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sábado, 5 de março de 2016

MARIA NILCE SUBSTANTIVO MULHER

Polêmica é um substantivo feminino, mas está longe de ser exclusividade do universo das mulheres como muitos marmanjos gostam de acreditar. A cidade de Vitória conheceu uma jornalista que viveu cercada de polêmicas, “barracos” que não eram a principal característica de seu trabalho, mas foram importantes porque fomentaram a lenda da mulher guerreira e geravam um interesse enorme por tudo que aquele furacão fazia na sociedade dos capixabas. Essa mulher se chamava Maria Nilce Magalhães e Maria Nilce era a minha mãe.

A maior parte das pessoas vive entediada e encalacrada, presas a empregos, casamentos e eterna insatisfação. Por isso precisam de tragédia como entretenimento, ficam muito excitadas ao saber que de repente alguém “deu a doida”, xingou o padre, largou o marido, roubou a empresa ou saltou da terceira ponte. A mente dessas pessoas é pequena, não porque querem, mas porque é assim que são. Apesar disso, ou por causa disso mesmo, uma parcela desse conjunto resolveu ser grande e outras, reconhecidas como “elite” ou “alta sociedade”, não viram com bons olhos a ascensão de nanicos, porque ser grande toma espaço e não se pode dividir o que é muito, pois sempre o consideram muito pouco.

No tempo de Maria Nilce (1941-1989) quando se apontava os “grandes” de Vitória estava se falando exclusivamente de homens, as mulheres eram educadas nas prendas do lar, preparadas para obedecer ao marido, cuidar da casa e dos filhos. Nos anos 1970 Maria Nilce foi uma daquelas que diversas vezes “deu a doida”, bateu de frente com um governador da ditadura e colocou no chinelo muitos “homens da imprensa”. Em dado momento atingiu o status de celebridade e como estas foi perseguida e difamada, mas devolvia os insultos e ridicularizava os desafetos em sua coluna. Sua presença incomodava, não é exagero afirmar que algo da polêmica que a cercava vinha do preconceito com sua condição de mulher.

A colunista do Jornal da Cidade pode não ter sido a primeira, nem a maior, mas de sua geração foi quem melhor conseguiu captar a imagem de “self made woman” e se transformou no símbolo da mulher capixaba bem sucedida. Além de colunista social de apelo junto ao público, era também uma empresária competitiva e inteligente, sabia vender e valorizar seu produto, uma de suas frases preferidas era: “quem trabalha não conhece fracasso”. Não foi à toa que escolheu o dia internacional da mulher para congregar as empresárias “da terra” em um evento que celebrava a independência de seu gênero.
 
A empresária do setor automotivo e cafeeiro Zuca Coser, falecida em 2009, com a colunista Maria Nilce 
No final da década de 1980, Maria Nilce consolidara posição no jornalismo e sua popularidade seguia em escala ascendente. Planejava construir uma sede moderna para o Jornal da Cidade, andava badalada na sociedade carioca, viajava pelo mundo e acirrava as críticas contra uma parcela perigosa da elite capixaba. O almoço que a jornalista promoveu em comemoração ao dia internacional da mulher no ano de sua morte reuniu quatrocentas mulheres, donas de grandes empresas, profissionais liberais e até representantes da política nacional como as deputadas federais Sandra Cavalcanti e Rita Camata.
 
Sandra Cavalcanti, deputada federal carioca discursa durante as comemorações do Dia Internacional da Mulher.
No dia 14 de março de 1989, Maria Nilce publicou em sua coluna um texto relatando o clima pesado que cercou o “Almoço da Mulher” naquele ano e classificou as ameaças de seus desafetos como “terrorismo”. Era um prenúncio do que aconteceria poucos meses depois: o assassinato covarde que pôs fim a uma disputa velada pelo direito de uma jornalista se expressar contra a necessidade de calar essa pessoa. Um crime de mando contra uma mulher indefesa, que posteriormente foi culpabilizada pela própria morte, na revista Manchete foi dito que ela “falava demais” e a mídia sempre a reduziu às tais “polêmicas”.
 
