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terça-feira, 18 de setembro de 2012

CULTURA E TERRITÓRIO CAPIXABAS: DIVERSIDADE, BELEZA e FUTURO

Faz tempo que não rola uma participação especial aqui na Letra Elektrônica e como nossa especialidade é descer o malho no capixabismo, vem aí um texto pregando exatamente o contrário que é só pra provar que nós somos que nem o Chacrinha: "viemos pra confundir..."

Aos que se assustam com perspectivas otimistas vai um conselho: não leiam este artigo.

É clássico definir-se cultura como “um conjunto que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os hábitos e aptidões adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade” (Edward B. Tylor).

O termo cultura pode abrigar uma infinidade de outras definições, pois este mesmo conjunto que o forma varia de acordo com a sociedade que o abriga, a qual sempre irá interpretá-lo à sua maneira.

Usando e abusando do termo, entretanto, podemos afirmar que nós, capixabas, abrigamos em nossa cultura o melhor retrato da diversidade do continente Brasil, e dela temos prova exatamente no viés da nossa identidade.

Nossa identidade cultural é tão complexa e multifacetada que pode ser confundida com "não identidade" por um desavisado. Não somos facilmente identificáveis, mas somos facilmente admiráveis, pois somos, ao mesmo tempo, botocudos, guaranis, africanos, portugueses, alemães e italianos, sírios e libaneses, só pra citar a parte maior do caldeirão que nos forma.

É nesse caldeirão, panela de barro, que produzimos qualidade de vida entre as melhores do continente e começamos a pisar no precioso e infinito território denominado futuro. Somos agora não só minério, celulose, café e navios: somos petróleo, somos software, design, tecnologia em meio ambiente, e nosso limite, repito, é o infinito.

Somos também mar e montanha, areia e pedra, quente e frio, norte e sul. Somos moqueca e polenta, peixe e paca, orquídea e beija-flor, altos e baixos Jucus e Guandus.

De Guarapari, o paraíso de praias radioativas que resiste heroicamente a décadas de maus tratos, até Pedra Azul, nosso monumento de granito que desabrocha hoje seu potencial turístico internacional, quem visita o Espírito Santo é invariavelmente tomado de surpresa e encanto.

Nós, hoteleiros capixabas, presenciamos dia após dia essa descoberta e deslumbramento, seja dos capixabas, com sua própria terra, seja dos visitantes brasileiros e de todo o mundo, com a terra bendita do Espírito Santo.


Do alto da Pedra Azul, agora candidata na UNESCO a Patrimônio Natural da Humanidade, até o Convento da Penha, futuro Patrimônio Cultural e Histórico do Planeta, fica fácil vislumbrar que o novo século nos trouxe o momento de colher os frutos das sementes plantadas por gerações de valorosos capixabas, que trabalharam e confiaram neste futuro que se faz presente.

Leonardo Tristão,
Diretor da Pousada Pedra Azul, Informático e capixaba fanático.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

E PENSAR QUE PARA CÁ VIERAM OS DEGRADADOS...


Amigos e amigas, como diriam os políticos mais desavisados, A Letra Elektrônica anda muito ocupada participando secretamente de passeatas pela cidade e quer com isso justificar a sua recente ausência internáutica. Segundo apuramos até o momento, o corpo a corpo com a PM não está sendo fácil, várias adolescentes de caras pintadas e excitada de indignação dizem em tom de revolta que "se um tiro de bala de borracha pegar no olho cega" e, apesar da miopia, preferimos continuar com os dois.

Enquanto isso, estão querendo mudar o nome de Fundão para "Fundão do Poço", numa alusão à Fundão dos Índios da qual falaremos a seguir. A população fez festa e aplaudiu quando foram presos seus representantes públicos e A Letra Elektrônica paga inteira para andar de ônibus. O prefeito de Fundão deu entrevista hoje cedo, logo depois seria afastado, o que, pelo jeitão cabrunco, deve ter-lhe sido um verdadeiro alívio. Negou tudo, mesmo afirmando não saber de nada. Nunca vi um senhorzinho tão apático e inoperante em face de uma situação tão periclitante. Se bobear eu vou pra lá...

