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domingo, 21 de outubro de 2012

CRÔNICA DE DOMINGO: MARCELO RAUTA, UM TALENTO EM ASCENSÃO NA MÚSICA CLÁSSICA



“Trajetória de um músico que se destaca no cenário nacional provoca uma reflexão: quantos compositores e artistas extraordinários se perdem devido à falta de oportunidades?”

Texto publicado ontem (20 de outubro de 2012) no caderno Pensar de A Gazeta.

Por Juca Magalhães

No Rio de Janeiro existe uma Associação de Violões criada para promover o ensino do instrumento mais popular do país com projetos sociais, um programa na Radio MEC (Violões em Foco), saraus e que realiza anualmente desde 2003 uma seleção de “novos talentos” destacando um compositor brasileiro e oferecendo premiações em dinheiro aos três primeiros colocados. Nesta edição de 2012, cuja (cuja?) abertura aconteceu no último dia 20 de outubro, o homenageado é o capixaba Marcelo Rauta.

Graduado e mestre em composição pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, premiado em concursos e autor de obras para várias formações da dita “música clássica”. No final de 2011, Marcelo Rauta lançou o disco Rerigtiba, uma amostra de suas peças, sobretudo, para violão. Teve, também nesse ano, o seu Salmo 100 incluído na turnê internacional do coral Canarinhos de Petrópolis que postou no Youtube um belo registro em vídeo apresentando a música de Rauta numa catedral em Bonn.

COMPOSITOR NO INTERIOR

Talvez mais incrível que o prolífero talento desse jovem capixaba ainda desconhecido de seus conterrâneos seja a história de sua vida. Longe de ser educado em um rico ambiente cultural que se imagina forjar os grandes compositores de música de concerto, o menino nasceu em Guarapari (05/03/1981) e logo foi morar na zona rural da cidade vizinha, Anchieta. Um município que em 2010 (segundo o site da Prefeitura) tinha pouco mais de vinte e três mil habitantes.

Após terminar a quarta série primária veio uma mudança importante, para prosseguir nos estudos o menino passou a morar com a mãe na sede do município. Marcelo tinha então em torno de dez anos. Um dia brincando na casa do colega Paulo Henrique Cunha Gonçalves viu lá um instrumento que despertou sua curiosidade...

- O que é isso?
– É um teclado... Serve para fazer música.
- Música? E o que é música?
- Ué, você nunca viu o Caçulinha tocando no Domingão do Faustão?

Criado na fazenda Dois Irmãos, sem energia elétrica muito menos televisão, Marcelo não conhecia nada daquilo. Seu amigo ligou o instrumento e tocou um trecho da nona sinfonia de Beethoven. Desnecessário dizer que o menino ficou maravilhado com a novidade e propôs um escambo: “eu te ensino matemática e você me ensina a mexer nesse negócio”. O engraçado é que o compositor confessa hoje não saber mais nada de matemática e o amigo trabalha como contador.

Logo Marcelo intercalava parte do dia na escola, corria em casa para almoçar e todo o resto do tempo ficava mexendo no teclado. A mãe de seu amiguinho era estudante do instrumento um pouco mais experiente e também compartilhou de boa vontade o que já havia aprendido, mas em pouco mais de um semestre a avidez musical do menino esgotou as possibilidades da escolinha improvisada. Naquele momento o destino se intrometeu na história, como nos conta o próprio compositor:

“Eis que surge em Anchieta um projeto que a prefeitura estava implantando. ‘Música para a comunidade’. Aí, foi daqui de Vitória a professora Ângela de Souza Cruz, minha primeira professora de piano. Ela viu que eu tinha talento, começou a me dar aulas e me preparou, inclusive, para a prova da Fames que na época era ainda chamada Escola de Música. Foi onde eu estudei o terceiro básico e dali já pulei para o curso superior.”

MÚSICA, NEM PENSAR!