Almoço de Comemoração ao Dia Internacional da Mulher em 1989

No dia oito de março não é comum evocar a lembrança da jornalista Maria Nilce Magalhães e suas ações pioneiras em prol da valorização do empreendedorismo feminino capixaba. Deu trabalho calar a fera, mais trabalho ainda tem a elite para apagar sua presença da memória do povo. Mas, sabe minha mãe? Eu, que nunca me dirigi à senhora sua pessoa assim publicamente, estou ainda por aqui pra lembrar com saudade e com carinho da sua genialidade e de suas birutices – a Milla que virou gringa diz que você era gifted - e sei que tem um montão de gente bacana por aqui que se lembra de você assim também.

Quando comemoramos mais um Dia Internacional da Mulher, primeiro de tudo devemos orar, rezar ou meditar pela presença invisível ou mesmo a ausência de tantas e tantas mulheres impunemente espancadas, violentadas e assassinadas.  Em seguida peço ao menos um pouco de respeito à vida e à memória dessas vítimas, quase sempre perseguidas e difamadas, simplesmente por representarem a fragilidade nessa cadeia. E desejo que todas as mulheres tenham, sempre, o verdadeiro direito à liberdade de expressão e dignidade para viver e ser o que quiser e fazer de seu corpo e da sua história o que melhor lhe aprouver!

Segue o texto escrito por Maria Nilce:

No Dia Internacional da Mulher, quando esta cronista realizava um almoço para mais de quatrocentas mulheres, no salão do Alice Hotel, seu proprietário, Toninho Neffa, avisado anteriormente por telefonemas anônimos de que alguns gays iam até lá acabar com a festa, assustou-se com a presença de dois indivíduos estranhos que entraram no hotel sem camisa e pensando ser os travestis telefonou para a polícia e pediu reforço.

Soubemos depois que o autor dos telefonemas foi o comerciante Jadyr Primo, que também ensaiou a molecagem de mandar travestis para a porta do hotel para jogar pó de mico nas senhoras. Ali dentro do Alice estavam senhoras do maior respeito, todas dignas da maior admiração. Sobretudo, senhoras de idade como dona Josefina Hilal, como a mãe de Lourdinha Raizer, entre outras que não mereciam passar pelo susto que passaram.

Eu espero que as mulheres que estiveram naquele almoço não esqueçam do mal que ele me fez, pois desde as nove horas da manhã que este indivíduo passa trotes para minha casa, fazendo terrorismo e eu, apesar de saber de tudo, estive à frente do almoço, sorteando brindes, homenageando as aniversariantes, cuidando para que nada estragasse o brilho daquele dia que era só nosso e para que todas mulheres ali presentes não fossem perturbadas em nada. Se entrasse alguém para estragar a nossa festa, eu me jogaria na frente para defender as mulheres que ali estavam convidadas por mim.

Eu morreria por elas...
 
Último registro de Maria Nilce com seu filho Juca Magalhães:
foto de Heitor Bonino
Maria Nilce Magalhaes foi morta a tiros no dia cinco de julho de 1989, o julgamento de alguns dos envolvidos no assassinato levou quase vinte e cinco anos, as investigações não apontaram os principais mandantes do crime.
A investigação do crime contra Maria Nilce foi marcada por afirmações preconceituosas à mulher e propositadamente abagunçada, vide a manchete de A Gazeta


Início da desrespeitosa reportagem da Revista Manchete
Jornal do Brasil


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

PREGUIÇA



 
No dia 10 de junho de 1989, em sua coluna do Jornal da Cidade, a jornalista Maria Nilce publicou a crônica intitulada “Preguiça” que hoje republico para curtir uma lufada de ar dos anos 1980. Esse resgate veio através da descoberta de um acervo do extinto periódico, hoje muito bem guardado na casa de um amigo, cuja (cujo?) identidade prefiro não revelar porque corre o risco de alguém tentar dinamitar sua casa. Basta lembrar o que aconteceu com o acervo remanescente do jornal doado pela família aos cuidados da Biblioteca Estadual e, posteriormente, descartado ou destruído em episódio criminoso até hoje obscuro.

