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sábado, 7 de maio de 2016

MARIA NILCE MAGALHÃES POR MARCOS TAVARES

Para lembrar o Dia das Mães, com carinho e saudades.
Texto publicado em “capítulos” no Facebook no início de maio de 2016.

“A vida se perpetua
mesmo nos putrefatos restos
quando o ser se anula.
Entre odores e microorganismos,
noutra forma de existir,
a vida se reorganiza”.

(in Gemagem, pg.52. Datado de 17-01-1978)

Nona filha de Tertuliano Tauribio dos Santos e Ana Cleta dos Santos, nasce na fazenda Fundão dos Índios, no Distrito de Timbuí (Fundão, ES), em 23 de Julho de 1941.

Então moça simples, mas bela sempre, aí a conhece o já renomado jornalista [ Djalma Juarez Magalhães ], com quem casa em 1961, logo indo para Vitória(ES), berço dos filhos Fernanda, Milla, “Juca” e Paloma.

Nomeia-se apenas “Maria”. Em 1967, precursora, no jornal A Tribuna passa a redigir coluna social intitulada MSM.

Sua forte personalidade exerce magnetismo, fascínio, admiração, até em ícones da então vigente inteligentsia: Amylton de Almeida, Rogério Medeiros, Glecy Coutinho, Carmélia M. de Souza, Xerxes Gusmão, Mariângela Pellerano, Fernando Tatagiba, Marien Calixte, Marcos Alencar, Milson Henriques.

Muitos desses são revistos na peça teatral Inven7ário – o fim de uma época, que, realizada por alunos do Curso de Teatro (FAFI, 2014), traz à cena a efervescente década de 70. Maria Nilce é, assim, com justeza, encarnada pela atriz Lilian Casotti.

Mesmo avessa a churrasco e cerveja, é bem sucedida em filantropia: festas beneficentes quebram marasmo da então pacata Ilha, fosse almoço para guardas de trânsito, fosse para arrecadar fundos a asilo ou orfanato.

Também detestando futebol, vai a estádios, a ginásios esportivos, ocasiões de festival de música, plateia de pé a gritar o seu nome, empunhando faixas, a jogar confetes.

Promove desfile de modas e deles participa como jurada (até de concurso de Miss Espírito Santo). Em evento no Ginásio do SESC (Parque Moscoso), multidão entoou-lhe o clássico “Ave Maria”. Apoteose já em vida.

Versátil, na TV Vitória produz e apresenta o programa “Coisas e Gente Muito Importantes”. Primeira jornalista a surgir, em nível nacional, na “telinha”, integra júri do “Hora da Buzina” (TV Globo) apresentado por “Chacrinha”.

Feminista em boa dose, Dia Internacional da Mulher jamais lhe passa em branco: para mulheres pobres promove suculento almoço.

Rebelando-se contra um colunismo só bajulador das elites, em sua coluna inicia Maria Nilce uma espécie de vertente “informativa”, propositiva até, na qual a seguem outros notáveis quais Jorginho Santos, Nirlan Coelho, Tao Mendes, Carlos Vaccari, Geraldo Bulau, Cesar Viola.

Espírito irônico, irreverente, é endeusada e, também, satanizada. Atrai leitores ávidos em saber vícios, virtudes e vicissitudes das personalidades capixabas de maior relevância.

Em 1986, crianças de Dores do Rio Preto (ES) remetem-lhe um abaixo-assinado contra matança de cães e gatos, por misterioso envenenador, e sua coluna [ no Jornal da Cidade ], com nota solidária, brada indignação.

Com predicativos para ser mais uma “dondoca” colunável, renuncia às facilidades e futilidades cotidianas e, por crença quase cega, idealista, opta pelo mais difícil trajeto, em que tanto espinhos quanto rosas colhe.

Assim encerra sua vida terrena: tomba atingida por cinco projéteis plúmbeos. Pistoleiros cumprem empreitada de gente poderosa e influente, alvo de sérias denúncias: de escusos negócios, de contrabando até.

