Chegando mais uma edição das Rapidinhas Culturais da Letra Elektrônica, falando "nilson" hoje estarei na Mata da Praia apresentando uma festa em comemoração ao dia da secretária, só que não é a “elektrônica”: é mole? É mole sim, mas se você “balançar geral” vai ver só o que acontece. Huhauauha!
Recebo um convite de meu amigo o violinista e maestro Leonardo Davi - que está desempenhando um trabalho muito bom e importante à frente da Camerata do SESI – para mais uma apresentação imperdível no Teatro da instituição em Jardim da Penha, que, falando nisso, conta agora com um sonoro Piano de Cauda da Yamaha.
Para quem não sabe a empresa Yamaha começou como fábrica de instrumentos musicais, ou vocês nunca repararam na logomarca que é a figura de três diapasões cruzados? O diapasão é essa paradinha aí à direita, ele produz a nota lá e é usado por músicos para afinar seus instrumentos. Após a segunda guerra mundial, com o bicho pegando no Japão é que eles resolveram investir no ramo de motocicletas e deu no que deu, mas isso é outra história...
Antes de prosseguir quero esclarecer ainda mais um point, porque a Letra também é cultura, não é só roquenrou não:
Senão vejamos: cauda de animais e, conseqüentemente, de piano também se escreve com “U”, calda com “L” é aquela paradinha feita com açúcar e água que rola nas sobremesas engordáiets do paraíso. Fui informado que no Google, as entradas para “piano de cauda” escritas com “L” são mais de um milhão e com “U” por volta de setenta mil. Portanto - galera do besteirol e amantes da cultura inútil - não confiem em nossos amiguinhos internautas. Afinal esses detalhes fazem toda a diferença em nossa vida não é?
Mas então, a apresentação vai acontecer amanhã, dia primeiro de outubro (quinta-feira) às vinte horas - oito da noite se preferirem – com entrada franca. No repertório serão apresentadas peças de Handel e Tchaikovsky, a sinfonia N° 27 de Haydn e o concerto para Piano (teclado na verdade, nessa altura do barroco ainda não existia o piano como o conhecemos) e Orquestra em Ré menor de Johann Sebastian Bach, com a solista Patrícia Souza.
Mais uma rapidinha só pra gente arrematar vem da Companhia de Teatro Os Taruíras Mutantes, uma espécie de acapixabamento das Tartarugas Ninjas. Heuheuheuhe! Segue abaixo o convite do monólogo “O Estranho Y O Cavaleiro” com meu amigo o “Coroné” Reginaldo Secundo - você em primeiro lugar – vencedor do prêmio de melhor ator pelo Omelete Marginal. Eita! Bora lá cambada! Chegou a hora dessa gente capixaba aculturada mostrar seu valor...
Outro dia escrevi sobre a estagnação da criatividade e essa época careta e repressora em que vivemos, tinha lido algumas afirmações nesse sentido - especialmente de Gerald Thomas – e tentei racionalizar, talvez também incomodado por essa sensação de que não há nada de novo no front. Mas na quinta passada a Disney Pixar me pegou no contrapé, ou melhor, o filme “Up Altas Aventuras” mostrou que um novo mundo já chegou e que a arte cinematográfica da era digital, aliada à computação gráfica, conseguiram finalmente nos trazer alguma novidade.
Já de posse daqueles óculos de Clark Kent as imagens começaram a saltar da tela nas clássicas vinhetas do velho Disney, aquele castelinho que dizem ter sido baseado no de Ludwig o Rei “bicha louca” da Baviera dos tempos de Wagner.
Ainda nos trailers exibiram um curta chamado “Partly Cloudy”, simplesmente delicioso; mais engraçado até que o próprio longa que viria em seguida, e também utilizando a deslumbrante gama de recursos visuais da era 3D. Não tenho medo de afirmar sem exageros: amigos, só esse curta já vale o ingresso. É uma historinha de cegonhas e nuvens que fabricam bebês - que muitas gatinhas de cabelo azul considerariam “fofo”, - de deixar qualquer um deslumbrado com o resultado; tanto do roteiro, quanto dos efeitos visuais.
