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quarta-feira, 21 de agosto de 2013

ANTES DE DESTRUIR GUITARRAS



Lembro de ter quadrinhos nas mãos antes ainda de aprender a ler, especialmente uma revista em preto e branco do Homem Aranha, acho que foi a minha primeira. Meu pai a comprou para mim numa banca que tinha na Reta da Penha, no mesmo lugar que tem uma até hoje, em frente ao Boulevard da Praia, só que naquela época ali ficava a Maternidade São José, do Dr. Arnaldo Ferreira. Pode até ser que papai estivesse na banquinha fazendo hora comigo, olhando os jornais, por conta do nascimento de minha irmã mais nova ou do filho de algum parente.

Nós morávamos numa casinha de dois andares – o que as pessoas chamavam de “sobrado” - na Rua Aleixo Netto pelo lado de Santa Lucia, onde hoje ainda funciona a clínica Pape Praia. Moramos lá até os meus doze anos, ou seja, toda minha infância. Nossa casa ficava quase na esquina com a Reta da Penha que na época era ainda pavimentada com paralelepípedos e eu adorava essa palavra, gostava de repeti-la, sílaba por sílaba: PA-RA-LE-LE-PÍ-PE-DO! Eu a achava grande e “sonora”. 

 
Me vejo folheando a revistinha, deitado no tapete felpudo do quarto onde papai costumava ouvir seus discos. Meus pais gostavam de música de maneira diferente. Papai gostava de curtir a música, mamãe gostava da música como curtição. Os balõezinhos me intrigavam, minhas irmãs que já sabiam ler diziam que havia conversas ali e eu ficava doido para entender. Havia movimento nos saltos que o Aranha dava, na teia que ele lançava, na paixão que tinha pela Gwen Stacy. Lembro de não ter gostado quando ele acabou casando com a Mary Jane, Gwen era loira e eu, que vivia num mundo de morenas, achava as loiras o máximo.

 
Eu vivia tanto agarrado com as revistas em quadrinhos – que os mais velhos chamavam de “Gibi” – e queria tanto ser também um “super”, que os amigos de papai me chamavam de “Super-Juca”. Quando alguém me chama assim, até hoje, quase saio voando e arrebentando janelas. Fiz isso uma vez, tomei vários pontos na perna, foi um rebu porque meus pais estavam viajando e quem me socorreu foi o Tio Chico, mais conhecido como Doutor Tertuliano, pediatra de toda uma geração de capixabas.

Sábado passado fui a um evento no centro da cidade e acabei passando na banca de revistas do Zenor, uma espécie de sebo que fica atrás dos Correios, quase em frente da Estação Porto. O cara me reconheceu, apesar dos anos que vão passando, e me chamou de “menino” como sempre fez, ainda reclamou que eu estava sumido. Ah o tempo é um sacana, um moleque, a gente quase nunca dá conta dele ou consegue fazer o que se quer. Folheei as dezenas de opções que tinha lá: Vingadores, Homem-Coisa, Super-Tudo.

Zenor estava para fechar a banca, mas ficou satisfeito de ver um cliente antigo, sentou em seu banquinho atrás do balcão e ficou “puxando conversa”. Disse que os tempos estavam difíceis, que não entrava mais nem um menino ali para comprar um Homem-Aranha, um Wolverine, um Batman que fosse! Para ele estão todos pela Internet ou enfiados nos jogos de computador. Sorri solidário e surpreso com aquela notícia triste, muito triste. O que seria do mundo sem a crença nos Super-Heróis?

 
Passei a mão numas revistas dos Vingadores, uma série nova – pelo menos para mim – chamada “A Essência do Medo” e comprei o arco com os primeiros oito números. Não fiz isso só para animar o meu antigo fornecedor de aventuras inesquecíveis, nem o fiz pelos velhos tempos que não voltam mais. Fiz, porque, lá pros lados do cemitério das guitarras destruídas, aquele menino que o Zenor falou - e que me anda esquecido em algum lugar - sente uma falta danada de mim também.

quarta-feira, 20 de março de 2013

FORÇA MARCO ORTIZ, VIVA O RESTAURANTE SOL DA TERRA!



Depois do capixaba amargar um calor tão intenso e prolongado que muita gente nem lembrava mais qual seria a sensação de sentir frio; depois de vermos nossa conta de energia elétrica triplicar para evitar o cozimento durante as noites escaldantes desde novembro do ano passado; quando chega a tão anunciada “Frente Fria” - que de frio muito pouco teve até agora - desaba uma tromba d’água tão violenta que parecia pirraça de algum funcionário de alto escalão. Agora vocês vão ver só...


