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domingo, 17 de maio de 2015

MARIA NILCE É HOMENAGEADA NA PEÇA INVEN7ARIO



Lilian Casotti revivendo a beleza de Maria Nilce

Na quarta-feira que vem, dia 20 de maio, será reapresentada a peça INVEN7ÁRIO. Espetáculo apresentado pela Companhia de Teatro da Fafi, com direção artística e dramaturgia de Leonardo Patrocínio e um elenco de jovens atores que estavam se formando quando da primeira representação que aconteceu no Theatro Carlos Gomes no dia 16 de dezembro do ano passado. O grupo teve coragem de, pela primeira vez, resgatar um pouco da trajetória da colunista Maria Nilce Magalhães. Fui até o Facebook para recuperar meus comentários da época:

Foi muito emocionante a estreia da peça Inventário, ontem à noite no Theatro Carlos Gomes. Um resgate histórico do jornalismo e da literatura capixaba nos anos 1970, com destaque para as figuras femininas como Lacy Riberio, Bernadete Lyra, Carmélia e Maria Nilce Magalhães, entre outros e outras. O que eu gostei mais no teatro foi sentir a admiração das pessoas, a vontade de reviver Maria Nilce e aquela época quando nossa ilha era "muito doida"... O grupo mostrou muita garra num texto de tema forte, reproduziram o tom de indignação que tenho sufocado na garganta há décadas, só por isso já valeria ter estado lá para os assistir, mas teve muito mais. Cenas delicadas e bonitas como quando recitaram um trecho do poema Desespero do livro “Eu, Maria Nilce”, nessa hora eu chorei que nem criança.

"Morrer...
Nunca mais ver Maio com seus amores
Nunca mais ver junho com seus balões
Nem a primavera repleta de flores.
Morrer...
Não mais ter para mim um verão quente
Muita luz, as praias repletas de gente
A alegria que só o verão pode trazer.
Morrer...
Não mais dirigir meu carro
Em disparada louca pelas estradas
Numa alegria sem fim"...

Nessa hora me bateu uma sensação inesperada de orgulho pelas palavras ingênuas deixadas por minha mãe lá nos anos 1960 e agora valorizadas com aquela interpretação sensível do grupo ali no palco do Carlos Gomes, 25 anos depois de sua morte, idiota e covarde do jeito que foi. Alice Nascimento me viu soluçando e segurou minha mão, por tudo o que acontecia, de repente eu tive uma sensação muito legal de que não estava mais sozinho...

INVEN7ARIO: dia 20 de maio (Não percam! É só essa representação)
Local: ALDEIA SESC ILHA DO MEL 2015. (Antigo Teatro Glória)
Horário: 19:00h.
Os ingressos serão vendidos uma hora antes do início da peça, valores:

R$ 4,00 INTEIRA
R$ 2,40 CONVÊNIO/COMERCIANTE
R$ 2,00 MEIA ENTRADA/COMERCIÁRIO

Centro Cultural Sesc Glória
Av. Jerônimo Monteiro, 428, Centro, Vitória.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

CONTRASTES E CONSIDERAÇÕES SOBRE EDUCAÇÃO

- Tive com o Miranda hoje, disse que tá arrependido do que fez... Tem mais de ano que eu tenho tentado fazer o Mirosmar...

- Chega Francisco!

- Então fala pro seu filho que ele vai fazer faxina! É isso que você quer? Fala pra ele! Ele vai fazer faxina!

Diálogo do Filme “2 Filhos de Francisco” (em 1:02:40)  
Breno Silveira

Nessa cena do filme “2 Filhos de Francisco – A História de Zezé de Camargo e Luciano”, está retratada uma das mais dramáticas questões sociais do Brasil: o que fazer para apoiar nossas crianças talentosas? Percebemos por parte do Estado um esforço pela Educação “para todos” e programas voltados para o assistencialismo, tanto que várias ações estão obrigatoriamente focadas no atendimento de um determinado perfil de “risco social”. Espremido entre a dita “classe alta” e os que vivem na linha da extrema pobreza está o grande bolo de brasileiros. O que é feito deles? Para estes são vendidos “sonhos”. Na propaganda do Governo muito do que deveria ser básico é tratado assim: o sonho da casa própria, do primeiro emprego, do carro zero e por aí vai.

