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domingo, 21 de outubro de 2012

CRÔNICA DE DOMINGO: MARCELO RAUTA, UM TALENTO EM ASCENSÃO NA MÚSICA CLÁSSICA



“Trajetória de um músico que se destaca no cenário nacional provoca uma reflexão: quantos compositores e artistas extraordinários se perdem devido à falta de oportunidades?”

Texto publicado ontem (20 de outubro de 2012) no caderno Pensar de A Gazeta.

Por Juca Magalhães

No Rio de Janeiro existe uma Associação de Violões criada para promover o ensino do instrumento mais popular do país com projetos sociais, um programa na Radio MEC (Violões em Foco), saraus e que realiza anualmente desde 2003 uma seleção de “novos talentos” destacando um compositor brasileiro e oferecendo premiações em dinheiro aos três primeiros colocados. Nesta edição de 2012, cuja (cuja?) abertura aconteceu no último dia 20 de outubro, o homenageado é o capixaba Marcelo Rauta.

Graduado e mestre em composição pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, premiado em concursos e autor de obras para várias formações da dita “música clássica”. No final de 2011, Marcelo Rauta lançou o disco Rerigtiba, uma amostra de suas peças, sobretudo, para violão. Teve, também nesse ano, o seu Salmo 100 incluído na turnê internacional do coral Canarinhos de Petrópolis que postou no Youtube um belo registro em vídeo apresentando a música de Rauta numa catedral em Bonn.

COMPOSITOR NO INTERIOR

Talvez mais incrível que o prolífero talento desse jovem capixaba ainda desconhecido de seus conterrâneos seja a história de sua vida. Longe de ser educado em um rico ambiente cultural que se imagina forjar os grandes compositores de música de concerto, o menino nasceu em Guarapari (05/03/1981) e logo foi morar na zona rural da cidade vizinha, Anchieta. Um município que em 2010 (segundo o site da Prefeitura) tinha pouco mais de vinte e três mil habitantes.

Após terminar a quarta série primária veio uma mudança importante, para prosseguir nos estudos o menino passou a morar com a mãe na sede do município. Marcelo tinha então em torno de dez anos. Um dia brincando na casa do colega Paulo Henrique Cunha Gonçalves viu lá um instrumento que despertou sua curiosidade...

- O que é isso?
– É um teclado... Serve para fazer música.
- Música? E o que é música?
- Ué, você nunca viu o Caçulinha tocando no Domingão do Faustão?

Criado na fazenda Dois Irmãos, sem energia elétrica muito menos televisão, Marcelo não conhecia nada daquilo. Seu amigo ligou o instrumento e tocou um trecho da nona sinfonia de Beethoven. Desnecessário dizer que o menino ficou maravilhado com a novidade e propôs um escambo: “eu te ensino matemática e você me ensina a mexer nesse negócio”. O engraçado é que o compositor confessa hoje não saber mais nada de matemática e o amigo trabalha como contador.

Logo Marcelo intercalava parte do dia na escola, corria em casa para almoçar e todo o resto do tempo ficava mexendo no teclado. A mãe de seu amiguinho era estudante do instrumento um pouco mais experiente e também compartilhou de boa vontade o que já havia aprendido, mas em pouco mais de um semestre a avidez musical do menino esgotou as possibilidades da escolinha improvisada. Naquele momento o destino se intrometeu na história, como nos conta o próprio compositor:

“Eis que surge em Anchieta um projeto que a prefeitura estava implantando. ‘Música para a comunidade’. Aí, foi daqui de Vitória a professora Ângela de Souza Cruz, minha primeira professora de piano. Ela viu que eu tinha talento, começou a me dar aulas e me preparou, inclusive, para a prova da Fames que na época era ainda chamada Escola de Música. Foi onde eu estudei o terceiro básico e dali já pulei para o curso superior.”

MÚSICA, NEM PENSAR!

É preciso explicar que, a princípio, o interesse incomum de Marcelo pela música foi ignorado por seus familiares: não incentivaram, não investiram, mas tampouco proibiram. Só na hora de escolher um curso superior é que todo mundo resolveu opinar. Uns diziam que devia estudar medicina, outros achavam direito melhor: mas música? Nem pensar! Música era coisa de vagabundo, ia acabar desempregado e morrer de fome. O pior é que nem se pode acusar seus parentes de ignorância, o preconceito com o “mundo das artes” persiste em todas as camadas sociais.

