sábado, 8 de março de 2014
DIÁRIO DE BORDO SEM CENSURA
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
AMORES ESTRANHOS EM TRÊS MOVIMENTOS
1 Allegro Mordaz:
Ela queria que eu mordesse a sua cabeça porque dizia que aquilo a excitava...
Na primeira vez que íamos transar, ela saiu do quarto exibindo um sorriso confiante, logo pude ouvir o som do chuveiro e uma tênue diminuição da luminosidade quando a resistência da ducha entrou em ação. Aproveitei para colocar pra tocar o disco com a trilha sonora de nosso romance, uma canção melosa da banda Eurithmics.
Ela voltou enrolada em uma toalha, deitou de costas na cama e me olhando inexpressivamente desembrulhou o corpo, revelando-se completamente nua, era como se dissesse: olha aqui o presentão que eu trouxe pra você: pode deitar e rolar. Estávamos embalados em uma paixão furiosa, autofágica, meteórica. O ato sexual – especialmente o que faríamos naquele instante – significou a “sagração de nossa primavera”. O gelo derretendo, o fim do longo e tenebroso inverno, a retomada da vida sentimental.
Gostava de ficar de quatro, jogava a cabeleira loira para trás empinando os quadris num gesto estudado e, talvez por isso mesmo, mecânico - como as garotas da televisão: provocante e vazia – depois pedia agoniada: morde a minha cabeça! Era uma ordem estranha e, sobretudo, difícil de cumprir!
Depois de tudo ela se embolou forte em meu corpo e chorou mansinho, um choro aliviado, feliz. Era como se aquela bela cerimônia sexual pusesse fim a uma longa maldição, praga de feiticeiras, macumba, e que lhe era permitido gozar outra vez a plenitude infinita de um simples amor.
O problema é que ela não gostava de sexo, apenas autorizava a sua realização porque vinha embutido num pacote de benefícios que na época a interessava: marido, lar, família, status social etc. O esperma a enojava, tomava longos banhos após o ato sexual, queria arrancar uma misteriosa culpa de dentro da própria cabeça a dentadas, drama que nada tinha a ver comigo: era ela e seu passado sombrio e um incerto sopro de insanidade que ameaçava tomar conta...
2 Adágio Verborrágico:
O negócio da “Santinha”, uma namoradinha evangélica que tive, era destrambelhar a falar durante a transa. Muito antes de nosso singelo barco do amor cruzar valentemente o oceano ela já disparava o discurso contraditório: “não, não, você não pode, não pode!” A respiração aprofundava, as frases se tornavam mais entrecortadas e rápidas, as palavras ganhavam aspectos dramáticos e excitados: “Você quer, você quer não quer? Quer colocar um filho nessa barriga?” E alisava o ventre com as duas mãos enquanto resfolegava e apitava que nem um trem de doido. Eu estava apoiado nos dois braços, remando firme a baiúca; ela, esparramada e rebelde, sentia o gozo queimando sua alma no inferno, daí gingava pra cá, gingava pra lá, fugindo das deliciosas estocadas do pecado. Pra mim ela estava apenas dando o seu jeito criativo de prolongar a brincadeira: “Não! Não! Eu não posso, isso não está certo. Isso é prostituição!”
Porra! - Pensei. - Eu não estou pagando nada!
Só depois de muito custo, rebolado e negociação é que a “Santinha” se entregava inteiramente ao prazer, mas nem por isso deixava de irradiar a peleja: “Tá entrando tudo, tá entrando tudo, ai, ai! Sim, sim, você pode, você pode! Vai logo seu cachorro. Acaba com isso de uma vez!” Na hora do gozo ela ainda gritava: “Aperta! Aperta!” Sem nunca me dar sequer uma pista do que diabos eu deveria apertar...
3 Presto Ma Non Troppo:
Ela montou em minha pélvis apressada como se tivesse medo que eu pudesse escapar ou algo assim. Ajeitou o corpo com destreza e rapidamente cavalgava a rédea solta, balançando a cabeleira castanha. Então se jogou sobre meu tórax, chegou bem perto de meu rosto e pediu num sussurro: “Me dá uns tapas vai...” Respondi que apesar de meu jeitão confiante de homem maduro e experiente nunca tinha batido em uma mulher e perguntei: “Como é que você quer que eu faça isso?” Erguendo-se novamente sobre a sela colocou carinhosamente as duas mãos em meu rosto e afastando a direita vibrou a bofetada. “Ah... Entendi.” Sorrindo a amazona voltou a trotar, na espera ofegante do que se seguiu. Plaft! Seu rosto foi projetado para o lado, através da cabeleira pude ver um sorriso de prazer, daí mandei outra, outra e mais outra. Assim foi noite à dentro...