O povo pode até pensar resignado que já se tornou comum esse infortúnio para milhares de pessoas na Grande Vitória e em vários outros lugares do país. Afinal, enquanto essas tragédias se tornam corriqueiras - chove = alaga, mas antes eram raras – muita gente no Facebook aproveita para dar lição de moral dizendo que é isso o que ganhamos quando jogamos o lixo nas canaletas e que nossa falta de preocupação ambiental e senso de cidadania é que põem tudo a perder.


Outros mais poéticos e bossanovísticos lembram que “são as águas de março fechando o verão”. Promessa de vida só em nossos corações mesmo...


Agora como é que pode, me dê licença de perguntar, com tanto estabelecimento falcatrua que vende carne, inclusive, de cavalo, ou outros lugares que poderiam muito bem tomar um sacode do destino, por que cargas d’água – aliás, literalmente - a dona “natureza”, ironicamente, “vem com tudo em cima” e varre do mapa um dos poucos restaurantes naturais da cidade?


Certa estava Maria Nilce quando dizia que esta ilha é muito doida...


Para quem não sabe, ontem (19 de março), um deslizamento de pedras e terra varreu do mapa o restaurante vegetariano Sol da Terra, que funcionava na região conhecida como Gruta da Onça, um dos pontos turísticos mais visitados de Vitória. Felizmente o proprietário, o médico naturista Marco Ortiz, e seus filhos conseguiram escapar à tragédia e se recuperam do baque prometendo retornar com um restaurante ainda melhor. Amém!

terça-feira, 5 de março de 2013

TEM OUTRO HOMEM NA JOGADA



A separação é uma tragédia muitas vezes parecida com a morte e ainda periga o fantasma aparecer pra te assombrar de verdade, afinal, aquela pessoa que você um dia tanto amou não “se foi” para sempre... Está ainda por aí a arrastar correntes.

A especulação é uma das piores coisas quando o amor acaba.

Os familiares, os amigos, os conhecidos, o porteiro do prédio precisam entender o que aconteceu, ou, em muitos casos: “o que foi que você aprontou dessa vez”...

Pior do que a própria tragédia é a vida que “não diz respeito ao senhor ninguém” se tornar assunto público.

Alguns sentem pena e encontram conforto próprio porque se imaginam boas pessoas, solidárias. Outros encontram prazer em fuçar – como um espírito de porco - a dor e o sofrimento alheio e conversar sobre aquilo e emitir opiniões, muitas vezes cruéis.

Quando não é no seu que está doendo a tendência da moda é assumir discurso pragmático: Morreu, enterra. Acabou, esquece. Sai dessa água jacaré (seu pai gostava de falar isso) e também o famoso: “levanta sacode a poeira e dá a volta por cima”!

E as mulheres? Ah! As mulheres...

Observadoras e intuitivas, sempre pescando aqui e ali as miudezas. As mulheres logo descobrem quando e para qual lado foi que a casa caiu.

- Deve ter outro homem na jogada...

- Como é que você sabe?

- Por que o que você está me contando não faz nenhum sentido.

O aborrecia a ideia de não ser capaz nem de ter dado cabo ao próprio casamento, tinha que vir alguém de fora e fazer o estrago. Pois, no final, sua amiga estava redondamente enganada. Não havia nenhum “outro homem na jogada”...

Havia outra mulher.

Preferia mil vezes que fosse um cara, não por ser homofóbico ou algo assim, mas porque quando a notícia explodiu o que já era uma dolorosa separação virou um furdúncio. Coisa que feria acima de tudo o seu caráter reservado, pacato, seguidor dos bons costumes. Gostava de ir a lugares públicos com a esposa e a apresentar como fora um artefato raro e exclusivo: é minha mulher, sabe?

E agora?

Em busca de conforto espiritual encontrou o pároco de sua igreja muito curioso e investigativo, metaforicamente revirou seus bolsos atrás de coisas bestas ou inimagináveis, por exemplo, se sua ex era também usuária de drogas.

- O que uma coisa tem a ver com a outra?

- Ora - dizia confiado com a mão gordinha repousada sobre sua coxa – essa gente que de repente vira sapatão é capaz de tudo...

Simples e inverossímil como se o mundo pudesse mesmo se transformar numa canção dos Secos e Molhados e o que ele conhecia até então como vida real bailasse com corujas e pirilampos entre os sacis e as fadas...