Fato deu-se na manhã de 5 de Julho de 1989. Reafirma relatório da Polícia Federal a CPI do Narcotráfico, que aponta autores e mandantes.

No Newseum, memorial nova-iorquino a jornalistas que, mortos por retaliação ao ofício de noticiar, acabaram por virar triste notícia, nome de Maria Nilce consta.

Marcos Tavares é um capixaba da gema do ovo. Teimoso como muitos destes ilhéus, insiste (felizmente) em escrever contos e poemas que vêm sendo publicados desde 1987. Segundo “justificativa” de seu livro Gemagem “a preocupação com a linguagem formal é uma de suas características, é considerado um dos mais representativos poetas capixabas a despontar nos anos 1980”.´

Marcos Tavares (na ponta esquerda) com Elpídio Sant'anna e Juca Magalhães

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

DEMÔNIO ENTRE OS DEMÔNIOS


Na primavera de 1978 o escritor José Carlos Oliveira (1934-1986) veio se esconder em Vitória para tentar dar um tempo das esbórnias no Rio de Janeiro. Ficou hospedado na residência oficial do Governador do Estado, seu dileto amigo Élcio Álvares, por quem tinha grande respeito. Vide o que diz na página 103 de seu Diário Selvagem:

“Élcio se deitou na cama ao lado da minha às 21h e percebi sua ansiedade. (...) ele morre de medo de voar. (...) Decidido: se for só, irei com ele para lhe dar apoio moral. É o mínimo que posso fazer por esse amigo que desde os 15 anos se mostra psicologicamente cristalino. O bom e honrado rapaz (...) ele guarda as virtudes da adolescência (...) cego e surdo à malícia, à perfídia, à natureza maligna do outro. Desconheço de que maneira se esgueirou entre os demônios em Brasília e alcançou o Palácio Anchieta contra toda expectativa.

Carlinhos diz não saber, mas – pág. 122 - acabou fornecendo uma pista para responder esta questão:

“Atenção: D.J.M., marido de M.N. e preterido pelo Élcio quando desejava ser vice-governador, é agente do SNI ou DOPS ou DOI-Codi, ou tudo ao mesmo tempo.”

Segundo o casal dono do Jornal da Cidade (matutino extinto após o assassinato de Maria Nilce em 1989), Élcio se “esgueirou entre os demônios de Brasília” através da influência de Djalma Juarez Magalhães (O tal D.J.M.), com a promessa de apontá-lo como vice (Segundo artigo de Ueber José de Oliveira: o Presidente da República concedia a prerrogativa ao governador para pessoalmente escolher o seu Vice). Sabe-se-lá-porque Élcio Álvares "preteriu" o jornalista e acabou apontando Carlos Alberto Lindenberg "Carlito" Von Schilgen (1927-1992). 

http://www.periodicos.ufes.br/dimensoes/article/viewFile/6160/4501

Maria Nilce deixou um texto em que diz que nesse período Élcio “tinha tanta liberdade em sua casa que até a porta da geladeira abria.” Entretanto, imediatamente após garantida a nomeação, o novo “Governador Biônico” deu as costas ao casal do Jornal da Cidade. Numa jogada clássica: seduziu, prometeu e depois: “bananas”. Ao contar a história vindo "do lado de lá" e mencionar o eufemismo “preterido” Carlinhos trivialmente confirma esse fato. Mas será que Djalma Juarez Magalhães tinha mesmo toda essa influência em Brasília?

D. J. M. E OS REVOLUCIONÁRIOS DE 1964


Autor de dois bons romances - “Lama no Ventilador” (1973) e “O Anti-cristo” (1975), disponíveis em sebos de várias partes do país - Djalma demonstrava admiração pelos militares “revolucionários”, mas ele não era o único. Nascido em 1930, filho de Fernando Haeckel de Magalhães - gráfico de alguns jornais do Rio de Janeiro e da Revista Manchete – o escritor e os jovens daquela geração acompanharam aflitos as notícias da 2º Grande Guerra, os feitos da Força Expedicionária Brasileira, a tomada do Monte Castello, a vitória dos aliados. Nos “anos dourados” que se seguiram aqueles Marechais e Generais patropis seriam vistos como heróis nacionais, homens que encarnavam de fato o ideal de “morrer pela pátria e viver sem razão”. Os longos anos de chumbo mudariam isso tudo...