Quero compartilhar um texto enviado por meu querido primo Felipe e escrito pelo amigo Marcus Machado que há tempo não vejo. Marquinhos tem uma onda parecida com a nossa de dar uma futucada no passado e invocar memórias de tempos em que as coisas pareciam mais bacanas. Nem sei, aliás, tenho dúvidas. Ganhei de Reinaldo Santos Neves o livro de Basílio Carvalho Daemon sobre a província do Espírito Santo.

Senhores (e senhoras) vocês sabiam que em 1810, os índios mataram a flechadas o comandante de uma força de milicianos nas cercanias de Vitória e no ano seguinte descobriram que muitas pessoas empregadas na Junta da Real Fazenda desfalcavam os cofres públicos? Por essas e por outras podemos ver o quanto avançamos de lá para cá... Segue o texto:

Fundão dos índios
Por Antonio Marcus Machado

02/06/2011 A Gazeta

Houve um tempo, no Espirito Santo, em que uma jornalista marcou sua época pela forma como escrevia e comentava o cotidiano capixaba. Polêmica, ela tingia com tons fortes a fotografia urbana, o cenário em que se inseriam os novos ricos e a dinâmica social movida pelos bailes esvoaçantes da cidade.

    Pertenceu a uma era em que as mulheres ainda não tinham a personalidade empreendedora de hoje, e de modo geral era possível dizer que muitas realmente eram madames, boas esposas, filhas comportadas aguardando o baile de debutante e as mais requintadas, boas para casar.

    Vitória, a capital, tinha no Teatro Carlos Gomes o som dos Mamíferos, no Mar e Terra as ironias de Carmélia e no Britz Bar a vida libertária da ilha. Os velhos canhões do Saldanha na verdade protegiam os namorados e frequentadores da boate Buteko. A vida corria assim. Os jornais locais eram de vanguarda. Bons jornalistas esquivavam-se dos golpes contundentes da ditadura e a Universidade Federal caminhava sem lenço e sem documento.

    O centro da cidade abrigava seus trabalhadores com a mesma paixão que acalentava os boêmios, aspirantes a intelectuais, teatrólogos e cineastas potenciais. Esse era o palco em que Maria Nilce personificava sua coluna jornalística. Tinha uma grafia felina e provocante, muitas vezes. Creio que não tinha por preocupação agradar a todos. Nem a poucos.

    Seu compromisso era com a sua percepção da realidade e das pessoas. Marcou época. Seja pela sua peculiar beleza, pela maneira ousada como se vestia e se portava ou pela expectativa matinal que os leitores carregavam até lerem seu texto, sempre imprevisível. Cultivou afetos e desafetos. Plantou sementes que lhe trouxeram tanto o bem quanto o mal. Como aquele definitivo, que lhe tirou covardemente a vida. A Vitória da Rua sete, do Miramar, do Praia tênis e do Álvares, do Caldo Lira, do Cine São Luís, do Jairo Maia e Golias, não mais a leria.

    A leitura de jornais antigos permite perceber que ela tinha muito orgulho de onde nascera. Pode ser até uma percepção equivocada minha, mas vi alguns textos em que isso era cristalino como água de fonte límpida. Dizia com orgulho que nascera em Fundão. Fundão dos índios, acrescentava.

    Não era comum àquela época pessoas emergentes valorizarem sua origem interiorana. Talvez fosse assim que ela gostava de provocar a elite emergente, as socialites de então. Mas o que é possível afirmar é que ela tinha muito orgulho de sua cidade natal. E tinha razão para isso.

    Aquele município tem uma significativa história na formação da vida capixaba. O trem, ao chegar, passava solenemente pela alegria de seus moradores, trazendo e levando seus sonhos e esperanças. A estrada de ferro Vitória-Minas cortava uma cidade que já recebeu duas visitas importantes: o imperador Pedro II e o presidente Dutra.

    Considerando todo o amor de Maria Nilce pelo seu município, certamente, se fosse viva ainda, hoje ela usaria seus tons mais contundentes para registrar sua indignação pelos indícios de corrupção e de formação de quadrilha. A expectativa dela certamente seria, caso os indiciados sejam julgados culpados, que seus crimes não fiquem impunes, como o dela parece que ficou.

    Antonio Marcus Machado é economista e professor universitário

terça-feira, 30 de novembro de 2010

VOCÊ JÁ TEM O SEU NOVO CÓDIGO GEOMÉTRICO DE LUZ?


