Páginas

Mostrando postagens com marcador Juca Magalhães. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Juca Magalhães. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

EM ÉPOCA DE ELEIÇÃO A VACA ESTRANHA O BEZERRO


Um dia chegou junto com minha correspondência uma intimação da Polícia Federal. Estou lembrando disso porque neste ano teremos eleições e os amigos e amigas precisam saber que - como dizia Maria Nilce, citando Nina Chaves - “qualquer descuido pode ser fatal”. Aquela notificação dava margens a se imaginar um caminhão de coisas, mas nenhuma que fizesse o menor sentido. Por que diabos a Polícia Federal estaria me intimando a comparecer para “prestar esclarecimentos” tal dia e tal horário sob pena disso e daquilo? Nunca roubei, nem trafiquei, não sou ordenador de despesas públicas, muito menos o seria um corrupto descolado, dando corridinhas excitadas agarrado a uma mala cheia de dinheiro. Só se me intimaram como testemunha de alguma coisa, mas do quê?


Era fevereiro, uma quinta ou sexta-feira que coincidiu com o início da mais grave crise de segurança pública que o Espírito Santo atravessou, trivialmente conhecida nas ruas como “greve da Polícia Militar”. Inúmeros relatos de assaltos começaram a aparecer em minha pacata vizinhança, vandalismos tornaram-se comuns, cidadãos “honestos” invadiram e saquearam lojas, centenas de pessoas foram assassinadas, o caos tomou conta da cidade. Sair de casa começou a ficar um negócio perigoso, mas eu estava agoniado com aquele mistério e descobri que o único jeito de saber do que se tratava era ir lá na sede da Polícia Federal perguntar... Faltavam ainda duas semanas para minha “audiência”.


Na segunda-feira fomos eu e minha esposa até a sede da PF, onde, infelizmente, pouca coisa haveríamos de descobrir com o escrivão e a aura de mistério que rondava o negócio me deixou ainda mais apreensivo. Continuei pedindo ajuda. Dias antes da audiência descobri que era acusado de cometer crime eleitoral por, supostamente, haver difamado o candidato Lelo Coimbra entre os meus quase 5000 “amigos” do Facebook quando das eleições para Prefeito de Vitória em 2016. Sou muito comedido em críticas a pessoas e instituições e nas redes sociais sou muito mais; desconfio quando falam de caras pelados no museu, não me interessa se Pablo Vittar sabe cantar e, antes de soltar o verbo, estou sempre me perguntando as razões de alguma coisa ter me incomodado. Não havia a menor chance de algo que eu pudesse ter publicado no Facebook ser razão para uma intimação policial.


NA AUDIÊNCIA: VERDADES REVELADAS!


Fico pensando no quanto é que um cara precisa estudar para passar num concurso de delegado da Polícia Federal e desenvolver aquele olhar de quem acha que de você “não resta a menor dúvida”... A advogada que me acompanhou folheou o processo e disse com gravidade que eu estava ali como “indiciado” mesmo, lá pelas tantas surgiu no ar o nome “Vix Rocks”. Eu quase caí da cadeira: “Pera lá. Isso aí não é Facebook não, é um grupo do WhatsApp”. O delegado repetiu desconfiado: “grupo do whatsapp?” Então me mostrou um “print” onde podia ver o número de meu telefone e abaixo uma postagem da qual eu não me lembrava mostrando o Deputado Lelo Coimbra com o Deputado Eduardo Cunha, ambos do PMDB, o último, porém, condenado a mais de 15 anos de prisão na Operação Lava Jato.



Imagem do site Folha Vitória, só a título de ilustração, não é a postagem de que trata este texto: http://midias.folhavitoria.com.br/files/2015/08/534750150-lelo-entrega-documento-a-eduardo-cunha.jpg
O delegado explicou: alguém do grupo se ofendeu com aquela postagem e – através dos advogados da coligação do então candidato a Prefeito de Vitória - ofereceu denúncia ao Ministério Público que enviou à Polícia Federal para investigar. E ali estava eu sentado na Polícia Federal com a mais absoluta cara de tacho, por causa de algum bom e velho “roqueiro” capixaba. A advogada relaxou e disse que não era comum condenar ninguém em “crime eleitoral” por postagem num grupo privado de poucas pessoas. Pelo menos agora eu estava entendendo o que estava acontecendo... Era o rock, sempre metendo a gente em encrencas. Quem mandou não fazer parte de um grupo de pagode ou sertanejo universitário...


TRADICIONAL FAMÍLIA (DO ROCK) CAPIXABA


Reportagem de A Gazeta sobre o Rock Capixaba nos anos 1980


O “Vix Rocks” foi fundado faz uns dois ou três anos por integrantes, em sua maioria, de diversas bandas de BRock e heavy metal capixaba. Tem pouco mais de 40 participantes - em 2016 devia ser menos ainda - dentre estes alguns de meus mais costumeiros comparsas, com ficha corrida de mais de 30 anos de crimes contra as regras musicais e as etiquetas sociais. Obviamente nem todos ali se conhecem, tem os amigos dos amigos, membros de gerações diferentes e alguns fãs de rock. Botar a boca no trombone para tentar desentocar o autor da denúncia não me pareceu uma estratégia muito inteligente, tinha que tentar descobrir por outros meios. Enquanto isso, avisei ao moderador do grupo o baixo astral que estava rolando, resolvi esperar para ver no que o processo ia dar e depois, confesso, simplesmente esqueci.