Segundo o jornalista Rogério Medeiros, o Jornal A Tribuna - do qual Djalma foi diretor até o final da década de 1960 - foi o único de Vitória a apoiar o que o exército chamava de “Revolução”, mas que até a Igreja Católica era favorável ao golpe. Veja um trecho do que o jornalista do Século Diário diz sobre o assunto:

“Em que pese a contribuição da Igreja em favor do golpe no Estado, o destaque maior era o jornalista Djalma Juarez Magalhães, que dirigia, na época, o jornal "A Tribuna.”
           

Ao apoiar a “revolução” Djalma mostrara idealismo, mas - como dizia Rogério Medeiros - sua participação fora panfletária, o escritor e jornalista não era membro do Exército; apenas acreditou que naquele momento o golpe era o melhor caminho para o país. Rogério lembra que no dia seguinte toda a imprensa capixaba se transformara: “A Gazeta virou golpista no dia dois de abril, tirou a direção (o diretor era Eloy Nogueira da Silva), botou o General (Darcy Pacheco de Queiroz, cunhado de Carlos Lindenberg) e tirou o Cariê”. Em Brasília, o alto comando militar confiava em Djalma, portanto, sua opinião quanto ao futuro governador de seu Estado, em alguma instância, deveria ser realmente relevante. 

Maria Nilce lembra, porém, que a maior desavença do casal com o governador não fora por conta daquela jogada clichê de prometer mundos e fundos para depois fechar a porta. Em seu quarto livro, intitulado Postais de Minha Vida, a colunista conta que Djalma - nascido em Vitória, mas criado no Rio de Janeiro desde os cinco anos – acreditara realmente nas promessas do “amigo” e ficara tão decepcionado que até pensava em voltar para a “Cidade Maravilhosa”. Maria foi procurar Élcio Álvares, tentava também entender o que acontecera e pedir sua ajuda. Descobriu, porém, que o governador nada tinha a oferecer além do mesmo jogo de sedução barata em troca de promessas vazias:

- Élcio, o Djalma está muito decepcionado com você, que lhe prometeu mundos e fundos e agora passa todo o tempo a evitá-lo. Pede a ele Élcio para não ir embora.
Abismada, vi Élcio colocar a mão em cima de minha coxa esquerda e me dizer carinhosamente: - Deixa ele ir embora. Deixa ele ir que a partir do dia quinze de março vou tomar conta de você, vou fazer de você a dona deste Estado, vou fazer do Jornal da Cidade o maior jornal deste estado.
Fiquei lívida. Primeiro, porque tinha Élcio Álvares como um irmão e aquele procedimento não era de um irmão. Segundo, eu fiquei decepcionadíssima, pois tinha uma enorme admiração por ele e constatei naquele instante estar diante de um canalha.

EXÉRCITO DO BEM - EXÉRCITO DO MAL

Voltemos à afirmação de Carlinhos Oliveira, hospedado na casa de um Governador Biônico do regime militar, de que um declarado opositor do governo seria um agente secreto do SNI ou coisa que o valha. Como pode ser isso? Os fatos históricos mostram que havia forças conflitantes dentro do exército, resta descobrir com clareza quem era do bem e quem era do mal aqui no Espírito Santo. Os arquivos do Dops – hoje disponíveis para consulta - mostram que o casal do Jornal da Cidade fora constantemente monitorado pelos milicos capixabas. Rogério Medeiros conta que Djalma, mais de uma vez, sofreu com a perseguição do exército:

Tinha uma briga de grupo. O Djalma tinha criado uma situação adversa para ele no 38º BI. Atuava como fosse uma liderança do movimento militar e se ligava em cima. E os caras daqui ficavam putos porque ele não dava confiança. Djalma jogava lá em cima, então os caras armaram para prender Djalma. Ditadura meu amigo...