Para ler mais sobre o assunto leia a matéria publicada em 05/09/2011 no prestigioso site Observatório da Imprensa. Aliás, modestamente falando, um dos melhores textos que escrevi:


A crônica de Maria Nilce que republico traz peculiaridades de seu estilo que denota naturalidade em transformar o privado em público. Por exemplo, fala de minha pessoa, seu filho, sem o menor trabalho de contextualizar, dizer de quem se trata. Era como se todo mundo que lesse sua coluna soubesse quem eram as pessoas que a circundavam e tivessem interesse em sua vida pessoal. Já reparei essa mesma característica em outros escritos de colunistas daqui, sobretudo, Jorginho Santos.  

Outra peculiaridade eram os diversos erros de datilografia que vazaram na revisão. O tal amigo - cioso e ciumento do acervo - explicou com acidez: “Também pudera, o povo daquele oficina onde funcionava a gráfica do jornal vivia bêbado!” Afirmação que pode até soar um pouco exagerada, mas faz parte do folclore da época e da má fama que gozava (sofria?) a qualidade da impressão do referido periódico. É bom lembrar que a oficina funcionava até as madrugadas boêmias e havia um boteco bem ao lado...

Bom e ruim é outra questão que o tempo nos faz meditar. Folheando agora o Jornal da Cidade, a tal infame “qualidade de impressão” soa bem mais, digamos assim, vintage do que apropriadamente defasada. O fato é que o periódico trazia conteúdo inédito diariamente e, especialmente, a explosiva coluna de Maria Nilce gozava de inegável apelo comercial. Apesar de não ser tão bacana como outros concorrentes, impressos em Offset, o Jornal da Cidade é até hoje perfeitamente passível de agradável leitura.

Uma característica básica do texto de Maria Nilce era a necessidade de autoafirmação, de valorização da mulher trabalhadora, que vence e que às suas expensas circula pelas mais badaladas cidades do mundo. Era uma pequena falha rastaquera que perseguia a colunista e, aliás, a maioria de seus pares e amigos vidrados em ostentações e sentimentos de inveja, talvez para não parecer o que realmente eram para o resto do mundo. De tempos em tempos Maria Nilce publicava verdadeiras “cartas de intenções” - como é o seu primeiro livro “Eu Maria Nilce” - textos em que defendia seus valores e sua forma de atuar junto à sociedade. O que segue não é bem o caso, serve mais como direito ao ócio criativo... Boa leitura e bom domingo.

            Preguiça

Na hora do almoço, Juca evocou uma música de Vinícius de Moraes que eu considero deliciosa porque fala em preguiça:

“Um velho calção de banho, um dia p’ra vadiar...”

Ah... Um dia p’ra vadiar... E durante o resto do almoço conversávamos sobre isto, sobre a maravilhosa perspectiva de ter um dia inteiro p’ra vadiar.
            E então eu disse ao Juca:
            Sou tão obsecada (sic) por trabalho que quando saio de férias e fico à toa batendo pernas pelas ruas de Paris, Roma ou Londres, me culpo o tempo inteiro de não estar trabalhando.
            – Você precisa fazer análise – retrucou Juca, que passa por uma fase cheia de mistérios.
            E depois de comer uma rabada maravilhosa daquelas de partir com o garfo, joguei-me na cama com o telefone fora do gancho, compressas de chá preto sobre os olhos e dormi como uma morta.
            Quando acordei, não acreditei no que meus olhos viram. Já passava das três da tarde. E, por incrível que pareça, lá estava eu rolando na cama cheia de preguiça. Vontade danada de ficar mais um pouquinho naquele bem-bom, mas e os compromissos? Ah, que ótimo seria ficar hoje curtindo essa preguiça aqui na cama, sem ter nada o que fazer, rolando p’ra lá e para cá agarrada ao travesseiro.
            Cadê a eletricidade habitual dona Maria Nilce? Cadê aquela energia incrível que lhe bota acordada e de pé às cinco e meia da manhã todos os dias? Que preguiça idiota é essa?
            ...Não faz mal a ninguém e não é nenhum crime se sentir preguiçosa um dia.
            Eu sou adepta de todos os pecado (sic) capitais (no original “capitalsitas”). Gula, então, nem se fala. Mas preguiça não é coisa para uma mulher como eu, movida a gasolina azul (precursora da aditivada), supositório de pimenta malagueta, que é mais elétrica do que dez mil quilowatts (no original “Kiliowatts”), como se justifica então essa preguiça que se abateu assim de repente?
            Mas tudo tem seu tempo já dizia Eclesiastes.
            Vai ver (no original “via”), ontem foi o meu tempo de preguiça.  

