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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

RAPIDINHA CULTURAL - DO VIOLÃO

Acabei de ler no site da Revista Concerto que faleceu no último dia 17 de janeiro o cravista Gustav Leonhardt. Fui apresentado a algumas peças de Bach através de suas gravações, referência de orelha para os aspirantes a batucadores de instrumentos de teclas. Entre estes estava uma menina chamada Ana Claudia, minha professora, tão paciente; até hoje me pergunto como foi que ela deu conta de me musicalizar, eu já com mais de vinte anos. Era motivo de orgulho pra Ana dizer que eu era o único adulto que ela conhecia que tinha aprendido a tocar piano “depois de grande”.

Olha que o tempo passou, mas não me sinto “grande” até hoje, nem aprendi o tanto do piano o quanto gostaria. Às vezes parece que a gente se sabota, arruma coisas, outros tantos trabalhos e tarefas só para não fazer o que realmente queremos ou mesmo gostaríamos de ter feito. Muitos então nos tornamos reclamões e críticos, tacamos logo pedra em qualquer um que se atreva a tentar fazer aquilo mesmo que nunca conseguimos, chutamos crianças quando estão aprendendo a andar. Porque não existe ninguém bom, lição amarga, aprendida na linha do tempo.

Tenho uma gravação do Cravo Bem Temperado com o Leonhardt, porque estava em um sebo de São Paulo e o dono da loja disse que eu não podia sair de lá sem aquele disco. Disse que tinha assistido um recital do cravista lá em Sampa e que depois da apresentação foi lá cumprimentá-lo, era fã de carteirinha que nem a Bolinhas com a tia Rita Lee. A gravação dessa obra de Bach é referência total, superlativa, elogiar seria até bobagem. Mas não pude agradecer a indicação, tempos depois quando voltei no sebo o dono tinha falecido, vítima do Mal de Chagas... Coisas da vida.



Como essa é uma rapidinha cultural, não posso deixar de convidar a galera para um recital internacional de violão clássico que vai rolar de graça hoje no Carlos Gomes, catei algumas infos sobre o artista que vai se apresentar no coparampa.com.br:

Vem aí o húngaro Sándor Mester, ou MS3, em única apresentação. Com apenas 16 anos de idade, Sandor venceu o prêmio Nacional da Hungria de Guitarristas, concorrendo na cidade de Torino. Hoje é o violonista clássico com maior número de concertos na Europa Central e Oriente, seu repertório abrange 600 anos de música clássica desde o Renascimento até os dias de hoje. 

Em 1998, teve sua carreira ameaçada devido a uma doença chamada "distonia focal" que paralisou sua mão direita. Enquanto lutava por sua recuperação, inventou uma nova maneira de fazer música digital concorrendo a patente com a "Digital Improvisation" (DI), fundando a Digimpro KFT em Budapeste (2000) e Digimpro Ltda em Londres (2003). A tecnologia DI já foi usada por grandes estrelas como: Robbie Williams, Roots, Manuva, Erasure e Moby. Retomou sua carreira em 2003, realizando mais de 500 concertos até 2005, em diversos países. Segue o flyier (voador em inglês):


quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

HOJE TEM TROPICÁLIA NO THEATRO CHARLES GHOMES!

Ó queridos companheiros como pulas tão ligeiro.
Se és covarde saia do palco que essa galera é de valor!
Segunda bateria: pula, pula, pula. Pulou!!!

Como diria Juca Chaves, vocês sabem como é difícil para um homem na minha idade bisar, mas vou bisar: hoje a noite (19 de JANEIRO de 2012 - 20 horas) tem repeteco do espetáculo Um Canto Solidário em homenagem à Tropicália e aos caracóis dos cabelos do Caetano, da Betânia, da Gal e do Sidney Magal...

Minha primeira participação já valeu um ótimo texto na Letra Elektrônica que acabou até sendo publicado no prestigioso Caderno Pensar de A Gazeta. Em meio a tantos escritos rebuscados e competentes, essa nossa participação estrambótica deve ter dado mesmo o que Pensar aos leitores de tão renomado jornal.