Junto com o estudo de música Marcelo começou a compor música de concerto, era como se uma coisa estivesse diretamente ligada à outra, o que geralmente não é tão simples. Mesmo sem noção das regras básicas de composição (forma, harmonia, contraponto, orquestração etc) o jovem criava partituras e as submetia à opinião de músicos mais experientes como os maestros Helder Trefzger e Leonardo Davi que reconheceram seu talento e o aconselharam a estudar no Rio de Janeiro, porque no Espírito Santo ainda não havia curso superior de composição (Só neste ano de 2012 a UFES deu início ao bacharelado na área).

Como imaginar aquele rapaz tímido que mal conhecia Vitória se mudando para o Rio de Janeiro? Para começar havia a dificuldade financeira - na primeira vez que tentou estudar na Fames, foi preciso abandonar o curso após três meses por não poder pagar as passagens – depois havia um concorrido vestibular para entrar na UFRJ. A princípio Marcelo fez o esperado, concluiu o “segundo grau” e resignadamente começou a cursar ciências contábeis em Guarapari. Três períodos depois não aguentava mais. Resolveu arriscar o futuro no Rio, cidade que até então nem conhecia, e foi aprovado em segundo lugar no curso de composição dando início aos estudos em 2003.

Para poder se virar na “Cidade Maravilhosa” o jovem compositor fez entrevista com a assistente social da Universidade e conseguiu provar ser merecedor da chamada “bolsa auxílio” no valor de apenas trezentos reais para custear todas as suas despesas: aluguel, alimentação, tudo. Sua família ficou chocada do rapaz se aventurar numa cidade tão perigosa onde não conhecia ninguém. Marcelo conta que também ficou com medo, mas logo se acostumou. Achou o carioca receptivo, os professores notaram seu talento e lhe deram atenção, no segundo ano conseguiu outra bolsa, a coisa foi melhorando e entre o curso de graduação e o mestrado passaram sete anos.

UMA INEVITÁVEL REFLEXÃO


A partir de certo momento de sua vida acadêmica o capixaba começou a colecionar premiações importantes, como consta no site da Academia Brasileira de Música: “Venceu o ‘Concurso Nacional de Composição para Orquestra de Câmara – Prêmio Sesiminas de Cultura’. Premiado no ‘Concurso Quintanares de Quintana’ em comemoração aos 100 anos de nascimento do poeta Mário Quintana, com sua obra para soprano e piano Ah! Os Relógios – obra lançada em livro e CD pela UFRJ. Venceu o ‘Concurso de Composição Niemeyer – 100 anos’, com sua obra Trio nº3-Igreja de São Francisco – obra lançada em livro e DVD pela UFRJ. Venceu o ‘II Concurso de Composição Claudio Santoro para Jovens Compositores’ com sua obra Psalmus 67”.

Logo após defender sua dissertação de mestrado em 2010, Marcelo ficou sabendo que haveria seleção para professor substituto dos cursos de bacharelado e licenciatura na Faculdade de Música do Espírito Santo. Veio, fez a prova e, como costuma ser, passou. Voltou para ficar perto da família e, numa inesperada inversão de valores, por questões financeiras. “A concorrência no Rio é grande, a remuneração de professor ficou mais interessante aqui no Espírito Santo”. Bom para os alunos capixabas que podem aprender um pouco da arte musical com esse gênio de trajetória insólita na qual se revela um misto de predestinação com muita determinação e coragem.

A história de Marcelo Rauta nos ensina muita coisa e provoca uma inevitável reflexão: quantos outros potenciais compositores e artistas extraordinários estiveram e ainda estão relegados à própria sorte neste país de tantas e tão grandes desigualdades? Quantos estão sem acesso à educação, sem força psicológica para romper as barreiras do preconceito contra sua arte ou encarar as dificuldades financeiras e conquistar sua independência vivenciando plenamente seu talento e criatividade? Quanto será que perdemos enquanto cultura com tudo isso?

