que quem pulava era sapo, para-quedista saltava. Importante isso, né? Faz uma diferença... Que nem esse negócio de moqueca capixaba e o resto ser peixada... Semana passada vi aquele filme da Garota de programa, curiosa relação: quando estava tudo bem o cara se referia ao trabalho dela como uma coisa bacana, acompanhante de alto nível e coisa e tal. Quando brigavam a primeira coisa que ele fazia era dizer o quanto ela não passava de uma puta rampeira que vivia de trepar por dinheiro.
Coordenei o cerimonial da Prefeitura de Vila Velha por uns cinco anos de muito trabalho e dedicação quase exclusiva: se não era à prefeitura era aos bicos que eu arrumava por fora. Um desses pintou numa sexta-feira: um cara apareceu querendo um apresentador para um encontro de motociclistas que ia rolar o fim de semana na Ponta da Fruta. Não bastasse ser longe pra caralho o cara ainda queria pagar uma miséria - tipo cinqüenta paus por dia - e ficou tentando me convencer a topar a roubada. Falei que não poderia, inventei uma história, mas que ia arrumar alguém e que se não conseguisse eu mesmo o faria... E foi nessa que entrei pelo cano de escape. Ninguém topou a empreitada, nem o Wllisses (assim mesmo) um amigo que mora na Barra, pô, pertinho da Ponta da Fruta. Tive eu mesmo que ir, numa má vontade filha de acompanhante de alto nível, pra lá.
O organizador do evento era um cara chamado Dondoni, fundador e único membro do motoclube O Estradeiro Solitário, a única inscrição do grupo não era por falta de candidatos: dizia ele que se aceitasse mais alguém deixaria de ser solitário, ora... Era um coroa alto e magérrimo com um bigode fino e gigantesco, lembrava o pintor Salvador Dali. Tinha um triciclo todo paramentado ou como diria Paulão Sardemberg: mais enfeitado que sela de burro de cigano. Me avisou logo de cara pra tomar o cuidado de não chamar motociclista de motoqueiro de jeito nenhum! Era uma ofensa para a classe rebaixar suas nobres figuras aos inséticos motoboys, castas impuras que viviam de fazer merda pelo tráfego das grandes cidades lotando os hospitais públicos com suas patuscadas.
Além de ser longe e do cachê ruim, o evento era interminável, a primeira noite foi de um tédio inacreditável, varias vezes troquei as denominações motocoisadas, talvez porque não conseguisse perceber mesmo a diferença. O encontro fora montado numa grande extensão de terra batida ao longo da praia esquerda da Ponta da Fruta. Tinha um palco cedido pela prefeitura onde se apresentaram bandas de rock o que aliviou um pouco meu drama; completava o cenário barracas de bebidas, comidas e breguétes de motociclista: adesivos, isqueiros em forma de caveira, revolver, granada e facas, canivetes, lanternas, jaquetas, o diabo à quatro. A estética era Heavy Metal anos setenta com muitas concessões e emprestimos ao movimento Hippie, inúmeros velhos calveludos e pançudos desfilavam suas motos e jaquetas de clubes com latinhas de cerveja na mão. Born to be wild, yeah!
No dia seguinte resolvi levar Alice comigo pra ver se ajudava o tempo a passar, só que antes de seguir pra Ponta da Fruta demos uma parada estratégica na casa de Alvarito - então Secretário de Cultura - pra ajudar a escolher os finalistas de um concurso de bandas que estava acontecendo em Vila Velha. Compondo o júri estavam também Adson e Helinho “Bico Doce”, guitarrista cuja alcunha já insinua muita coisa. Começamos a ouvir as músicas, eram mais de cem, e tome de Alvarito abrir uma cerveja atrás da outra. Lá pelas tantas eu já estava de saco cheio, dei a sugestão de examinar as letras e eliminar sem nem ouvir as músicas que rimassem “amor com dor”, todos concordaram, mesmo porque a onda da birita começou a bater e eu precisava ainda apresentar o encontro dos meta-queiros, heavy-motors, enfim a roubada em que eu tinha me metido.