Praguejava e telefonava para os amigos, teve daqueles que dispararam sonoras gargalhadas achando toda aquela desgraça terrivelmente engraçada, depois queriam saber detalhes picantes, excitados com um caso inusitado entre duas garotas.

Passou uma borracha e recomeçou do rabisco, tinha perdido o sentido do que queria dizer.

Muitos anos depois estava em outra história e descobriu que nada daquilo fora da maneira que pensara, descobriu também que as coisas no mundo são bem assim: a nossa vida, a vida dos outros, apenas aparências e especulações.

Sua ex-mulher não era o que pensara antes e o que fora depois também não o era. O pároco, os seus amigos e o porteiro do prédio se importavam de verdade com o que lhe acontecera, mas percebiam e traduziam as coisas sob a perspectiva própria de suas novelinhas e ficções, seus campeonatos disso e daquilo.

Aceitou então sua vida como parte da novela do mundo, aquela coisa besta que preenche e empresta sentido às pessoas que existem...

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

FUGA PRA DEBAIXO DO NARIZ


"Então, Calebe fez calar o povo perante Moisés e disse: Eia! Subamos e possuamos a terra, porque, certamente, prevaleceremos contra ela".

Números Cap. 13, v. 30.

No dia 04 de fevereiro de 2013 a polícia capixaba divulgou a notícia da prisão de José Alayr Andreatta, réu condenado em todas as instâncias judiciais como mandante do assassinato da jornalista Maria Nilce dos Santos Magalhães, ocorrido em 05 de julho de 1989. As surpresas dessa prosaica captura foram muitas, afinal, Andreatta estava foragido desde julho do ano passado e - muito longe de se esconder em alguma caverna no Cazaquistão - curtia uma espécie de aposentadoria em Jardim da Penha, bairro praiano, considerado nobre na cidade de Vitória.

Atentem para o detalhe irônico na camiseta "submarina" que Andreatta usava no momento de sua prisão. É ou não para pensar que o sujeito "estava mergulhado"? (Imagem da TV Gazeta-ES)




A reportagem anunciando a prisão de José Alayr Andreatta, veiculada na 2ª Edição do telejornal da Rede Gazeta, afiliada Globo no Espírito Santo, adotou um ar curiosamente respeitoso para com o foragido da justiça. Mesmo tom distante e asséptico, é bom dizer, adotado de maneira geral pela mídia capixaba com relação ao caso Maria Nilce ao longo do tempo. O repórter tratou Andreatta como “empresário” e disse que a prisão fora “por acaso”. Afirmação que passa subjetivamente – sem intenção talvez - a ideia de que o empresário fora preso “por engano”. A frase foi a seguinte:


O empresário José Andreatta foi preso por acaso, ele saia de um supermercado no bairro Jardim da Penha em Vitória, quando foi reconhecido pelo delegado Danilo Bahiense.


Nem é preciso ler nas entrelinhas que, apesar de foragido, Andreatta não era necessariamente um perigoso bandido procurado, tanto que há meses morava despreocupado num bairro bacana e super populoso. Na questão da captura, o trabalho da polícia tem todo o mérito, mas o “esconderijo” do meliante surgiu através de uma denúncia anônima. Logo em seguida o repórter fornece um resumo do caso, mas bota resumido nisso, com o seguinte arremate:


O empresário José Andreatta foi apontado como mandante do assassinato, foi a júri popular em 2006 e condenado a 13 anos de prisão. O empresário recorreu da sentença em liberdade, mas teve todos os recursos negados. Não havendo mais possibilidade de recorrer, a justiça mandou prender.


Eu estou ficando maluco ou essa frase dá a entender que o homem foi preso por uma espécie de  implicância da justiça? Ora, ainda em 1989 a polícia federal apurou que esse tal Andreatta fretara o voo que dera fuga aos pistoleiros que mataram Maria Nilce e reuniu inúmeras outras provas de que o mesmo participara ativamente da articulação do crime enquadrando-o como mandante. Acontece que, com o chamado “amplo direito de defesa” - entenda-se, mais de vinte anos de recursos e apelações - o criminoso não havia sequer cumprido um dia na prisão. Somente em 2006 (!) José Alayr Andreatta foi julgado e condenado a 13 anos de cadeia. A reportagem prossegue dizendo que o mandato de prisão fora expedido em julho de 2012 e que "o empresário, na época, não foi encontrado".