No final deste ano a Faculdade de Música do Espírito Santo - Fames vai publicar em livro a pesquisa de mestrado de Marcelo Rauta que tem o título: “Reminiscências do Choro N° 10 de Heitor Villa-Lobos na Sinfonietta N° 4 de Marcelo Rauta: um estudo comparativo.” Não por acaso as obras em questão são de compositores nascidos no mesmo dia 5 de março, até aonde vão essas coincidências é difícil precisar. Tudo que sabemos é que Marcelo Rauta é um nome que evoca uma missão para a sociedade civil organizada: criarmos meios – que hoje não existem - de fomentar talentos como o dele e os ajudar a se desenvolver e frutificar.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

RAPIDINHAS DO FESTIVAL DE INVERNO 2012

Esta décima nona edição do Festival de Inverno de Domingos Martins levou o conceito de "choque cultural" ao extremo. O exemplo mais explícito aconteceu no início da noite de domingo quando rolou um encontro de violeiros com o som mais raiz que o sertanejao já concebeu e na sequencia entrou uma orquestra de cordas polonesa tocando Mozart, Respighi e o melhor do repertório clássico. Taí um clique da Orquestra Capela Bydgostiensis que é regida pelo brasileiro José Maria Florêncio. 


O Capela tinha já se apresentado no Festival do ano passado e enquanto eu conversava com o regente comentei da peça Orawa do compositor Wojcieck Kliar que eu tinha gostado muito. Daí ele disse que ia apresentar a peça outra vez porque era a mais moderna do repertório e sabia que o público não ia lembrar. Só que na hora da apresentação Florêncio explicou que o grupo ia reprisar a peça a pedido de uma pessoa do lugar, pensando que eu fosse local. Bom, certamente estávamos distante demais da Polônia...

Um dos momentos mais tocantes - em vários sentidos - do Festival de Inverno de Domingos Martins foi o da apresentação da Fames Jazz Band. As participações especiais de Antonio Paulo Filho e de Dalila Gusmão foram de dar um nó na garganta. O Toninho, como é conhecido o maestro, se fora nascido do lado de cima (levando-se em conta o mapa mundi tradicional) seria reconhecidamente uma lenda do jazz. Na foto vemos Dalila, nervosa com a estréia, assumindo os teclados da Jazz Band. Para quem não está entendo, a moça é deficiente visual e figura queridíssima na Faculdade de Música. Pura emoção!


Os pequeninos integrantes da Orquestra Jovem do Festival de Inverno encantaram o público. A coordenadora da oficina de prática de orquestra, Mozineide Schultz, estava impressionada com a seriedade e o profissionalismo dos meninos e meninas. Na foto tem a Manu, a menorzinha, esperando a hora de entrar em ação sob regência do professor e maestro Ademar Rocha. 


A penúltima atração do Festival de Inverno de Domingos Martins foi a dupla sertaneja Edson Mineiro e Goiano - que curiosamente é de Vila Velha - e o líder da banda tem aquele jeitão despachado e brincalhão das pessoas do interior. Como o público demorou um pouco pra se achegar do palco ele disparou o comentário: "Vem pra cá minha gente, num deixa nóis passá vergonha sozinho não!"

No detalhe: Edson chamando "meu povo e minha pova" pra dançar
 
Uma das participações mais surpreendentes e bonitas do Festival de Inverno de Domingos Martins foi de Jamie Machler (informação de Edilson Barboza diretor da Fames), uma norte americana de Seatle muito tímida que veio às terras tropico-capixabas para participar da oficina de sanfona e concertina - que aconteceu em Melgaço - e cantou uma canção de Luiz Gonzaga com um sotaque delicioso, mesmo porque a moça não entendia uma vírgula de nosso idioma.  


Edilson disse que a moça chorou copiosamente na hora de voltar pra gringolândia, talvez porque tenha descoberto o sentido da máxima proferida pelo saudoso Tom Jobim:

"Viver nos EUA é maravilhoso, mas é uma merda; viver no Brasil é uma merda, mas é maravilhoso!"



CURIOSIDADE INÚTIL: Chamava atenção em Domingos Martins o triciclo "Ghost Ride" (SIC), como diria meu amigo Paulo Sardenberg, mais enfeitado que sela de burro de cigano... 