O episódio aumentou o incômodo que eu já sentia com o caráter radical de direita e conservador adotado pela maioria dos membros daquela rede social que tinha o Rock‘n’Roll como premissa. Como assim “roqueiro conservador”? Não era para ser a antítese da caretice e questionar as hipocrisias da sociedade? Aliás, nada tenho contra os radicais de direita ou até da esquerda: se Lula e Bolsonaro aparentam serem forças antagônicas, suas intenções e capacidades me parecem muito semelhantes. O detalhe é que da vez que apareceu um roqueiro defendendo o PeTê o “drive” da gritaria foi insano, mas a coisa não foi parar na delegacia. Então descobri, da pior forma, que quando pega fogo na política capixaba o buraco é mais embaixo. Vacilo é querer discutir a política local onde a maioria passa o ano debatendo as prosopopéias do futebol nacional, até mudaram o nome do grupo para Vix Rocks F.C.


Religião é outro assunto delicado para se discutir naquele grupo de roqueiros, a única vez que me lembro rolou um pega-pra-capá danado. Um participante resolveu divulgar pensamentos ateus ou agnósticos e foi duramente chamado às falas por alguns católicos, suspeito, não praticantes. Atitude incoerente para quem, ao mesmo tempo, diz que tem “Sympathy for the devil”; admiradores de pérolas sacras como “The Number of The Beast”, “Shout at the Devil” e “Highway To Hell”. Eu acho complicado meter no mesmo saco religião e satanismo como se fossem coisas fantásticas de um mundo imaginário. Ou dorme com o ar-condicionado a mil por hora; ou toma banho com a água pelando. Os dois, ao mesmo tempo, não dá!


Um último aspecto bastante conservador a ser comentado, mas não menos importante, é o moralismo hard rocker. No ano passado ou retrasado um “roqueiro das antigas” chegou chutando o balde - como se fosse “o maior rock” compartilhar as velhas práticas ancestrais de acasalamento - postou logo uma saraivada de fotos de muié pelada e vídeos de gente fazendo saliência... Daqui a pouco tava uma gritaria danada! Alguns argumentaram que tinham filhos pequenos que futucam o celular, o que até faz sentido, mas a maioria se incomodou mesmo foi com o caráter impróprio das postagens; ou seja, que aquele era um grupo “de família” e não lugar para aquela baixaria. O indivíduo só não foi expulso porque se retirou recitando mantras que não sei como é que o corretor deixou passar: “fuck’ya all mother fuckers!”...


END IN THE AND... (MAIS DEUS É MAS)


No fundo a caretice de alguns “rebeldes sem calça” reformados não era o meu problema principal, o problema é que por causa de unzinho deles a Federal tava no meu pé. Situação tão constrangedora que a versão local do Romeu Tumba até falou que eu deveria o comunicar se fosse me ausentar da cidade! Liguei pro Berry, que conhece melhor a outra galera do Vix Rocks, o cara parecia não acreditar. Disse que nem sabe fazer um “print” e comentou: “a sua postagem não tem comentário algum, é como se dissesse: olha só que absurdo estão falando do Dr. Coimbra”. E a cronologia do negócio? A postagem foi compartilhada em outubro, afinal “o elevador” do candidato não subiu para comparecer ao segundo turno. Em novembro foi lançado um livro sobre os 50 anos do Porto de Tubarão, com texto de minha autoria, que contou com a presença do referido Deputado Federal.

O Deputado Federal Lelo Coimbra, Joel Rangel, atual Diretor-geral 
da Assembleia Legislativa do Espírito Santo e uma amiga, 
na noite de lançamento do livro Tubarão da Ponta ao Porto...
Ontem telefonei para a delegacia da Polícia Federal e me informaram que o processo estava “arquivado”. Espero que encontrem coisa mais consistente para investigar, como a denúncia da BBC de que existe um exército de perfis falsos na Internet contratados para influenciar eleições: (http://www.bbc.com/portuguese/brasil-42172146). A reportagem cita nominalmente políticos capixabas como o governador do Espírito Santo, Paulo Hartung, e o Senador Ricardo Ferraço. Com a evidente importância que os meios digitais alcançaram no processo eleitoral, não posso deixar de cogitar de que todo esse imbróglio em que fui envolvido pode ser um “trabalho de formiguinha” dos advogados da classe política para tentar inibir a atuação de formadores de opinião, independentes ou não. Estamos em janeiro, então não consegui falar com ninguém no Ministério Público, mas me pergunto: qual o número de pessoas que passaram pelo constrangimento de ter que ir prestar esclarecimentos à Polícia Federal e, por pouco ou quase nada, foram indiciadas por crime eleitoral?


Isso tudo aconteceu – é preciso ressaltar – durante a mais grave crise de segurança pública que o Estado do Espírito Santo atravessou.


E para provar que sou um bom repórter investigativo, também não consegui descobrir quem foi o membro do Vix Rocks que teve a ideia marota de me desferir aquela guitarrada nas costas. Os advogados que contatei sempre desconversaram, aparentemente receosos do barraco que ia dar. Quem sabe com esse texto o coelho não sai da cartola? Sei que deve ser uma pessoa “do bem” e honesta - como eu gosto de imaginar que sou - que se deixou levar pela piração das disputas partidárias, como lembrou meu primo Everaldo em sua agro-sabedoria: “eleições é tempo de vaca estranhar o bezerro”. Para bom entendedor uma teta basta. O importante é saber que nesse ano em que iremos escolher Presidente da República, Governador do Estado, Senadores e Deputados Federais e Estaduais, não podemos ser intimidados por jogadas de tapetão, mas, com inteligência continuar a denunciar os maus políticos e filtrar com quem a gente compartilha informações pelas redes sociais.