Estou apenas convidando, ninguém é obrigado a ir, mas você não vai cometer o tremendo baixo astral de faltar, vai? Pessoas que não usam mais sacolas plásticas vão; pessoas que não dirigem doidarássas devem ir; e aqueles que não fazem sexo com pessoas adormecidas, então..? Vão ocupar a primeira fila do Theatro!

Falando em Tropicália, vou ali dar uma corridinha no calçadão pra ver se paro de lembrar do Chacrinha toda vez que me olho no espelho. Bora lá de noite galera. Qualé? Vai ficar em casa assistindo Big Brother pra poder falar mal no Efebê? No Way Hôsêy!


quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

ENTREVISTA EXCLUSIVA COM JESUS O CRISTO

Uma vez o Sunda - sem sacanagem, esse era o apelido dele mesmo - perguntou por que é que eu gostava tanto de ir pra São Paulo se eu não curtia frequentar boates e bares chiques, para ele a única coisa interessante que poderia haver por lá. O que sempre me encantou na terra da garoa foi a cultura, o povo de um nível bem melhor do que o da roça em que nos ilhávamos. Gente que você pergunta sobre um livro e vai te saber dizer quem é o autor, se bobear tem até uma dica boa qualquer.

A verdade é que eu não odeio essas “casas noturnas”, digamos assim; mas, obviamente, faça o favor de nunca me chamar para uma. Eu até freqüentava discotecas, boates e danceterias quando era um rapazinho tirado a pegador, daqueles que gostam de usar perfumes com nome esquisito (Eternity e Fahrenheiht, por exemplo) e camisetas apertadas para estufar os músculos, o máximo que uma camiseta me estufa hoje é a pança. Claro que não ia lá pra ficar ouvindo Danna Summers, era apenas um esforço em prol da vida sexual, afinal era nesses buracos que as fêmeas mais apetecíveis abriam suas asas e soltavam suas feras.

Minha estratégia nessas ocasiões era muito simples: enchia a lata em algum boteco honesto, como dizem hoje em dia, - nas boates corre tarifa de aeroporto e inviabiliza financeiramente um porre mais encorpado – entrava trocando as pernas, perturbava o disc jockey (Eita!) pra colocar rock e partia pra cima da primeira garota que me olhasse por mais de dois compassos no estilo allegro furiozo. Nas vezes em que não deu pra calibrar e entrei de careta em qualquer uma dessas paradas, acabei saindo sozinho. Dizem que o álcool desabilita o órgão repressor e aí as coisas acontecem ao inverso.

Sunda não sabe, nem sequer pressente, mas o que me atrai especialmente em São Paulo são os sebos, livrarias que vendem livros usados. Geralmente volto carregado. Em minha última viagem trouxe uns quatro novos títulos, curiosamente havia alguma relação de mesgueio entre três deles: achei uma edição do primeiro volume da série “Operação Cavalo de Tróia” do autor espanhol J. J. Benitez. Era um livro que tinha vontade de reler, porque lembro pouca coisa. Os restantes foram um curioso e espetacular livro intitulado “O Babuíno de Madame Blavatsky”, devorado em sumárias duas semanas, e O Anticristo de Nietzche que venho degustando lentamente. 

Cada um à sua maneira os três livros tratam do impulso religioso humano, sendo que no primeiro o Benitez teve a sacada de recontar a paixão de Cristo através de uma minuciosa pesquisa sobre hábitos da época, informações da cultura judaica, textos de historiadores como Flávio Josefo e por aí vai. Neste aspecto o livro é muito interessante, o resto é tanta bobagem e desejo de ser um novo Julio Verne que dá até vergonha pelo autor. O momento mais espetaculoso – e portanto patético - é quando o jornalista consegue realizar o sonho de qualquer profissional da imprensa ocidental: uma entrevista exclusiva com Jesus O Cristo. 


