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sábado, 13 de fevereiro de 2016

EITA MAU COSTUME DOS DIABOS!

Sempre achei que era um cara muito bom em ouvir críticas, presto atenção e procuro melhorar, mas de uns tempos para cá sinto que um monte de coisas que eu achava a meu respeito caducaram. Por exemplo: sempre acreditei que me dava super bem com os gays e outras “diferenças”. De uns tempos para cá comecei a perceber que, apesar disso, ainda tenho preconceito sim e que não os respeitava realmente, integralmente, como deve ser. Os homoafetivos são pessoas comuns e não tem nada de extraordinário em uma pessoa ser o que ela é. O problema é que corrigir algumas facetas desse nosso “jeito de ser” é tão difícil quanto arrancar um dente sozinho.

Vou dar um exemplo besta que vai levar essa conversa para outro lado (respirem aliviados seus preconceituosos):

Estava apresentando a inauguração de uma Academia Popular e minha chefa chamou atenção para o fato de que eu falava “acadimia”. Foi uma crítica que na hora estranhei, pensei mesmo assim: “Qual o problema?” Depois entendi: ora, o problema é que não é assim que se pronuncia a palavra. Simples assim. Toca a aprender a falar direito “minino”! O pior é que havia umas quarenta “Acadimias” pra inaugurar e foi um baita exercício mental manter aquele “e” no lugar certo. Toda vez que ia falar era preciso repassar o “e” na cabeça, aí vinha alguém, me distraía, e quando eu ia ver tinha falado “acadimia” de novo.

Fiquei encafifado com aquilo: de onde será que saiu esse mau costume no meu jeito de falar? Será que é coisa da pronúncia do capixaba? Fiquei reparando e vi que a maioria das pessoas falava certo, menos eu, que me julgava tão lido e escrevinhado. Comentei a Zika com minha esposa que, muito condescendente e solidária, opinou que devia ser “coisa de velho”. Possibilidade que bem que podia me ter passado “dispercebida”. Passei a notar que eu falava muitas outras coisas com aquele mesmo “sutaque”, praticamente tudo. Falávamos nisso e na televisão passou uma cena antiga com Paulo Autran que mandou um sonoro “dipois”. Virei pra ela e falei: olha lá! E a rebatida veio certeira: “Num falei que era coisa de velho”...

Fiquei amuado feito um fedelho diante de um prato de buchada, mas “dipois isqueci” o assunto.

No final do ano, no auge da confusão dos playboys contra o Chico Buarque fiz uma singela declaração a seu favor no Facebook e teve gente que achou ruim eu “defender bandido”. “Que saco! – Pensei – A gente não pode mais nem ter opinião!” Só de vingança baixei a discografia todo do filho do “Doutor Progresso”. Um dia, indo pro trabalho, o “player” do celular tocou aleatoriamente a canção Olhos nos Olhos. Qual não foi a minha surpresa quando lá pelas tantas o Chico mandou um sonoro “bem mais e “milhor” que você”. Com a mesma acentuação da palavra milho. Pensei: Pô, mas o Chico pode...

E o problema é justamente descobrir que hoje em dia nem o Chico Buarque pode mais... Quanto mais eu.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

II CONCERTO BENEFICENTE DO ALGAZARRA ARTE CORAL




Com o objetivo de levantar recursos para adquirir uniformes de novos coristas e custear viagens para encontros de corais, o Algazarra realiza seu segundo concerto beneficente. É a primeira vez que o coro recebe o público de Vitória em sua casa, a comunidade do Itararé. Graças ao apoio da Faculdade de Direito de Vitória o grupo vai mostrar no Espaço Vitória um repertório variado com ingressos a preços acessíveis.

O Algazarra Arte Coral é muito mais do que um grupo de 40 jovens cantores. É um projeto independente de ensino de música e performance musical surgido no bairro Itararé, em fevereiro de 2011 e desde então é oferecido gratuitamente para o benefício dos jovens de vários bairros de Vitória e Serra. O grupo canta músicas do repertório clássico, folclórico e popular, já realizou inúmeras apresentações importantes no Espírito Santo e outros Estados do país como Minas Gerais e São Paulo.

Alice Nascimento é regente e fundadora do Algazarra, tem larga experiência em desenvolvimento de corais no segmento infanto-juvenil e uma longa história junto à comunidade da Grande Maruípe onde leciona há doze anos em projetos sociais. Participa como pianista acompanhador, entre outras funções, o escritor (Autor do livro Da Capo que conta a história da OSES) e músico Juca Magalhães (Ex-integrante da banda Pó de Anjo).

Numa parceria com a Prefeitura de Vitória, com indicação da Associação de Moradores do Itararé, o coro ensaia no auditório da EMEF Ceciliano Abel de Almeida e conta com o apoio do Instituto Unimed Vitória. Também incentiva o grupo o vereador Luiz Paulo Amorim que é morador do Itararé a mais de cinquenta anos. O Algazarra se mantém através de trabalho voluntário e economia criativa, contando com doações em dinheiro de padrinhos e madrinhas, realização de rifas e bazares e concertos beneficentes, como o próximo que vai acontecer no dia primeiro de agosto.