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

LE TOMBEAU DE MON PÈRE


Dedicado à memória de meu querido pai, seu Djalma...

Há trinta anos eu completava dezesseis e pedi de presente ao meu pai um jantar no meu restaurante favorito. Lembro pouca coisa daquela noite, portanto as fantasias se tornam perigos constantes. Vi isso acontecer várias vezes, inclusive, ou especialmente, com esse mesmo cara que me ajudou a aparecer no mundo, ele sim era escritor e - como a maioria - se deixava levar pela imaginação do que gostaria de ter acontecido mais do que pelo que realmente houvera de acontecer.

Geralmente escolhia para escritório o ponto mais distante da entrada e escondido da casa, gostava de acalentar a ilusão de que poderia escrever sem ninguém pra incomodar. Tinha sempre um olhar de cima para baixo à máquina de escrever, Remington se não me engano, e várias velas e incensos de cheiro forte acesos bem a seu lado. Era assim todos os dias, sua sala tinha um forte cheiro encroado como o das casas de Umbanda. Imagino a estranheza que isso causava aos visitantes desavisados...

O papai tinha o desejo dos magos e os olhos em um mundo que era só seu, não porque não o quisesse compartilhar: é que só ele tinha acesso, como seus pensamentos e os segredos. Ocultismo e religião eram alguns de seus assuntos prediletos, assim como a Revolução Francesa – sua grande paixão: fantasiava e, portanto, afirmava ter vivido por lá em outra encarnação - e a Segunda Guerra Mundial – o acontecimento político mais importante de sua infância e adolescência.

Em uma de suas visitas a Paris, me contou ter driblado mamãe, que se embrenhara deslumbrada em lojas e boutiques, e fora a um encontro secreto com ninguém menos do que Philippe Encausse, filho do mestre esotérico Papus. Disse que na casa desse mago moderno havia paredes que se moviam, que segredos importantes lhe foram confiados e até obras comissionadas. Depois disso realmente lançou dois livros que, pelo menos até agora, não lhe renderam fama mundial nos círculos dos mistérios.

Uma vez eu estava fuçando o escritório do Jornal, onde sempre encontrava coisas interessantes, e achei algumas folhas de papel timbrado da revista L’Initiation, talvez a mais importante publicação esotérica do mundo. Quando fiz a descoberta soltei um baita “Uau!”, mas o braço direito de papai me tirou das nuvens de imediato. - “Ô Super-Juca, foi seu pai mesmo quem mandou imprimir isso aí lá na gráfica do jornal.” - Achei a história no mínimo curiosa e, com os papéis na mão, fui lá perturbar o velho.

- Ô pai? Por que é que tem esses papeis do L’Initiation aqui? – Lentamente desviando o rosto da máquina de escrever, que era sua maneira sutil de dizer “você está me incomodando”, falou sem dar muita importância, como fora aquela apenas mais uma prova de suas importantes ligações com o alto mundo dos mistérios:

- Eles é que mandaram para mim lá de Paris, pediram para publicar sei-lá-o-quê. – Daí eu o questionei já com aquele sorrisinho impertinente no canto dos lábios:

- Mas o Barata acabou de me contar que foi você quem mandou imprimir isso aqui mesmo na gráfica do jornal. – Dessa vez seus olhos se desviaram da máquina num acesso de brabeza comigo, o que era bastante raro, pensei até que ele fosse se levantar, então, da porta eu estava e dela não passei:

- Eu não gosto que duvidem de minha palavra! – Bom, gostar ninguém gosta, mas também pra quê dava de inventar essas histórias?! Por conta desse costume de se imaginar poderoso na clausura e no exílio escrivinhatório que se auto-impunha, hoje me pergunto sobre o que realmente era verdade ou ficção no discurso de meu pai.