Alice que nessa época ainda não tinha carteira de motorista ficou puta com a minha bebedeira irresponsável e sussurrou no meu ouvido: se você tomar mais uma cerveja eu te largo aqui e vou embora de ônibus! - Dei um pulo da cadeira: Alvarito! Suspende a cerveja! - Helinho “Bico Doce” me olhou desconsolado que nem criança de castigo: Porra bicho, eu passo vinte anos estudando música e agora você vem me dizer isso? Suspende a cerveja?! - Saí de lá razoavelmente embriagado e ainda era dia, por algum milagre conseguimos chegar na Ponta da Fruta ilesos e Dondoni, aborrecido com meu atraso, veio logo com a programação, a primeira coisa que eu apresentaria seria uma missa celebrada pelo padre Eduardo Magalhães. Pensei com minhas champinhas de garrafa: agora é que fudeu meio mundo!
Meu xará de sobrenome chegou vestido a caráter em uma grande moto de corrida: botas, macacão, luvas, capacete e tudo o mais. Após estacionar embaixo do palco, subiu na parada e veio elogiar minha voz pedindo para ler na abertura a Oração do Motociclista, cara... E eu com aquele bafo de onça concordei. O que mais podia fazer? Li a oração e, para minha surpresa, os presentes participaram demonstrando uma dócil religiosidade, especialmente para quem ostenta orgulhosamente camisetas e adesivos com demônios, inferno e outros ícones satânicos. Ao longo da missa o padre motoqueiro realizou o milagre de sua transmutação visual, trocando o uniforme de moto-velocidade pela tradicional batina e os demais apetrechos comuns ao seu ofício, mas o ponto alto dessa celebração foi a entrada da bíblia:
Apesar de solitário no moto-clube Dondoni tinha lá sua companheira que parecia muito a fim de dar um jeito de roubar a cena e de certa maneira conseguiu quando coube ao casal anfitrião realizar a entrada do livro sagrado. O Estradeiro Solitário chegou na frente do palco através da multidão pilotando barulhentamente o seu grande triciclo com a patroa em pé na garupa como fora uma sacerdotisa wicca, vestida do jeito nada discreto que só as adolescentes muito bem apetecidas teriam coragem e Deus sabe que... Bem, não era o caso. Quando a moto estacionou na frente do palco a mulher ostentava triunfante uma bíblia enorme como se fosse um troféu de equipe vencedora da copa do mundo, era o espetáculo das - não mais tão - raparigas em flor.
Para não ficar atrás, no intervalo entre um show e outro, o Estradeiro deu um jeito de adentrar o palco dentro de um caixão - um caixão mesmo - que chegou trazido por uma procissão de moto-coisos portando tochas, ao som de uma música fúnebre que Dondoni me disse ser uma marcha qualquer, mas que era a abertura do disco Radioactivity do Kraftwerk, banda alemã pioneira do rock eletrônico. Depois de sua entrada triunfal o anfitrião do encontro fez um discurso amalucado em que afirmou, entre outras coisas, que a calça que estava usando era de um uniforme nazista que ele tinha dado um jeito de catar de um italiano em uma de suas viagens à Europa. Putz...
De madrugada já estávamos de saco cheio de matar tempo e, sobretudo, das prosopopéias dos delinqüentes senis. Alice estava tão cansada e aborrecida que falou: “amor eu te pago o dobro pra gente ir embora daqui agora”. Era mais de duas da manhã e eu ainda estava lá por honra da firma, se é que isso existia. Após apresentar o último show da madrugada fui cobrar a grana de Dondoni e anunciar que estava me arrancando. Deitando-se estrepitosamente num tablado de madeira, o Estradeiro - que já devia estar mais pra lá do que pra cá - meteu a mão no bolso da calça de couro de onde retirou duas notinhas de cinqüenta. Antes de estendê-las para mim insistiu para ficarmos até o final e voltarmos no dia seguinte, o que neguei já no limite da paciência que ele me esgotou dizendo com ironia: - Eita dinheirinho fácil hein?
segunda-feira, 22 de junho de 2009
TÁ CHEGANDO O PRIMEIRO ANIVERSÁRIO DA LETRA ELEKTRÔNICA
Durante muito tempo relutei em ter um blog, saca? Achava um modismo internetóide, coisa de gente “muderna” e, apesar de as vezes escrever até mais do que posto na Letra Elektrônica, rolava uma preguiça danada desse compromisso com forma e regularidade que os blogueiros têm. Vai daí que de vez em quando me aconteciam uns textos pequenos, retratinhos revolts do cotidiano que eu compartilhava com amigos e alcançaram uma certa popularidade, começou a rolar a cobrança pra não parar ou para organizar melhor essa minha coisação escrivinhatória.