 
ALGAZARRA ARTE CORAL – CONCERTO BENEFICENTE
Dia: 01 de agosto 2015
Horário: 20hs
Local: Espaço Vitória - FDV
Endereço: Rua das Palmeiras, 500. Itararé
Preço: R$5,00 (Inteira Cinco Reais)
Maiores Informações: Juca Magalhães (27) 9 9942 9087 & Alice Nascimento (27) 9 9814 9906

 P.S. Recentemente o Algazarra foi notícia no jornal A Tribuna. A jornalista Rayza Fontes foi ao Itararé e constatou no discurso das pessoas da comunidade o impacto positivo, a identificação espontânea e o orgulho que o coral tem na vida, não só desses jovens capixabas, mas daquela coletividade.


sábado, 15 de março de 2014

PARA ENTENDER UMA PIADA NO MOMENTO CERTO MESMO QUANDO NO LUGAR ERRADO...



Eu não sei, mas alguém deve saber, onde começou a fama do baiano, enquanto indivíduo, ser o modelo preguiçoso do Brasil. Sei “apenasmente” que um dos principais ícones desse jeitão descansado sempre foi o mestre Dorival Caymmi, como bem relata Arnaldo Jabour: “O letrista compositor e intérprete baiano era conhecido como pai da preguiça. Passava 4/5 do dia deitado numa rede, bebendo, fumando e mastigando. Autêntico marcha-lenta, levava 10 segundos para percorrer um espaço de três metros. Pois mesmo assim e sem jamais ter feito exercício físico viveu 90 anos”. 

Henrique Cazes, em seu livro de causos musicais - “Suíte Gargalhadas” (Ed. José Olympio 2002) – conta que a cantora Cristina Buarque, irmã do Chico, foi a Salvador para algumas apresentações e depois da estréia tomou todas com os sambistas locais. No dia seguinte, estendida na piscina do hotel, amargava uma rebordosa de fazer inveja a Heleninha Roitman. Vendo os coqueiros em volta pensou: “água de coco é um santo remédio pra ressaca”. Chamou um rapaz que lhe mandou o peculiar: “tem não”. A cantora protestou: “Como assim? Olha esse monte de coqueiro!” E o rapaz apenas respondeu: “Ô dona, peça não”...

Encerrados os preâmbulos introdutórios, porque este é o tutorial de uma piada, passemos logo aos “finalmentes”. Domingo passado, tive a honra de apresentar o espetáculo Maria Maria em homenagem ao dia internacional da mulher no Theatro Carlos Gomes. Para quem não sabe, essa é uma produção muito bacana, protagonizada por várias cantoras e músicos da nossa praia capixaba e dirigida pela muito querida Simône “Diva” Devens. A cada ano o espetáculo aborda a obra de um compositor da nossa MPB e a bola da vez agora é o símbolo da baianidade conhecido por cantar a Marina morena e outras mulheres. Vai guardando...   

Baixei e saravei no Teatro no final da passagem de som e fui aos bastidores me inteirar dos detalhes para configurar o meu “script”. Lá me apresentaram a um rapaz muito solícito e explicativo que só não me disse o que e como eu deveria falar, porque isso eu já sabia, mas tem “gente que faz”. Ô se não tem... Em seguida me passou um microfone sem fio já com a luzinha verde acesa e tudo mais. As coxias da direita estavam tomadas por uma espécie de ala de baianas, algumas faziam orações e aparentavam o nervosismo de quem está prestes a pisar num palco importante. Quando finalmente soou o terceiro toque da campainha me dei como ok entendido e nem testei o microfone, caminhei tranquilo e confiado até o centro do palco...

A plateia estava quase lotada, mesmo ainda na penumbra as pessoas já haviam percebido minha presença. Logo veio de cima, do quarto ou quinto andar, um canhão de luz baixando em minha direção e para provar a máxima de que tudo que pode dar errado dá, assim que a luz banhou minha sonora silhueta, fui falar e o som não saiu. Sorri amarelo ovo, dei aquele tapinha no microfone e nada. Olhei de lado, o contra-regra desaparecera, mas não por muito tempo, logo havia um monte de gente correndo pra lá e pra cá e nada do microfone ligar. Nesse meio tempo o iluminador desligou o canhão de luz, aproveitei a deixa e fui saindo do palco de mansinho, as baianas estavam solidárias...

Dos dois lados das coxias os rapazes testavam outros microfones, o show contava com umas dez cantoras e tudo tinha parado de funcionar! No meio da confa ouvi alguém perguntar indignado: “Mas cadê o cara da mesa”? Pois é produção, no “house mix” não tinha ninguém. O “engenheiro de som” devia ter saído para fumar um cigarrinho justamente na hora do espetáculo começar e para impedir de algum futucador vir estragar seu trabalho desligara até o cabo da parede. É curioso como é comum acontecer desses desaparecimentos, não pode ser coincidência.