O pessoal do mega famoso grupo Falamansa quando chegou ao Festival viu o grande painel com Luiz Gonzaga no palco e se intrigou com a outra figura, queriam saber quem era. Veio então um rapaz da produção descobrir e me pediram para explicar que aquele era Claude Debussy, compositor francês, o cara do impressionismo etc. Enquanto o salameléktrico rapaz agradecia, eu, que ia apresentar o show, aproveitei pra também tirar as minhas dúvidas: agora me fala um pouquinho quem é o Falamansa porque eu também não sei... 

O maestro Helder Trefzger conversando com o público durante a linda apresentação da Orquestra Camerata SESI, atrás vemos o painel que intrigou o Falamansa... Falassério...

quinta-feira, 28 de junho de 2012

RAPIDINHA CULTURAL URGENTE!

Amanhã - 29 de junho - tem lançamento de dois livros na Faculdade de Música Maurício de Oliveira. A violoncelista e professora da FAMES Raquel Rohr  aborda a obra para celo e piano do professor Alceu Camargo. Tive a satisfação de escrever a orelha para mais essa investida no universo do querido professor Alceu que não tive o prazer de conhecer, mas que é cada vez mais reconhecido como uma das figuras mais importantes no desenvolvimento da música clássica no Espírito Santo. Segue o convite...


CULTURA INÚTIL A GENTE SOMOS...

Você sabe o que é SPAM? Quem ainda não conheceu o grupo de comediantes Monthy Python não sabe o que está perdendo. O humor amalucado desses gringos é dos favoritos entre os nerds cibernéticos que se inspiraram no quadro abaixo para nomear aquelas mensagens em massa que todo mundo recebe propondo aumento de coisas que vão de sua conta bancária ao tamanho de sua genitália. A Letra Elektrônica também é cultura, mesmo que um pouco inútil...


sábado, 9 de junho de 2012

CRÔNICA DE DOMINGO: LOUCURA OU ESPERTEZA?

No verão de 2007 o prefeito da cidade de Aparecida - a “Meca” católica no interior de São Paulo - José Luiz Rodrigues (conhecido pelo apelido de Zé Louquinho), cansado de receber críticas por não conseguir resolver o problema das enchentes na cidade, numa reação irônica, polêmica, cínica etc. publicou uma Lei proibindo terminantemente a ocorrência das cheias em sua região. A medida flagrantemente tresloucada virou piada em todo o país, mas a mesma coisa acontece de tempos em tempos, e pouca gente se dá conta.

Guardadas as devidas proporções, parece que alguém atacou de “Zé Louquinho” no Palácio do Planalto quando o governo brasileiro editou a Lei que tornava obrigatório o ensino de música nas escolas. Assim como o alcaide de Aparecida, o governo federal decretou a resolução da questão sem apresentar soluções mínimas para os evidentes problemas na falta de estrutura das escolas públicas ou mesmo a maioria das privadas. No site do MEC está assim:

A Lei nº 11.769, publicada no Diário Oficial da União no dia 19, altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) — nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996 — e torna obrigatório o ensino de música no ensino fundamental e médio.

A Lei entrou em vigor tendo expectativa por parte dos alunos – tanto dos que desejavam aprender música, quanto dos que temiam ser obrigados a estudar – e gerou debate em nível nacional. Gestores e docentes se questionavam como é que iam fazer para por o projeto em prática. Na grande maioria das escolas não há espaço acusticamente adequado, nem professores habilitados e se houvesse tudo isso: com quais instrumentos os alunos haveriam de estudar?

Inexeqüível na prática a Lei soa mais oportunista do que maluca, porque surge num momento em que a demanda por estudo formal de música cresceu muito, especialmente na última década. Só para dar um ínfimo exemplo local, a Faculdade de Música do Espírito Santo, no início deste ano 2012, ofertou 115 vagas para o curso de iniciação musical e foi surpreendida por 1.900 inscrições. Foram forçados a decidir quais alunos seriam contemplados em um sorteio que lotou o pátio da instituição. 