Enquanto tecia essas memórias me veio novamente o cheiro do incenso da sala de meu velho, mas não encroado: sutil, como uma névoa a me enredar. De alguma maneira, acho que o velho conseguiu fazer uma das suas magias e veio aqui me visitar.

Ontem, permanentemente privados de contato no plano físico, celebrei a lembrança dos meus num dos lugares onde estivemos juntos e felizes há exatamente trinta anos atrás. É incrível que o Restaurante Lai ainda exista até hoje no mesmo lugar, com as mesmas mesas e cadeiras, o mesmo atendimento do proprietário agora ficando velhinho... Obviamente pedi o mesmo prato da ocasião em que comemorei os meus dezesseis anos: Frango Xadrez com Chopsuey - sei lá se é assim que escreve.

O mergulho no passado não me trouxe saudades da época em que tinha espinhas na cara, serviu para me fazer brecar a sensação de que o tempo está passando. Porque no Lai tudo continua como era antes e de quantos restaurantes de nossa cidade podemos dizer a mesma coisa? O saudosismo é uma forma de ficarmos encantados com essa ligação que nos deslumbrava no passado e de fazer brilhar uma antiga estrela que julgávamos perdida para sempre, mas que ainda está dentro de nós: basta procurar... 

P.S. O "Tombeau" é uma forma musical usado por compositores franceses para homenagear seus ídolos e estilos do passado, transcrevendo para o presente uma representação do valor histórico de sua cultura. Não deixa de ser, especialmente, uma forma de demonstrar o seu amor... 

sábado, 27 de agosto de 2011

O ÚLTIMO CRIME CONTRA O JORNAL DA CIDADE


Há quase trinta anos teve início a lenta destruição da memória do Jornal da Cidade, um “matutino” diário que tinha como carro chefe a coluna de Maria Nilce (1941-1989) e os artigos de análise política de Djalma Juarez Magalhães (1930-2008). Apesar de não primar muito pela qualidade gráfica o Jornal era bastante popular, certamente em função da maneira “irreverente” que a jornalista - vitimada num dos mais escabrosos crimes de mando perpetrado no Espírito Santo – escrevia, expondo e criticando figurões e figurinhas da dita “alta sociedade capixaba”.

O Jornal da Cidade começou sua trajetória em 1972 e esta haveria de durar vinte anos, em suas páginas colaboraram inúmeros jornalistas como Elimar Guimarães, Willis de Faria, Xerxes Gusmão Netto, Carmélia Maria de Souza, Amylton de Almeida, Rogério Medeiros, Cezar Viola, Geraldo Bulau, o fotógrafo Antonio Moreira, enfim, a lista é grande. Todos estes cronistas em intensa atividade naquele período histórico deixaram importantes impressões pessoais para o entendimento e o sutil retorno aos ares que se respirava naquela época. Infelizmente hoje tudo isso está perdido.

A primeira parte do arquivo do Jornal da Cidade foi implodida em um atentado a bomba na madrugada do dia 13 de setembro de 1983. O crime foi investigado pela polícia federal e até hoje sua autoria permanece um mistério. A bomba de fabricação caseira demoliu a sala onde ficavam guardados os jornais antigos, a cozinha da casa onde funcionava a redação do Jornal e uma parte do escritório de Djalma Juarez Magalhães. Como o atentado aconteceu por volta de duas da manhã não houve vítimas, exceto um sabiá cuja gaiola ficava na cozinha e não resistiu aos ferimentos.

 
A explosão foi bastante noticiada, sobretudo por sua violência que rachou o asfalto em frente a casa onde funcionava a redação do jornal na rua Graciano Neves, centro de Vitória, e estilhaçou vidros de janelas de casas do entorno e de prédios até o oitavo andar. Embora hoje possa parecer estranho, atentados do gênero não eram incomuns na época. Em 1981 a mesma coisa já tinha acontecido com o arquivo do jornal A Tribuna e da mesma maneira nada haveria de ser apurado pelas autoridades competentes.

