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domingo, 2 de junho de 2013

COMO ESQUECER UMA NOITE INESQUECÍVEL?



O terceiro filme do Homem de Ferro é um bom entretenimento, como os outros foram, mas parece que dessa vez ficou faltando alguma coisa. Desde a investida inicial a grande qualidade desse que é o mais divertido da franquia Marvel foi ter conseguido equilibrar ação com humor e fazer a escolha de atores na medida certa. A “Pepper” de Gwyneth Poltrow deu novo gás a sua carreira e é um bom exemplo de que ao fazer menos a moça apareceu mais.

Mas nem quero ficar falando muito do Homem de Ferro III não, quero usar o vilão pra chegar num causo lá do passado, porque o grande lance desse filme é disparado a atuação, de novo, do genial Ben Kingsley. Não posso explicar porque o Mandarim é o melhor do filme pra mó de não estragar a diversão alheia, mesmo porque todo mundo sabe que em filme de ação quem rouba a cena é o vilão.

Kingsley debutou para o mundo com sua interpretação fabulosa de Gandhi. O filme foi lançado em 1983 e eu estava lá na pré-estreia (ou estreia, sei lá) que aconteceu no (eternamente em reforma) Teatro Glória que na época funcionava como cinema. Vi vários filmes legais lá, inclusive, numa dessas dei meu primeiro beijo, com uma colega de escola chamada... Cristina? Cristiane? Enfim, não lembro, mas acho que o filme era “Hair”. Depois tem gente que diz que eu tenho memória boa.

Gandhi foi a produção que bombou naquele ano, portanto, os mil lugares do Glória estavam ocupados. Fui assistir ao filme junto com minha querida e saudosa amiga Ingrid Vervloet, precocemente falecida ainda lá nos anos oitenta. Aquela era uma época em que a gente lia crítica de cinema no jornal, porque tinha o Amylton de Almeida - noves fora seu peculiar costume de elogiar os filmes do Van Dame – o saudoso autor de documentários premiados como “Os Pomeranos” e “Lugar de Toda a Pobreza” era um gênio, e como todos, ir atrás de seus conselhos era um perigo.

Como lembro agora com saudade daquela entrada do Glória! A bomboniere do foyer que parecia um guichê de estação de trem, cheia de bombons serenata e pastilha forte, a grossa cortina vermelha que dava para a sala de exibição, o piso de madeira, o cheiro do cinema! Quando conseguimos entrar a plateia estava já lotada, daí fomos nos aboletar no balcão, uma espécie de camarote lá em cima, de onde cuspiram na minha cabeça, salvo engano, no mesmo dia em que rolou aquele primeiro beijo.

Não me pergunte quem era o mestre de cerimônias daquela peculiar “Opening night” do Gandhi no Cine Glória, mas o cara convidou Amylton, como cineasta e entendido da coisa, para trazer um breve speach aos presentes. Eu-sei-lá quem teve a brilhante ideia de colocar discursos antes da plateia encarar um filme de três horas de duração. Obviamente, o jornalista foi recebido por um sonoro e gélido silêncio, se rolasse aplauso perigava um monte de gente resolver falar. Aquele suspense soou como um aviso, sinal amarelo, mas teve quem ousasse avançar.

A cena foi a seguinte: Amylton caminhou para o palco com um blazer colocado sobre os ombros, o que era uma espécie de moda entre os descolados da época, se é que vocês vão me entendendo. Duas pessoas então ousaram romper o constrangedor silêncio: um rapaz que aplaudiu - animado e solitário que nem ele só - e um garoto sem noção que se estrebuchou de rir da cena...

Esse garoto, como diria o Baleia, era eu!

Minha gargalhada ribombou, Ingrid me estapeou, Amylton falou e a vida seguiu. Quer dizer, o filme finalmente começou e se revelou interminável. Imagine só, depois de tanto entrevero, acabei dormindo e acordei com o tremendo barulho do motor à hélice de um hidroavião. Tomei um baita susto danado, quase caí da poltrona. 

De repente estava eu aqui e só agora me dei conta: era já trinta anos depois! 

quarta-feira, 25 de abril de 2012

SANTA INGENUIDADE DOS NOSSOS ROQUEIROS


Hoje é dia de visitar a Biblioteca Estadual que leva o nome do tio avô de meu amigo PeeWee, cujo (cujo?) aniversário passou faz uns dias e eu esqueci. Salvo algum engano, Levy Curcio da Rocha (1916-2004) era cunhado de Newton Braga (1911-1962) e nos deixou algumas obras importantes para a história do Espírito Santo como aquela sobre a viagem que Pedro II fez a esta província esquecida por Deus e desprezada pela mídia nacional, a não ser quando o assunto é tragédia ou escândalo político.