Nessa onda preguiçosa de não ter um blog comecei postando alguns desses meus textos no do meu querido amigo o “Grilo Falante”, que tinha o nome de A Vingança de Prometeu. Era um desses ditos “espaços literários” com contos mirabolantes e complexos. Esse cara acabou fazendo uma série de amizades internauticas pelo Brasil e outros escritores afins, uns nem tanto, o visitavam e comentavam seus textos, daí ele ia no blog do amigo e comentava também e ficavam assim naquela rasgação de seda que os iludia com uma espécie sutil de popularidade. Minha participação melou o barato e em pouco tempo Prometeu deu fim à sua Vingança.
Acho que o Grilo ficou grilado porque os comentários feitos aos meus textos eram diferentes dos que faziam aos dele, que minhas histórias suscitavam debates enquanto as suas recebiam os tradicionais “muito bom o seu texto” e “bacana isso que você escreveu”. Nunca ninguém tinha o xingado ou comentado um texto seu com putaria, os meus... Logo entrou numa de que aquilo tudo não passava de um teatrinho de egos e abandonou a empreitada. Eu achei muito divertida a experiência e, como todo amigo sacana, ainda falei: num te disse que essa parada não tinha nada a ver?
Lembro muito bem até hoje de um tiro desses que levei no ego, o primeiro talvez. Foi no primário. Eu desenhava por diversão e passatempo, porque sempre achei a escola um porre. Adorava revistas de super-heróis, ainda adoro, então tentava reproduzir o Super-homem, o Batman e um dia minha professora ficou encantada com um desenho que eu tinha feito do Popeye, indicou meu desenho para participar de uma exposição e anunciou para toda a classe. Cheguei em casa me sentindo uma espécie de Monet, Rembrandt ou Massena, para ser mais regional.
A exposição estava marcada para o domingo lá no falecido Clube Vitória, point bacana da sociedade anos setenta capixabesca, de frente pro Parque Moscoso. Toda a família se arrumou para assistir ao meu debut no mundo das artes, eu estava feliz como criança quando fica doente: no centro das atenções. Circulando pelo local da exposição é que me foi cair a ficha: tinha tantos e tantos desenhos expostos que nem consegui encontrar o meu. Fiquei como o Pequeno Príncipe quando descobriu na Terra um campo enorme com inúmeras flores como a que ele tanto amava e que pensava ser única. Descobri que eu também não era.
Mas, enfim, por que estou contando essa historinha? Porque no próximo dia 07 de julho A Letra Elektrônica comemora um ano de atividade blogueira e bateu a onda de agradecer a vocês que têm me lido e incentivado desde o início. Nunca quis fazer um blog agressivo ou ficar bancando o dono da verdade, arbitrando o que é bom e o que é ruim em nossa sociedade botocuda conservadora e hipócrita. Tem muita coisa legal no mundo pra se dizer e o próprio ato de escrever é uma delas, compartilhar isso com vocês obtendo comentários e críticas é mais legal ainda, é fundamental.
Graças a vocês meus textos hoje estão republicados em sites como o do Professor Roberto Belling, sem falar nas participações especiais no Moquecada e em outros blogs amigos -, mantendo a gente em contato enquanto ainda estamos aqui. Ontem recebi um convite, que muito me envaideceu, para participar de uma mesa redonda em um encontro nacional de blogueiros. Entre tanta gente boa escrevendo é muito legal ser lembrado assim, mas isso não é o mais importante: o mais importante é manter nossas idéias circulando, porque pedra que não rola cria limo. I'm like a rolling stone...