Perplexo o editor do Jornal da Cidade, Djalma Juarez Magalhães, disse não saber a quem imputar o atentado, mas não excluiu na ocasião o presidente do Banestes, Carlos Guilherme Lima, dado atritos causados por críticas e denúncias feitas à sua administração. Na reportagem de A Gazeta o escritor explica que: “enviamos documentos para os serviços de segurança, tanto na esfera estadual quanto federal, onde damos ciência das tentativas de agressões que temos sido vítimas por parte dele.”
 
Muito antes de ser largamente denunciado como um dos principais integrantes do crime organizado capixaba, as declarações do então presidente do Banco do Estado do Espírito Santo – publicadas na mesma página de A Gazeta - soam como fina ironia: “Não conheço, nunca li esse jornal, tomei conhecimento de sua existência hoje pelo noticiário local, estou trabalhando com a preocupação de dar lucros ao Banestes. Sou contra qualquer tipo de violência, descarto meu envolvimento nesse atentado.”

Afirmar que não conhecia o Jornal da Cidade e, especialmente, Maria Nilce na Vitória daquela época era uma provocação muito maior do que dizer, como foi posteriormente, que a briga que havia com o banco era porque a jornalista estava tentando coagir o presidente a conceder anúncios e assinaturas para o jornal, coisa que alguns acreditam e afirmam até hoje.

Sem conseguir manter a pose por muito tempo, o “empresário” passou a alternar o discurso de funcionário padrão com agressão verbal: “Soube serem os proprietários do jornal gente vigarista e que poderia praticar esse vandalismo para tirar proveito próprio. Sou uma pessoa trabalhando para o Espírito Santo e tenho maiores afinidades com a situação econômico-financeira do Banestes, de bombas não entendo nada.”      

Após mais de vinte anos as autoridades federais chegaram à conclusão de que as pioneiras denúncias do Jornal da Cidade podiam mesmo ter um fundo de verdade, basta ver o breve panorama fornecido pela reportagem abaixo publicada em 13 de dezembro de 2002 no site http://notícias.terra.com.br:

“A Justiça Federal determinou hoje o afastamento da diretoria do Banco do Estado do Espírito Santo. A decisão é para evitar o desaparecimento de provas ligadas ao processo do empresário Carlos Guilherme Lima, preso ontem em Vitória. Há suspeita de administração fraudulenta na direção do banco e desvio de dinheiro público em benefício do empresário. Acusado de vários crimes, como desvio e lavagem de dinheiro, fraude em licitações públicas, formação de quadrilha, desvio de recursos federais e ocultação de bens, entre outros, o megaempresário Carlos Guilherme Lima foi preso hoje pela missão especial que investiga as atividades do crime organizado no Espírito Santo. A prisão preventiva foi decretada pela Justiça federal por entender que, em liberdade, ele representava um sério risco à sociedade.”  

Quando do assassinato de Maria Nilce a redação do Jornal da Cidade funcionava numa loja na Avenida Cezar Hilal e lá ficavam guardados “os jornais antigos”, como eram trivialmente chamados pelos próprios funcionários. O então invisível crime organizado era tido por “certos segmentos” como “invenção de algumas pessoas de esquerda” e nos tristes - política e socialmente falando - anos noventa seus principais atores reinariam absolutos sendo apontado em investigações o ex-deputado José Carlos Gratz como principal figura pública, ainda que outros indivíduos fossem eventualmente citados como os verdadeiros comandantes.

Após a inevitável derrocada do Jornal da Cidade em 1992 todo o acervo de jornais que estava arquivado em sua redação foi doado à Biblioteca Pública Estadual. Nada mais natural que o principal repositório de informações do Estado cuidasse e zelasse pela preservação do periódico que, inclusive, era fonte de pistas para a investigação da morte de Maria Nilce, afinal, em suas últimas colunas vinham sendo publicadas notas anunciando denúncias escabrosas contra poderosos antigos desafetos.