O prato principal da noite é a primeira investida da Disney na tecnologia 3D que, depois do que vi, estabelece um novo fazer cinematográfico e ninguém mais vai segurar. É um salto como o que foi do cinema mudo pro falado, do preto e branco pro colorido. A experiência de ir ver um filme nunca mais será a mesma, um novo tempo chegou. Foi a primeira vez que saí de uma sala de cinema com a sensação de ter me deparado com uma arte realmente nova. Logo no momento em que nos queixamos da estagnação, tomei um cala-boca. Não bastasse isso tudo, “Up – Altas Aventuras” ainda por cima é um filmásso.
Comparações se fizeram com a triste e curiosa sina do Padre Adelir Antonio de Carli, aquele mesmo que ficou famoso no ano passado ao tentar voar numa amarração de balões de soprar caseiros e desapareceu no dia 20 de abril de 2008. Seu corpo só seria encontrado por acaso, quase três meses depois de sumir (em 3 de julho), a 100 quilômetros da costa do Rio de Janeiro, na altura de Maricá. Os produtores do filme negaram terem se inspirado nessa história, aliás, durante a participação no tradicional Festival de Canes – Up foi a primeira animação a abrir o Festival em toda sua história – disseram desconhecer o caso.
Detesto filme dublado, até cai no meu conceito quem tem preguiça de ler legendas, mas para desenhos e animações dá pra dar um desconto. O próprio “Os Incríveis”, outro golaço dessa turma da Pixar, é mais divertido de se ver em português do que no idioma gringo, sem falar que com as legendas perderíamos um pouco da visualização dos efeitos. O papel principal de “Up”, Carl Fredericksen - descrito por muitos como um velhinho ranzinza e eu acho que não é bem o caso, vai ficar velho pra ver aonde seu bom humor vai parar – foi dublado por Chico Anysio, um verdadeiro gênio dessa nossa nação ingrata, não poderiam ter escolhido melhor voz, entonação, noção de tempo e de comédia/emoção.
Não vou mais ficar contando muito do filme, porque a surpresa é o elemento mais importante na arte: quero apenas o recomendar. Até acredito que alguém vai dar um jeito de vender essa nova tecnologia 3D para dentro de nossas casas, mas ainda deve demorar um bocado e não vai sair barato. Enquanto o futuro não chega de verdade dá um pulo lá e confere com seus próprios olhos. Daqui a um tempo ninguém mais vai precisar viajar mil quilômetros para ficar cara a cara com sua banda preferida. Aliás, só pra terminar com um pensamento pessimista, porém real: já imaginou essa tecnologia voltada para os filmes pornográficos que desbunde - literalmente - não seria?
Um cara filma e assovia, o que ele quer? A moça está histérica, como as crianças que fazem pirraça, manda o cara enfiar o assovio no cú! Ao longe os cães ladram e as pessoas se divertem. Um psicólogo é convocado para opinar e disse que essa banalização do mau uso da Internet é ruim para as relações. O jovem Pedro, pivô da confusão, não pensa assim, posa sorridente em todos os jornais, vive plena e alegremente seus quinze minutinhos de fama. Os internautas criticam duramente o psicólogo por sua caretice, querem ter direito aos barracos e democratizar a baixaria... Não, o que temos hoje ainda não é o bastante...
Em um dia do passado distante apareceu uma linda garota no escritório em que eu trabalhava, ao alvoroço de sua presença seguiu-se a decepção: dentro de nossas regras ela veio parar em minha mesa de trabalho. Logo iniciaríamos um pequeno romance, era uma mineirinha estalando de nova, uma espécie de pré-lançamento na cidade. Aliás, adoro antiguidades: moro em um prédio antigo, sempre tive carro velho, a única coisa que naquela época ainda despertava minha ambição por novidades situava-se no campo dos relacionamentos afetivos ou dos puramente carnais, se é que vocês me permitem fazer uso de um termo tão caretinha e, ao mesmo tempo, autofágico e estrambótico.
Vivíamos épocas difíceis e fartas ao mesmo tempo, uma espécie de atualização do célebre drama de Hamlet: “Ter ou não ter, eis a questão!” – Possuir, tomar posse, conquistar. Depois de ter o que fazer? Saímos duas ou três comportadas vezes, eu já estava começando a ser acossado por aquela sensaçãozinha chata de que “aquilo não era bem o que eu queria” quando rolou um tremendo grilo. Tínhamos combinado um cinema para aquela noite, no final da tarde a mineirinha me liga aos prantos dizendo que seus pais tinham a proibido de continuar me vendo.