Pois bem, foi se esconder debaixo do nariz da sociedade capixaba, entenda-se, o cotidiano nada clandestino dos botecos e supermercados de Jardim da Penha. Era mais um entre os inúmeros “tiozinhos gente boa” que frequentam o Pezão e o Bar dos Coroas. Ontem um conhecido meu, dono de um bar em Bairro República, disse que tomou um susto quando viu a notícia. Reconheceu Andreatta como frequentador regular de seu estabelecimento, inclusive, na companhia de policiais.  


Outra coisa curiosa são os comentários do delegado durante a reportagem, porque - sei-lá-porque - deram a entender que o Andreatta seria um coitado, vivendo em um apartamento minúsculo e dependendo da ajuda financeira de amigos. Será que era então para ter pena dele? O pior é que ninguém deu conta de explicar quem eram esses tais que ajudaram o empresário em sua doce clandestinidade pública. E, quinto parágrafo: quando foi que acobertar foragido da justiça deixou de ser crime?


Para colocar a cereja no bolo, o repórter abre o microfone para que o “empresário”, após tudo descrito aqui, tenha nova oportunidade de balbuciar sua inocência no telejornal de maior audiência do Espírito Santo.


Não tinha motivo nenhum pra matar, dentro do processo não tem uma prova, não tem nada contra mim. Eu nunca tive... Num fui condenado nada. Por que ia matar essa mulher?


O homem parecia desorientado, o que é natural quando a casa cai, enquanto isso o repórter explicava que “para a justiça José Andreatta mandou matar Maria Nilce por vingança”. Vem então o delegado Danilo Bahiense que, aliás, merece todo nosso respeito e admiração pela prisão deste assassino, reproduzir involuntariamente as velhas lorotas ditas por Andreatta no estilo do crime organizado que tem a notória prática de transformar a vítima em réu para justificar covardias e atrocidades.


Ele disse que a jornalista extorquia alguns empresários e estava querendo extorqui-lo também e ele não aceitou. E ela acabou divulgando de que ele teria se casado com um travesti naquela ocasião. Segundo consta esta teria sido a motivação.

Neste momento está entendido o crime, certo? Defesa da honra, só para justificar o último argumento, porque os anteriores são mentiras cabeludas, mas nada disso foi explicado para o público; foi, isso sim, veiculado impunemente, torno a dizer, no televisivo de maior audiência do Espírito Santo. Alguém pode explicar qual era a empresa poderosa que esse senhor Andreatta era dono em 1989 que mereceria o achaque da colunista social de maior importância e, ela sim, uma empresária bem sucedida, proprietária do segundo maior jornal de circulação diária na cidade de Vitória?


Em suma, todo o episódio dessa reportagem absurdamente desrespeitosa para com a memória de uma pessoa assassinada a sangue frio num caso que chocou o país é apenas a prova de que temer, respeitar, dar ouvido e até razão a “alta bandidagem” é ainda algo bastante trivial na sociedade capixaba. A culpa não é do repórter, nem é dos entrevistados. A criminalização de Maria Nilce, e de muitas outras vítimas de casos escabrosos, começa lá atrás e tem a ver com a corrupção de muita gente respeitada, temida e considerada “importante” no Espírito Santo. E a grande mídia - por pressão, influência e sobrevivência - com estes sempre foi conivente e condescendente.


José Alayr Andreatta foi julgado e considerado culpado, que cumpra sua dívida com a sociedade. Porém, é bom lembrar que as investigações da polícia federal o consideraram um “peixe pequeno” e que havia indícios do envolvimento de gente bem acima dele na hierarquia do “crime organizado” no Espírito Santo. A promotoria da época lamentou o fato de não ter sido possível chegar aos maiores financiadores do crime escabroso que vitimou Maria Nilce. Somente com muito custo conseguiram indiciar alguns dos operativos, os homens de campo e, ainda assim, só agora, quase vinte e quatro anos depois, um deles foi parar na cadeia. Agora, nos resta ainda saber se o "empresário" vai ficar mesmo por lá...


Segue o link da reportagem da TV Gazeta comentada acima, para que todos possam julgar a partir de sua própria percepção:




Para quem não sabe nada do crime que vitimou Maria Nilce Magalhães segue reportagem publicada no prestigioso site do Proyeto Impunidad que denuncia o assassinato de jornalistas na América Latina:




E segue outro texto de Juca Magalhães sobre o assunto, publicado no site Observatório de Imprensa, tido como o mais importante sobre jornalismo no país.



http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_o_ultimo_crime_contra_o_jornal_da_cidade