Imagino que a maioria dos leitores da Lektra ainda não teve a oportunidade de ler essa obra, então transcrevo aqui a entrevista, pena que o vídeo não caiu ainda no youtube:
***
 
Ao notar que Jesus se oferecia prazeirosamente ao diálogo, aproveitei a ocasião e perguntei-lhe sua opinião sobre o que sucedera naquela tarde.
   
- Encontrei-os todos embriagados. Nenhum eu encontrei sedento. Minha alma sofre pelos filhos dos homens porque estão cegos de coração; não vêem que chegaram vazios ao mundo e tencionam sair vazios do mundo. Agora estão bêbados. Quando vomitarem seu vinho se arrependerão...

- O mundo do qual venho - tratei de pressioná-lo – distingue-se precisamente pela confusão e pela injustiça. A Bebida tem sido um problema também...

- Teu mundo não é nem melhor nem pior do que este. A ambos só lhes falta o princípio que rege o Universo: o Amor...

Aquela incisiva frase do Nazareno trouxe-me à memória muitas das crenças sobre um Deus justiceiro que condena ao fogo do inferno o que morre em pecado. E foi o que lhe disse. Cristo sorriu meneando a cabeça negativamente.

- Os homens são hábeis manipuladores da Verdade. Um pai pode sentir-se aflito com as loucuras do filho, mas nunca condenaria os seus a um mal permanente. O inferno, como crêem em teu mundo, significaria que uma parte da Criação haveria escapado das mãos do Pai... E posso assegurar que crer nisso é não conhecer o Pai.

- Porque então falaste em certa ocasião de fogo eterno e ranger de dentes?

- Se falando por parábolas não me compreendes, como então posso ensinar-te os mistérios do Reino? Aquele que aposte forte, e se equivoque, sentirá como lhe rangem os dentes.

- A vida é uma aposta?

- Uma aposta pelo Amor. É o único bem em jogo desde que se nasce.

- A ser assim, que podemos pensar dos que nunca amaram?

- Não há tais.

- Que me dizes dos sanguinários, dos tiranos?

- Também esses amam à sua maneira. Quando passarem para o outro lado levarão um bom susto...

- Não entendo.

- Eles se darão conta, ao deixar esse mundo, de que ninguém lhes perguntará por seus crimes, riquezas, poder ou beleza. Eles mesmos se convencerão de que a única medida válida no “outro lado” é a do Amor. Se não amaste aqui, em teu tempo, somente tu te sentirás responsável.

- E que ocorrerá com os que não tiverem sabido amar?

- Quererás dizer: com os que não tiverem querido amar...     - Novamente me senti confuso. -... Esses serão os grandes burlados e os últimos no Reino do meu Pai.

- Então teu Deus é um Deus de amor... - Jesus pareceu agastar-se.

- Tu és Deus!

- Eu, Senhor?!

- Todos os nascidos levam o selo da Divindade.

- Mas não respondeste à minha pergunta. É Deus um Deus de amor?

- Não o fosse e não seria Deus.

- Começo a intuir, Mestre, que tua missão é muito simples. Será que me engano se te digo que teu trabalho consiste em deixar uma mensagem? - O Nazareno sorriu satisfeito. Pôs sua mão sobre meu ombro e replicou:

- Não podias resumi-lo melhor. Diz a teu mundo que o Filho do Homem só veio para transmitir a vontade do Pai: que todos são seus filhos!

- Isso já sabemos...

Tem certeza? O que significa para ti ser filho de Deus? - Sinceramente, não tinha uma resposta válida. Nem mesmo estava seguro da existência desse Deus. - Eu to direi. Haver sido criado pelo Pai supõe a máxima manifestação de amor. Ele dá tudo sem pedir nada em troca. Eu recebi o encargo de recordar isso. Essa é a minha mensagem.

- Então, façamos o que façamos, estaremos condenados a ser felizes?

- É questão de tempo. É necessário que o mundo entenda e ponha em prática que o único meio para ele é o Amor.

- Se tua presença no mundo obedece a uma razão tão elementar, não crês que “tua igreja” é demais?