Um 2018 de Paz, Sabedoria “And Justice For All"!


Juca Magalhães está comemorando dez anos de “autuação” como Blogger de A Letra Elektronica e é autor das obras “Da Capo”, “O Livro do Pó” e “Tubarão da Ponta ao Porto, Vitória em Transformação”.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

GRANDE CONCERTO EM HOMENAGEM AO DIA DA MÚSICA


Algazarra Coral no lendário Teatro Paiol em Curitiba

O Algazarra Coral vai realizar um de seus concertos tradicionais no próximo dia 23 de novembro, desta vez em comemoração o dia da música. A data é dedicada à Santa Cecília, uma moça que gostava de cantar, se recusou firmemente a abandonar a fé cristã e por isto foi martirizada pelo imperador romano Marco Aurélio em meados do século II. Padroeira dos músicos, a história de Cecília Metelo guarda um paralelo interessante com a condição dos jovens que querem abraçar a profissão, porque são aconselhados (quando não obrigados) pela família a “professar alguma outra fé”.

O Instituto Todos os Cantos é o responsável pelo projeto do Algazarra Coral, um grupo criado em 2011 que recentemente esteve levando seu talento à cidade de Curitiba com uma performance que deixou surpresa a comunidade do sul do país. Um dos pontos mais elogiados do Algazarra Coral é o repertório, considerado ousado para cantores jovens não profissionais; outro ponto é o visível comprometimento e a alegria dos integrantes, numa faixa etária adolescente que dificilmente  se dispõe a abraçar a rotina exigente de dois a três ensaios semanais e apresentações.

O repertório vai do clássico ao popular com obras de Haydn, Gabriel Fauré e Mendellsohn e algumas exclusividades como o arranjo para a canção Na Sua Estante de Pitty, a estreia de uma canção autoral da integrante do coro Taynara Mendonça (16 anos), um poema da também corista Ana Clara e outras surpresas. O concerto tem direção musical e regência da maestrina Alice Nascimento e participação dos músicos Juca Magalhães (piano e violão), Vinícius Finco (Violino), Monalista Toledo (Violoncelo) Rodrigo Casoto (percussão) e Thamyris Finco (Violino).

GRANDE CONCERTO ALGAZARRA CORAL
Dia: 23 de novembro de 2016
Clube Ítalo Brasileiro, Ilha do Boi.
Horário: 20 horas

ENTRADA FRANCA
Maiores informações: 27 9 9942 9087



sábado, 7 de maio de 2016

MARIA NILCE MAGALHÃES POR MARCOS TAVARES

Para lembrar o Dia das Mães, com carinho e saudades.
Texto publicado em “capítulos” no Facebook no início de maio de 2016.

“A vida se perpetua
mesmo nos putrefatos restos
quando o ser se anula.
Entre odores e microorganismos,
noutra forma de existir,
a vida se reorganiza”.

(in Gemagem, pg.52. Datado de 17-01-1978)

Nona filha de Tertuliano Tauribio dos Santos e Ana Cleta dos Santos, nasce na fazenda Fundão dos Índios, no Distrito de Timbuí (Fundão, ES), em 23 de Julho de 1941.

Então moça simples, mas bela sempre, aí a conhece o já renomado jornalista [ Djalma Juarez Magalhães ], com quem casa em 1961, logo indo para Vitória(ES), berço dos filhos Fernanda, Milla, “Juca” e Paloma.

Nomeia-se apenas “Maria”. Em 1967, precursora, no jornal A Tribuna passa a redigir coluna social intitulada MSM.

Sua forte personalidade exerce magnetismo, fascínio, admiração, até em ícones da então vigente inteligentsia: Amylton de Almeida, Rogério Medeiros, Glecy Coutinho, Carmélia M. de Souza, Xerxes Gusmão, Mariângela Pellerano, Fernando Tatagiba, Marien Calixte, Marcos Alencar, Milson Henriques.

Muitos desses são revistos na peça teatral Inven7ário – o fim de uma época, que, realizada por alunos do Curso de Teatro (FAFI, 2014), traz à cena a efervescente década de 70. Maria Nilce é, assim, com justeza, encarnada pela atriz Lilian Casotti.

Mesmo avessa a churrasco e cerveja, é bem sucedida em filantropia: festas beneficentes quebram marasmo da então pacata Ilha, fosse almoço para guardas de trânsito, fosse para arrecadar fundos a asilo ou orfanato.

Também detestando futebol, vai a estádios, a ginásios esportivos, ocasiões de festival de música, plateia de pé a gritar o seu nome, empunhando faixas, a jogar confetes.

Promove desfile de modas e deles participa como jurada (até de concurso de Miss Espírito Santo). Em evento no Ginásio do SESC (Parque Moscoso), multidão entoou-lhe o clássico “Ave Maria”. Apoteose já em vida.

Versátil, na TV Vitória produz e apresenta o programa “Coisas e Gente Muito Importantes”. Primeira jornalista a surgir, em nível nacional, na “telinha”, integra júri do “Hora da Buzina” (TV Globo) apresentado por “Chacrinha”.

Feminista em boa dose, Dia Internacional da Mulher jamais lhe passa em branco: para mulheres pobres promove suculento almoço.

Rebelando-se contra um colunismo só bajulador das elites, em sua coluna inicia Maria Nilce uma espécie de vertente “informativa”, propositiva até, na qual a seguem outros notáveis quais Jorginho Santos, Nirlan Coelho, Tao Mendes, Carlos Vaccari, Geraldo Bulau, Cesar Viola.