É preciso explicar que, a princípio, o interesse incomum de Marcelo pela música foi ignorado por seus familiares: não incentivaram, não investiram, mas tampouco proibiram. Só na hora de escolher um curso superior é que todo mundo resolveu opinar. Uns diziam que devia estudar medicina, outros achavam direito melhor: mas música? Nem pensar! Música era coisa de vagabundo, ia acabar desempregado e morrer de fome. O pior é que nem se pode acusar seus parentes de ignorância, o preconceito com o “mundo das artes” persiste em todas as camadas sociais.

Junto com o estudo de música Marcelo começou a compor música de concerto, era como se uma coisa estivesse diretamente ligada à outra, o que geralmente não é tão simples. Mesmo sem noção das regras básicas de composição (forma, harmonia, contraponto, orquestração etc) o jovem criava partituras e as submetia à opinião de músicos mais experientes como os maestros Helder Trefzger e Leonardo Davi que reconheceram seu talento e o aconselharam a estudar no Rio de Janeiro, porque no Espírito Santo ainda não havia curso superior de composição (Só neste ano de 2012 a UFES deu início ao bacharelado na área).

Como imaginar aquele rapaz tímido que mal conhecia Vitória se mudando para o Rio de Janeiro? Para começar havia a dificuldade financeira - na primeira vez que tentou estudar na Fames, foi preciso abandonar o curso após três meses por não poder pagar as passagens – depois havia um concorrido vestibular para entrar na UFRJ. A princípio Marcelo fez o esperado, concluiu o “segundo grau” e resignadamente começou a cursar ciências contábeis em Guarapari. Três períodos depois não aguentava mais. Resolveu arriscar o futuro no Rio, cidade que até então nem conhecia, e foi aprovado em segundo lugar no curso de composição dando início aos estudos em 2003.

Para poder se virar na “Cidade Maravilhosa” o jovem compositor fez entrevista com a assistente social da Universidade e conseguiu provar ser merecedor da chamada “bolsa auxílio” no valor de apenas trezentos reais para custear todas as suas despesas: aluguel, alimentação, tudo. Sua família ficou chocada do rapaz se aventurar numa cidade tão perigosa onde não conhecia ninguém. Marcelo conta que também ficou com medo, mas logo se acostumou. Achou o carioca receptivo, os professores notaram seu talento e lhe deram atenção, no segundo ano conseguiu outra bolsa, a coisa foi melhorando e entre o curso de graduação e o mestrado passaram sete anos.

UMA INEVITÁVEL REFLEXÃO


A partir de certo momento de sua vida acadêmica o capixaba começou a colecionar premiações importantes, como consta no site da Academia Brasileira de Música: “Venceu o ‘Concurso Nacional de Composição para Orquestra de Câmara – Prêmio Sesiminas de Cultura’. Premiado no ‘Concurso Quintanares de Quintana’ em comemoração aos 100 anos de nascimento do poeta Mário Quintana, com sua obra para soprano e piano Ah! Os Relógios – obra lançada em livro e CD pela UFRJ. Venceu o ‘Concurso de Composição Niemeyer – 100 anos’, com sua obra Trio nº3-Igreja de São Francisco – obra lançada em livro e DVD pela UFRJ. Venceu o ‘II Concurso de Composição Claudio Santoro para Jovens Compositores’ com sua obra Psalmus 67”.

Logo após defender sua dissertação de mestrado em 2010, Marcelo ficou sabendo que haveria seleção para professor substituto dos cursos de bacharelado e licenciatura na Faculdade de Música do Espírito Santo. Veio, fez a prova e, como costuma ser, passou. Voltou para ficar perto da família e, numa inesperada inversão de valores, por questões financeiras. “A concorrência no Rio é grande, a remuneração de professor ficou mais interessante aqui no Espírito Santo”. Bom para os alunos capixabas que podem aprender um pouco da arte musical com esse gênio de trajetória insólita na qual se revela um misto de predestinação com muita determinação e coragem.

