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sábado, 21 de novembro de 2015

O VENTO SOPRA NO MICROFONE

Saio de casa faltando dez minutos. Na porta de casa o gato Simba me olha todo dia com a mesma questão: “aonde você vai?” Boa pergunta. Coloco os óculos de sol na cabeça e às vezes esqueço onde estão. Enquanto espero o elevador desembolo o fio e plugo o fone no celular. Abro a tela e clico num ícone laranja no formato de um daqueles grandes fones de ouvido. Tenho um desses, mas não dessa cor, obviamente.

Obviamente por quê?

Porque sim. Vá encher o saco de outro. - O player de música (podia ser de outra coisa) oferece algumas opções de reprodução, inclusive a aleatória que conheci recentemente. Gostei desse negócio. É como uma rádio que só toca músicas que eu escolhi e não tem propagandas, mas também não tem surpresas. Atirem no pianista!

Outro dia coloquei uma gravação recente da Sinfonia Fantástica de Berlioz, música na qual não pensava fazia tempo. Muitas vezes essa operação demora um pouco, ao sair na claridade da rua quase não enxergo mais o visor. Cumprimento vizinhos, gente voltando da “acadimia”, passeando com o cachorrinho, conde falando aos passarinhos.

Ganho a rua ouvindo a Killer Queen, aquela que guarda Moet Chandon num armário bacaninha (onde foi parar o trema nesse teclado?); ao dobrar a esquina aperto o passo, sinto um calo no pé esquerdo e tenho aquela sensação chata da distância: falta sei-lá-quanto para chegar. Logo estou submerso em pensamentos, olhos grudados no chão converso comigo sem fazer agora a menor ideia do assunto...

Depois de uns três minutos passava pela calçada do Senac e o dispositivo aleatório escolheu um noturno de Chopin com Guiomar Novaes, peça que andei batucando uns tempos atrás. De novo tenho a sensação de distância, espaço/tempo. Respiro e sinto que ao pensar existo. Alguém pichou que a TEG é foda, que diabos é a TEG? Maldita seção central, difícil fazer aquela sequência de oitavas! Cadê tempo para estudar?


O vento sopra no microfone - como será que faz para desligar essa bustrenga? (saudade dessa palavra) - depois lembro que ouvir música com aqueles pequenos dispositivos enfiados no ouvido não é a coisa mais saudável. Ao contrário de agradecer o aviso do fabricante - a música alta pode ocasionar perda de audição - fico é puto da vida. Dá vontade de ouvir no toco, mais alto até do que o volume máximo oferece...

... Reconheço que sou um pouco infantil, autoestragativo e buscador de limites. Como nessa relação com os carros, os tais “chatomóveis”. Se não é seguro correr por aí que nem um doido, por que os fabricam tão velozes e competitivos?

Agora vem o João com seus para-pa-pá... Alguém dá um berro na plateia. “Ái meu Deus!”


Sete minutos e cinquenta e pouco: Cheguei!


domingo, 21 de abril de 2013

NOS BRAÇOS DE MORFEU E COM A IDADE DE CRISTO QUANDO MORREU!



A minha felicidade está sonhando
Nos olhos da minha namorada

Outro dia acordei com uma frase na cabeça que achei genial para iniciar um livro. A frase era grande, praticamente um parágrafo, cheia de voltas e retóricas. Daí o despertador tocou, minha mulher desligou e voltou a dormir. Era domingo, mas eu sabia que ela tinha um compromisso logo cedo, daí perguntei da forma mais carinhosa que consegui:

- Você não está com medo de perder a hora não? – Ela me respondeu de olhos fechados como se estivesse hipnotizada, ou envolta em grossas e misteriosas brumas.

- Eu já coloquei o despertador para tocar. – Esperei um pouco e raciocinei embaixo das cobertas atrás de uma nova estratégia. Aqui em casa, por precaução e carinho, eu levo a sério aquela coisa do Vinícius de Moraes pedir para falarem baixo, por favor, pra que ela acorde alegre como o dia oferecendo beijos de amor...