A Letra Elektrônica tem dois anos e meio no ar, aqui já se escreveu sobre muita coisa, mas principalmente cotidiano e cultura, sempre com um viés crítico e humorístico. Curiosamente nunca havia abordado assuntos espirituais e afins. Não costumo criticar religião, porque não me sinto competente para dizer o que, ou qual, seria o melhor para cada um. Fiquei surpreso com a receptividade que recebeu o convite a uma palestra sobre o Livro de Mirdad do libanês Mikhail Naymi, vejo surgir o interesse espiritual de lugares inesperados e de pessoas em busca de um caminho.

Toda vez que leio os clássicos esotéricos ou converso com pessoas experientes na chamada “senda Espiritual” escuto verdades e máximas que não são tão fáceis assim de se colocar em prática. Comparo as sutilezas do auto-conhecimento com as aulas de piano, a busca do toque é cheia de detalhes e percalços: forte, meio-forte, piano, pianíssimo! Toca com o braço, solte o braço, use o pulso, use o peso do corpo inteiro! Meu professor Josué Louzada - que Deus o tenha - repetia sempre as mesmas coisas e eu respondia respondão: “Eu já sei”. E ele, sorridente dizia: “Então por que não faz?”

Acontece o mesmo com o caminho espiritual, a certa altura descobrimos que já sabemos o que temos que saber, só não sabemos como o fazer. Já lemos mais de cem livros, reviramos sebos e livrarias atrás de raridades, obras em inglês, espanhol, sabemos tudo, já lemos e ouvimos de tudo e esse tudo é quase sempre a mesma coisa, mas essa coisa nos escapa como um quadro na parede de um museu: ele está ali pendurado, você já o viu trocentas vezes: e daí?

Outro dia, meio por acaso, esbarrei numa reportagem da Revista Trip sobre o guru Brasileiro, Sri Prem Baba. Seu Ashram, ou retiro espiritual, fica perto de Atibaia em São Paulo, até coloquei o link do seu site aqui nos favoritos da Lektra. Curioso, fui assistir uma de suas palestras - ou Satsang – gravada em vídeo. Foi a mesma velha sensação: estava lá aquele senhor barbudo e sorridente falando intimamente daquelas coisas que tanto já conheço muito bem de vista. Parece que estão dormindo com minha amada antes dela me conhecer, me senti um maior abandonado (saravá Cazuza).

Mas o que me chamou a atenção na entrevista da Trip - feita por Arthur Veríssimo -  foi o diálogo que segue:

O planeta está passando por uma grande transformação, parece que está à deriva. Vemos as mudanças climáticas, o aquecimento global, terremotos, vulcões em erupção. Onde iremos parar?

É uma boa pergunta. De fato, esta é a maior mudança da história deste planeta. Sinto que aqueles que estão sintonizados, podendo receber os novos códigos geométricos de luz que estão sendo instalados, vão ficar muito bem. Mas muitos vão ter que se mudar, vão ter que mudar de planeta.

Desencarnar?

Sim.

Temos que preparar o nosso coração pra essa grande mudança?

O que podemos fazer é aprender a lidar com as consequências da mudança. Mas, mudar mesmo, não dá mais tempo.

...

Sentiram o drama, né? Quem aí souber aonde adquirir esses “novos códigos geométricos de luz” pra instalar me mande um email. Pensando bem, do jeito que Vitória é, a Kalyuga – era da destruição – vai detonar tudo por aqui e esses códigos a gente não vai achar nem em camelô pra vender...

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Em Terra de Cego Quem Tem Olho é o Forévis.


Comentário ao texto anterior, sobre pessoas que - no caso - olham para o próprio rabo:

"Também tem gente que adora ver o rabo dos outros, Juca!
Dá uma olhada nisso!



É mole?!"

Contribuição de meu cunhado Léo Batalha - o importante é ganhar a guerra - provando que "só no forévis" pode-se realmente desvendar os segredos e os detalhes tão pequenos do corpo humano...

Como diria o Zé Simão, meu amigo Batalha: é mole mas sobe! Aliás, dependendo do problema da pessoa a ser - digamos assim: consultada - a coisa pode se tornar assaz problemática. Máscaras de gás exclusive (sic)!

Aqui no Brasil isso ia ser uma festa não é não? Imagine você - que não é um cara descolado e antenado como o Chapolim Colorado - ou mesmo eu - que não sou mão boba nem nada - se não ia montar logo uma tenda de consultas gratuitas ali na Praia da Bacutia. Eita diabo!