A história de Marcelo Rauta nos ensina muita coisa e provoca uma inevitável reflexão: quantos outros potenciais compositores e artistas extraordinários estiveram e ainda estão relegados à própria sorte neste país de tantas e tão grandes desigualdades? Quantos estão sem acesso à educação, sem força psicológica para romper as barreiras do preconceito contra sua arte ou encarar as dificuldades financeiras e conquistar sua independência vivenciando plenamente seu talento e criatividade? Quanto será que perdemos enquanto cultura com tudo isso?

No final deste ano a Faculdade de Música do Espírito Santo - Fames vai publicar em livro a pesquisa de mestrado de Marcelo Rauta que tem o título: “Reminiscências do Choro N° 10 de Heitor Villa-Lobos na Sinfonietta N° 4 de Marcelo Rauta: um estudo comparativo.” Não por acaso as obras em questão são de compositores nascidos no mesmo dia 5 de março, até aonde vão essas coincidências é difícil precisar. Tudo que sabemos é que Marcelo Rauta é um nome que evoca uma missão para a sociedade civil organizada: criarmos meios – que hoje não existem - de fomentar talentos como o dele e os ajudar a se desenvolver e frutificar.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

O LEGADO DE ALTAMIRO CARRILHO


Esse agosto não está muito bom para a comunidade musical de qualidade não, já perdemos o Celso Blues Boy e o Magro do MPB4 e agora acabo de ver a dolorosa e triste notícia do falecimento do grande flautista Altamiro Carrilho. No fundo nem é tão triste assim, afinal, Altamiro viveu bem 87 anos de muita música e através dela conheceu a glória internacional. Tristeza me dá porque tão poucos são como ele, embora seu legado – e elegância - há de prosseguir nos lábios de um Zé Benedito, meu compadre, seu discípulo dileto no chorinho.

Por essas voltas inexplicáveis que a vida dá, faz quase dez anos eu fiquei por conta de ciceronear o Altamiro aqui em Vitória e Vila Velha, acabei sendo o apresentador de um concerto da OFES com sua participação tocando Mozart e tive a honra de segurar o seu flautim (no melhor sentido que vocês puderem imaginar) no inesquecível concerto de abertura da Festa da Penha de 2003, com a Orquestra Phylarmonia e regência de Modesto Flávio, salvo engano.


Como ficamos pra cima e pra baixo naquele dia 24 de abril acabamos conversando bastante, o Altamiro tinha já seus setenta e tantos na época, mas era um daqueles – hoje nem tão raros - sujeitos cheios de energia e disposição, me lembra o nosso maestro Adolfo Alves que dá banho de vitalidade na garotada. Lá pelas tantas descobrimos que fazíamos aniversário no mesmo dia e, sagitarianos apontando flechas para o espaço, vimos altas transcendências naquela coincidência trivial.

Eu fazia um programa de música clássica na pequena – inclusive de alcance - Radio Comunitária da Praia da Costa e como Altamiro era uma usina em movimento resolvi o levar pra dar entrevista no programa de meu amigo Clóvis Rosa. Foi um furdúncio do lado de fora da rádio. Logo apareceram alguns senhores do entorno que não acreditavam que o Altamiro estava naquela insignificante emissora. Pois o maior flautista do Brasil ficou lá umas duas horas. Contou um monte de histórias, deu discos de presentes, enfim, acima de tudo e de todos: deu uma aula de como uma lenda viva deve se comportar com dignidade, afeto e a simplicidade de um ser humano qualquer.

Conhecer Altamiro Carrilho definiu para mim a diferença que existe entre um astro e o estrelismo. A jóia rara e o falso brilhante. Sua música plainava soberana, não precisava “fazer tremer o chão”, tudo ao seu redor vibrava em consonância com sua alegria e seu alto astral. Cheguei a conclusão de que da musicalidade emana mais simplicidade do que alvoroço e que “a direção é mais importante do que a velocidade”. Sensação parecida tive quando encontrei Monarco e, bem recentemente, Dominguinhos em Domingos Martins. Como é bonita e grandiosa essa postura da tranqüilidade assentada de quem não precisa mais provar nada pra ninguém...