Ungido pelos militares, após "preterir" Djalma e ser empossado, Maria Nilce conta que Élcio Álvares usou de sua influência para secar as fontes de renda do Jornal da Cidade e depois radicalizou ao tentar sem sucesso enquadrar o casal desafeto na Lei de Segurança Nacional, o que poderia gerar prisão de até seis anos (!) Não satisfeito, "aquele bom e honrado rapaz", em duas ocasiões mandou apreender a edição inteira do periódico causando-lhes grande prejuízo. O fato foi arrolado no inquérito dos “investigadores” do Dops sobre Maria Nilce Magalhães:

  
É digno de nota o fato dos infames “Arquivos Confidenciais do Dops” não trazerem realmente uma investigação. São alguns tópicos reunindo os mesmos comentários maliciosos que circulavam pelos botequins e salões de beleza de Vitória, no melhor (ou pior) estilo “onde tem fumaça tem fogo”. O “espião” não apresenta um documento contundente sequer, a não ser as notas debochadas publicadas pela colunista. Uma inclusive que mostra o quanto o “medo mortal de voar” que atormentava o governador - mencionado por Carlinhos - já fazia parte do folclore capixaba. Ho... Ho... Ho...

  
Talvez, por conta dessas “investigações” mal enjambradas o governador nunca tenha conseguido meter Maria Nilce e Djalma Juarez Magalhães na cadeia. E olha que ele tentou. Na pior (ou melhor) das hipóteses os militares ajudaram do ponto de vista histórico na elaboração deste texto, porque, após atentados a bomba e outros atos terroristas, muito pouca coisa do acervo do Jornal da Cidade chegou aos nossos dias. Foi uma agradável surpresa encontrar aquelas notinhas irreverentes colecionadas a título de “alta espionagem” e, ainda por cima, com a chancela de "confidencial". Para maiores informações com relação ao desaparecimento do acervo do Jornal da Cidade acesse o link abaixo:


A LENDA DA MULHER CORAJOSA E GUERREIRA

Pesa ainda contra o governo Élcio Álvares o fato de que os donos do Jornal da Cidade não seriam os únicos perseguidos durante seu mandato. Em sua coluna de O Globo do dia nove de agosto de 2014, a jornalista Míriam Leitão afirma o seguinte: “o início da minha vida profissional foi tumultuado pela perseguição da ditadura. No Espírito Santo, fui demitida de um jornal por ordem do governador Élcio Álvares”. O jornalista Rubinho Gomes escreveu um excelente artigo para o site Século Diário, rememorando este fato em detalhes:

Élcio passou a interferir diretamente na redação de A Tribuna. Foi quando ele exigiu da direção do jornal a demissão da jornalista Miriam Leitão (que havia sido presa em 1972) e outros que ele considerava "subversivos", como o estudante de Medicina Gustavo do Vale, o jornalista Jô Amado, o catarinense Nei Duclós, dentre outros. É bom lembrar que Miriam e Gustavo haviam sido presos naquele grupo acusado de integrar uma célula do PCdoB e que foi vítima de bárbaras torturas no quartel de Vila Velha do 38º Batalhão de Infantaria, fato que acaba de ganhar repercussão nacional, após anos de silêncio.  