Depois do pânico e da correria ligaram-se os microfones e volto eu para o palco pensando, o cara de mesa deve ser baiano e foi nessa que me ocorreu a ideia de fazer uma pequena brincadeira...

- Boa tarde pessoal. Vocês viram que nós tivemos alguns problemas com o som, não é? – era possível ver várias pessoas na plateia concordando com o óbvio - Pois sabem o que aconteceu? – Pausa para criar suspense - É que o pessoal da produção descobriu que os microfones estavam ligados no modo Dorival Caymmi...

Quase ninguém riu Lombardi! Apenas uma sonora gargalhada ribombou lá de trás do teatro, era daquelas que o cara ri mais forte ainda quando vê que riu sozinho. Deve ter sido meu amigo Godinho, que vi de relance quando entrei apressado, querendo ser solidário com o apresentador. A ousadia de fazer graça com o homenageado não colou, mas não chegou a ser nenhum vexame. Emendei direto no texto e logo o palco estava repleto da música do Caymmi e de alegorias baianas. Piada boa a gente não tem que explicar, sabe? Mas quem sabe com essa pequena croniketa de domingo eu não consigo ao menos iluminar um sorriso preguiçoso no canto dos lábios de vocês...

Juca Magalhães escreve todo domingo para o blog A Letra Elektrônica, é autor do Livro do Pó e da Biografia da Orquestra Sinfônica do Espírito Santo, intitulada Da Capo. Também é Mestre de Cerimônias da Prefeitura de Vitória e apresentador oficial de quatro edições do Festival de Inverno de Domingos Martins.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

A IMPORTÂNCIA DE UM LINDO RÉVEILLON



Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar;
                                                                           Eclesiastes 3:1 e 4

Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu
Eclesiastes 3:1

A festa de Réveillon 2014, promovida pela Prefeitura de Vitória na Praia de Camburi, foi uma das mais bonitas dos últimos anos. Pena que as televisões e jornais tenham dado mais destaque a um único episódio de tiroteio do que à ótima programação de shows, formada exclusivamente por artistas do Espírito Santo, a apresentação do Pixx Flux e da queima de fogos. É curiosa e me soa provinciana essa onda austera do capixaba, a renitente valorização da “seriedade” em detrimento da “alegria” e isso parece influenciar a maneira como a mídia circula as notícias. Fora isso a festa da virada foi muito elogiada e olha que quando houve o anúncio oficial de que o “réveillon” estava mantido na capital muita gente criticou, disseram que – por causa das recentes catástrofes - não era hora de fazer festa, que era desrespeito.

Show do Bloco Bleque, imagem por Gustavo Macako
 “Na boa”, uma coisa é lamentar as perdas e sermos solidários para com nossos irmãos que estão passando por sérias adversidades – e o espírito voluntarioso do capixaba ficou mais do que claro durante esse episódio – outra coisa - igualmente importante - é a celebração da vida! Internacionalmente a festa de ano novo tem significado de renovação, de recomeço, de um novo ciclo retomado com esperança. Será que não existem benefícios na alegria? Um sentimento gregário que é tão importante. A alegria ajuda a curar as feridas da alma e a reencontrar a felicidade, não fora assim, o que dizer de grupos como os “Doutores do Riso”?

As grandes cidades do mundo celebraram a passagem de ano, os noticiários mostraram a festa em Salvador, Nova Iorque, Paris etc. São metrópoles que têm seus desafios, seus dramas e suas catástrofes. No Rio de Janeiro rolou um baita tiroteio, mas a reportagem carioca focou na beleza da festa. A parcela mais pobre da população sofre mais e são justamente os que mais se divertem nas festas populares, além de sempre dar um jeito de faturar algum. Em função das tragédias neste final de ano as cidades de Cariacica e Vila Velha cancelaram seus Réveillons. No palco da festa em Vitória apareceu uma menina chamada Ladislaine que, vinda de Cariacica em companhia da mãe e da avó para catar latinhas, acabou por se perder na multidão.

Uma das razões para que se mantivesse a festa em Vitória foi a sua evidente importância para movimentar o turismo e o comércio, curioso como o trivial episódio da pequena catadora de latinhas é emblemático dessa necessidade, não só do dito “burguês capitalista”, mas do povo que se vira como pode. A destruição é um fato, já aconteceu, é preciso reconstruir e a festa de ano novo vem justamente reafirmar a esperança de que tudo vai melhorar. No ano novo somos tomados pelo ímpeto de repetir rituais que presenciamos desde a infância, espocar um champanhe, jogar flores para Iemanjá, vestir branco ou amarelo, pular sete ondinhas no mar ou congregar com um grupo religioso. Será que agora alguém ousaria negar isso às milhares de pessoas que ocuparam os cinco quilômetros da praia de Camburi? Eu preciso duvidar...

A dimensão da festa de Vitória, foto de Yuri Barichivich