Pátio da FAMES lotado! Sorteio das vagas para o Curso de Iniciação Musical de Piano e Canto
Sempre que as eleições se aproximam começam a surgir soluções para problemas pesquisados junto à população, algumas são até anunciadas na mídia e causam expectativa. Tempos depois fica claro que aquilo não vai dar em nada mesmo, começam as cobranças e as explicações tortas: que a licitação não deu certo, que o projeto continha erros, que isso ou aquilo. O bom seria se todos fossem mais cínicos e assumidos como o prefeito lá de Aparecida, pelo menos poupava o povo da sensação de sempre ser ludibriado pelo velho golpe da urna.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

NOVO LIVRO DA ORQUESTRA BOMBANDO PELA MÍDIA


Claudio Thompson e Juca Magalhães participaram hoje de manhã do Bom Dia Espírito Santo da TV Gazeta, matutino afiliado à Rede Globo. Hoje a noite acontece o lançamento de dois importantes livros sobre a história da música clássica no Espírito Santo.  Veja a reportagem no link abaixo:

http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM1692497-7823-FACULDADE+DE+MUSICA+DO+ESPIRITO+SANTO+FAMES+LANCA+DOIS+LIVROS,00.html

O mais antigo e prestigiado site de notícias do Espírito Santo, O Século Diário, traz também uma reportagem muito bacana feita pela jornalista Lívia Corbellari, segue o link:

http://www.seculodiario.com/exibir_not_atracao.asp?id=6919

E amanhã tem uma reportagem sobre o novo livro da Orquestra no Pensar, o caderno de cultura do jornal A Gazeta, capitaneado pelo escritor José Roberto Santos Neves. Aliás, o Zé está finalizando uma obra sobre o movimento do metal em terras capixabas. Vi algumas fotos e fiquei doido para ler as histórias. Sem falar que tem a  idéia de com o livro rolar um som com a galera jurássica do nosso Heavy. Vai voar morcego pra tudo quanto é lado.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Convite

Lançamento do livro "Da Capo - de volta às origens da Orquestra Filarmônica do Espírito Santo. Faculdade de Música do Espírito Santo, dia 11/11 (sexta-feira 20h). Os cinquenta primeiros a chegar ganharão um exemplar autografado pelo autor. 

O livro também poderá ser adquirido durante as récitas da Nona Sinfonia de Beethoven apresentada pela Orquestra Filarmônica do Espírito Santo nos dias 12/11 (sábado - 20h) e 13/11 (domingo - 18h) no Theatro Carlos Gomes. Centro. Vitória-ES






segunda-feira, 7 de novembro de 2011

A HISTÓRIA DA MÚSICA CLÁSSICA NO ESPÍRITO SANTO EM DOIS NOVOS LIVROS


No próximo dia 11 de novembro o pesquisador de história da música, Juca Magalhães, lança a segunda edição do livro “Da Capo”, única obra existente sobre a Orquestra Filarmônica do Espírito Santo - OFES. Na verdade o que vem a público agora é um livro sobre uma despretensiosa pesquisa publicada em 2003. Na Mesma ocasião será lançado também um livro inédito sobre a obra para piano do professor Alceu Camargo.

O texto original de “Da Capo” surgiu da necessidade de formatar a apresentação de um projeto para a Associação de Amigos da Orquestra, era bastante sucinto e pragmático, porém, cumpriu na época uma importante função. Hoje parece difícil acreditar, mas em 2002 não era possível encontrar documentos nem depoimentos que demonstrassem com clareza e segurança como e quando fora fundado o principal grupamento sinfônico do Estado.

Com a realização da pesquisa e o lançamento daquela primeira edição vieram palestras divulgando essa parte da história, abordando o universo da música clássica e sua trajetória no Espírito Santo. A prática das palestras levou o autor recentemente a integrar uma turnê nacional por cinco Estados do centro oeste e norte do País dentro do projeto “Música Barroca na Estrada”, mas nessa altura o “Da Capo” já se esgotara.

A iniciativa da segunda edição do Livro da Orquestra foi aprovada pela Lei Rubem Braga, obteve patrocínio da empresa ArcelorMittal Tubarão e ainda contaria com a adesão da Faculdade de Música do Espírito Santo e do Departamento de Imprensa Oficial – DIO. A FAMES tem tudo a ver com essa história, afinal, através do trabalho desenvolvido por seus professores, especialmente o casal Vera e Alceu Camargo, houve o início e o florescimento do trabalho com música sinfônica no Espírito Santo.