No elevador ela sorria satisfeita e feliz. Verificando a maquiagem notou que as maçãs do rosto apresentavam uma coloração muito mais rosada do que o normal. - “Olha só o que você fez comigo.” - Respondi divertido que a vermelhidão lhe emprestava um aspecto mais saudável, afinal estávamos em pleno inverno nada rigoroso dos capixabas. - “Quero só ver o que vou dizer quando chegar em casa.” - Imagine só, depois de tudo, se preocupar com um detalhe besta desses, mas a tranquilizei com o melhor da sabedoria popular: - “O pior que pode te acontecer agora, querida, é levar uns tapas e isso... Você aguenta...”
segunda-feira, 2 de março de 2009
CARNAVAL NA BARRA OP. 9 - INTERMEZZO
O carnaval não é lá uma época muito boa para a maioria dos tirados a doidões, não tem graça nenhuma em ser maluco quanto o resto do mundo enlouqueceu também... Os meninos maluquinhos querem dar uma de que são diferentes, pra eles a farra dos caretas é tediosa, artificial e, o que é pior, simplesmente não há como se escapar da “música” que costuma animar os eventos do período.
O meu grupinho de meninos botocudos metidos a roqueiros era muito cioso e orgulhoso de sua modernosa pseudo-doideira artificial, nos anos oitenta a piração de boutique era a principal temndênnncia entre os jovens de retinas descoladas, hoje respeitáveis senhores pançudos que frequentemente negam até a morte terem sequer participado de esbórnias do gênero, especialmente quando percebem que os rebentos estão enveredando pelo mesmo caminho.
Minha mãe era diferente. Quando questionávamos, por exemplo, o direito de falar palavrões - com os quais ela pontuava a grande maioria de suas frases - ouvíamos a tradicional resposta, por sinal cunhada para ser pendurada no portão de entrada da lendária “Fábrica de Fazer Doidos”: façam o que eu digo, mas não façam o que eu faço.
Como filhos se criam com atitude e não palavras, em 1989 eu dei uma banana pra minha família e fui curtir o carnaval... Acho que pela única vez.
Valente e inconseqüente coloquei o Monza vermelho na estrada - com o radiador furado e tudo mais - até a longínqua província de Conceição da Barra. O carro já era famoso na Rua da Lama, tinha dois grandes plásticos da marca THC (O princípio ativo da Cannabis) colados em suas laterais. Era uma época em que usar adesivos de marca funcionava como uma espécie de identificação visual, o mais comum era da Zoomp com aquele raiozinho amarelo.
Perdido pelas ruas históricas da Barra, caranguejos perambulavam de ré, e nós íamos de lado, que nem navio emborcado, nau à deriva. Já não estava muito dentro da normalidade quando me deparei com a bandinha de fanfarra formada na praça, os caras com aqueles uniformes de domador de circo. Eu e Cello corremos em meio aos músicos que – apesar da gente - não paravam de tocar suas marchinhas animadas, o maestro ficou uma fera e nos botou pra correr, estávamos atrapalhando a apresentação.
Encontramos umas garotas replicantes, desdenharam de minhas unhas dos pés, diziam que precisavam ser cortadas, me senti um urtigão. Só de sacanagem falei que éramos cariocas, em pouco tempo estávamos nos pegando. Como adolescente gosta de beijar na boca! Meu amigo passou mal, vomitou e sentou num canto da calçada. Eu mesmo não sabia mais dizer onde ficava a casa em que estávamos. Murta também se perdeu, desistiu de procurar o pouso certo, foi encontrado dormindo no sofá de uma varanda qualquer. A dona era uma alma caridosa...
- Deixa ele dormir tadinho, deve estar cansado...
No último dia do carnaval encontrei um amigo pela rua, queria me contar fofocas de Vitória, alguma briga escabrosa de mamãe com um cabeleireiro. Eu, que estava fora de casa há mais de uma semana e curtia a liberdade de fazer só o que me desse na telha, não quis nem saber. Era como um menino perdido na terra do nunca, desde que saíra nem sequer dera um telefonema pra dizer que estava vivo, tinha mergulhado na fase revolucionária de auto-afirmação, queria dar um golpe e fundar minha própria república. Muito antes do que eu pensava meu desejo iria se realizar... Mas essa “conquista” não chegaria da forma pacífica e romântica que eu imaginei.
O hotel no centro da cidade, o hotel de Conceição da Barra! Suas paredes cobertas de ilustrações e quadros que retratavam cenas da botoculândia. O piso pirou, seu chão era coberto de coisas assimétricas, figuras geométricas, o piso era louco de tudo! Andamos pelos corredores do hotel sem ligar para o estranhamento de seus funcionários que pareciam hesitar em nos abordar, fomos nos esborrachar num sofá da recepção. Não demorou e fomos tragados pela crise de bobeira. Fodam-se, é carnaval!
Aquele era o dia em que viríamos embora, zunindo e zoando através da noite, parando de vez em quando pra colocar água no radiador do velho Monza vermelho... Nunca houve um carnaval como aquele. Nunca mais. Depois disso tive que escalar a outra face da montanha, mas isso é assunto para outras sextas-feiras. Além do mais, já não sei mais direito pra onde esse texto vai. Virei refém de minhas próprias lembranças...