A Biblioteca Estadual vai receber hoje (25 de abril de 2012) às sete da noite, a caravana Rockrise, ocasião em que será furiosamente discutida a referida e polêmica obra do baterista “Dagoberto” que também responde pela alcunha de José Roberto Santos Neves (ou será o contrário?). A Biblioteca estadual fica na Praia do Suá, ali perto da rua da peixaria. Av. João Batista Parra, 165 - Praia do Suá. Telefones: (27) 3137-9351 / 31379349

Já escrevi sobre isso antes, mas lá vou eu outra vez de novo (here I GO again): contrariamente ao que muitos pensam: fazer um livro, ficar anos burilando histórias em um texto coeso e interessante não é coisa tão difícil assim. Também conseguir dinheiro para editorar um projeto gráfico bacana e depois imprimir com certa qualidade não é tão complicado. Difícil mesmo é fazer com que as pessoas saibam que o livro existe; que considerem mais importante comprá-lo do que a uma pizza; e que finalmente sentem as gloriosas buzanfas em algum canto e o leiam.

O livro Rockrise – história de uma geração que fez barulho no Espírito Santo - fornece um panorama amplo e variado com relação a vários estilos dentro do rock local. Não tece críticas nem toma partido, mas é bastante evidente o carinho especial pela vertente heavy metal da qual o autor fez parte como baterista das bandas Skelter, Seven e The Rain. As figuras principais da obra ostentam cabelões e fúria aleatória, ousadia e ingenuidade. Isso fica claro em várias situações e pode até ser uma explicação para quase ninguém daquela geração ter virado “artista nacional”, escapando em cima de um skate o Dead Fish que saltou de algum lugar no meio disso tudo.

É uma boa hora para se parar e Pensar; e essa obra ajuda a gente a fazer isso. Dessa grande panorâmica surgem algumas constatações que já me incomodam faz tempo, por exemplo: a incapacidade de articulação de um discurso coerente. Na maioria das vezes as letras das músicas dessas gerações não dizem nada – isso as escritas em português - ou, por serem obras adolescentes, limitam-se a críticas ingênuas e brincadeiras infantis com garotas fáceis e professores babacas.

Talvez o rock de várias das bandas retratadas em Rockrise tenha morrido adolescente porque a maturidade traz responsabilidades financeiras que aquela música não foi capaz de prover e eles não souberam transpor essas agruras num diálogo maduro com o público. Culpa de quem? Vai saber. Talvez apenas não fosse o momento, ou, como disse o grande Amylton de Almeida, porque faltou a todos a leitura dos filósofos gregos... Acho que hoje a noite temos algumas coisas para conversar...

sexta-feira, 16 de março de 2012

OS POMERANOS QUE VIERAM DE AVIÃO...

“Alguns anos atrás uma pomerana capixaba, loira de olhos azuis como todos de sua raça, conheceu um negro de cabelos pixaim, lábios grossos, pele e olhos negros. Meses depois ela entrou em pânico porque estava grávida. O menino nasceu mulato de olhos pretos e cabelo pixaim. Quando o marido chegou para conhecer o filho ela contou essa história: estava andando pela mata de repente encontrou um toco de árvore queimada, com o susto ficou grávida.”

Com apresentação de Maura Miranda e texto de Amylton de Almeida, assim começa o documentário que colocou em evidência para o Brasil os Pomeranos de Santa Maria de Jetibá, então um distrito do município de Santa Leopoldina. Parece estranho começar com uma piada, mas encontrar brasileiros que mal falam o português vivendo há mais de um século dentro do Espírito Santo, desperta espanto, uma óbvia curiosidade e alguma gozação. Uma história parecida já circulou pela Internet: um soldado Americano que passara um ano no Iraque reencontrou a esposa com um barrigão de seis meses. A moça explicou que engravidara ao assistir um filme pornô em 3D...