O pianista Claudio Thompson pesquisou a vida e a obra completa para piano do professor Alceu Camargo, até hoje inédita, e trará a público na mesma ocasião o resultado de sua dissertação de mestrado em práticas interpretativas – sub área piano - na Universidade de Santa Catarina. O nome do livro é Alceu Camargo, um homem a seu tempo. É um resgate importante da vinda desse paranaense para o Espírito Santo, que seria fundamental para a criação da Orquestra local.

Para essa nova investida na história da OFES foi realizada uma pesquisa bem mais abrangente fornecendo um panorama da situação social e política que fez da música sinfônica uma demanda cultural do capixaba e também uma investigação mais profunda com relação à atuação de algumas personalidades dentro desse processo. Ajuda muito importante nessa nova abordagem do tema veio através do maestro Vítor Marques Diniz, que não fora possível contatar na primeira edição da pesquisa.

O regente lusitano veio para Vitória através de convite de Beatriz Abaurre, então diretora da Fundação Cultural do Espírito Santo, sua chegada teve o efeito de um catalisador que reuniu potenciais musicais dispersos e proporcionou a criação, a partir de 1977, do Coro e Orquestra de Câmara da Fundação Cultural do Espírito Santo. Hoje aposentado o maestro Diniz reside em Campo Grande-MS, mas guarda vívidas lembranças de nossas terras o que valeu um tocante prefácio para a segunda edição do “Da Capo”.

O novo Da Capo contou ainda com a colaboração dos atuais maestros da OFES, Helder Trefzger e Leonardo Davi, na correção de algumas informações, do ex-regente Leonardo Bruno - que aproveitou para enviar uma mensagem aos capixabas - e do maestro Adolfo Alves autor do texto da orelha. Você vai se emocionar com a saga de criação do mais importante grupo sinfônico do Espírito Santo que, após vinte e cinco anos, comprova que o acesso à música clássica nasce de um claro desejo de inserção cultural e é uma conquista de todo povo capixaba.

Recuperando tempo: Da Capo (do italiano “da cabeça) ou D.C. é uma expressão musical que quando surge na partitura remete o intérprete ao início da obra, ou seja: tem o sentido literal da expressão: do início. E é essa a intenção dessas duas obras importantes que agora surgem e dialogam entre si: uma mais abrangente, outra mais específica, porém, ambas fundamentais para o resgate de nossa história musical. 

Reportagem anunciando a estréia da Orquestra e Coro de Câmara da Fames em maio de 1976

“Da Capo” De Volta às Origens da Orquestra Filarmônica do Espírito Santo
Alceu Camargo, Um Homem A Seu Tempo
Lançamento no dia 11 de novembro de 2011. Horário: 20:30 h
Local: Sala de Concertos Alceu Camargo
Faculdade de Música Maurício de Oliveira – FAMES
Entrada Franca – A Sala de Concertos tem capacidade para 160 pessoas.
Endereço: Avenida Princesa Isabel, 610. Centro – Vitória.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

DEPOIS DO FESTIVAL

No domingo passado terminou o 18° Festival de Inverno de Domingos Martins, ficaram boas historias e algumas constatações ponderadas. O fechamento do Hotel Imperador é praticamente um crime de lesa patrimônio turístico e cultural do Espírito Santo. O amigo Paulo Fonseca da empresa de turismo Etérea, disse de uma pesquisa onde a cidade de Domingos Martins é apontada como o destino número dois de turistas no Espírito Santo, perdendo só pra capital Vitória. Se fosse uma aposta eu teria marcado Guarapari e me cambado, como diria Tom Zé, aliás, mais Zé do que Tom.

Daí que o comércio local resolveu aproveitar para faturar de maneira canhestra. Tô eu vendo uma galera circulando com grandes taças de vinho pra lá e para cá. “Muito chique esse pessoal daqui hein?” Pensei com meus botones, mas no dia seguinte encontro o amigo Eustáquio Palhares que revelou a verdade: a taça era compulsória, a garrafa de vinho custava, vamos dizer uns vinte reais, mas só era vendida com a taça e esta custava mais sete. Por essas e por outras nossa equipe ficou local do boteco Galeto de Prata, um abraço pro Foguinho e pro Guimarães, vulgo Formiga.