Mas enquanto isso o diabo do tempo estava passando...

- Você sabe que o despertador já tocou não é?

- Humn? – Ursinhos, grandes pirulitos coloridos, meninas loiras de Maria Chiquinha correndo atrás de coelhinhos saltitando e um grande cogumelo pavarótico cantando “amazing grace”... O resto era o vento nas árvores e o silêncio.

- Foi você mesma quem desligou ele meu bem. – Nesse momento, de repente, seus olhos se abriram assustados e o leve sorriso de bonança desapareceu de seu rosto.

- Eu desliguei? Eu nem ouvi ele tocar... – Comecei a rir enquanto ela se debruçava novamente para ver se eu estava falando a verdade... Voltou e colocou a mão na testa.

- Putz! – Sorri solidário, beijei seu rosto e falei:

- Feliz aniversário meu amor!  

... E nunca, nunca mais vou saber novamente qual era, ou como era, a tal frase genial para iniciar um livro.

Para Alice Nascimento no dia de seu aniversário. Essa crônica é um presentinho de pobre, como diria meu muito querido poeta Manuel Bandeira em suas flautas de papel. Aquela canção que para você eu nunca escrevi. LOVE!

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

PONTO MORTO



Era uma vez um homem muito inteligente, pelo menos aparentemente todo mundo considerava o seu intelecto acima da média. Só o fato de ter alcançado esse reconhecimento em seu grupo era já uma prova de que alguma peculiar habilidade havia, afinal, são poucos aqueles vistos como antítese benevolente da tão criticada ignorância, os trivialmente denominados burros, antas ou paquidermes em geral.

Esse homem – sei-lá-porque – quando gostava de algum assunto, passava a tentar dominar teoricamente tudo o que tinha pra saber a respeito. Devorava todos os livros, decorava longos trechos incompreensíveis e quando os explicava e se enrolava – o que era frequente - simplesmente inventava. Sabia que os mistérios do mundo encantam a todos porque trazem muito mais perguntas que respostas. 

Era inteligente como o diabo! Talvez por isso nem todos gostassem dele... 

Sem perceber motivo o olhavam de soslaio, cochichavam às suas costas e lhe queriam mal. Era estranho. Perdido num mundo que o satisfazia, nunca parara para escanear a vida dos outros; o centro do universo era seu umbigo e seu cérebro uma fonte de luz imaginária. Então, fora de sua redoma, raramente encontrava alguma coisa capaz de merecer elogio e quando criticava era duro, renitente e diabolicamente perspicaz.

Seus desafetos não ficavam atrás... Distribuíam fermento aos “importantes” que inchavam à prática. Enquanto isso vasculhavam a vida pessoal do outro e se nada descobriam de picante ou escabroso: inventavam também.  Sabiam que as pessoas dão crédito a maledicências, mais do que à qualidades e virtudes. O homem percebia a mudança no olhar de pessoas, o distanciamento, mas tinha um tédio enorme de ficar a se explicar e a se defender de mentiras. 

E é um perigo deixar as pessoas entregues às suas próprias conclusões...

Então dava de lembrar coisas ruins do passado e nutrir medo do futuro, sentia maus presságios resmungarem ao estomago e depois os trazia à boca para ruminar. Fazia isso com frequência e quando lembrava o mal que lhe haviam feito se irritava como se estivesse acontecendo naquele instante, mas depois esquecia; em dado momento sentia algo incomodando sua alma, uma agonia, era apenas a lembrança da desfeita infeliz espetando por dentro.

Pensou que era preciso perdoar e esquecer; sentia-se mais importante assim, porém impotente ao imaginar o fato; infelizmente não conseguia esquecer esses aborrecimentos. Embora já perto da velhice, ainda guardava o nome de uma professora do primário que uma vez o maltratara. E, ao mesmo tempo, não fazia a menor ideia de como se chamava outra muito bondosa com quem adorou conviver.