- Minha igreja? Não tive nem tenho a menor intenção de fundar uma igreja tal como tu pareces entendê-la.

- Não foi você quem falou que a palavra do Pai deveria ser estendida até os confins da Terra?

- E ela será, mas isso não implica em condicionar ou dobrar a minha mensagem à vontade de poder ou das leis humanas. Minha mensagem só necessita de corações puros que a transmitam; não de palácios ou deputados que a cubram.

- Tu sabes que não será assim. Tem o Papa, tem os evangélicos, tem o Silas Malacacheta (ouro de tolo?). Sei lá...

- Ai dos que antepuserem sua estabilidade à minha vontade! Tu necessitas de igreja para chegar ao teu coração? O amor não necessita de templos ou legiões urbanas.

- Por que é tão importante o Amor?

- É a vela do navio. O Amor é dar. Desde um olhar até a sua vida.

- E o que dizes de teus inimigos? Também deve amá-los?

- Sobretudo a esses... O que ama aos que o amam já recebeu a recompensa.


J.J. Benitez - Operação Cavalo de Tróia - Livro 1 "Jerusalém".

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

NÃO FALO MAL DO BBB / FALO MAL É DE VOCÊ!

Todo ano é a mesma coisa: mal a Rede Globo começa a anunciar o Big Brother, traçando o perfil de seus “heróicos” participantes, pipocam zilhões de críticas revoltadas em tudo quanto é “site de relacionamento” da Internet. Peço licença para discordar dessa peculiar tortura antecipada que aflige o povo brazuca: para início de conversa, o próprio fato de alguém se incomodar tanto já mostra o quanto está debaixo do pé gordinho do filho do Boni e do pobre Bial (pobre?). E outra, agora traçando um paralelo: faz uns meses assisti a uma longa entrevista do poeta Ferreira Goulart que se dizia incapaz de criticar a poesia de pessoas que vinham humildemente submeter seus esforços literários à opinião do consagrado mestre. Disse que preferia calar:

- Eu vou falar o quê? O sujeito não roubou, não matou ninguém. Fez lá sua poesia na maior boa vontade, como é que eu vou dizer que ele é um medíocre sem talento? –

Penso algo assim de toda essa porcaria transmitida às toneladas pelas redes abertas e fechadas de televisão. Ninguém é obrigado a assistir novela: ou será que é? Pegue um bom livro para se entreter, vá ao cinema, aprenda a tocar um instrumento... Ora! Tanta coisa boa ainda por fazer. Por isso não falo mal dos balofos apresentadores da televisão, eles e suas contas bancárias polpudas tão diferentes da minha e da maioria das pessoas. Eles não mataram ninguém de tédio ainda, não que eu saiba...

Na mesma balada, é bastante curiosa a pequena demanda por protestos causada pelos problemas reais da vida, essa ordinária, como as pessoas que morrem sem atendimento nos hospitais e inúmeros outros crimes hediondos cometidos contra o povo todos os dias, os sutis aumentos nos preços dos produtos e serviços que mantém a maioria das pessoas endividadas ou no limite de seus recursos financeiros. Vide o recente aumento dos pedágios ou a invenção esperta das sacolas ecológicas.

Curiosamente, as grandes sacanagens impostas diariamente ao povo brasileiro são encaradas (de frente) como coisa inevitável, nem sequer são questionadas. Enquanto isso, programas idiotas de televisão - que não são obrigatórios nem da conta de ninguém os exibir - são vistos como coisa altamente ultrajante. Nesse mesmo instante bombam protestos na Internet contra o BBB, curtidos e apoiados por inúmeras pessoas Uau! Isso realmente mostra como somos capazes de nos indignar, pena que é geralmente pela razão errada...

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

CRÔNICA ABSURDA - MANIFESTO CULTURAL AUTÓCTONE Nº 01C

Sim, é uma questão de dinâmica, de estrutura de palco, de enfiar a cara ou outra coisa qualquer que o valha! Eu não inauguro um novo ano, ele é que se inaugura sozinho, é parte de um todo e sua imaginação. Por isso que digo, porque acredito, que em muitos casos complicados aquilo que é visto como o problema pode muito bem ser o caminho para a solução e não o contrário. Sei lá eu de contrários e de advérbios, eu sei lá da vida dos outros. Não gosto quando vêm me falar da vida dos outros, não quero ser público paciente para frustrações e loucuras. 