Portanto: Descanse em paz Altamiro Carrilho! E viva a música popular brasileira!!


terça-feira, 24 de julho de 2012

RAPIDINHAS CULTURAIS IMPERDÍVEIS!


Na próxima quinta feira, dia 26 de julho às 19:30h a Cia Capixaba de Ópera e Musicais estará apresentando mais um concerto da série " Concertos na Vila". O evento, de arte integrada, apresenta ao grande público, além de obras dos grandes compositores eruditos e sacros, peças dos mais belos musicais da Broadway.

A participação especial do mês de julho é dos corais da Ufes e o Recordar é Viver, e do talentoso grupo de teatro Geta.

O competente coral da Ufes, um dos mais tradicionais do Espírito Santo, apresentará vasto repertório recheado de peças que vão do erudito ao popular internacional.

O coral Recordar é Viver é uma atração à parte: formado por coralistas essencialmente da terceira idade, tem suas apresentações marcadas pela alegria e descontração, com um repertório leve e marcado pela cênica.

Esta edição especial também trará a cantora lírica Elaine Rowena e o Maestro e contratenor Cláudio Modesto interpretando pérolas do cancioneiro lírico, em diversas concepções estilísticas, de Bach à Puccini. O piano é de Angela Volpato, o violino de  Evandro Marendaz, as coreografias de Lígia Araújo, a apresentação de Maryza Barbosa, a direção musical de Cláudio Modesto, a direção geral de Elaine Rowena e a produção executiva de Hudson Lyra.

 
E continua a Série Concertos Internacionais 2012, no dia 27 de julho às 20:00 horas no Theatro Carlos Gomes; com a apresentação do grupo Vokalzeit, criado por quatro membros do Coro da Rádio de Berlim: Hans-Christian Braun, Joachim Vogt (tenores), Michael Timm e Oliver Gawlik (baixos).

Além do repertório tradicional, como o lied alemão e obras de compositores clássicos – Schumann, Brahms, Mendelssohn e Mozart –, o grupo canta canções folclóricas alemãs e divertidas paródias de músicas clássicas, com arranjos feitos especialmente para o quarteto de vozes masculinas. Assim, o Vokalzeit cruza fronteiras entre o erudito e o popular, passeando por diversos gêneros e épocas.

O grupo tem se apresentado em vários festivais de música na Europa e gravou, em 2006, um CD pelo selo Coviello Classics. Nesta temporada, os quatro são acompanhados pelo pianista Philip Mayers. É a segunda vez que visitam o Brasil.


terça-feira, 17 de julho de 2012

RAPIDINHA CULTURAL DA BOA

Voltando à nossa cidade a sensacional orquestra Capella Bydgostiensis, tive o prazer de os apresentar o ano passado durante o Festival de Inverno de Domingos Martins e fiquei de queixo caído com a qualidade musical. O repertório apresentado foi moderno e instigante, ficou na memória especialmente uma peça chamada Orawa do compositor polonês Wojciech Kilar que eu nem conhecia e virei fã.

Lembro que o grupo chegou muito apreensivo com relação à sonorização, afinal iam se apresentar no palco principal de frente para a praça e, geralmente, nessas ocasiões o som fica uma tristeza. Só ficaram mais tranquilos quando eu disse que era a equipe do Loudness e o maestro descobriu que o engenheiro de som era Maurício Trindade, o mesmo da virada cultural de São Paulo onde onde a Orquestra já havia se apresentado. Quem perdeu essa apresentação fantástica no ano passado vai se programando, segue abaixo o convite...


O Capela Bydgostiensis chega de novo na época do Festival de Inverno de Domingos Martins, mais especialmente na noite de abertura. Portanto, não poderei os ver, porque estarei fazendo curso intensivo para picolé elektrônico lá em Campinho, emprestando minha voz pelo segundo ano consecutivo neste evento que é o mais chique e badalado da música de concerto em terras capixabas. 