A então recém criada TV Gazeta empreendeu o documentário de 42 minutos que venceria o primeiro lugar no 1° Festival de Verão da Rede Globo. Filmado em 1977 e veiculado para todo Brasil no dia 2 de janeiro de 1978, Os Pomeranos é um raro registro de Santa Maria de Jetibá, cidade que se desenvolveu velozmente após terem chegado estradas asfaltadas, energia elétrica, e telefone. É até difícil acreditar, mas quando o documentário foi feito nada disso ainda havia por lá.

A equipe vencedora, que desbancou todas as outras retransmissoras da Rede Globo, recebeu um prêmio de 100 mil cruzeiros e quatro passagens para Nova Iorque. A direção geral ficou a cargo de Vladimir Godoy e a coordenação de Marcos Alencar, entre outros profissionais da época bastante conhecidos até hoje.

A Equipe realizadora de Os Pomeranos, né por nada não, mas o Marcos Alencar ficou a cara da Marly.
 O documentário abordou - e provavelmente - catalisou alguns ícones da cultura Pomerana como a cerimônia de casamento, a música de concertina e bandas de metais, a questão da língua, o aspecto religioso luterano e a dedicação do povo às lavouras que ainda fazem da região o principal fornecedor de hortigranjeiros para a Grande Vitória. Alguns registros valiosos estão eternizados como os depoimentos de figuras chave da região como Francisco Schwarz e Dalmácio Espíndula e até momentos pitorescos quando da entrevista de um colono com o seguinte diálogo:

- Ô Argeu você se lembra quando a sua família veio da Pomerânia pra cá?

- Não me alembro não.

- Mas nem de longe assim, você não tem recordação?

- De longe um pouco de recordação eu tenho, mas não muita. É pouca coisa.

- Você não sabe, ninguém nunca te informou nada quando é que eles vieram, alguma coisa?

- É... Isso eu sêo, de reformação como que eles vinham e tudo isso eu sêo sim.

- Como é que eles vieram pra cá?

- Eles vieram pra cá de avião.

- De avião é? – Nesse momento dá pra ver que o repórter (provavelmente Vladimir Godoy) está segurando o riso.

- De avião. – O pior é que o tal Argeo respondeu com toda segurança e peculiar simplicidade. Nesse momento não fica claro se a intenção era mostrar o isolamento do indivíduo ou, de novo, fazer piada com a ignorância do pomerano. Porém, esse tom desafinado com nossos tempos politicamente corretos, deve ter sido um gancho interessante para captar a audiência da época. Os Pomeranos é um documentário, por tudo isso, que deveria ser reapresentado nos dias atuais e até revisitado, comparando lugares e a trajetória das pessoas mostradas. Afinal, por mais que a região tenha mudado, as pessoas ainda estão por lá e, senão elas, estão seus filhos e netos que ficariam muito felizes de conhecer essas preciosas imagens.

sábado, 27 de agosto de 2011

O ÚLTIMO CRIME CONTRA O JORNAL DA CIDADE


Há quase trinta anos teve início a lenta destruição da memória do Jornal da Cidade, um “matutino” diário que tinha como carro chefe a coluna de Maria Nilce (1941-1989) e os artigos de análise política de Djalma Juarez Magalhães (1930-2008). Apesar de não primar muito pela qualidade gráfica o Jornal era bastante popular, certamente em função da maneira “irreverente” que a jornalista - vitimada num dos mais escabrosos crimes de mando perpetrado no Espírito Santo – escrevia, expondo e criticando figurões e figurinhas da dita “alta sociedade capixaba”.

O Jornal da Cidade começou sua trajetória em 1972 e esta haveria de durar vinte anos, em suas páginas colaboraram inúmeros jornalistas como Elimar Guimarães, Willis de Faria, Xerxes Gusmão Netto, Carmélia Maria de Souza, Amylton de Almeida, Rogério Medeiros, Cezar Viola, Geraldo Bulau, o fotógrafo Antonio Moreira, enfim, a lista é grande. Todos estes cronistas em intensa atividade naquele período histórico deixaram importantes impressões pessoais para o entendimento e o sutil retorno aos ares que se respirava naquela época. Infelizmente hoje tudo isso está perdido.

A primeira parte do arquivo do Jornal da Cidade foi implodida em um atentado a bomba na madrugada do dia 13 de setembro de 1983. O crime foi investigado pela polícia federal e até hoje sua autoria permanece um mistério. A bomba de fabricação caseira demoliu a sala onde ficavam guardados os jornais antigos, a cozinha da casa onde funcionava a redação do Jornal e uma parte do escritório de Djalma Juarez Magalhães. Como o atentado aconteceu por volta de duas da manhã não houve vítimas, exceto um sabiá cuja gaiola ficava na cozinha e não resistiu aos ferimentos.