Com esse panorama fornecido por Rubinho é possível perceber que os responsáveis pela repressão militar no Espírito Santo pertenciam ao 38º BI e seguiam ordens, fora o alto comando, do próprio governador. É possível, portanto, inferir que a “atenção” que Carlinhos dá ao fato de Djalma ser “agente do SNI ou DOPS ou DOI-Codi, ou tudo ao mesmo tempo”, pudesse ser fruto de “contrainformação” (fofoca em nível militar). Essa "informação" foi difundida pelos inimigos dos donos do Jornal da Cidade com o propósito de enfraquecer a influência e a credibilidade alcançada, especialmente por Maria Nilce, após ridicularizar impunemente o mandato inteiro daquele governador biônico do Espírito Santo. Vide a conclusão do texto “Quatro anos dentro de um túnel”:

Dos quatro anos do governo Élcio Álvares eu obtive uma enorme lição de vida, ganhei o respeito e a admiração de uma cidade inteira que não me viu dobrar os joelhos em momento algum. Saí desse túnel escuro muito mais forte, com uma enorme experiência e no dia seguinte em que Eurico Rezende assumiu o governo eu corri para a praia e como uma gaivota feliz levantei voo gritando aos quatro ventos um enorme bom dia para minha aurora que finalmente surgia. 

Maria Nilce e Djalma Juarez Magalhães 
NA PRÓXIMA POSTAGEM

Ainda com base nas memórias de Carlinhos Oliveira aprofundaremos este assunto investigando as “ligações perigosas” que podem ter contribuído para o surgimento do crime organizado no Espírito Santo. Movimento brutal e sangrento – de estilo plata o plomo - que virou mainstream na terra dos capixabas durante a década de 1990. 

sábado, 28 de novembro de 2015

O MAL DOS CRONISTAS


“Rubem (Braga) adorava dar em cima de mulher de amigo. Tinha uma boa saída para a sua falta de vergonha na cara:

– E você quer o quê? Que eu dê em cima da mulher dos inimigos?” 

Comentário atribuído a Raquel de Queiroz.


Na primavera de 1978 quando veio espairecer nas terras capixabas, José Carlos Oliveira estava muito mais preocupado com a repercussão do lançamento de seu livro Terror e Êxtase (particularmente o autor o chamava de 1001) do que com a badalação que poderia haver em torno de sua atormentada figura. Na página 114 de seu Diário Selvagem, por exemplo, Carlinhos se ressente da forma como foi retratado pelo colunista Hélio Dórea.

“27 de setembro – Fim das férias. Mesquinharias capixabas: nos dias de Maciel, Alaíde pediu uma nota sobre 1001 ao colunista Hélio Dórea. Não saiu nada. Hoje saiu. Ela se mostrou vitoriosa. Mulher ingênua! Saiu ontem uma nota no Ibrahim e o seu copiador daqui incluiu que sou chique, colunável em nível nacional. Só por isso. Gentinha de merda! Depois eu conto mais”.

Com esse desabafo furibundo Carlinhos demonstra ter algum entrevero em particular com o colunista – ou então a implicância era com os que se dedicavam ao, sorry periferia, assaz provinciano colunismo capixaba - e não propriamente com o gênero de coluna social. Afinal, valoriza a nota dada por Ibrahim Sued (1924-1995, considerado o inventor do colunismo social brasileiro) e ainda termina fazendo graça, mencionando um bordão que seria muito repetido pelos deslumbrados escarafunchadores da high society.

Desde o início da passagem de Carlinhos pelo Espírito Santo, confesso, estava com medo que sua fúria se voltasse na direção de meus pais. Afinal, os jornalistas Maria Nilce e Djalma Juarez Magalhães eram inimigos ferrenhos de seu prezado amigo e anfitrião - o então Governador do Espírito Santo, Élcio Álvares - e imaginava que críticas, inevitavelmente, apareceriam... E apareceram. Porém, ao invés de puramente ofensivos, os comentários forneceram um panorama bastante rico, único e real daquele período. 

Carlinhos, eventualmente, menciona frases popularizadas pela colunista Nina Chaves, famosa por introduzir moda e estilo na imprensa nacional, como na Página 105 ele fala: “Como dizia a Nina Chaves – qualquer descuido pode ser fatal”. Com isso esclareceu a origem de um jargão muito usado por Maria Nilce: “Todo descuido pode ser fatal”, provando que, como na televisão, também em sociedade “nada se cria tudo se copia”.