Quis passar com o carro por cima daquela, já velha, atravessando a rua com firme dificuldade. O tempo só fizera acentuar a carranca, expressão consolidada de azedume. E era pra ter pena? Pensou que era e em, novamente, perdoar. Que diabo! O carro estava engatado na primeira, nunca tinha paciência de esperar o sinal em ponto morto. Começou a acelerar, a mulher vinha já no meio da avenida, era só avançar o sinal e passar por cima – tlum-lum, tlum lum! – que nem num quebra-molas.

Assistiu impávido e perplexo o desfile lento e doloroso do passado, bem na frente do seu carro, diante dos seus óculos, debaixo de seu nariz adunco. O surpreendia, inclusive, ter reconhecido a mulher após todos aqueles anos. Mais do que tudo, o intrigava ainda querer seu mal tão intensamente e sentir por dentro uma certeza insana que aquela pessoa não merecia mais viver.

“Não vou conseguir passar por cima!” Pensou entre frustrado e resignado, as mãos apoiadas sobre o volante. Então, esperou o sinal se abrir e seguiu em frente.

Depois reviveu a cena, a mulher com a lentidão angustiante de quem acumulou nas costas as decepções que imaginou ser importante causar; parecia aterrada, soterrada: um lixão; suportando o peso da existência, trato aceito talvez muito cedo em sua vida. Nunca foi capaz de sentir-se plenamente amada, nem pelos seus. Não conseguiu construir relação, só frustração. E assim existia, atravessando aquela avenida, domingo, sete horas da noite.

Então aceitou o sentimento de pena como verdadeiro, mas não podia perdoar a mulher. Será que deveria parar o carro no meio da avenida e chamar a antiga professora às falas, adotar uma postura benevolente e disparar um sonoro e sincero: “eu te perdoo”? Alguma coisa argumentou dentro de sua cabeça que, se não era assim, então era preciso perdoar em seu coração e se livrar de vez daquela “inhaca”.

Ora – pensou – se é preciso curar essa “inhaca” dentro de mim, o verdadeiro problema não é algo ruim que me fez uma pessoa frustrada: sou eu! Foi nessa hora que nasceu a suspeita – nasceu já confirmada - de que toda aquela inquietação nada mais era do que pena de si mesmo. Todo aquele remorso guardado desde a infância era um espelho quebrado com pedaços esfregados diante de seu nariz adunco.

Era inteligente, mas, como muitos, sempre demorava um pouco até chegar às conclusões mais óbvias...

domingo, 13 de janeiro de 2013

INVISIBILIDADE EM EXPOSIÇÃO

Originalmente publicado no Caderno Pensar de A Gazeta no dia 12 de janeiro de 2013

“Insanidade: fazer a mesma coisa várias e várias vezes
e esperar resultados diferentes.”
Albert Einstein
Nos últimos meses de 2012 a Secretaria de Estado da Cultura do Espírito Santo promoveu uma série de seminários sobre preservação do patrimônio histórico cultural. Como muita gente, eu ainda nem me tocara para a diversidade desses patrimônios; os monumentos geológicos, por exemplo. Um especialista na área, Everaldo Nunes explicou em sua palestra que para a geologia as praias são territórios instáveis e sua mutabilidade vista como coisa natural, “preservar” nem teria assim tanto sentido. Desculpem-me Everaldo e os geólogos se não os captei muito bem, mas como dizia Tom Jobim, adoro falar sobre coisas que não entendo. Quero é traçar uma paralela.
Nos seminários se abordou também os bens culturais imateriais como as bandas de música e outras manifestações populares. Alguém disse que lembrava o grupo do “Tio Fulano” que infelizmente não existia mais. Para os que se debruçam sobre as questões musicais, essa finitude é tão “corriqueira” como o desaparecimento das praias. Além de gravar, a forma tradicional de preservar música é escrever a partitura e transmitir o conhecimento aos que vão chegar, para que possam reproduzir aquela ideia e também desenvolver a linguagem própria de seu tempo, perpetuando o raciocínio lógico formador dessa tal imaterialidade. 