Espírito irônico, irreverente, é endeusada e, também, satanizada. Atrai leitores ávidos em saber vícios, virtudes e vicissitudes das personalidades capixabas de maior relevância.

Em 1986, crianças de Dores do Rio Preto (ES) remetem-lhe um abaixo-assinado contra matança de cães e gatos, por misterioso envenenador, e sua coluna [ no Jornal da Cidade ], com nota solidária, brada indignação.

Com predicativos para ser mais uma “dondoca” colunável, renuncia às facilidades e futilidades cotidianas e, por crença quase cega, idealista, opta pelo mais difícil trajeto, em que tanto espinhos quanto rosas colhe.

Assim encerra sua vida terrena: tomba atingida por cinco projéteis plúmbeos. Pistoleiros cumprem empreitada de gente poderosa e influente, alvo de sérias denúncias: de escusos negócios, de contrabando até.

Fato deu-se na manhã de 5 de Julho de 1989. Reafirma relatório da Polícia Federal a CPI do Narcotráfico, que aponta autores e mandantes.

No Newseum, memorial nova-iorquino a jornalistas que, mortos por retaliação ao ofício de noticiar, acabaram por virar triste notícia, nome de Maria Nilce consta.

Marcos Tavares é um capixaba da gema do ovo. Teimoso como muitos destes ilhéus, insiste (felizmente) em escrever contos e poemas que vêm sendo publicados desde 1987. Segundo “justificativa” de seu livro Gemagem “a preocupação com a linguagem formal é uma de suas características, é considerado um dos mais representativos poetas capixabas a despontar nos anos 1980”.´

Marcos Tavares (na ponta esquerda) com Elpídio Sant'anna e Juca Magalhães

quarta-feira, 4 de maio de 2016

XII ANIVERSÁRIO DO PARQUE BOTÂNICO VALE RECEBE O ESPETÁCULO RUSSO POÉTICO

ADVERTÊNCIA: Este texto nasceu de cócoras. Então, no final tudo (quase tudo) vai se explicar...

Foi há tanto tempo que nem me lembro mais... que a Elisa apareceu, estreou, sei-lá, na minha vida. Veio indicada pelo José Benedito, flautista de ouro e ébano, diamante no pano da noite. Indicação do amigo “Bené” porque, como a Legião Urbana, eram todos de Brasília; terra do nunca e do lago Paranoá. Fui lembrado por causa de meu trabalho com o Manuel Bandeira que nunca me dei ao trabalho de apresentar. Um dia, quem sabe? No meu caso tinha o piano e a poesia, o Bené lembrou de mim e a Elisa apareceu... Isso faz uns dez anos, ou mais.

Nem lembro a primeira vez que apresentamos o Russo Poético, talvez 2004. A Odara, filha da Elisa, era pequenininha e hoje é já mocinha. Logo eu que hoje vivo pesquisando e reconstruindo trajetórias, santo de casa e do pau oco. O primeiro a ocupar o posto de violonista foi Cello Alves, depois vieram outros como o Léo Carvalho, João Paulo, o violão virou coringa. Cada um com uma pegada diferente, mais rock, mais MPB e até clássica. Mas o importante sempre foi a voz de Elisa Alves, sua emoção, seu timbre, seu tempo. Agora chegou a vez do mestre Fabio Calazans, professor da Faculdade de Música, trazer sua pegada jazzística que era o que faltava.

O show é assim: um trio formado por uma base de teclado e violão dando suporte a voz da cantora Elisa Alvez que declama poemas e interpreta canções da Legião Urbana e de momentos solo de Renato Russo. O clima é intimista e despojado, é uma abordagem bastante alternativa - e talvez por isso mesmo - sedutora dessa música. O detalhe dos poemas catalisa de forma inusitada uma poética que geralmente é dissociada do musical, sobretudo pela maneira como Elisa Alves declama. Só depois de muito tempo fui ver Elisa solo num encontro de poetas e quase cai para trás.    

Ficamos muito tempo sem apresentar o Russo Poético, vários anos. - Não estou dizendo? A Odara cresceu e eu nem vi. - Agora você que ficou curioso e está a fim de um programa Classe A, convido formalmente a curtir a programação comemorativa do XII aniversário do Parque Botânico Vale. Vai ter o espetáculo Russo Poético com Elisa Alves, acompanhada por Juca Magalhães e Fabio Calazans, interpretando canções da Legião e do Renato Russo e declamando poemas de Cecília Meireles, Mario Quintana, Carlos Drummond de Andrade e Fernando Pessoa.

Além do deleite para alma, olhos e ouvidos; vai ter também um encontro de FoodTrucks com algumas opções gastronômicas para atender ao nosso paladar. Porque, honey, ninguém é de ferro e ainda ocorre que "todo descuido pode ser fatal"...

Russo Poético
Elisa Alves – Voz
Juca Magalhães – Piano
Fábio Calazans – Violão

Parque Botânico Vale
Sexta-feira, 6/5/2016
20:00 Horas
Entrada Franca!!!

sábado, 20 de fevereiro de 2016

SOME DAQUI VERÃO!

Tia Naná estranhou os cervejeiros usarem uma garota propaganda mezzo-fake, mezzo-calabresa e ainda impingirem-na (tohéin!) o hipocorístico de Verão (tohéin! De novo). Pode ser que Naná tenha razão, lembro verões melhores do que aquela. Exclusive, a referida Aline “entende do riscado” talvez seja a figura certa para ilustrar propaganda de cerveja, afinal: quem se atreve a consumir tem que ser macho para aguentar a dor de cabeça.
Tilin!
Calor é outro substantivo masculino que se descobrimos (sic) contraditório: o Tina Tironi me disse que era assim que chamava a colunista Maria Nilce, porque esta o apelidara de “menino do Rio”. Daí respondia atrevi-tímido: “e você é o calor que provoca arrepio”. Outro dia quis me mostrar um vídeo onde mamãe aparecia e ficou se perguntando “Cadê o Calor? Cadê o Calor?” Eu já distraído, estranhei: porra bicho, você quer mais?