Post scriptum: esse é o tipo de profissão em que "malandro que é malandro" escolhe a clientela a dedo... Ou, como diria Bolão, "Há bares que vêm pra bem".

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

VOX POPULI VOX MERDEM


Texto é bom quando cria polêmica não é não? Imagina fazer um texto insosso, limpinho, com o qual ninguém vai se indignar ou, pelo menos, ser sacudido da cadeira. Recebo tantas coisas escritas assim, certinhas, prontas para serem publicadas em alguma dessas colunas de leitor dos jornais locais. Não acho perda de tempo de quem o faz, nem de quem o lê. Só acho que o esforço poderia ser melhor aproveitado, parece que o capixaba não gosta, ou tem medo de rir de si mesmo, dessas babaquices que todo povo tem, e acho que enquanto não começarmos a o fazer não vamos evoluir enquanto cultura e sociedade. Vou nos dar um exemplo:


Nas minhas andanças por São Paulo agora nos feriados de fim de ano, rodei os sebos de praxe e voltei com mais de quatzentos (sic) livros na bagagem. Falando nisso o avião pegou muita turbulência na volta, nos jogou e sacolejou a ponto de lembrar uma montanha russa. As senhoras começaram a gritar e os homens a rir. Conhece aquela musiquinha? A festa da Dona Aurora começa a zero hora/ piroca dentro piroca fora/ os velhos jogam baralho as velhas chupam o tapete. Enfim, nem sei porque fui lembrar disso. Quando o bicho finalmente pousou em nosso mal afamado aeroporto as pessoas aplaudiram... Foi patético.


Dentre a caralhada de livros que comprei teve um que li ainda lá em Sampa mesmo, o título é “Suíte Gargalhadas – Contos e histórias engraçadas sobre música e músicos”. Obra nada séria, aliás, escrita pelo também músico Henrique Cazes.


Lembrei desse livro porque a Carlinha deixou um post meio que defendendo o “Rei” Roberto Carlos, lembrou o perigo dessa onda de impor vontades musicais em detrimento do gosto da maioria, sapecou até a seguinte frase: “Muitos totalitarismos sociais são reflexos de totalitarismos privados.” Na hora eu lembrei duma história que li no livro que falei acima e aqui a reproduzo:


MÚSICOS POLITIZADOS


Radamés Gnattali foi um ativo simpatizante do Partido Comunista Brasileiro. Nos períodos em que o partidos esteve na clandestinidade, chegou a oferecer sua casa para a realização de reuniões do comitê central. Mesmo tendo sido amigo de Prestes até o final, Radamés tinha uma queixa dos comunistas. Lá pelo oitavo chope ele lembrava:


- Toda vez que eu queria ajudar, eles diziam: “Radamés, faz tua música e deixa que nós fazemos a revolução.” Eu fiz um monte de música e os caras não fizeram droga nenhuma.


Outro músico politizado era o cantor e compositor Tayguara. No início dos anos 1980, quando vivia o auge do seu esquerdismo, só queria gravar compactos pois, estes sendo mais baratos, fariam com que a música chegasse até o povo. E foi para um compacto, na (gravadora) Continental, que Tayguara requisitou arranjos de Radamés.

O maestro caprichou e, quando as cordas acabaram de gravar, o resultado foi de fato impressionante. Tayguara estava tão feliz ao ouvir a música Sol de Tanganica, que não se conteve:


- Radamés, esse arranjo é uma vitória do povo brasileiro! Rada olhou pra ele por cima dos óculos e retificou:


- Esse arranjo é meu! O povo não entende merda nenhuma de música.


Então meninos e meninas: tenho que concordar com o maestro Radamés, por sinal um grande músico de nossa terra brasilis hoje relegado a um mais do que injusto esquecimento. Se deixar o povo arbitrar o que a gente vai ouvir, fudeu! Por outro lado, eu também concordo com vocês, digo com a Carlinha, em parte e quero até desejar uma vida longa ao “Rei RC”, afinal, se esse cara morre ninguém ia agüentar a encheção de saco né honey! Perahê que eu vou ali ouvir Amada Amante cantada em espanhol. Bejas!


segunda-feira, 2 de novembro de 2009

CORRESPONDÊNCIA ELEKTRÔNICA ZIG-ZAG


Estava procurando umas coisas aqui em casa e me deparei com um texto que fiz em 2003 para a jornalista Veruska Seibel - que na época assinava a coluna Zig-zag – puto da vida que fiquei com uma foto que ela tinha publicado afirmando que homem ligava pra moda, porque a sunga tradicional havia desaparecido nos últimos verões. Resolvi contar pra ela a historinha bacana que segue:


SERÁ A MODA UMA FORMA DE DITADURA?