- Foi a dentista Juca, foi a dentista! – Família tradicional de Belo Horizonte, recém chegada na cidade dos capixabas a matriarca resolveu sondar o novo namorado da filha numa consulta dentária - Até hoje, nem que eu quisesse, poderia conceber situação mais espantosamente ridícula - A dentista não me conhecia realmente, disse apenas o que já tinha ouvido falar de minha pessoa: absurdos amigos, calúnias sonoras de fazer corar a namorada sem chip do tal sorridente Pedro. Finalizou seu relatório aconselhando a matrona a afastar a filha para o mais longe possível de minha terrível - e extremamente periculosa, drogada e prostituída, filha de satã - presença.
Era difícil acreditar no que eu ouvia, eu estava no trabalho e logo tinha um pequeno exército querendo ver a cor do sangue da tal “Doutora” Margareth sei-lá-das-quantas que me tinha em tão má conta. Escorado numa das máximas preferidas de Macunaíma resolvi tirar aquela história a limpo: “Falaram mal, preparar o pau!” Descobri que o consultório da peste ficava apenas a uma quadra de onde eu trabalhava, sem nem pensar parti furibundo para ação; cheguei tremendo de raiva, devia ter levado alguém do escritório para me acalmar. A secretaria disse que “a Doutora” estava chegando. Esperei em pé na ante-sala, resfolegando de um lado pro outro, balançando a crina e batendo os cascos no chão que nem cavalo bravio. Aiôu Silver!
Passou um tempo e me acalmei um pouco, mas não achei uma boa a queda de rotação do motor, então caprichei olhares implacáveis de matador sanguinário, facínora foragido dos livrinhos de bang-bang do passado. Logo apareceu uma mulher vestida de branco sorrindo e cumprimentado a todos: nunca tinha visto aquela infeliz em toda a minha vida e pelo jeito nem ela, que me olhou amigavelmente, fazia a menor idéia de quem eu fosse. A infeliz foi entrando e eu, sem deixar chance de reação pra cretina da secretaria dela, a popular secretina, invadi o consultório grudado em seu desagradável pandeiro, parecia - e me sentia mesmo - a encarnação do demônio. “É hoje que eu vou a forra!” (Dentes de Sabre – Uncanny X-Men N° 243, pg. 94)
- Escuta aqui “Doutora” Margareth: você me conhece? – A mulher me encarou sorrindo e fazendo uma careta engraçada, parecia pensar que se tratava de algum tipo de brincadeira. Repeti a pergunta agora demonstrando uma certa tensão na voz o que a assustou e fez com que instintivamente se colocasse atrás da cadeira odontológica, sei lá o nome daquela porra. – Olha bem pra minha cara “Doutora” e agora me diz: a senhora me conhece? – Finalmente ela disse que não, parecia curiosa com o desfecho de alguma brincadeira ou piada. – Pois é, eu sou Juca Magalhães!
- Ai meu Deus! – Colocou a mão sobre o peito e sentou em uma cadeira como se fosse enfartar. Fia das unha miseráviiii!!!
- Meu Deus é o escambau! (Subindo o tom) Como é que você sem nem me conhecer me difama do jeito que você fez hein “Doutora”?! (Sobe mais um pouco) Que merda é essa?!! (Gritando e dando porrada na mesa) Você é doida?!!! – O consultório era em uma daquelas salinhas comerciais, a mulher fez menção de se levantar e tentar se evadir, mas logo me coloquei entre ela e o corredor. Lá de fora, na sala de recepção, comecei a ouvir o zum zum zum. – Pega esse telefone agora e liga pra família da minha namorada, diz que você se enganou de pessoa, que tudo o que você falou não tem nada a ver comigo. Aliás, fala a verdade: que você é doida e que fala mal de todo mundo mesmo, que é um tique nervoso que você tem e que eu dei azar de ser sua vítima dessa vez.
- Eu vou ligar... Olha, você me desculpa.
- Não quero ouvir desculpa, não vim aqui pra ouvir desculpas, porque não se faz o que você fez. O que eu quero é que você ligue agora para a mãe da menina que está lá chorando por sua causa e quero que ligue aqui na minha frente. Anda, pode ligar! – Tremendo que nem vara verde a miserável ligou e desmentiu tudo, disse que tinha sido um mal entendido, mas meu ódio não estava sanado, nem de longe; acho que nunca vai estar, nem que eu a tivesse processado, estripado ou estapeado estaria. Só de relembrar esses fatos tão distantes na memória revivo claramente aquela amarga sensação de injustiça e de indignação que envenena o sangue da gente. Eita!