Se pensarmos que estamos ainda no verão não há nada errado no calor africano da caatinga que está fazendo, o estranho é que esse infeliz chegou em setembro e não dá sinais de ir embora, já até coloquei vassoura atrás da porta...
E a sutiliza, ela existe...
Na internet alguém postou: “Que sol lindo! Como é que desliga?” E pensar que há uns dois anos aqueles modelos de ar-refrigerado “sprinter” custavam uma baba, agora as Lojas Americanas inventam promoções pela metade do preço sem ser Black Friday nem nada.

Pulando do fogo pra frigideira: lembra que o Governo passou boa parte do ano passado divulgando que haveria desabastecimento de água, que as reservas estavam no fim, que se não chovesse corríamos o perigo de uma hecatombe hídrica? Curiosamente, quando entrou novembro deu aquele Chabú da Samarco, mataram o Rio Doce e não se falou mais em seca.

... E por acaso choveu? Muito pelo contrário. Além do mar de lama, do rio que virou lama, da lama que desaguou no mar, que diabos aconteceu? Milagre? Nem em Guarapari faltou água. Quer dizer, faltou, mas também não foi tanto quanto esperavam os mais catastróficos.

Quando a coisa aperta a culpa é sempre da população, que - segundo ouvi dizer - não tem consciência ambiental, não economiza água e vive lavando calçada. Isso mesmo depois de eu-sei-lá-quem ter divulgado que os maiores consumidores de nossas reservas hídricas são as grandes indústrias.

Sabe o que mais? O melhor era o governo passar a gestão do abastecimento de água para a iniciativa privada. Sim, como foi feito com a energia elétrica. Seria essa uma hipótese muito absurda? Então veja o que afirma a seguinte matéria no site do Século Diário:


Enfim, a única notícia quente que podemos comemorar é que hoje acaba o horário do Verão! Vai que nessa o calor (nesse caso me refiro a esse bafo dos diabos) também toma gastura das terras capixabas e resolva deixar a gente esfriar a cabeça...
Só pra arrematar, essa veio do: http://www.bluebus.com.br

sábado, 13 de fevereiro de 2016

EITA MAU COSTUME DOS DIABOS!

Sempre achei que era um cara muito bom em ouvir críticas, presto atenção e procuro melhorar, mas de uns tempos para cá sinto que um monte de coisas que eu achava a meu respeito caducaram. Por exemplo: sempre acreditei que me dava super bem com os gays e outras “diferenças”. De uns tempos para cá comecei a perceber que, apesar disso, ainda tenho preconceito sim e que não os respeitava realmente, integralmente, como deve ser. Os homoafetivos são pessoas comuns e não tem nada de extraordinário em uma pessoa ser o que ela é. O problema é que corrigir algumas facetas desse nosso “jeito de ser” é tão difícil quanto arrancar um dente sozinho.

Vou dar um exemplo besta que vai levar essa conversa para outro lado (respirem aliviados seus preconceituosos):

Estava apresentando a inauguração de uma Academia Popular e minha chefa chamou atenção para o fato de que eu falava “acadimia”. Foi uma crítica que na hora estranhei, pensei mesmo assim: “Qual o problema?” Depois entendi: ora, o problema é que não é assim que se pronuncia a palavra. Simples assim. Toca a aprender a falar direito “minino”! O pior é que havia umas quarenta “Acadimias” pra inaugurar e foi um baita exercício mental manter aquele “e” no lugar certo. Toda vez que ia falar era preciso repassar o “e” na cabeça, aí vinha alguém, me distraía, e quando eu ia ver tinha falado “acadimia” de novo.

Fiquei encafifado com aquilo: de onde será que saiu esse mau costume no meu jeito de falar? Será que é coisa da pronúncia do capixaba? Fiquei reparando e vi que a maioria das pessoas falava certo, menos eu, que me julgava tão lido e escrevinhado. Comentei a Zika com minha esposa que, muito condescendente e solidária, opinou que devia ser “coisa de velho”. Possibilidade que bem que podia me ter passado “dispercebida”. Passei a notar que eu falava muitas outras coisas com aquele mesmo “sutaque”, praticamente tudo. Falávamos nisso e na televisão passou uma cena antiga com Paulo Autran que mandou um sonoro “dipois”. Virei pra ela e falei: olha lá! E a rebatida veio certeira: “Num falei que era coisa de velho”...

Fiquei amuado feito um fedelho diante de um prato de buchada, mas “dipois isqueci” o assunto.

No final do ano, no auge da confusão dos playboys contra o Chico Buarque fiz uma singela declaração a seu favor no Facebook e teve gente que achou ruim eu “defender bandido”. “Que saco! – Pensei – A gente não pode mais nem ter opinião!” Só de vingança baixei a discografia todo do filho do “Doutor Progresso”. Um dia, indo pro trabalho, o “player” do celular tocou aleatoriamente a canção Olhos nos Olhos. Qual não foi a minha surpresa quando lá pelas tantas o Chico mandou um sonoro “bem mais e “milhor” que você”. Com a mesma acentuação da palavra milho. Pensei: Pô, mas o Chico pode...