Não foi com muita alegria que eu e meus colegas da época (a maioria tirados a surfistas) saudamos a chegada da sunga em nossas praias, falo - por quê qui-lo - das sungas anos oitenta e não daquelas geringonças de super-homem que usavam as pessoas mais velhas. Nosso descontentamento vinha - como acontece com adolescentes - carregado de preconceito, porque no início daquela década o Fernando Gabeira apareceu com a famigerada tanguinha considerada trés indecente e, guri, você sabe como é: cheio de paranóia, quer chamar atenção só que sem pagar mico. A maioria da galera compartilhava a opinião de que sunga era coisa de gay e ponto final, o mais indicado para a categoria era o então chamado “calção de surf”.


Foi só pro final dos anos oitenta que acabei aderindo à sunga, por sinal, graças a uma sacação meio sexual que tive. Estava em plena onda de saltar de para-quedas e naquele outono fazia um calor dos diabos. Em dias assim, a piscina do aeroclube da Barra do Jucu virava o “point” onde a galera se reunia. Nos dias de saltos e atividades da equipe rolava também muito churrasco e cerveja, dependendo do estado do motorista era bem mais perigoso voltar dirigindo pra casa (a terceira ponte ainda não havia sido inaugurada) do que efetivamente se jogar de cabeça de um teco-teco em movimento.


Em um desses dias carcomidos pelo tempo, enquanto rolava a maior atividade na piscina do aeroclube, eu estava de fora porque não tinha lembrado de levar o meu calção. Os amigos insistiam pra que eu participasse da bagunça de qualquer jeito.


- Pega um calção ahê emprestado com alguém! - Procurei, mas ninguém tinha. Até que um dos colegas, que estava com a perna engessada, falou:

- Cara, eu sempre trago minha sunga pra dar um mergulho, mas com a perna desse jeito não vai dar mesmo... Se você quiser usar...

- É muito pequena? – Perguntei desconfiado.

- Que nada... - Não pintou outra alternativa, fui no banheiro e vesti a sunga que acabou servindo; porém fiquei que nem menino arteiro depois de aprontar: todo escabreado. Fui chegando junto da galera me sentindo “à vontade” como se estivesse peladão de tudo. Sentei na borda da piscina, perto de uma garota que estava tomando sol estendida em uma canga. Fiquei batendo os pés na água até que falei.

- Cara, tô morrendo de vergonha com essa sunga. – Sem nem mudar a posição da cabeça ela falou.

- Eu achei que você ficou um gato. - Não bastasse o elogio disparado à queima roupa, percebi na fala dela uma onda sexy que nunca tinha me passado pela cabeça de mulher ter, ainda mais pra cima de mim e que reparar e desejar o corpo das pessoas não era bem uma exclusividade da homarada. Obviamente, daí pra frente adotei oficialmente a sunga como “roupa de praia”.


Deixando essas memórias bizarras de lado, vamos dar um salto até o momento em que pintou o tal do sungão.


Quando chegou dezembro de 2002, eu não agüentava mais a encheção de saco de minha mulher contra a minha velha e valente sunginha. Seus argumentos entravam por um ouvido e saíam pelo outro sem a mínima cerimônia. Só resolvi tomar uma atitude mesmo quando outras pessoas começaram a perguntar se aquela sunga não era a mesma de outros anos, etc... Eu, que nunca reparo neste tipo de coisa, achava muito ingênuo que ninguém reparava também. Como estava errado, dei a mão à palmatória e, por mais que a missão não me agradasse, fui às compras em busca de uma substituta à altura da minha velha sunguinha.


Procurando evitar a muvuca do Shopping Vitória, ainda mais em tempos desesperados e aflitos de final de ano, rodei o Centro da Praia, onde, aliás, tinha adquirido a tal da sunga. Fui, inclusive, na mesma loja e o que encontrei? Um tal de Sungão. Uma enorme e colorida coleção de sungas largas e esquisitas que estavam sendo lançadas com estardalhaço. Tomado pelo pânico falei pra vendedora.