No início das férias Carlinhos ficou alternando estadias entre a Residência Oficial do Governador, em Vila Velha; visitas ao hotel Porto do Sol de seu amigo João Dalmácio, em Guarapari e a casa de Victor Martins em Manguinhos, onde, por sinal, botou olho gordo na beleza deslumbrante da namorada do amigo, a Judith. Naquela época, Vitória, Praia da Costa e Manguinhos eram núcleos distintos e distantes, não havia a sensação que hoje temos de estarmos na mesma cidade, separados por engarrafamentos.

Quando finalmente resolve visitar Vitória, ou mais precisamente o famigerado restaurante do Ferrinho, é que Maria Nilce e Djalma Juarez Magalhães (Páginas 121 e 122) são finalmente mencionados.

“Almocei com ferrinho. Apareceu M.N., a fofoqueira do Jornal da Cidade. Ferrinho me transforma o metabolismo; há algo ansioso nele e algo mais que ansioso: maligno. M.N. também. (...) A proximidade de pessoas doentes da alma – Ferrinho, Maria Nilce – provoca a perturbação psicossomática que me faz sofrer o estômago (...) Atenção: D.J.M., marido de M.N. e preterido pelo Élcio quando desejava ser vice-governador, é agente do SNI ou DOPS ou DOI-Codi, ou tudo ao mesmo tempo."

Maria Nilce autografando seu terceiro livro "Como o Diabo Gosta" que foi lançado justamente no Restaurante do Ferrinho
Diferente do episódio com o antigo colunista de A Gazeta é preciso levar em consideração que o desprezo que Carlinhos demonstra pela “fofoqueira do Jornal da Cidade” revela também uma subjetiva influência da amizade e de solidariedade com o Governador e sua esposa; ambos, sistemática e ingenuamente – na maioria das vezes - ridicularizados por Maria Nilce em sua coluna diária. A razão dessa birra seria uma mal explicada “traição” – mal explicada na minha memória – que levou os donos do Jornal da Cidade a fazer oposição ao Governo de Élcio Álvares de forma bastante aberta e folclórica. Como era época da ditadura, em que os companheiros da imprensa geralmente tocavam pianinho, com suas loucuras Maria Nilce consolidaria neste período a imagem de mulher guerreira e corajosa...


Capa do terceiro livro de Maria Nilce, lançado em 1979.
É interessante observar que Carlinhos fala de Maria Nilce como se já a conhecesse “de outros carnavais” e menciona que algo nela o perturba tanto física quanto emocionalmente. Ora, a colunista do Jornal da Cidade estava no auge de sua beleza exuberante e quem ler o diário vai perceber logo de início que o escritor era – para dizer o mínimo - um tarado pervertido contumaz. O fato de sequer mencionar os atributos físicos da “fofoqueira”, revela que Carlinhos, parecido com Rubem Braga - aliás, dizem que era mal dos cronistas – só tinha tesão mesmo pelas mulheres dos amigos. Vide a epígrafe. E para saber mais, no link abaixo, acesse o excelente texto abaixo de autoria de Juremir Machado, intitulado: O Canalha do Rubem Braga.



       NA PRÓXIMA EDIÇÃO

    O diário de José Carlos Oliveira ajuda a Letra Elektrônica a desvendar um episódio mal explicado da década de 1970. Para tanto vamos abrir os arquivos do Dops e revelar o que o Exército pensava sobre o casal dono do Jornal da Cidade...



domingo, 17 de maio de 2015

MARIA NILCE É HOMENAGEADA NA PEÇA INVEN7ARIO



Lilian Casotti revivendo a beleza de Maria Nilce

Na quarta-feira que vem, dia 20 de maio, será reapresentada a peça INVEN7ÁRIO. Espetáculo apresentado pela Companhia de Teatro da Fafi, com direção artística e dramaturgia de Leonardo Patrocínio e um elenco de jovens atores que estavam se formando quando da primeira representação que aconteceu no Theatro Carlos Gomes no dia 16 de dezembro do ano passado. O grupo teve coragem de, pela primeira vez, resgatar um pouco da trajetória da colunista Maria Nilce Magalhães. Fui até o Facebook para recuperar meus comentários da época:

Foi muito emocionante a estreia da peça Inventário, ontem à noite no Theatro Carlos Gomes. Um resgate histórico do jornalismo e da literatura capixaba nos anos 1970, com destaque para as figuras femininas como Lacy Riberio, Bernadete Lyra, Carmélia e Maria Nilce Magalhães, entre outros e outras. O que eu gostei mais no teatro foi sentir a admiração das pessoas, a vontade de reviver Maria Nilce e aquela época quando nossa ilha era "muito doida"... O grupo mostrou muita garra num texto de tema forte, reproduziram o tom de indignação que tenho sufocado na garganta há décadas, só por isso já valeria ter estado lá para os assistir, mas teve muito mais. Cenas delicadas e bonitas como quando recitaram um trecho do poema Desespero do livro “Eu, Maria Nilce”, nessa hora eu chorei que nem criança.

"Morrer...
Nunca mais ver Maio com seus amores
Nunca mais ver junho com seus balões
Nem a primavera repleta de flores.
Morrer...
Não mais ter para mim um verão quente
Muita luz, as praias repletas de gente
A alegria que só o verão pode trazer.
Morrer...
Não mais dirigir meu carro
Em disparada louca pelas estradas
Numa alegria sem fim"...

Nessa hora me bateu uma sensação inesperada de orgulho pelas palavras ingênuas deixadas por minha mãe lá nos anos 1960 e agora valorizadas com aquela interpretação sensível do grupo ali no palco do Carlos Gomes, 25 anos depois de sua morte, idiota e covarde do jeito que foi. Alice Nascimento me viu soluçando e segurou minha mão, por tudo o que acontecia, de repente eu tive uma sensação muito legal de que não estava mais sozinho...

INVEN7ARIO: dia 20 de maio (Não percam! É só essa representação)
Local: ALDEIA SESC ILHA DO MEL 2015. (Antigo Teatro Glória)
Horário: 19:00h.
Os ingressos serão vendidos uma hora antes do início da peça, valores:

R$ 4,00 INTEIRA
R$ 2,40 CONVÊNIO/COMERCIANTE
R$ 2,00 MEIA ENTRADA/COMERCIÁRIO

Centro Cultural Sesc Glória
Av. Jerônimo Monteiro, 428, Centro, Vitória.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

PREGUIÇA



 
No dia 10 de junho de 1989, em sua coluna do Jornal da Cidade, a jornalista Maria Nilce publicou a crônica intitulada “Preguiça” que hoje republico para curtir uma lufada de ar dos anos 1980. Esse resgate veio através da descoberta de um acervo do extinto periódico, hoje muito bem guardado na casa de um amigo, cuja (cujo?) identidade prefiro não revelar porque corre o risco de alguém tentar dinamitar sua casa. Basta lembrar o que aconteceu com o acervo remanescente do jornal doado pela família aos cuidados da Biblioteca Estadual e, posteriormente, descartado ou destruído em episódio criminoso até hoje obscuro.

Para ler mais sobre o assunto leia a matéria publicada em 05/09/2011 no prestigioso site Observatório da Imprensa. Aliás, modestamente falando, um dos melhores textos que escrevi:


A crônica de Maria Nilce que republico traz peculiaridades de seu estilo que denota naturalidade em transformar o privado em público. Por exemplo, fala de minha pessoa, seu filho, sem o menor trabalho de contextualizar, dizer de quem se trata. Era como se todo mundo que lesse sua coluna soubesse quem eram as pessoas que a circundavam e tivessem interesse em sua vida pessoal. Já reparei essa mesma característica em outros escritos de colunistas daqui, sobretudo, Jorginho Santos.  