E o problema é justamente descobrir que hoje em dia nem o Chico Buarque pode mais... Quanto mais eu.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

EU NÃO SOU CACHORRO NÃO - SIMBA IS NOT A DOG NO!

A iniciativa de trazer outro gato pro Simba conhecer não foi a primeira ideia de jerico que tivemos com relação ao nosso filhote felídeo. Logo que o adotamos entramos numa de que deveria ser legal o levar para passear de vez em quando. - Pô, nada a ver o gato ficar trancado o tempo todo dentro de casa. - Fomos ao Petshop procurar uma coleira style para gato e descobrimos que isso ­- meio que, tipo assim - não existia ou estava em falta permanente. Os donos da loja nos olhavam incrédulos e divertidos, porque ninguém passeia com gatos, depois de adaptados os bichanos não gostam de sair de seu território.
 
Veja a "animação" do Simba brincando no escorregador 
A pessoa do Petshop – que não era mão boba nem nada – estava ali pra vender, então achou uma coleira de pequinês ou pinscher e disse que provavelmente se adaptaria ao tamanho do bichando, o que de fato aconteceu. Depois - enquanto passava o cartão e embalava a parada - comentou, mas muito assim, como quem não quer nada:

- É débito, né? Então... Vocês só têm que ter cuidado se aparecer algum cachorro... - Pois eu não tinha pensado nessa possibilidade... Só de ouvir os inúmeros latidos da cachorrada de nossa vizinhança o Simba entrou em pânico. Sinceramente, nunca tinha me dado conta de que havia tantos cachorros em tudo quanto é lugar. Realmente um mundo cão, cujo (cujo?) cardápio - na paranoia do Simba - seria "definitivamente" felino. Resumindo: o passeio, foi uma experiência única, inclusive no sentido de que não se repetiu até agora.

A vida moderna dos humanos é uma correria louca, especialmente quando vai chegando o final do ano. Parece que surge um funil, um moedor de carne, que vai estreitando, vai apertando, empurrando para dentro e para fora até que saímos em janeiro, moídos que nem boi ralado. Foi nesse meio tempo que apareceu a Letícia pedindo para interceder na adoção de um gato. Quando será que foi isso? Setembro, talvez outubro. De novembro em diante não foi que aí a gente já estava dentro do funil.

Como dito no post passado, eu me encantei com as fotos de um casal de gatinhos no Facebook e compartilhei na minha página. Tudo parte da empolgação com o Simba, para mim todo mundo deveria adotar um bichinho também. Nessa onda me comprometi a levar o filhote para a filha de meu primo Everaldo. Vem daqui e vai pra lá, combinamos de pegar o gato em Vila Velha, no sábado depois do almoço. Daí – planejamos – o bicho ficaria lá em casa “brincando” com o Simba até a manhã do domingão, quando, bem cedinho, pegaríamos a estrada e seguiríamos ao seu destino final, sua nova família em Fundão.
 
Zeus em um raro momento de tranquilidade na casa do Simba
O gatinho era pequeno e branquinho, devia ter uns três meses. Como é comum acontecer nos foi contada sua saga enquanto Alice acomodava o bichinho dentro de um desses negócios para transportar gatos. Partimos, e dali para frente o bicho miou, miou e miou. Miou toda a terceira ponte, miou para o pedágio, miou até para o semáforo. Miou com o carro andando, miou com ele parado, miou dentro do elevador, miou, miou desesperado. Só parou quando entramos em casa e, ainda na cozinha, o apresentamos ao Simba.

A antipatia felina foi mútua, visceral e imediata!

Só agora me dou conta de como é difícil descrever aquele negócio que o gato faz quando quer assustar outro bicho. Mostrando os dentes e fazendo gatice a la American Vampire. Hissszzz! Todo mundo já deve ter visto um gato no auge da puteza, o problema é que a gente não imaginava que o Simba ficaria tanto! Se deixasse o barco correr solto ele teria destroçado o branquinho! Bom, talvez não, porque também não imaginávamos o virulento instinto de sobrevivência do pequeno filhote.
 
Corre para as colinas abestado!
Durante todo o dia que ficou lá em casa o “branquinho” mostrou-se um antissocial apavorado, ao tentar o acalmar tomei uma unhada desesperada na perna, daquelas de arrancar sangue. Lembrei a velha máxima de Chico Anísio: “uma das sete maravilhas do mundo é o gato que nasce com unhas e dentes e não arranha o cú da mãe”. O jeito foi trancar o novato na sala e tentar acalmar o Simba que perambulava indócil pelo resto da casa. Isso quando tivemos tempo, porque rolou um ensaio de três horas do Algazarra Arte Coral e outros compromissos.
 
Encontro de Zeus com sua nova família
Assim como Simba se identificou comigo - diz um amigo que ele me escolheu para dono - o mesmo o branquinho fez com Alice, com quem Simba ficou depois mais de uma semana sem falar direito. No dia seguinte ela conseguiu fazer o bichano apavorado comer um pouco de ração. Comecei a ficar preocupado com a adaptação do bicho na casa de meu primo, com duas crianças, mas confiamos na sorte e fomos a Fundão completar a missão. O gato foi acolhido em festa, teve até um almoço de recepção. Letícia e Matheus ficaram encantados e o batizaram de “Zeus” que, para minha surpresa, longe de outras ameaças felinas, virou Rei lá no pedaço.
 