- Não tem mais aquelas sungas normais? - Ela pareceu surpresa com minha pergunta, e com um certo ar professoral de indiferença respondeu:

- Não moço. A moda agora é este tipo de sunga. – Atordoado ainda respondi, que nem uma criança em frente a um prato de buchada.

- Mas eu não gosto desses sungão. – Desdenhosamente a moça me lançou uma maldição.

- É moço, você vai ter dificuldades neste verão.


Daí pra frente rodei mais umas dez lojas (boutiques?) atrás de uma sunga pelo menos semelhante à que eu estava acostumado a usar e nada. Só encontrava o diabo do sungão e explicações idem: - Agora a moda é essa. - Fiquei puto. Então é assim? Lançam uma nova moda e o resto que se dane? Aquilo era extremamente grave, quase a volta da ditadura. Já pensou se, por exemplo, aquela moda de homem usar saia tivesse pegado e, de repente, ninguém mais conseguisse comprar calças? O pior era a expressão incrédula estampada na face dos jovens vendedores das lojas que visitei, como se eles não conseguissem me classificar como incrivelmente antiquado, ou simplesmente gay. Não sabiam se o que eu queria era a tanguinha do Gabeira, ou o calção do super-homem. E eu não queria nenhuma das duas coisas.


Finalmente cansei. Já tinha rodado a rua Aleixo Neto toda e não estava mais com saco de procurar nada, estava resolvido a mandar todo mundo cuidar da vida e continuar usando minha boa e velha sunguinha. Foi só com muita insistência de minha mulher (que resolvera fiscalizar a minha “via crucis”) que entrei na última loja, já desenganado, pra fazer a derradeira tentativa. E não é que lá achei uma sunga que me atendeu? Não era tão legal como a outra, mas dava pro gasto. Acho que comprei aquela só pra acabar com o sofrimento, fui vencido pelo cansaço, o que é uma merda para um consumidor nada consumista.


Portanto e mais um pouco, cara jornalista, não se apresse tanto a alardear a volúpia do macho com relação à moda, porque, na verdade, quase todos os que conheço acham comprar roupa um saco! Deveria era se denunciar essa ditadura infeliz, que nos obriga a vestir o que dá na cabeça dos outros como se isso fosse uma coisa muito natural. Espero não ter tomado seu tempo tanto assim (se é que você leu até aqui este textículo), desculpe o desabafo. Quem sabe não nos vemos algum dia destes em Manguinhos? Mas, seguramente, sem sungão!


No dia 24 de fevereiro ela me respondeu com a mensagem acima agradecendo o email, disse que tinha morrido de rir com o texto e que meu comentário ia virar uma nota de resposta... Que eu saiba isso nunca aconteceu. Então para sanar essa injustiça publico aqui na Lektra para deleite de vocês que estão entediados em casa com tanta chuva nesse feriadão desinfeliz.


Beijo do coiso!


terça-feira, 20 de outubro de 2009

VOVÓ VOLÚPIA VOLTA A ATACAR!


Nos gloriosos e misteriosos anos oitenta apareceu em Vitória a figura da Vovó Volúpia, uma coluna sobre cultura pop, talvez a primeira daqui a ser publicada em um jornal de circulação diária. A autora era Fernanda Magalhães, que – como sugere o nome de seu espaço - exibia um estilo todo próprio e bem humorado para veicular suas notícias, a Vovó Volúpia era uma delícia. Com a morte trágica de nossa mãe - o Magalhães vem de nossa ligação cartorial - a escritora não só abandonou as letras, mas também a fortificada ilhota dos irmãos “roça de milho” e foi apaulistanizar a vida. Ganhei eu um posto de observação avançado dentro da maior megalópole cultural latina, porém a nação botocuda saiu perdendo e ainda faz de conta que não sente a sua falta.