Todo ano é a mesma coisa, nós mudamos, nossas roupas mudam. Não poderíamos usar as mesmas coisas de vinte anos atrás nem que quiséssemos. A moda muda e as roupas nunca mais serão as mesmas e se fossem nossa pele é que seria diferente, eu sei lá o que isso também quer dizer...

Essa noite sonhei um sonho estranho, uma enorme roda de metal flutuando muito alto no céu. Parecia uma daquelas engrenagens de relógio, só que dela saíam pontes para lugar nenhum. Eu estava de pé em uma praia onírica que - como é comum - não saberia dizer se era de um grande rio ou um delta no mar, mas haviam montanhas ao redor e distante também. Era uma obra em construção, flutuante, inacabada, que não posso - e nem quero poder - imaginar como é que se constrói.

No sonho eu não imaginei o preço do pedágio, não há lógica nos sonhos, não precisamos meter a mão nos bolsos e constatar que a vida fica mais cara, porque é necessário que a maioria viva sob opressão. É assim que se joga esse jogo. Depois de velho, ao invés de ficar bom em o jogar, comecei a perceber mais claramente que existem formas de, simplesmente, não participar mais e escapar daquela grande roda. Mesmo porque, uma hora todo mundo vai ser carta fora do baralho. É preciso se preparar para o que nem sei, principalmente isso (Saravá George "Erra O Som").

Não, não vou procurar significados, nem significantes. Ficar é coisa de adolescente de anos atrás, bem atrás, exclusive. Não precisamos de sentido, mas talvez de sensações. Não quero mais conhecer a teoria, quero experimentar. Não quero saber quantos raios tem o aro de uma bicicleta: eu quero o que não sei se quero mais, o que eu quero é, talvez, pior de tudo, não fazer mais sentido. Bye!

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

GOSTEI DE UM TEXTO DE CAETANO VELOSO

Tô pra te dizer que nunca tinha lido nada de Caetano Veloso que me agradasse: como escritor eu o acho pedante e o costume que ele tem, inclusive no texto abaixo, de mencionar autores e eventos que soam "descolados" do ponto de vista intelectual - se é que isso é possível - me faz pensar que o bardo baiano tenha algum problema de auto-estima. Por outro lado não sei: talvez ele seja apenas um cara que lê Nietzche e Stephan Zweig, vê filmes do Lars Von Triers (Agora não dá mais pra mencionar o Godard?) e queira falar das coisas que gosta como muita gente faz, inclusive eu.


Seu texto é sobre o Natal que acabou de passar e o Reveillon que está para chegar. Gostei muito da forma como ele fala da canção de Assis Valente e da sensação de repúdio às festas natalinas que, aliás, compartilho integralmente. Quem sabe, como ele, um dia não volto a gostar também? De vez em quando nos sentimos velhos e rodados, mas, talvez o que nos falte seja simplesmente a maturidade...

 

Caetano Veloso - Curva do Calombo

Todo fim de ano é fim de mundo, e todo fim de mundo é tudo o que já está no ar. Ou pelo menos é assim que lembro que começa a canção que fiz em Brasília para o disco "Cantar", que produzi para Gal no final dos anos 1970. O ano de 2012 chega com supostas profecias do calendário maia, com a "Melancolia" de Lars Von Trier, com a deterioração da União Europeia e a impressão de que a hegemonia do Atlântico Norte  chega ao fim. Isso é mais ou menos tudo o que já está no ar. Mas da próxima vez que eu for a Brasília, eu trago uma flor do serrado para você.