Zeus e sua patroa, "mais que um leão feliz"*
De volta para casa encontramos o Simba sentindo-se traído e mal pago, nem um pouco a fim de papo, nos olhava rosnando grosso como quem matuta uma vingança. Dias depois o bicho ainda estava revoltado e danou a mijar meus tênis e sapatos, fazendo a chamada demarcação territorial. Perguntei intrigado aos conhecedores do assunto: mas por que ele “demarcou” só os meus sapatos? Uns disseram que por causa de eu ser o macho (alfa) da casa, outros porque ele me escolheu para dono. 

Para mim o Simba quis mandar uma mensagem, de maneira que quando algum outro gato aparecesse ficasse logo sabendo: Escuta aqui mermão! Tu trata de ralar o peito porque quem manda aqui no pedaço não é esse humano grandão aí não, tá sabendo? Aqui quem manda sou eu! 


Miau, miôu e tenho dito!
P.S. * Sempre tive dificuldade de entender as letras da banda Paralamas do Sucesso. A frase entre aspas na legenda da foto de Letícia e Zeus, vem da canção "Vital e Sua Moto" e na verdade é: "mas que união feliz"...

domingo, 20 de dezembro de 2015

DUVIDAR É FUNDAMENTAL

Os velhos é que devem fazer a revolução dos jovens, pelos jovens, porque eles, velhos, não têm nada a perder, exceto a vida.

José Carlos Oliveira in Diário Selvagem – página 203

Hoje tive meu momento Yehudi Menuhin. O grande violinista contou que uma vez estava ouvindo rádio em casa e tocou um concerto para violino, talvez de Beethoven, numa interpretação brilhante, faiscante... E pensou: gostaria de tocar esse concerto desse jeito... Então, esperou até o apresentador dizer quem era aquele violinista e, para sua surpresa, não era outro que não ele mesmo, uns trinta anos antes.

Quando contei essa história alguns amigos acharam blasé, extravagância de gente deslumbrada. A princípio concordei, a afirmação também me incomodou. Achei meio ridículo o cara contar essa história, mesmo que realmente tenha acontecido... Mas, a vida vai indo e dá umas voltas na gente... “E a vida o quê é? Diga lá meu irmão...”.

Hoje de manhã peguei um texto nas mãos, uma publicação recente e de cara gostei da forma como o assunto introdutório foi abordado; sem rodeios, estabelecendo aquela ligação direta com o leitor cujo contrário (cujo?) me incomoda. No segundo parágrafo me caiu a ficha: ora, eu mesmo tinha escrito! Uma querida amiga me pedira para organizar seu perfil e depois o publicou; fazia vários meses, eu nem lembrava mais.

Acho que depois dos cinquenta – e o Yehudi devia ter pra lá de setenta quando contou aquela história – a gente se dá o direito de assumir certas vaidades. E alguém poderia perguntar com surpresa: ora Juca, mas você já chegou aos cinquenta? Pois é. Vai ser amanhã! Entendo e até espero - outra vaidade boboca - o possível estranhamento das pessoas, porque nunca perdi uma incerta atitude jovem – mas isso, de uns temos para cá, de vez em quando me incomoda.


Como foi que deixei passar cinquenta anos assim? Que diabo fiz EU da vida durante meio século? Faz pouco tempo eu andava de bicicleta Monark pelas ruas de paralelepípedo, dava voltas na quadra onde morava puxando pelo barbante uma Lotus preta de plástico, catava mamona nos terrenos baldios para municiar o estilingue. Lembro meu pai e minha mãe, já há muito falecidos, mas que tem hora parece que ainda estão aqui e vão me aparecer para me cantar o parabéns...

Detestava quando me diziam que o tempo ia passar rápido, e agora é muito difícil concordar que aqueles otários – sei-lá-quem – tinham alguma razão. Porém, se pudesse escolher, os jovens ficariam sem saber dessas coisas, porque é um dado que não acrescenta em nada e uma hora cada um vai descobrir qual é... Como eu, agora. Porque dizer para um jovem que ele vai ficar velho é apenas outra forma de dizer: eu sou melhor que você, eu venho de antes, eu sei mais. E isso não é bem verdade.

Mesmo adulto responsável a gente sofre iludido com historinhas que aprendeu sem nunca perguntar: será? O “será?” é fundamental, a música da Legião Urbana not so much. Buscar respostas dá um trabalho danado, mas vale a pena, porque a verdade nos faz capaz de discernir o bom do ruim, mesmo quando o ruim é bom pra cacete. Talvez essa seja a parada do amadurecer, a gente consegue fazer escolhas. Por essas e por outras desconfio que os caras regulam a vida dos jovens por “recalk”, porque acostumaram com a rédea do juízo e sabem que, as vezes, errar é bom bagarai...


Vai ser feliz meu povo! Que eu vou ali acender um cigarro na lua...

terça-feira, 27 de outubro de 2015

A SAGA DO GATO SIMBA

Depois que parti para a carreira solo da vida jamais pensei ter em casa algum animal de estimação. Não tinha sequer opinião negativa ou positiva a respeito e Alice – em nossos quase dez anos de relacionamento - de vez em quando dizia querer um gatinho. Eu até aceitava a ideia enquanto coisa, mas soava distante como uma viagem a Europa ou voar de parapente. O Rodrigo, colega de trabalho, tem dois gatos e dizia que o legal é que, diferente do cachorro, o felídeo (Eita!) não dá trabalho nenhum.

Ouvi aquilo desconfiado como um fedelho diante de um prato de buchada...