Salvo raras exceções não rolou baixaria durante o festival, o que é certamente uma das explicações para a mídia não ter dado tanta importância ao evento. Uma das tais exceções veio inesperadamente do palco principal. Um senhor da prefeitura me contou constrangido que o cantor Emilio Santiago, soltou um tremendo palavrão durante sua apresentação: “Quando a gente ouviu naquelas caixonas de som - “Baralho! (pra não dizer outra coisa) O som tá muito alto!” - minha mulher quase caiu da cadeira... O cantor carioca parece que de suave tem só a voz, sua equipe deu um piti danado e acaba que sua participação foi das mais sem graça da programação.

Já Monarco mostrou porque é conhecido como a realeza do samba, seu show foi uma saraivada das mais lindas canções do gênero “de raiz”. Acompanhado por quatro senhorezinhos da famosa Velha Guarda da Portela, o show do sambista de 77 anos encantou a todos. No final não teria bis, mas acho que convencido por Edilson Barbosa, diretor da Fames, Monarco voltou e atacou seu samba "Coração em Desalinho" que é tema da novela Insensato Coração, não sem antes comentar satisfeito que cada vez que a música toca na Globo, bate um “cascalho” em sua conta.  

Convencido a voltar, o difícil depois foi fazer Monarco parar outra vez. Um dos músicos que tocava sete cordas chamou discretamente um dos rapazes da produção e falou: “pede pra ele parar senão a gente não sai daqui hoje.” E lá foi o cara puxar, também discretamente, a barra da calça do velho sambista que já não sabe o que é freio de mão há muito tempo, enquanto isso algumas pessoas do público se indignavam ou achavam engraçado, pensando ser alguma espécie de gafe ou combinação.

A tônica do festival foram as apresentações de qualidade e as gratas surpresas como, por exemplo, o som da empresa Loudness que realizou prodígios. Por exemplo: a orquestra Capella Bydgostiensis (ê nome desgraçado) formada por músicos poloneses, sentou e tocou de pronto. Eu nunca vi nada parecido, eles nem sequer checaram a afinação no palco. Posicionaram-se e sentaram o dedo – sem querer desmerecer ninguém - enquanto grupos muito menores de instrumentistas levaram quase uma hora para ajustar o som... Rapaz e como os polacos tocaram! Me senti uma “vaca profana” cantada por um Caetano em ter que falar alguma coisa depois daquele concerto.

O quinteto Fabiano Mayer fez uma linda homenagem ao violonista Maurício de Oliveira que teria completado 86 anos no último dia 17 de julho, receberam no palco o Tião, filho de Maurício, que aproveitou para mostrar uma música chamada “Cadência” de Juventino Maciel que o maior músico do Espírito Santo, em seus últimos dias, sempre pedia para o filho tocar. Isso tudo aconteceu no sábado, sem dúvida o dia mais emocionante do Festival, embora, musicalmente falando, a disputa se torne difícil de comparar com a noite de abertura que teve nossa orquestra com Wagner Tiso, Leci Brandão e Amaro Lima.

Em 2012 tem mais Festival de Inverno de Domingos Martins, inclusive, o tema do ano que vem dá o que pensar aos mais musicalizados, afinal, homenagear-se-á (Íça!) o compositor francês Claude Debussy, conhecido como impressionista e o nosso “Rei do Baião” Luiz Gonzaga que dispensa apresentações. Em outubro teremos, organizado pelo Instituto Todos os Cantos e com cobertura da Letra Elektrônica, o II Festival de Coros Infantis da Serra com patrocínio da Lei Chico Prego e da empresa ArcelorMittal Tubarão. Maiores informações em breve, quem viver não se arrependerá por esperar.


segunda-feira, 25 de julho de 2011

ELEVANDO A TEMPERATURA!