Fiquei tão desgostoso com todo furdúncio que passado pouco tempo mandei aquele namorico careta – com o qual eu já andava desanimado mesmo - pras cucuias. A confiança e o respeito são as bases de uma boa relação e - falando especialmente dessa ex-futura-sogra de tradicional família mineira – uma pessoa que dá ouvidos e crédito a qualquer merda que ouve pela rua não merece nossa consideração, muito menos privar de nosso apreço e de nossa companhia. Nunca mais vi a tal linda mineirinha, deve estar por aí casada e cheia de filhos. Agora, a tal “Doutora” eu descobri essa semana no Orkut de uma amiga, daí lembrei da história e resolvi mostrar pra todo mundo esse retrato agridoce...
Tomara que o tempo tenha trazido algum juízo para a "Doutora" Margareth não-sei-das-quantas ( aliás, sei sim mas o juízo e a prudência me impedem de dizer) como trouxe para mim, mas se não tiver também que se foda né? Todo mundo espera sempre o pior das outras pessoas, a baixaria é o destempero da vida.
Segue o convite para o concerto de formatura da pianista Alice Nascimento que bem poderia assinar Magalhães também, afinal acompanha e aguenta faz um tempo as idas e vindas indossincráticas deste locutor que vos fala, melhor escreve, enfim: sei lá...
Então, a entrada é gratuita e tem como prato principal uma transcrição para orquestra feita por Mozart a partir de uma sonata para teclado (cravo ou pianoforte) de Christian Bach, o famoso Bach de Londres, filho do velho Johann Sebastian e que tem o mérito de ser um dos pais do estilo clássico.
Alice será acompanhada pela Orquestra Jovem Vale Música, formada por meninos e meninas que descobriram a música através deste projeto da Ong Phylamronia Arte e Cultura - Fundação Vale e que comemorou nove anos no domingo passado. A regência fica por conta do maestro Modesto Flávio, um estudioso do estilo "galante" em que a obra a ser apresentada se insere.
Sou um antigo frequentador de sebos, adoro descobrir aquelas pérolas escondidas em meio aos campeões de venda do passado. Misturado com um Morris West, um Sidney Sheldon sempre aparece algum livro interessante, como foi na minha última pescaria. Achei uma edição comemorativa do 50° aniversário da semana de arte moderna do livro “Aspectos da Literatura Brasileira” de Mario de Andrade. Pra melhorar o negócio a banca estava fechando e o dono estava fazendo um queimão de estoque, levei comigo aquela preciosidade por apenas dez reais.
O livro tem momentos deliciosos e sacações muito pessoais do autor. Olha só essa trecho: “Devia ser proibido por lei indivíduo menor de idade, quero dizer, sem pelo menos vinte e cinco anos, publicar livros de versos. A poesia é um grande mal humano. Ela só tem direito de existir como fatalidade que é, mas esta fatalidade apenas se prova a si mesma depois de passadas as inconveniências da aurora.”
É uma afirmação de um homem maduro que vai ferir os brios de muitos jovens poetas por aí, por outro lado conheço autores que se envergonham de livros que publicaram na juventude, se pudessem recolhiam tudo. Outro exemplo, embora não tenha muito a ver, é o caso da apresentadora Xuxa Meneghel e sua participação no filme “Amor Estranho Amor”, da qual ela se arrepende e tenta furiosamente aniquilar vestígios. A ambição de ser alguém, o desejo de se firmar pode resultar nesses constrangimentos quando a carreira já está plenamente estabelecida. Por outro lado, digo no caso da Xuxa, existe a pressão de um meio em que a sacanagem rende muita grana.
Ontem assisti a uma entrevista muito boa do ator Pedro Cardoso para a jornalista Leda Nagle no programa Sem Censura da TVE. Sem papas na língua o ator disse o diabo contra os paparazzi, disse também que a televisão é dirigida por um bando de pessoas medíocres que tentam o tempo todo enfiar pornografia em tudo, que várias boas atrizes deixaram a profissão para não se sujeitar a constrangimentos e que várias outras sofrem horrores por aceitar a exposição desnecessária e gratuita de seu corpo de sua intimidade.