Vale a pena conferir toda a programação do Festival no link abaixo
http://www.festivaldomingosmartins.com.br/?secao=programacao

quarta-feira, 7 de março de 2012

ABERTURA DA TEMPORADA CAMERATA SESI

Com direção artística do maestro Leonardo Davi tem início no próximo sábado a temporada 2012 da Orquestra Camerata SESI. O grupo é formado por jovens músicos e vem amadurecendo tanto em seu repertório, quanto musicalmente. A Letra Elektrônica vai estar lá...

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

RAPIDINHA CULTURAL - DA BOA EDUCAÇÃO

A escola russa de piano e seus discípulos dominaram a cena no século vinte, uma empreitada que fez surgir astros da música clássica atual como Evgeny Kissin, Boris Berezowsky, Arcadi Volodos, Andrei Gavrilov, Michail Pletnev e muitos etceteras. Uma das razões para o sucesso dessa escola é prover uma educação de bases sólidas na inicialização, onde se encontram alguns dos melhores e mais respeitados profissionais do ensino, diferente da maioria das escolas ocidentais onde essa parte da atividade parece, geralmente, relegada a professores menos experientes e estagiários.

Tô falando disso na maior satisfa do mundo, porque uma de nossas pupilas, Emily Simões de apenas oito anos, acabou de ser aprovada num concorrido processo seletivo para o quarto nível de musicalização infantil da Faculdade de Música do Espírito Santo. E falo também porque recebi um convite do querido e sumido amigo Alvarito Mendes Filho para a apresentação de uma peça de Teatro de seus alunos no curso da Fafi. É muito importante para a rapaziada que está chegando ter contato com professores de experiência e tempo de estrada: segue abaixo o release com todas as informações.

ALUNOS DA FAFI ENCENAM COMÉDIA DO SÉCULO XIX

Na próxima sexta-feira (16), os alunos do segundo ano de teatro da Escola de Teatro, Dança e Música FAFI estrearão a comédia O tipo brasileiro, de França Júnior, que tem por temática a preferência que, no Brasil do século XIX, se tinha pelo estrangeiro em detrimento do cidadão nativo ou daquele que havia se abrasileirado. A montagem será apresentada também no sábado (17), sempre às 19h30, no auditório da escola, com estrada franca. Mas ATENÇÃO! Ingressos limitados: apenas cinquenta por sessão e distribuídos uma hora antes do início da apresentação.

A iniciativa de levar o texto à cena faz parte da disciplina Prática de Montagem, sendo que os próprios alunos, junto com o professor da matéria, escolheram a peça a ser encenada. A temática abordada por França Júnior em O tipo brasileiro foi um dos fatores que mais influenciaram na hora da escolha. “A preferência por quem vem de fora é ainda uma realidade entre nós”, dizem os integrantes do elenco. “Talvez não na mesma proporção em que acontecia no século XIX, mas ela ainda existe e, portanto, vale à pena abordar o assunto.”

 
Sobre o autor
Os dramaturgos brasileiros de maior popularidade no século XIX foram Martins Pena, Arthur Azevedo e França Júnior. Esse último, segundo os pesquisadores, foi o principal seguidor de Martins Pena. Seu nome de batismo: Joaquim José de França Júnior. Nasceu no Rio de Janeiro, em 18 de março de 1838, e morreu em Poços de Caldas, MG, no dia 27 de novembro de 1890.

Foi advogado, dramaturgo, jornalista e pintor. Como escritor teatral destacou-se pela qualidade de suas peças que abordavam, de forma divertida, temas colhidos no cotidiano da vida brasileira, mais especificamente do Rio de Janeiro, então capital do Império do Brasil. Escreveu para o palco varias comedias de costumes e sátiras políticas de grande sucesso, algumas hoje infelizmente desaparecidas.

Dentre as suas comédias teatrais que alcançaram grande sucesso popular e o tornaram um autor de prestígio estão: Amor com amor se paga, Como se fazia um deputado, Caiu o ministério, Ingleses na costa e O tipo brasileiro.