 
A explosão foi bastante noticiada, sobretudo por sua violência que rachou o asfalto em frente a casa onde funcionava a redação do jornal na rua Graciano Neves, centro de Vitória, e estilhaçou vidros de janelas de casas do entorno e de prédios até o oitavo andar. Embora hoje possa parecer estranho, atentados do gênero não eram incomuns na época. Em 1981 a mesma coisa já tinha acontecido com o arquivo do jornal A Tribuna e da mesma maneira nada haveria de ser apurado pelas autoridades competentes.

Perplexo o editor do Jornal da Cidade, Djalma Juarez Magalhães, disse não saber a quem imputar o atentado, mas não excluiu na ocasião o presidente do Banestes, Carlos Guilherme Lima, dado atritos causados por críticas e denúncias feitas à sua administração. Na reportagem de A Gazeta o escritor explica que: “enviamos documentos para os serviços de segurança, tanto na esfera estadual quanto federal, onde damos ciência das tentativas de agressões que temos sido vítimas por parte dele.”
 
Muito antes de ser largamente denunciado como um dos principais integrantes do crime organizado capixaba, as declarações do então presidente do Banco do Estado do Espírito Santo – publicadas na mesma página de A Gazeta - soam como fina ironia: “Não conheço, nunca li esse jornal, tomei conhecimento de sua existência hoje pelo noticiário local, estou trabalhando com a preocupação de dar lucros ao Banestes. Sou contra qualquer tipo de violência, descarto meu envolvimento nesse atentado.”

Afirmar que não conhecia o Jornal da Cidade e, especialmente, Maria Nilce na Vitória daquela época era uma provocação muito maior do que dizer, como foi posteriormente, que a briga que havia com o banco era porque a jornalista estava tentando coagir o presidente a conceder anúncios e assinaturas para o jornal, coisa que alguns acreditam e afirmam até hoje.

Sem conseguir manter a pose por muito tempo, o “empresário” passou a alternar o discurso de funcionário padrão com agressão verbal: “Soube serem os proprietários do jornal gente vigarista e que poderia praticar esse vandalismo para tirar proveito próprio. Sou uma pessoa trabalhando para o Espírito Santo e tenho maiores afinidades com a situação econômico-financeira do Banestes, de bombas não entendo nada.”      

Após mais de vinte anos as autoridades federais chegaram à conclusão de que as pioneiras denúncias do Jornal da Cidade podiam mesmo ter um fundo de verdade, basta ver o breve panorama fornecido pela reportagem abaixo publicada em 13 de dezembro de 2002 no site http://notícias.terra.com.br:

“A Justiça Federal determinou hoje o afastamento da diretoria do Banco do Estado do Espírito Santo. A decisão é para evitar o desaparecimento de provas ligadas ao processo do empresário Carlos Guilherme Lima, preso ontem em Vitória. Há suspeita de administração fraudulenta na direção do banco e desvio de dinheiro público em benefício do empresário. Acusado de vários crimes, como desvio e lavagem de dinheiro, fraude em licitações públicas, formação de quadrilha, desvio de recursos federais e ocultação de bens, entre outros, o megaempresário Carlos Guilherme Lima foi preso hoje pela missão especial que investiga as atividades do crime organizado no Espírito Santo. A prisão preventiva foi decretada pela Justiça federal por entender que, em liberdade, ele representava um sério risco à sociedade.”  

Quando do assassinato de Maria Nilce a redação do Jornal da Cidade funcionava numa loja na Avenida Cezar Hilal e lá ficavam guardados “os jornais antigos”, como eram trivialmente chamados pelos próprios funcionários. O então invisível crime organizado era tido por “certos segmentos” como “invenção de algumas pessoas de esquerda” e nos tristes - política e socialmente falando - anos noventa seus principais atores reinariam absolutos sendo apontado em investigações o ex-deputado José Carlos Gratz como principal figura pública, ainda que outros indivíduos fossem eventualmente citados como os verdadeiros comandantes.