Breve eu descobriria mais umas e outras coisas sobre os “pets”. Senão, vejamos: é importante, por exemplo, a maneira como o bicho entra em cena. Nunca me passara pela cabeça, mas tem gente que condena o comércio de animais de estimação, afinal, se trata de uma vida e não de uma mercadoria. Então, quando esse personagem estreou no final de nossa oitava temporada, uma das primeiras perguntas era se o gato fora comprado ou adotado e rolava uma satisfa quando contávamos sua peluda saga...

Era uma vez uma família que morava em Alvorada. Uma noite, em sua porta, apareceu um gatinho maltratado, faminto e bastante machucado. O bicho parecia ter se metido em alguns arranca rabos e passado maus bocados. Foi acolhido com um carinho danado, mas não podia ser adotado, afinal, na casa moravam já outros dois gatos e perigava começar a terceira guerra territorial. Começaram então uma campanha de adoção e as fotogênicas imagens do bichano inundaram o telefone de Alice... Até que um dia veio a decisão, dita com um pouco de receio: vamos pegar esse gato pra gente?


Primeiro registro do gato Simba em sua nova casa
Confesso que não tinha nada contra, mas, veja bem: muito menos tinha algo a favor...   

Na hora do encontro fomos recebidos por uma solene comitiva familiar, uma senhora e duas mocinhas, era início da noite, dia 3 de agosto naquele ano em que a Dilma, o PT, o PMDB e sei-lá-mais-o-quê quebraram o Brasil. O gato vinha no colo da matriarca e tive impressão de que o bicho me olhou com desconfiança recíproca, se voltando bem para o outro lado. A mais jovem comentou que o felino parecia um leão, na mesma hora veio o nome na minha cabeça “Simba”! Mas não falei nada, afinal a adoção do gato era iniciativa de Alice que a essa altura já acarinhava o bicho no colo...

Valente como os grandes felinos de sua espécie, ao chegar em nosso apartamento o diabo do gato imediatamente elegeu o fundo da máquina de lavar como trincheira e esconderijo e de lá se limitou a vigiar nossos movimentos. Dava para ver apenas a pontinha do focinho e os olhinhos amedrontados, do esconderijo só saía para comer a ração. Mais tarde tomou coragem de explorar a casa, descobriu um buraco embaixo do sofá na sala e ali passou a se encarapitar.




Foi com uma dificuldade danada que o arrancamos do novo esconderijo para levar ao veterinário no dia seguinte e lá, coitado, tomou vacina, teve as garras aparadas e – last but not least – temperatura medida. Na volta para casa o bicho estava amuado, pasmado e ligeiramente estuprado. Demonstrando raciocínio inteligente, nem dentro do sofá se enfiou mais, construindo, aliás, uma curiosa relação de causa e efeito.

Após conviver pela primeira vez com um bicho dentro de casa, confesso, foi passando o estranhamento e gostei muito, mas muito mais do que esperava. Quando dei por mim já estávamos assistindo televisão juntos, fazendo videocassetadas e tirando altos cochilos no sofá. Descobrimos depois, da pior maneira possível, que os gatos dormem pra caramba de dia porque têm hábitos notúrnicos. Mas minha maior surpresa foi constatar que o bicho se utiliza de uma forma de comunicação bastante clara e eficaz.

Simba desfrutando a parte externa de seu esconderijo predileto
Quando da adoção uma das meninas falou que aquele era um bichinho muito obediente, gostava de brincar e que se pedisse comida era só a gente dar. Pensei que fosse viagem. Imagina, vai pedir comida como? Pois não é que pede? O gato mia e olha pra gente, vai até a vasilha de comida, mia de novo e fica olhando pidão. Só falta falar: “ô cara pega esse saco vermelho de ração e bota uma comidinha aí pra mim”. Depois de alimentado fica numa satisfa doida e passa a realizar tocaias e caçadas imaginárias da sala pro quarto, da cozinha pro banheiro, correndo e derrapando pela casa.

Depois de umas semanas senti o felino adaptado ao novo habitat como fora mesmo a sua selva, ao invés de correr apavorado para se esconder passou a receber gente estranha com sua curiosidade olfáctica característica. Demonstrou, inclusive, certa predileção pelas visitas femininas... E essa é outra das coisas que aprendemos sobre os animais de estimação: a onda de castrar. Honestamente, ainda não tivemos coragem de mandar as bolas do nosso gatinho maluquinho pro cadafalso.   

O dia em que Simba encontrou o seu lugar ao sol
 Alice ainda não conseguia decidir como chamar o filho adotivo e o apelidou de Zebulom, filho de Jacó, mas não sabe explicar por que, era uma espécie de piada pessoal. Como quem não quer nada dei ideia de chamar o gato de Simba e uma hora pegou. Sinto agora que sua denominação poderia ser outra, mais adulta. Do canto de seus olhos saem traços que parecem maquiagem de egípcios, um treco sobrenatural. Hoje eu o chamaria de Mister Crowley, Bubastis ou Bastet. No fim, o nome nem é tão importante, o bacana foi a surpresa dessa nova alegria em nossas vidas.


Escrevi esse texto como uma forma de registrar a adoção que realizamos com um receio danado e que depois nos trouxe tantos momentos especiais. Escrevo agora mesmo com o Simba correndo pra lá e pra cá. As pessoas que confiaram essa vida em nossas mãos tiveram medo também, afinal, não nos conheciam, e o bicho homem – esse sim - é um danado ardiloso. As feiras de adoções de cães e gatos acontecem regularmente, então, se você quer adotar um animal e está na dúvida, eu digo: não perca mais nenhum segundo.

Simba posando para uma selfie com sua nova família
A receita para sermos felizes e começarmos a pensar em termos um mundo melhor e menos violento é cuidar que outros possam ser felizes também...