Outra peculiaridade eram os diversos erros de datilografia que vazaram na revisão. O tal amigo - cioso e ciumento do acervo - explicou com acidez: “Também pudera, o povo daquele oficina onde funcionava a gráfica do jornal vivia bêbado!” Afirmação que pode até soar um pouco exagerada, mas faz parte do folclore da época e da má fama que gozava (sofria?) a qualidade da impressão do referido periódico. É bom lembrar que a oficina funcionava até as madrugadas boêmias e havia um boteco bem ao lado...

Bom e ruim é outra questão que o tempo nos faz meditar. Folheando agora o Jornal da Cidade, a tal infame “qualidade de impressão” soa bem mais, digamos assim, vintage do que apropriadamente defasada. O fato é que o periódico trazia conteúdo inédito diariamente e, especialmente, a explosiva coluna de Maria Nilce gozava de inegável apelo comercial. Apesar de não ser tão bacana como outros concorrentes, impressos em Offset, o Jornal da Cidade é até hoje perfeitamente passível de agradável leitura.

Uma característica básica do texto de Maria Nilce era a necessidade de autoafirmação, de valorização da mulher trabalhadora, que vence e que às suas expensas circula pelas mais badaladas cidades do mundo. Era uma pequena falha rastaquera que perseguia a colunista e, aliás, a maioria de seus pares e amigos vidrados em ostentações e sentimentos de inveja, talvez para não parecer o que realmente eram para o resto do mundo. De tempos em tempos Maria Nilce publicava verdadeiras “cartas de intenções” - como é o seu primeiro livro “Eu Maria Nilce” - textos em que defendia seus valores e sua forma de atuar junto à sociedade. O que segue não é bem o caso, serve mais como direito ao ócio criativo... Boa leitura e bom domingo.

            Preguiça

Na hora do almoço, Juca evocou uma música de Vinícius de Moraes que eu considero deliciosa porque fala em preguiça:

“Um velho calção de banho, um dia p’ra vadiar...”

Ah... Um dia p’ra vadiar... E durante o resto do almoço conversávamos sobre isto, sobre a maravilhosa perspectiva de ter um dia inteiro p’ra vadiar.
            E então eu disse ao Juca:
            Sou tão obsecada (sic) por trabalho que quando saio de férias e fico à toa batendo pernas pelas ruas de Paris, Roma ou Londres, me culpo o tempo inteiro de não estar trabalhando.
            – Você precisa fazer análise – retrucou Juca, que passa por uma fase cheia de mistérios.
            E depois de comer uma rabada maravilhosa daquelas de partir com o garfo, joguei-me na cama com o telefone fora do gancho, compressas de chá preto sobre os olhos e dormi como uma morta.
            Quando acordei, não acreditei no que meus olhos viram. Já passava das três da tarde. E, por incrível que pareça, lá estava eu rolando na cama cheia de preguiça. Vontade danada de ficar mais um pouquinho naquele bem-bom, mas e os compromissos? Ah, que ótimo seria ficar hoje curtindo essa preguiça aqui na cama, sem ter nada o que fazer, rolando p’ra lá e para cá agarrada ao travesseiro.
            Cadê a eletricidade habitual dona Maria Nilce? Cadê aquela energia incrível que lhe bota acordada e de pé às cinco e meia da manhã todos os dias? Que preguiça idiota é essa?
            ...Não faz mal a ninguém e não é nenhum crime se sentir preguiçosa um dia.
            Eu sou adepta de todos os pecado (sic) capitais (no original “capitalsitas”). Gula, então, nem se fala. Mas preguiça não é coisa para uma mulher como eu, movida a gasolina azul (precursora da aditivada), supositório de pimenta malagueta, que é mais elétrica do que dez mil quilowatts (no original “Kiliowatts”), como se justifica então essa preguiça que se abateu assim de repente?
            Mas tudo tem seu tempo já dizia Eclesiastes.
            Vai ver (no original “via”), ontem foi o meu tempo de preguiça.