O primeiro fim de semana do décimo oitavo festival de Inverno de Música Erudita e Popular de Domingos Martins foi marcado por grandes apresentações, um frio danado - que era esperado e até desejado por muitos - e uma chuvinha insistente. No cacófago da madrugada o termômetro da praça teimava em marcar dezesseis graus, suspeito até que dali ele não passe pra baixo, porque pra mim tava “fazendo”uns cinco.

Enquanto eu reclamava comigo mesmo que deveria ter me preparado melhor pra enfrentar o general inverno, passa um garotão marombado só de camisetinha regata folgadona. Claro que sua intenção era expor seus predicados musculares com o intuito de pegar alguma das inúmeras alemazinhas que se espalhavam pelo público. Convenhamos que pela lógica meteorológica era mais fácil pegar uma pneumonia...

Aconteceram concertos, shows e recitais imperdíveis, não vou contar tudo senão vocês vão até ficar tristes. Mas confesso que a Leci Brandão me surpreendeu. Cheguei em Domingos Martins no final da tarde quando a temperatura era de dezoito graus, quando caiu a noite baixou pra dezesseis e, inexplicavelmente, pouco depois de Leci entrar no palco o termômetro da praça marcava dezenove graus. Leci fez uma apresentação pra cima e tão alto astral que fez até a temperatura subir!

O pianista Marcelo Verzoni fez um recital todo voltado pra música brasileira, tocou uma linda valsa de Ernesto Nazareth chamada “Confidências” que eu não conhecia. Explicou que era a música favorita de Ruy Barbosa, sempre tocada pelo autor de Odeon quando aparecia a célebre figura da “Águia de Haia”. Na mesma balada o violonista Paulo Pedrassoli homenageou Carlos Cruz com uma suíte belíssima chamada Gravuras de Debret.

O grande destaque dessa primeira parte do festival de inverno foi a participação da música instrumental local, a nossa Orquestra, a Banda da PM e os alunos e professores da Faculdade de Música. Teve quarteto de cordas, orquestra de câmara com meninas de seis, sete anos, lindas. Teve banda pop, coral com homenagem aos Beatles, big band de jazz. E todo mundo tocando muito. É visível - e também é um alívio - perceber o quanto isso tudo é fruto de trabalho competente da Fames que ajudou a elevar a Orquestra Filarmônica do Espírito Santo a outro patamar de sonoridade.                                                                                

Falei que não ia contar tudo, afinal, no próximo fim de semana tem mais: concerto com o pianista Marcelo Bratke, Orquestra Capela Bydgistiensis da Polônia, Emílio Santiago, Monarco da Portela, Fabiano Mayer e seu quinteto, Coro Curumins regido por Paulo Paraguassú. Enfim fiquem de olho no site do festival, agasalhem-se direitinho - ou levem um cobertor de orelha, coisa que não fiz - e cacem o rumo da montanha. Garanto que vocês não vão se arrepender.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

RAPIDINHAS CULTURAIS - ALCOÓLICAS


Daí que hoje de noite tem concerto da nossa querida Orquestra Filarmônica do Espírito Santo, regida por Helder Trefzger e com participação especial do pianista Wagner Tiso, é o chamado “crossover” que mistura música de concerto com popular. Eu particularmente gosto ma non tropo, porque nessas eu já vi a nossa orquestra tocando até com ... Enfim, deixa pra lá.

E tem outra coisa, nem vou indicar esse concerto para os leitores da Letra Elektrônica não porque certamente o Theatro Charles Ghomes não vai comportar mesmo, como tem acontecido ultimamente e daí a gente é obrigado a ficar ali no boteco da esquina tomando uma cerveja, ouvindo Nelson Gonçalves ou Nazareth - ao invés de Van Gogh - e reclamando do atraso cultural da ilha. Espero que o tão esperado Cais das Artes fique pronto logo, um abraço Frei Paulão.

Vou, isso sim, convidar vocês para uma parada muito mais bacana no sentido musicológico da coisa. São algumas palestras gratuitas que acontecerão hoje a noite na Faculdade de Música, uma delas aborda a “interpretação do concerto italiano de Bach por Glenn Gould”. Sou fã de carteirinha desse pianista canadense que foi o mais biruta de todos os tempos, tenho todos os discos do cara - uns oitenta – além de uns três ou quatro filmes. Segue abaixo o convite do pessoal da FAMES.