Numa decisão ainda nebulosa, tomada por alguém da própria biblioteca, em algum lugar entre o final de 2005 e o momento presente o único acervo do Jornal da Cidade de que se tinha notícia foi “descartado”. A antiga diretora da instituição Rita Cássia Maia foi interpelada por meio de uma mensagem eletrônica encaminhada também para várias autoridades e jornalistas e não deu qualquer resposta. Explicado seria que a mesma fora exonerada naquele dia - há algumas semanas - e, em seu silêncio, parece ter optado por deixar o abacaxi para a sucessora descascar.  

Apesar de ser funcionária antiga da Biblioteca Estadual a bibliotecária Nadia Alcure estava trabalhando a alguns anos na Faculdade de Música e quando voltou não conseguiu mais encontrar o acervo do Jornal da Cidade, a única coisa que disse poder afirmar a essa reportagem foi: “eu não estava aqui, infelizmente não sei o que aconteceu”. Denise, a bibliotecária responsável pelo setor de Hemeroteca, que cuida da organização de periódicos e revistas, disse lembrar do acervo, mas que por trabalhar no andar de cima, simplesmente não faz idéia de como pode ter desaparecido todo o Jornal da Cidade.

É provável, mas não comprovado, que o “descarte” do acervo do jornal tenha acontecido durante o período de reforma da Biblioteca Pública Estadual, quando, em função de modernizações e mudanças no espaço, muita coisa foi jogada fora como velharia. Enquanto edições antigas do Diário Oficial foram acolhidas pelo DIO, outras como de A Gazeta foram microfilmadas, o que nos leva a perguntar: por que essa preocupação em preservar um jornal já bem documentado pela própria empresa e jogar no lixo coleções únicas?

Talvez não tenha nada a ver, mas pode ser que isso venha um pouco do desprezo urdido e muito bem difundido pelos inimigos de Maria Nilce por tudo o que dissesse respeito a seu trabalho e à sua pessoa. A jornalista, após sua morte, só foi lembrada na mídia pelas polêmicas e por seu covarde assassinato. Poucos foram os que ousaram vir a público para defender ou fornecer uma visão pelo menos imparcial da trajetória de Maria como foi o caso de Carlos Benevides, Pedro Maia e Marcus machado, entre outros. Para denegrir não dá pra citar aqui, a lista seria grande demais.

Algumas pessoas que a própria Maria considerava como “amigos” estranhamente passaram a negar a ligação - talvez por medo, talvez por interesses financeiros - passando até a atacar publicamente a jornalista, difundindo a idéia - que persiste até hoje - de que: Maria Nilce falava demais, morreu porque provocou, procurou. Criminalizando a vítima, denegrindo sua memória e humilhando seus familiares e verdadeiros amigos. Foi o caso da imperdoável charge feita por Milson Henriques e publicada em A Gazeta no dia 12 de julho de 1989, uma semana após o crime.

 
Para quem não se lembra, Maria Nilce foi morta dentro de um ônibus tentando fugir de um dos dois pistoleiros que perpetraram sua morte na manhã de 05 de julho de 1989. Na charge vemos uma mulher passando a roleta de um ônibus vestindo uma camiseta com várias frases que, como no caso do ex-presidente do Banestes, oscilavam entre “pacifistas” e simplesmente rancorosas, especialmente a última: “Cuidado! Tudo na vida é troco. Você recebe o que dá.”

Este texto tem o intuito de denunciar e de divulgar publicamente mais um crime cometido contra o patrimônio histórico do Espírito Santo e de externar toda a indignação dos familiares de Maria Nilce e Djalma Juarez Magalhães e dos herdeiros de seus inúmeros colaboradores, muitos destes já falecidos, cujos textos diários agora sabemos perdidos para sempre. Seja lá o que aconteceu com o acervo do Jornal da Cidade - tenho agora poucas esperanças de voltar a ter notícias deste - espero apenas obter um dia uma justificativa plausível por parte do Secretário de Estado da Cultura e da direção da Biblioteca Estadual do Estado do Espírito Santo.