Fico besta com o descaso que tratamos nossos potenciais escritores e poetas, a grande maioria aqui hoje dá a notícia, mas não filosofa os fatos, fosse assim teria necessariamente que criticar o Status Quo – não confunda com a banda britânica de hard rock anos 60 – e comprar uma briga contra gente poderosa que não aceita, e muito menos, perdoa críticas. Uma aluna me contou, por exemplo, do falecimento do poeta Miguel Marvilla, agora no último dia 10 de outubro... Não me lembro de ter visto nada na imprensa local – falo especialmente da Internet, porque não leio mais os jornais de papel – lembro do livro “Os Mortos Estão No Living” que Miguel publicou em 1988 com sucesso – hoje em sua terceira edição - e que foi adotado nos vestibulares em 2007 e 2009. Em seu blog que tem o mesmo nome de seu livro mais famoso, o autor se apresenta assim:


“Poeta usado, safra 1959, ainda em razoável estado de conservação. Proprietário de quase nada, a não ser uma penca de cedês, devedês e livros, todos lidos, vistos, ouvidos, não necessariamente nessa ordem, e de uma alma ampla e arejada, com vista apenas para coisas boas. Mestre em História Antiga pela Ufes, por puro prazer. Autor de um bocado de livros de poesia: “Dédalo”, “Sonetos da despaixão”, “Tanto amar”, “Lição de labirinto”, por exemplo. Não se culpe por não conhecê-los: foram publicados quando vc ainda era criança — se bem que Shakespeare foi publicado bem antes e vc conhece... “Os mortos estão no living”, é meu único, até agora, livro de contos e foi adotado pela Ufes para os vestibulares de 2007-2009, razão por que estamos aqui, você e eu. Em 2007, publiquei “O Império Romano e o Reino dos Céus” — a criação da imagem sagrada do imperador em “De laudibus Constantini”, de Eusébio de Cesaréia (século IV d.C.), em que discuto a formação da “basileia” em termos cristãos (parece grego? É grego — o inglês do século IV). Para 2008, “Beleléu e adjacências” (romance), "Estranhos companheiros" (poesia) e “Zoo-ilógico”, poesia para crianças (inclusive as que já cresceram).”


Recomendo conhecer o blog deste nosso poeta, antes que nos esqueçamos de sua presença, ora, se tantas vezes esquecemos de nós mesmos! http://mortosnoliving.blogspot.com/


Mas voltando a falar da Vovó Volúpia quero compartilhar com vocês uma historinha lisboeta que ela me mandou, estudiosa e admiradora que é das prosopopéias do colonizador lusitano, esse ser paracoisado que nos antecedeu e que até hoje nos permeia... Boa leitura. Volta Vovó Volúpia! Cria um blog pra você!


Gentemmm,


Acontece cada história em Portugal! O relato da reportagem tá meio confuso, mas a história toda é inacreditável! Mário Gomes, coitado, fez escola. Beijos! (aqui a Vovó faz referência a um fato escabroso dos anos oitenta quando o ator deu entrada em um pronto-socorro do Rio com uma cenoura entalada... Bem, lá onde vocês estão aí pensando com suas mentes poluídas. Conta a lenda que o incidente teria se originado na vingança de um marido traído que contratou uns capangas para colocar o cara nessa situação, a intenção era humilhar publicamente seu desafeto e deu certo pra chuchu, ou melhor, pra cenoura).

"

Covilhã: Pastor sodomizado por patrões relata 48 horas de sofrimento


“Abusaram de mim porque sabia demais”


"Nunca assediei a patroa. Fui despedido e eles abusaram de mim porque sabia demais sobre ela." É desta forma que Luís Pereira, o pastor de 56 anos sodomizado com uma cenoura pelos patrões, começa o relato das piores 48 horas da sua vida. Nu e ensanguentado, dormiu em palheiros e, sem se aperceber, fez quase 100 quilómetros a pé.


'Fui despedido pela Olga a 12 de Maio, terça-feira. Na quinta-feira o Tó [patrão] ligou-me a pedir para regressar. No sábado apanhei o comboio de Lisboa e, pelas 19h00, estava em Castelo Branco, onde o Tó me esperava. Como era noite, nem me apercebi que não estávamos a ir para Rebelhos [Sabugal]. A dada altura parou para urinar. Quando voltou abriu a porta do meu lado e deu-me dois socos', recorda o pastor. 'Atirou--me para o chão e sentou-se em cima de mim a bater-me. Depois gritou ‘Olga, traz as cordas e a mordaça.' Foi nesta altura que a patroa saiu da parte de trás da carrinha.


Atado e amordaçado, Luís Pereira conta que viu a sua roupa ser 'cortada à navalhada' e só pensou 'na Nossa Senhora de Fátima' quando ouviu o patrão a dizer para a mulher: 'Olga, traz a cenoura.'