Não fui procurar o que afinal Flora Thompson DeVeaux achou de Brasília, mas vi que ela equacionou as notícias de cancelamento (tantas vezes desmentidas e reeditadas) do show de João Gilberto com o poema de Pessoa sobre Dom Sebastião ("Sem a loucura o que é o homem/ Mais que a  besta sadia/ Cadáver adiado que procria?").

Brasília costumava ser o refúgio dos que desejavam salvar-se do Apocalipse. Só o Planalto Central do Brasil sobreviveria à subida abrupta dos mares e aos demais desastres que chegariam com o novo milênio. O novo milênio chegou, e o Brasil sentiu afinal tinha ele mesmo chegado ao futuro.

Aquele futuro que Stefan Zweig sacou tão bem. Mas as notícias sobre o crescimento das áreas faveladas nas cidades brasileiras, aliadas ao crescimento zero que sucedeu ao milagre da época da campanha de Dilma, fazem pensar em planejar um desânimo. Mais uma vez.

Enquanto escrevo no Leblon, ouço com espanto um carro de som que passa pela minha porta tocando "Boas Festas" de Assis Valente em volume de Jingle Bells. O vídeo que rola na internet tem uma versão dessa canção americana (ou será inglesa?) com alguns sotaques do nordeste brasileiro mas fincada em percussão e guitarra baianas. Sou velho o bastante para lembrar da marchinha de Assis Valente como canção de Natal por excelência, inclusive com uma gravação em harpa paraguaia que, quando surgiu, já um tanto tardia, era obrigatória nas festas de fim de ano.

Jingle Bells era conhecida (acho que João Dias a gravou nos anos 50, com a letra em português  que conhecemos), mas o "Anoiteceu/ O sino gemeu" de Assis era que marcava a temporada natalina. Como se sabe, é uma canção de Natal com letra pessimista, coisa rara em toda parte e talvez mesmo impensável em todos os países ocidentais. Mas é uma canção irresistivelmente doce ao canto, profundamente concorde com a atmosfera do Natal.

É assim que os brasileiros sempre a escutamos. Observo que ela já não é tão ouvida ultimamente e suponho que gente da geração de meu filho de 19 anos talvez nem a coneça bem. Seria uma pena. João Gilberto a considera uma expressão de grande musicalidade (sua interpretação dela, que só se pode ouvir num vídeo do programa de TV que ele gravou faz já muito anos, é uma das coisas mais bonitas que o Brasil pôde vivenciar enquanto esperava o futuro).

Brasília não é celeiro de boas notícias, mas quem sabe? Há quem diga que ela mesma foi péssima notícia. Mas eu sou sebastianista joãogilbertiano e, louco, ainda acho que o pessimismo explícito e oculto da canção de Assis diaz algo sobre o Brasil que nós ainda não estamos à altura de entender direito. E olha que eu próprio já cantei essa música na TV com um revólver apontado para minha cabeça.

O fato é que eu acreditava que não gostava nem gostaria  nunca de Natal. Mas admito que já faz uns 10 anos que venho mudando  a esse respeito. Talvez isso se deva a eu ter sido sempre um cultuador da noite de São Silvestre (como Nietzche), em que grandes promessas se impõem, e os réveillons me tenham frustrado com quase intolerável insistência.

Fui me refugiando no Natal, que sempre compunha para mim o quadro chato que virou clichê de festa de família. Não que fosse assim na minha infância - ou em qualquer época na casa dos meus pais. Mas o Natal de sentimentalidade compulsória já me irritava desde que os galhos de pitangueira foram substuídos por lâmpadas, o presépio pelos pinheiros de plástico e a areia da praia pelas contrafações de neve obtidas com algodão e isopor.

Hoje sinto um pouco de saudade do algodão. Foi no começo de minha vida  adulta que decidi desprezar o Natal de vez. Hoje confesso que até a árvore da Lagoa ás vezes me toca o coração (menos quando tenho de enfrentar engarrafamentos suplementares por causa da aglomeração de curiosos na Curva do Calombo ).