Juca Magalhães apresentando o Seminário em São Pedro do Itabapoana
 
A preservação da cultura musical através do ensino e transferência da prática parece o óbvio ululante que o Nelson Rodrigues falou, mas não é não. Só fui me tocar pra isso depois de me encontrar maduro e quando topei ensinar violão e guitarra para duas meninas do Algazarra Arte & Coral, viés de desenvolvimento dentro do grupo que vem ganhando força. Essa manifestação tão antiga em nossa cultura (um pequeno coro) é exemplo desse contraste: a exposição de sua invisibilidade; digo, a atenção carinhosa da mídia e das plateias e a relutância dos gestores públicos e privados quanto ao fomento e apoio continuado a manifestações do gênero.
                                                                                   
O Algazarra surgiu do esforço da regente Alice Nascimento que há mais de dez anos leciona música em projetos sociais. Muitas dessas iniciativas oferecem oficinas de música sem a pretensão de formar profissionais; servem para dar uma introdução e reforçar o bordão de “tirar as crianças da rua”. Nesse meio existia uma elite de jovens que queria mais; um dia, no final de 2010, pegaram Alice “de ladeira abaixo” e cobraram a própria criação que aconteceu no ano seguinte. O nome evoca gritaria e confusão, mas na verdade é sinônimo de alegria; foi escolhido pelos próprios 35 coristas num barulhento “brainstorming”.
 
Canto e criatividade são formas de sustentação do grupo: rifas, trabalho voluntário, apoio de padrinhos e cachês de apresentações ajudam a viabilizar essa Algazarra. O espaço de ensaio foi conseguido pelos meninos de Itararé junto ao Ailton, presidente da Associação de Moradores, que emprestou a sala. Em meio ao vizinho alarido das igrejas evangélicas, o grupo desenvolve um repertório entre clássico e popular, ganhou moral em apresentações importantes e, apesar da notória carência financeira, é frequentemente convidado para aparições gratuitas em ricas instituições comerciais e públicas – com uma ponta de ironia – especialmente no natal. Como explicar aos pais que seus filhos vão cantar de graça em um suntuoso “templo de consumo” quando mal têm dinheiro para se locomover de ônibus?
             
Esse descaso para com as ações culturais é fator notório de anomia e também escancara o pouco apreço quanto à seriedade da labuta musical. Segundo Robert King Merton na Wikipedia, “anomia é a incapacidade de atingir os fins culturais e quando ocorre devido à insuficiência dos meios institucionalizados gera conduta desviante. A teoria explica por que os membros das classes menos favorecidas cometem a maioria das infrações penais e crimes de motivação política, bem como comportamentos de evasão como o alcoolismo e a toxicodependência”. 
Buscando lugar para ensaiar o Algazarra abordou uma conhecida instituição de ensino de Itararé, cujos alunos de classe média e alta se queixavam na mídia da insegurança na região. Pensaram que seria lógico para os gestores topar interferir na comunidade apoiando uma ação que a beneficiaria. Não pediram ajuda financeira, só o empréstimo de uma sala duas vezes por semana. A resposta foi uma distante negativa. Exemplo de que não é fácil mudar e continuaremos fazendo apenas o que se convencionou fazer: reclamar. Enquanto isso, a areia das praias do nosso tempo vem sendo engolidas pela violência que ninguém quer encarar, porque no final a culpa é simplesmente do mar.
Kamilla Kaiser se apresentando com o grupo e o professor Juca Magalhães


Quer conhecer mais e ver o Algazarra em ação? Vão aí três links de videos: o primeiro é do especial de natal da Gazeta, que ficou muito divertido:

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=JAX45efR8wY

o outro é o Algazarra representando o ES em Ipatinga, O mestre Rogério Coimbra quando viu esse video comentou no Facebook: "ainda existe uma esperança":

http://www.youtube.com/watch?v=lhjHlRz0FqA

O último é no CantarES desse ano, o grupo chutando o balde dos adultos, apresentando à capela uma música moderna de arrepiar.

http://www.youtube.com/watch?v=CvUBey0BVhk

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

BATE-BATE: HOMENAGEM AO RUBEM BRAGA



Verão doido, sol de lascar, calor dos infernos! E a água mineral que de repente acabou? Ligo correndo pra um telefone qualquer daqueles pregados na porta da geladeira e a moça do outro lado disse que não me conhecia. Então empatamos querida, darling, fófis: não faço a menor ideia de quem você seja. Imagino que trabalhe para um dessas empresas que entregam garrafões de água e botijas (cujo?) de gás. Cerveja talvez? Minha curiosidade não chega a tanto.