FICHA TÉCNICA
Texto: França Júnior
Direção e prática de montagem: Alvarito Mendes Filho
Elenco: Ana Cláudia Cristo
            Dulce Fernandes
            Lu Golçalves
            Vinícius Capistrano
Preparação vocal: Elaine Rowena
Coreografias: Gil Mendes
Exercícios de composição de personagem: Roberta Portela
Músicas: Chiquinha Gonzaga e Ernesto Nazaré
Gravação da base instrumental das músicas: Jérémy Naud
Trilha sonora: Alvarito Mendes Filho
Concepção de figurino: o grupo
Concepção de cenário: o grupo
Técnico de luz: Edgar
Operador de luz: Edwaldo Almeida
Técnico de som: André
Apoio:  Carlos Papel
Grupo Repertório de Teatro
Cia. Capixaba de Comédias
Fantasia Mágica – aluguel de fantasias
Coordenação geral: Wilson Coelho e Tânia Regina Alves do Carmo

domingo, 11 de dezembro de 2011

DESCOMPLICANDO A MÚSICA CLÁSSICA

Por Juca Magalhães, 
Publicado no Caderno Pensar de A Gazeta, em 10 de dezembro de 2011.

Não é tarefa fácil atrair para a música clássica aqueles para quem música é sinônimo de festa e rejeitam o “erudito” tachando-o de “triste”, fazem relações até com velórios. Some-se o fato de que alguns itens “clássicos” de consumo acabam vistos com reservas porque penam com o fetiche de pessoas que adotam pose e discurso dissociados de um possível gozo – livros, filmes e até vinhos – ao invés de curtir a coisa pelo prazer que proporciona, sem regras e explicações complicadas.

A defesa da música clássica como algo divertido e sem neuras perpassa o livro “Escuta Só – do Pop ao Clássico”, uma coleção de artigos do crítico musical da revista New Yorker, Alex Ross. Porém, é bom entender que quando Ross se refere ao Pop está falando de certa vanguarda que tem lá um pezinho no popular como Bod Dylan, Björk e a banda Radiohead, mas passam longe de serem comparados a mega fenômenos da mídia como Lady Gaga e Justin Bieber.

São vinte capítulos abordando abismos sonoros, todos muito instigantes. Ross passeia pela música de concerto da China e vai até o som ártico de John Luther Adams; aborda particularidades da vida de John Cage e rumores sobre a homossexualidade de Schubert. São visões dos clássicos para aqueles que podem fruir a arte pelo que ela tem de mundano e verdadeiro, outra vez, evitando a postura blasé de endeusar músicos pelo que aparentam ser e não pelo que realmente são.

Três capítulos são particularmente interessantes para os que se interessam pelo futuro da música: o que trata da transição da batuta do “antimaestro” Esa-Pekka Salonem, da Filarmônica de Los Angeles, para o jovem prodígio venezuelano Gustavo Dudamel; o que mostra a queda brutal no ensino de artes nos Estados Unidos e que é muito contundente, até pela dificuldade de se traduzir a convicção dos que amam a música em dados sociológicos exatos:

“Sempre que uma pessoa tenta defender a música em termos utilitários, ela tropeça nem incertezas fundamentais sobre o verdadeiro objetivo de uma arte cuja atração é, como observou ansiosamente Platão, ilógica e irracional.”    

Mas o capítulo mais pessoal e instigante talvez seja o que aborda o Festival de Malboro, tradição trazida da Alemanha pelo pianista Rudolf Serkin e seu sogro, o violinista Adolf Busch. Carrega a marca sutil da transferência de conhecimento do mestre para os alunos e da infeliz inversão de valores das gerações pós-guerra. Não é de espantar hoje um iniciante querendo ditar sugestões ao professor, um leigo querendo ensinar um especialista a trabalhar, mas o quão tola pode ser essa situação. É um momento profundo e difuso do autor, lírico e distante.