As festas de virada de ano, que sempre me excitavam, começaram a me deixar frio. Ou pelo menos relativamente frio. Não sei se foi aquele réveillon da Praia de Copacabana em homenagem a Tom Jobim em que um erro de Paulinho da Viola deu asas aos instintos jornalísticos mais baixos ou se foram as subsequentes festas de Ano Novo de que esperei tanto e que nada me deram - ou tiraram algo de mim-, ou quem sabe, as tristezas acumuladas nos anos mais recentes, o certo é que tenho me precavido contra as expectativas de Ano Bom.

Seja como for, um fundo de excitação resta: sou louco por festas. Na verdade é isso que ressurge na iminência do Natal. É como no carnaval: meu corpo todo se eletriza à aproximação. O réveillon meio que perdeu esse encantamento. O Natal ficou com um resto dele. O ano que vem não trará o fim do mundo, bem provavelmente, pois, como na outra canção de Assis, esses anúncios são sempre inconventientemente desmentidos pelo seguir difícil dos dias. Sinto-me num engarrafamento na Curva do Calombo.

***

P.S. da Lektra: Eu também não sei o que é essa Curva do Calombo não, por essas e outras que tem o Google hoje: vai pesquisar!

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

CRÔNICA DE RÉVEILLON

Quando eu comecei a escrever a crônica passada tinha intenção de falar sobre a verdade que jaz (jazz?) inerente às cidades e às pessoas, tema que apareceu em uma conversa com o Grilo Falante sobre aquela outra  na qual eu falava de meu pai e algumas de suas histórias. Nessas conversas sempre tenho idéia para textos, o problema é que às vezes eu simplesmente esqueço. Outras vezes não: começo a escrever como se numa carroça puxada por bois: espero para ver aonde a história pensante quer ir e tento a ajudar a chegar lá.

Uma cidade não é uma pessoa, pode até ser descrita através de livros de turismo, fotografias ou cartões postais, mas essa jamais será a sua alma. Dizem que Bram Stoker fez isso em “Drácula”: sem ter jamais posto os pés na Transilvânia deu lá umas pinceladas geográficas para criar um cenário fantasmagórico e situou sua história na Londres em que morava e conhecia. Pela mesma razão, as características físicas de alguém - altura, cabelo, cor da pele e dos olhos - nunca são tão interessantes como uma gagueira ou o costume de piscar os olhos, a compulsão por pequenas mentiras e gestos extravagantes.

Um dos presentes que pintaram em um dos últimos aniversários de Alice foi um curioso livro chamado A Gruta, obra de “realismo fantástico” envolvendo Beethoven e Mozart, mas escrita por um cara de Belo Horizonte nascido no mesmo ano que eu. A descrição de Viena nessa obra é um dos piores exemplos que conheço dessa falta de alma em uma caracterização da, digamos assim: locação. Quando falamos de uma cidade podemos descrever suas praças, pontes e ruas: mas e o ar que se respira e seu veneno? Todos buscam desvendar um lugar quando nele se debatem atrás da vida e é isso o que as grandes obras refletem: é o que Hemingway dizia sobre a verdade.

Os historiadores afirmam que Ludwig van Beethoven media 1.60cm e tinha o rosto marcado pela varíola, obviamente isso é muito pouco para descrever o gigantesco compositor alemão. Pergunte a algum parente seu como era aquele avô que você não conheceu e veja o que será dito: que ele era engraçado ou ranzinza, que era meio surdo, tinha costume de usar ternos alinhados, montar em um burro e ir para a cidade se atualizar das fofocas e notícias da capital. Não importa muito se ele usava dentadura, ou penteava o cabelo à moda dos galãs de cinema. Importa o que a pessoa realmente foi para as outras...

Por isso devemos nos preocupar mais em ser do que aparentar. Fotografias bonitas não serão suficientes para ilustrar o que fomos: ações importam bem mais. Pode imaginar que bacana seria, como vemos nos filmes, alguém falar que “você era gentil com os estranhos”? Para o futuro, talvez seja mais importante lembrar que mantivemos “Elegância Sob Pressão” e que não maltratamos os que nos amam enquanto sorrimos gentilmente para desconhecidos...