- Moço: pro rapaz bater a água aí na sua casa ele vai verificar a validade do galão. – Estranhei a frase como um todo, fiz a moça – tinha voz de moça - repetir só de sacanagem. E não é que ela repetiu? Então eu disse um distante "tudo bem" e desliguei com aquele sorriso sacana nos lábios, enquanto procurava no diabo do galão – que nós chamamos de garrafão - a sua validade da qual eu nem suspeitava e descobri que era 2013. Numa viagem mental relaxei pensando que 2013 ainda estivesse muito longe. Minha mulher passou comentando sonolenta que ficar sem água de manhã é pior do que assistir ao Big Brother. Penso que ao último há várias alternativas, para a água que acabou só nos resta esperar o rapaz vir “bater”.

Não sei se vocês repararam: mas esse “bater a água” que ela usou foi o negócio que me deixou com aquela sensação esquisita de Inspetor Clouseau. Comecei a pensar sobre essa palavra “bater”, aliás, um verbo que para mim nunca foi grande coisa, talvez pela sua ligação reativa com aquele outro, o apanhar, que me remete a lembranças infantis mal ranqueadas. Danei a matutar, desenvolver o tema, e descobri que o verbo “bater” pode ser usado numa embaralhada de situações, é uma espécie de coringa do PT-BR.

O nosso coração bate, tem gente mais sofisticada que diz que ele pulsa e pros mais animadinhos e escalafobéticos ele repulsa na batida dos tambores e na animação do carnaval que se aproxima. O liquidificador, ao invés de misturar o suco, bate. Os carros não colidem, batem. O relógio bateu não sei quantas horas da madrugada. Fulano saiu daqui e foi bater lá em Guriri. É comum dizer que alguém bateu o recorde. Enfim, o verbo bater é usado até para a masturbação. Inclusive a mental, especialmente a minha, como nesse pequeno texto “batido” nas teclas do computador, talvez para clarear as ideias numa puta manhã de sol.

Inspirada por Rubem Braga... Homenagem pelo seu aniversário de 100 anos, no próximo dia 12 de janeiro. Coisa que, espero, também não seja uma ideia muito “batida”...

Vitória, 09 de janeiro de 2013.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

A MÚSICA É A MINHA PÁTRIA

Não basta ser bem intencionado: ser e tornar-se um pianista é um trabalho solitário, que deve ser trilhado sozinho. Só você mesmo poderá medir com sinceridade se tem talento e o quanto ficaria infeliz se não praticasse sua arte; (...) Muitas carreiras fracassam. A minha própria tem tido altos e baixos, então, se o destino não leva você para o palco, você pode fazer outras coisas – lecionar, por exemplo. (...) E a profissão não permite recuos. Na verdade, essa profissão precisa de todo bom professor e intérprete, porque as melhores cabeças foram para o mundo do dinheiro.  
João Carlos Martins

Desde que eu, Juca Magalhães, e a professora Alice Nascimento tivemos a ideia de criar um blog para divulgar as ações do projeto Canto na Escola, nunca tive ou, na verdade, não me reservei a oportunidade de falar sobre a experiência musical de meu próprio ponto de vista. Adotei no automático o papel de “blogueiro” com um indefectível cacoete de jornalista e me excluí no automático de emitir opiniões pessoais, com raras exceções, bem raras mesmo. Peço licença, portanto, aos nossos parceiros e colaboradores pra entabular uma conversa, assim, mais informal.