Quase inconsciente, foi abandonado na serra, a cinco quilómetros da aldeia mais próxima, Foz do Cobrão. 'Andei até lá e bati às portas a pedir ajuda, mas ninguém me abriu. Acabei por encontrar um palheiro e estendi-me lá, mas não dormi com medo. Só de manhã é que um casal de agricultores se dispôs a ajudar-me com roupa e comida. Só não tinham como me levar a Castelo Branco. Por isso, fui a pé.' Caminhou pelo IC2 até chegar, 'quase noite', à cidade.


'Fui à PSP e disseram que o caso seria da GNR. Andei até ao posto e o praça disse que nada podia fazer por estar sozinho. Fui até Rebelhos, único sítio onde conhecia alguém. Grande parte fiz a pé e dormi outra vez num palheiro, tive a sorte de apanhar duas boleias.'


Chegou à terra onde trabalhara quatro anos pelas 20h30 de segunda-feira e foi ajudado pelos donos de um café, 'por acaso são familiares do Tó e da Olga. Aí, comi e dormi. Deram-me uns sapatos, que os outros já não serviam.' No dia seguinte, 19 de Maio, voltou a casa, no Seixal. Um juiz soltou o casal, detido na última semana pela PJ.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

CORRESPONDÊNCIA POÉTICA E INTERAKTIVA


Juca, tenho andado tão acostumado com "o estado de coisas" que nem me dei conta de que ainda é possível interagir. Fiquei meio pê mesmo quando li, porque afinal você extrapolou né?! Então lá vão as minhas humildes considerações:


VOCÊ NÃO PODE ESQUECER O PAPEL SOCIAL QUE DESEMPENHA!!!!!!!!!!!! NÃO PODE ESCREVER TUDO QUE DÁ NA TELHA NÃÃÃÕOO!!!!!!!!!!!!!!! SEU AMIGO ALTER EGO É UM BÊBADO INCONSEQÜENTE AO VOLANTE!!!!!!!!!!!!! OLHA O SINAL DE TRÂNSITO!!!!!!!!!!!!!! CUIDAAAAAADO!!!!!!!!!! K-BLAM!!!!! CRASH!!! BUM!!!! PÔU!!!! BLÊI!!!! TÓIM!!! TUM!!!! KRAK!!!! FÚ-FLASSSSSS......


Alex Pandini

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Ô Pandini, não é “alter ego” não (do latim: outro eu), você conhece o cara e esse cara não é “um amigo íntimo, no qual se pode confiar tanto quanto em si mesmo” (Dicionário Aurélio). Mas também não conto quem é, segredo de profissão, tá ligado? Tenho que preservas as minhas fontes... Uauhuhauha. Afinal ele pediu né? Mas tô achando interessante o rebuliço que a coisa deu. Me manda um poema seu preu publicar. Tô dando aula na UFES e sem tempo pra escrever.


Um abração.

Juca Magalhães

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Ok! Lá vai!


"Quando fechou os olhos buscando, encontrou apenas uma grande nuvem, longas paragens de solidão, fugidias percepções de ter perdido algo importante; uma rosa no deserto esmagada dançou pura e cálida em sua frente bailando exuberante feito dedos ao piano. Uma rosa ou um nome de mulher, um esquecimento... nuvens de poeira grossa trazendo de volta seu antigo sempre. Quando fechou os olhos buscando, quis ver as coisas como Deus, quis absolver o juízo dos versos comidos pelos hirtos de fome; quis morrer, quis ser o vento e soprar para longe. Quando fechou os olhos no escuro túnel dentro dele, viu a vida brincar violências num canto de estrada finito. Quis ser o Supremo Grande Vivo, acolher a humanidade num gesto divino e altivo. Mas, humano, voltou pro seu canto; semimorto, e redivivo."


Alex Pandini:


Nasceu no município de Colatina, no Estado do Espírito Santo, filho de humildes descendentes de italianos. Foi com muita dificuldade que se formou em jornalismo na Universidade Federal do Espírito Santo - UFES. Fez "bicos" em rádio, jornal, revista, teatro, música, publicidade, até que em 1995, tornou-se repórter de TV, área em que atua até hoje.


Fonte: Site Poetas Capixabas. Que “esqueceu” de dar destaque à gloriosa passagem de nosso Pandini pela banda Lordose pra Leão em sua melhor fase nos áureos anos noventa. Esqueceu de dizer também que ele é um dos nossos maiores poetas em todos os tempos, vide a qualidade do texto acima...