Após a inevitável derrocada do Jornal da Cidade em 1992 todo o acervo de jornais que estava arquivado em sua redação foi doado à Biblioteca Pública Estadual. Nada mais natural que o principal repositório de informações do Estado cuidasse e zelasse pela preservação do periódico que, inclusive, era fonte de pistas para a investigação da morte de Maria Nilce, afinal, em suas últimas colunas vinham sendo publicadas notas anunciando denúncias escabrosas contra poderosos antigos desafetos.

Numa decisão ainda nebulosa, tomada por alguém da própria biblioteca, em algum lugar entre o final de 2005 e o momento presente o único acervo do Jornal da Cidade de que se tinha notícia foi “descartado”. A antiga diretora da instituição Rita Cássia Maia foi interpelada por meio de uma mensagem eletrônica encaminhada também para várias autoridades e jornalistas e não deu qualquer resposta. Explicado seria que a mesma fora exonerada naquele dia - há algumas semanas - e, em seu silêncio, parece ter optado por deixar o abacaxi para a sucessora descascar.  

Apesar de ser funcionária antiga da Biblioteca Estadual a bibliotecária Nadia Alcure estava trabalhando a alguns anos na Faculdade de Música e quando voltou não conseguiu mais encontrar o acervo do Jornal da Cidade, a única coisa que disse poder afirmar a essa reportagem foi: “eu não estava aqui, infelizmente não sei o que aconteceu”. Denise, a bibliotecária responsável pelo setor de Hemeroteca, que cuida da organização de periódicos e revistas, disse lembrar do acervo, mas que por trabalhar no andar de cima, simplesmente não faz idéia de como pode ter desaparecido todo o Jornal da Cidade.

É provável, mas não comprovado, que o “descarte” do acervo do jornal tenha acontecido durante o período de reforma da Biblioteca Pública Estadual, quando, em função de modernizações e mudanças no espaço, muita coisa foi jogada fora como velharia. Enquanto edições antigas do Diário Oficial foram acolhidas pelo DIO, outras como de A Gazeta foram microfilmadas, o que nos leva a perguntar: por que essa preocupação em preservar um jornal já bem documentado pela própria empresa e jogar no lixo coleções únicas?

Talvez não tenha nada a ver, mas pode ser que isso venha um pouco do desprezo urdido e muito bem difundido pelos inimigos de Maria Nilce por tudo o que dissesse respeito a seu trabalho e à sua pessoa. A jornalista, após sua morte, só foi lembrada na mídia pelas polêmicas e por seu covarde assassinato. Poucos foram os que ousaram vir a público para defender ou fornecer uma visão pelo menos imparcial da trajetória de Maria como foi o caso de Carlos Benevides, Pedro Maia e Marcus machado, entre outros. Para denegrir não dá pra citar aqui, a lista seria grande demais.

Algumas pessoas que a própria Maria considerava como “amigos” estranhamente passaram a negar a ligação - talvez por medo, talvez por interesses financeiros - passando até a atacar publicamente a jornalista, difundindo a idéia - que persiste até hoje - de que: Maria Nilce falava demais, morreu porque provocou, procurou. Criminalizando a vítima, denegrindo sua memória e humilhando seus familiares e verdadeiros amigos. Foi o caso da imperdoável charge feita por Milson Henriques e publicada em A Gazeta no dia 12 de julho de 1989, uma semana após o crime.

 
Para quem não se lembra, Maria Nilce foi morta dentro de um ônibus tentando fugir de um dos dois pistoleiros que perpetraram sua morte na manhã de 05 de julho de 1989. Na charge vemos uma mulher passando a roleta de um ônibus vestindo uma camiseta com várias frases que, como no caso do ex-presidente do Banestes, oscilavam entre “pacifistas” e simplesmente rancorosas, especialmente a última: “Cuidado! Tudo na vida é troco. Você recebe o que dá.”

Este texto tem o intuito de denunciar e de divulgar publicamente mais um crime cometido contra o patrimônio histórico do Espírito Santo e de externar toda a indignação dos familiares de Maria Nilce e Djalma Juarez Magalhães e dos herdeiros de seus inúmeros colaboradores, muitos destes já falecidos, cujos textos diários agora sabemos perdidos para sempre. Seja lá o que aconteceu com o acervo do Jornal da Cidade - tenho agora poucas esperanças de voltar a ter notícias deste - espero apenas obter um dia uma justificativa plausível por parte do Secretário de Estado da Cultura e da direção da Biblioteca Estadual do Estado do Espírito Santo.