No trabalho do blog fiz entrevistas com a maioria dos professores do projeto, algumas destas nos proporcionaram retorno e visibilidade, convite para eventos e apresentações, possibilidade de novas parcerias, afinal, tudo dentro do objetivo maior de nossa empreitada cibernética. Nossos entrevistados se descobriram “quase famosos” ao verem divulgada sua história, outros sentiram aquele curioso estranhamento perante a vida, como quem sonha que está nu e longe de casa ou quando ouvimos nossa voz em uma gravação pela primeira vez. “Esse sou eu?”

Gosto muito de presenciar essa sensação, gosto mais ainda de conversar sobre ela. Muita gente pensa que sua vida é comum, trivial, eu ainda acho - e devagarzinho venho provando - que cada um tem uma vida muito singular e coisas bonitas pra contar para todos. No caso de nosso público alvo histórias de superação, de amor incondicional à música, essa arte tão admirada e presente na vida de todos e tão contrastantemente vista com preconceito quando levada a sério. Tudo isso repassamos em nossas entrevistas.

Pois ontem, ou anteontem, foi dia da música, mais ou menos exatamente (um oximoro para os leigos) quando o sol entra na casa de sagitário. Dia que é dedicado à Santa Cecília, uma mocinha de nome para mim adorável e que pouca gente fala ou sabe da história, comparado, por exemplo, com São Jorge da Capadócia. Santa Cecília é bairro aqui em Vitória e foi também nome de um cinema que ficava num prédio bonito e antigo ali na esquina do Parque Moscoso, local posteriormente mal afamado e dedicado à exibição de películas retratando casais de maneira não muito decente.  

A Santa mesmo, aquela que foi escolhida como a padroeira dos músicos, conta-se que quando estava morrendo, cantou a Deus. Segundo a Wikipédia “não se tem muitas informações sobre a sua vida. É provável que tenha sido martirizada entre 176 e 180, sob o império de Marco Aurélio.” O texto continua dizendo que Cecília era filha de um senador romano que a obrigou a casar com um rapaz chamado Valeriano. Cristã fervorosa – o que na época era proibido pelo império – a moça converteu o marido e, resumindo muito o drama, os dois foram condenados à morte e decapitados por se negarem a renegar a religião.

Ponto bastante interessante para fazermos um paralelo.

Como já dito, nas várias entrevistas que fiz com jovens músicos profissionais, todos relatam que os pais queriam que eles estudassem outra coisa. Monalisa Toledo os pais queriam estudando petroquímica, Eduardo Lucas trocou o direito pelo trompete e Elias Salvador deixou a mecânica para ser maestro de coros. Talvez seja pertinente então nos perguntar: quantos outros bons músicos não poderiam estar se dedicando à arte e “casaram obrigado” com uma profissão “normal” para satisfazer a família? E quantos outros, em casos mais extremos, não foram condenados a mortes simbólicas por não poderem exercer plenamente sua capacidade cultural?

A vida dos músicos envolve essas escolhas difíceis que, curiosamente, se harmonizam na tocante história de fidelidade da menina Cecília e o seu amor pela fé cristã. Amigos, ser músico não é um trabalho ou um emprego qualquer, é mesmo um sacerdócio. O fato de alguns posarem de astros e debutarem doidarássos para deleite da mídia em nada empalidece a seriedade dessa vocação. O dia em que se comemora a música é talvez o momento mais propício para refletirmos sobre a fidelidade e o amor. A música é uma pátria à qual temos grande honra em servir, não porque a escolhemos, mas porque por ela fomos escolhidos... Ou como diria Milton Nascimento:

Com a roupa encharcada e a alma repleta de chão
todo artista tem que ir a onde o povo está
Se for assim, assim será!
Cantando me disfarço e não me canso
de viver, nem de cantar


Imagem de Santa Cecília, óleo sobre tela, por Guido Reni em 1606

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

http://pt.wikipedia.org/wiki/Santa_Cec%C3%ADlia

DUBAL, David. Conversas com João Carlos Martins. São Paulo. Editora Green Forest do Brasil, 1999. 

Milton Nascimento, in "Nos Bailes da Vida".