Uma amiga me envia um questionário de Antropologia, cujas (cujas?) considerações quero compartilhar. Os que se animarem a responder essas cinco perguntas poderão participar da pesquisa e, quem sabe, contribuir para desvendar o capixaba, esse ser misterioso...
1 – O que você mais gosta aqui no Espírito Santo? O que mais te atrai?
Aqui estão minhas raízes profundas e meus amigos mais antigos, minhas referências de vida. Gosto de caminhar pelas ruas em que passei a infância, a adolescência e a vida madura. Gosto de mostrar os velhos lugares para pessoas que quero bem e contar histórias que aconteceram ali há vinte, trinta anos. Gosto da cidade que cresce, mas continua pequena e dessa coisa do capixaba achar que perto é o lugar aonde se vai a pé. Gosto, enfim, de nossa simplicidade, ainda que as vezes ela também me incomode.
2 – O que te força ou te atrai a ficar aqui em termos culturais?
Infelizmente pouca coisa. Apesar de estar se desenvolvendo com muita velocidade e atropeladamente, Vitória ainda permanece interiorana, indefinida culturalmente e seus habitantes típicos são muito fechados e resistentes a novidades, como índios, e também como estes costumam se deslumbrar com qualquer bugiganga de colonizadores. Nessa contramão, o capixaba em geral não valoriza seus artistas nem a arte feita aqui; se isso é o problema, ou se o problema resulta disso é uma questão de descobrir o que veio primeiro: o ovo ou a galhinha. Me atrai ficar aqui em termos culturais para lutar contra esse atraso e tentar fazer a minha parte na preservação de nossa memória, na construção de uma identidade cultural e no apoio ao surgimento de novos talentos.
3 – O que é ser capixaba?
É sentir frio em dias de chuva e não saber o que é o inverno. É reclamar de nossa cultura e repetir os erros da maioria, que são: não prestigiar, apoiar e ajudar a divulgar o trabalho dos próprios colegas. É falar mal do patrão, mas o respeitar submissamente. É se omitir ante a bandalheira e se indignar com bobagens e episódios isolados. É ser como a grande maioria dos outros irmãozinhos brasileiros. Ser capixaba é querer saber qual é...
4 – Quais os pontos turísticos do Estado?
O Convento da Penha é um lugar muito legal para levar visitantes, campeão em qualquer pesquisa. Mas a Pedra Azul, o Frade e a Freira, a Cachoeira da Fumaça, o Museu Mello Leitão em Santa Tereza e a cidade em si, a Igreja e residência dos Reis Magos em Nova Almeida e a Igrejinha do Rosário na Prainha de Vila Velha são alguns dos meus preferidos. Ah sim, e a praia de Manguinhos.
5 – O que mais caracteriza o Espírito Santo em termos culturais?
O que mais caracteriza nossa cultura é a falta de uma identidade bem definida e isso se torna gritante porque nos comparamos o tempo todo com vizinhos de região e de fato como cariocas, mineiros, baianos e até os paulistas. Ficamos tão espremidos nesse meio que parece até que não temos sotaque, assim como não temos tradição em teatro, cinema, literatura, música; não temos nem mesmo futebol e se tivéssemos não teríamos estádio. Aliás, não temos grandes ícones de nível nacional em nenhuma área a não ser, que eu me lembre, a Neymara no bodyboard que é várias vezes campeã mundial, mas pouca gente dá pelota. Pra ser sucesso aqui tem que aparecer no Faustão. Sempre que viajo para outros estados pergunto o que as pessoas acham ou conhecem do Espírito Santo e maioria não sabe o que dizer, mesmo os nossos vizinhos. Se para nós mesmos somos uma grande incógnita, que dirá o resto do país.