Estudante e amante da música clássica (acredite, nem sempre uma coisa tem a ver com a outra), Alex Ross tenta mostrar em seu livro que é preciso resgatar o gozo e a reverência pela música viva e sacudir as velharias. Por exemplo, sua visão da etiqueta em concertos vai contra muitas convenções estabelecidas e seus argumentos soam inovadores. Quem frequenta concertos sabe que existem algumas regras que, inclusive, desmascaram os leigos na platéia, destas a principal é não aplaudir entre os movimentos de composições de grande escala. Segundo Ross:

“Os músicos e críticos alemães inventaram essa regra nos primeiros anos do século XX. Leopold Stokowski, quando dirigiu a orquestra da Filadélfia, foi fundamental para trazer essa prática aos Estados Unidos.”

No Brasil é comum vermos “regras de etiqueta” detalhadas em pomposos livros de “música clássica”, em palestras e até mesmo em programas de concerto. É inevitável que causem estranheza ao público leigo, que – quando vence a barreira do estranhamento e vai ao teatro - naturalmente aplaude o final estrondoso do primeiro movimento de uma grande sinfonia, enquanto boa parte do público protesta por silêncio e nem todos de maneira educada. Lendo os artigos muito bem escritos por Ross temos a impressão de que nós estamos indo de Transcol e os gringos estão voltando de nave espacial e que esse imaginário chiquérrimo do cidadão “patropi” tem muito mais de caipira do que suspeita a nossa vã filosofia.  

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

PERTINHO DO PORTÃO DO INFERNO


Duas cidades marcadas por uma pequena rivalidade já acolheram a parte inicial do projeto Música Barroca na Estrada, Campo Grande no Mato Grosso do Sul e Cuiabá no Mato Grosso do Norte. Nossa troupe desembarcou em Campo Grande em plena “Semana do Saco Cheio”, um grande feriadão que marca a fundação do Mato Grosso do Sul.

Campo Grande é plana, grande e muito marcada pela cultura pantaneira. É comum vermos pessoas usando chapéu de vaqueiro e casas que vendem artefatos rurais, tipo selas de cavalos e coisas do gênero. Contrasta com isso grandes automóveis importados circulando por toda parte em largas e planas avenidas. Antes de embarcarmos para o destino seguinte nosso apoio operacional local avisou: lá em Cuiabá é muito quente...

Quando dizem para você uma coisa assim, há que se dizer: bom, é quente e daí? Vitória também é quente, o Rio de Janeiro é quente... Amigo, Cuiabá é quente mesmo, mas bota quente nisso. É também muito maior e mais antiga do que eu imaginava. Recentemente eles venceram uma disputa com os vizinhos do sul e é evidente o orgulho da cidade em receber jogos da Copa do Mundo.

Muito evidente também em Cuiabá é a cultura regional pantaneira que envolve viola de cocho, rasqueado, siriri e mais uma pá de danças folclóricas muito bacanas e surpreendentemente próximas dos ritmos latinos. É muito evidente a influência regional na música, por exemplo, de Ney Matogrosso, coisa que eu nem suspeitava. Amanhã estamos combinados de nos encontrar com o Abel, o mais respeitado violeiro de cocho (nem sei se é assim que se fala) da região.

O calor das ruas é do tipo forno ligado, vem do asfalto e do cimento e sobe pelas pernas. Ar-condicionado aqui não é luxo de maneira nenhuma, é item de primeira necessidade. Esse calor parece se refletir no jeito das pessoas, todas muito receptivas e simpáticas, parecem amigos nossos de longa data. É impossível não fazer gozação do calor com a proximidade da Chapada dos Guimarães e o famoso Portão do Inferno, um canyon de mais de cinquenta metros de altura que fica no limite de Cuiabá.

Hoje saiu no jornal A Gazeta daqui - o mais lido, ligado à Rede Record – uma reportagem de página inteira muito elogiosa com relação ao projeto, deram muito destaque à iniciativa e à minha participação como palestrante. Espero, quando voltar ao Espírito Santo, e no mês que vem lançar o livro Sobre a Orquestra Filarmônica Capixaba, ter a oportunidade de compartilhar conhecimento e ver este encontrar a devida valorização como tem sido por todo o país.