Faz pouco tempo um especialista disse na TV que nosso ensino é de má qualidade e que não temos bons professores, enquanto outros reclamam no Facebook que nossos professores não são valorizados e que os alunos não querem nada com nada. Eu, que voluntariamente leciono música, percebo que uma parcela do problema é a histórica desigualdade social causada pela concentração de renda e outra parte é o gigantesco “custo Brasil” que sequestra do trabalhador brasileiro não só o salário, mas o tempo para se dedicar ao estudo. Um grande contingente de estudantes, aos 14 anos, já integra projetos – que de certo ponto de vista são até importantes - como o “Menor Aprendiz”, mas a maioria segue a adolescência dividindo escola com o estágio e outros empregos, fora isso têm a vida pra viver... 

Todo mundo sabe que para ser excelente em alguma profissão é preciso muita dedicação e persistência, dois atributos que carecem de condição social. Com talento ou não, um bom atleta, um cientista ou um bom músico precisam de tempo para estudar e descobrir seus limites, dar forma ao seu potencial. No Brasil essa condição é negada aos jovens que não são ricos e a culpa é geralmente colocada neles mesmos, acusados de preguiçosos, como o foram os escravos. Como já dito, a esmagadora maioria das famílias brasileiras convive com um custo de vida dos mais altos do planeta, vive no limite de seus recursos financeiros, de maneira que o jovem, mal entrou na adolescência, é compelido a contribuir com o orçamento da casa.

Vemos um esforço e um grande investimento do Estado e dos “projetos sociais” voltados para o atendimento e a recuperação da parcela desviante da sociedade como os criminosos ou os viciados em drogas. Um psicólogo que militou bastante em projetos sociais estava me dizendo que o número dessa população é pequeno comparado com a esmagadora maioria que é formada por gente de bem, de trabalhadores e é nesse grande bolo que temos inúmeros talentos desperdiçados. Então, o grande drama de quem ensina é ver potenciais que não se desenvolvem, porque na hora em que deveriam estudar estão trabalhando e só lhes resta estudar nos momentos que teriam para descansar.

Todo mundo sabe que para o estudo render é preciso disposição e tempo: tempo para entrar no ritmo do estudo, tempo e recursos para pesquisar, tempo para assimilar o que se estudou. Dar condição para o jovem estudar deveria ser algo tratado como prioridade, mas essa não é ainda a nossa realidade. É muito triste lidar com gênios potenciais e perceber que o drama em suas vidas não é o perigo de se envolver com drogas, prostituição ou criminalidade: é o destino do subemprego. É saber que aquele vigia do supermercado poderia ser um ídolo do atletismo ou que aquela tímida servente da lanchonete poderia estar tocando em alguma sinfônica.

Muito provavelmente, a apatia dos alunos em sala de aula da qual os professores se queixam, seja cansaço mesclado à indiferença; porque sabem que as chances de realizar seus sonhos são mínimas. Os próprios professores vêm já de situação semelhante, são pessoas que sentem que “mascaram”, que poderiam ter “brilhado” e ficaram pelo meio do caminho, alguns falam desse sentimento com culpa. Mas essa culpa não pode ser individual, porque parece que a sociedade brasileira se formou para dar sustentação ao fracasso e ignorar o talento. Não é à toa que aqui todo empreendedor é visto como um visionário, da mesma maneira que os pais dos meninos “Di Camargo” foi visto como “maluco”. Querer vencer no Brasil é sinônimo de insanidade mental.

É claro que uma ação voltada para um bolo maior da sociedade e não para uma pequena parcela em situação de risco custa muito caro, portanto àqueles resta a opção de “se virar”. Ironicamente, o fato de alguns sujeitos de notável persistência conseguirem vencer acaba por reforçar o caráter onírico do que deveria ser realidade e a ilusão de igualdade de condições de jogo para todos. Porém, nada seria mais justo do que investir no talento dessa juventude sacrificada, que vive num país em que os impostos batem na casa do trilhão à custa do esforço de milhões de trabalhadores, de gente de bem que de noite compra sonhos na TV e de dia vive a dura realidade.

Desigualdades sociais sempre vão existir, o comunismo é uma utopia e, antes que alguém o diga, também acho que todo trabalho honesto é digno e importante. Porém, é preciso pelo menos tomarmos plena consciência da perversão social do Estado Brasileiro, porque somos nós que podemos almejar virar esse jogo. Sobre esse assunto, recomendo a leitura do texto sobre a vida na Holanda no link a seguir: http://caiobraz.com.br/da-relacao-direta-entre-ter-de-limpar-seu-banheiro-voce-mesmo-e-poder-abrir-sem-medo-um-mac-book-no-onibus/

É muito interessante e esclarecedora também a palestra do professor de História da USP Leandro Karnal sobre a vaidade, o orgulho e a ascensão do homem efêmero.