Uma atriz amiga minha passou por uma situação ridícula destas, foi fazer um teste para entrar em uma peça de teatro aqui na Região da Grande Vitória e a primeira coisa que falaram pra ela foi: tira a roupa toda agora. Surpresa e já assustada disse que não ia tirar, daí a mandaram beijar um cara. “Mas que porra de teste é esse? Vocês não vão me dar nada pra ler?” Deram foi um pé na bunda dela, que hoje segue a carreira de atriz no Rio, onde, Pedro Cardoso mesmo disse, a situação não é em nada diferente.
Pra finalizar retomando o assunto do início vai aí uma das pérolas que encontrei no famigerado “Cebo do Golias”, querido amigo que faz aniversário no mesmo dia que eu. Quando vi a capa do disco dessa banda não me agüentei, tive que comprar. Hoje ela fica aqui em casa aberta à exposição. Atentem para o perfil do trio: mezzo-pipoqueiro, mezzo entregador de pizza; os cabelos estilosos, a combinação das cores das camisas. Mas nada, nada mesmo, suplanta o nome da banda “The Raça Humana” é, como diria Délio: Phoooddaaaaa. (Foda com “PH” de Pharmácia, três “Ós” de “Hollywood”, dois “Dês” de Toddy e cinco “As” de Maracangalha!)
Ando em espírito contrário ao do chuvoso início do ano, quando passavam batidas as oportunidades de dizer coisas, andei comendo pimenta e a ponta da língua está queimando os ouvidos do alheio. Alice chegou doida para “inaugurar” a nova Pizzaria Napolitana que agora está na esquina aqui de casa. Fomos lá e descobrimos que era dia de folga... Mas que azar!
É curioso porque ontem me sentia abençoado, no meio da tarde precisei resolver um problema na UFES e passando pela ponte nova vi um galerão no cantinho. “Será que é um grupo de turistas que passou e resolveu parar pra conhecer a novidade?” Nem dei bola, passei batido e na Universidade me desembaracei dos compromissos na maior tranquilidade. Na volta descobri qual era a da muvuca: estava acontecendo uma puta manifestação de professores da rede municipal... Do outro lado da pista. Se eu demorasse um pouquinho para sair de casa teria ficado horas naquele furdúncio... E minha mulher estava irredutível em sua compulsão pizzaiola.
Dei idéia da gente ir pra Pitzarella que afinal é também pertinho, chegamos lá e estava cheiássa para uma noite de terça-feira. O garçom apareceu rodopiando que nem um Demônio da Tazmania. Pedi logo uma cerveja e Alice um Sprite o homem saiu novamente desembestado. Enquanto o víamos correr solitário por todos os cantos chegamos a conclusão que o coitado estava sozinho, atendendo todo mundo alucinado que nem uma enceradeira elétrica desvairada.
Não demorou e vem ele com a minha cerveja, eu estava de bom humor e pra ser amigável falei:
- Você está sozinho hoje? – Querendo dar uma de esperto, rolou o aparte inesperado.
- Claro que não. Vocês estão aqui comigo... – Mais amigavelmente, porém sério, falei:
- Você está insinuando que eu deveria te ajudar a servir as mesas?
* * *
De tarde me meti numa semi roubada e acabei voltando pra casa de Transcol. Tenho alguns amigos bem de vida que nunca andaram de ônibus, imagine só... Eles não sabem o que estão perdendo. No fundo da baiúca tinha quatro garotas mezzo-vulgar, mezzo-calabresa; falando alto, rindo, fazendo de tudo um pouco para chamar atenção e o único lugar vago era perto delas. Eu estava com um livro de Mario de Andrade e passei a ter dificuldade de o ler com a cacarejada daquelas meninas. Lá pelas tantas o batom de uma saiu voando e veio parar bem embaixo de minha cadeira.
- Ih! Sirlene, o batom foi parar embaixo da cadera do cara! – Me abaixei e consegui alcançar o que era um tubinho vermelho de plástico, as meninas se alvoroçaram todas com insinuações picantes – exclusive no mau sentido. Percebendo a aliança de casado em minha mão esquerda a dona do artefato voador me aconselhou espalhafatosa a ter cuidado para não sujar a roupa senão ia ter barraco quando eu chegasse em casa. Devolvendo a parada falei, enfático como quem já ligou o foda-se:
- Fique tranquila querida, minha mulher só fica grilada quando a mancha do batom tá na cueca.