Bem amigos, muito já escrevi sobre os vinte anos da morte Maria Nilce Magalhães. De hoje até domingo estarei compartilhando com vocês três textos inéditos dela, espero que ajude a desvendar um pouco dessa figura lendária de nossa cidade, que hoje é, infelizmente, mais lembrada pelo crime que a vitimou do que por sua produção literária.
EU RESISTO
Lendo um depoimento de uma pessoa sobre Vitória me senti a própria cidade, especialmente quando ela diz que gosta de Vitória porque ela resiste. E eu sou como esta cidade...
Tá assim de gente invejosa e cheia de ódio querendo acabar comigo e eu resisto. Fazem macumba, mulheres infelizes que gastam seu tempo jogando biriba e falando mal de mim, porque reunião de “doncoca” para ser boa mesmo tem que ser metendo o pau em Maria Nilce.
Já tentaram me prender, tentam negar o meu valor, mas eu continuo de pé, resistindo e oferecendo sempre a todos meu otimismo, a minha vontade de vencer, a minha “filosofia de vida” que é: “no final dá tudo certo” ou “não há noite sem aurora”.
E eu faço parte dessa cidade hoje, como suas ruas, seus monumentos, suas praias e suas praças. Eu sou Vitória, amada por muitos, agredida por outros, mas jamais alguém poderá ser indiferente a nós duas. Eu aqui virei mito, fiz história.
Sou temperamental, sou incoerente, sou voluntariosa. Sei de todos meus defeitos e gosto deles, porque só as pessoas muito fortes podem assumir publicamente seus erros. Eu não escondo nada, daí o ódio mortal dessas mulheres frustradas, velhas inúteis, que nem identidade própria tem. São filhas de fulano de tal ou são mães de fulano de tal.
Que coisa mais triste a pessoa morrer e alguém dizer: “Morreu a mulher de fulano de tal”.
Quando eu morrer, morrerá um pedaço de Vitória, porque eu faço parte desta cidade, eu sou esta cidade, até nas pedras que lhe atiram, mas que não a destroem jamais.
Muita gente fala mal, faz ironia, esnoba e achincalha o pequeno Aeroporto de Vitória, eu inclusive. Mas já teve hora que ele ficou grande... Surgem lembranças da torre quadriculada e daquele conjuntinho de casas que tinha à direita de quem estava chegando. Tinha uma loira muito bonita que - sei-lá-como-sei - morava numa daquelas casinhas com arquinho na fachada e que eu era doido pra namorar. Meus pais viajavam de avião com freqüência, a festa para recepcioná-los na chegada ao aeroporto era um acontecimento.
Lembro do cheiro no interior da banca de revistas que tem lá até hoje e que curiosamente é diferente de outras bancas e livrarias. Eu sempre convencia meu pai a me comprar alguma revistinha, o chamado gibi. Ganhei uma do Batman, devorei a história em casa ouvindo uma música estranha que tinham colocado no toca-discos. Babahum-ma-ma, babahum-mamama! Experimentei uma deliciosa sensação de medo. Uma história dark com grandes caras fantasiados e aquela música endemonhada em uma língua que eu desconhecia.
Uma vez o aeroporto estava tão lotado que me perdi, não sei o que aconteceu. Eu devia ter uns seis, sete anos, quando olhei à minha volta não tinha mais ninguém conhecido. Nessa fase da vida o gatilho do pânico fica mais embaixo. Abri logo o carão: buáaaa, me largaram aqui! Buáaaa! Eu quero a minha mãe!
As pessoas me viram chorando e vieram socorrer, me pediam pra ficar calmo, perguntavam meu nome e o dos meus pais. De repente mamãe apareceu e, como se pode ver, logo esqueci o episódio. Mas digo uma coisa: naqueles momentos em que me vi sozinho no mundo, nosso acanhado aeroporto nunca foi tão grande! Além do mais, tamanho é relativo, assim como a alegria e a tristeza. E se, quando crianças, mergulhamos nestes sentimentos com grande velocidade, com o tempo aprendemos a traduzi-los em outras coisas, como esse texto mesmo.
Como é chata a saudade, mas, por outro lado, como era bacana a alegria de reencontrar meus pais no acanhado e achincalhado aeroporto de nossa cidade. Pois é. Mas hoje ele não me ajuda a acabar com a falta dessas pessoas queridas, especialmente Maria Nilce, minha mãe, morta há vinte anos. Ela está deitada eternamente um pouco mais além de Goiabeiras e não vai voltar de nenhuma de suas deslumbradas viagens ao exterior, já me conformei com esse fato, mas nessas duas décadas a sua falta e sua presença a transformaram num ser quase mitológico.
Imagino como seria ela com quase setenta anos, mil e duzentas plásticas depois, mandando os netos não a chamarem de avó. Nunca teremos isso. Nunca. Por causa do medo, da nóia e do desejo de vingança de algumas pessoas que simplesmente decidiram eliminá-la da face da terra. Louco isso, não é? Já fui ameaçado de morte uma vez, é coisa de gente doida, só a ameaça já deveria dar cadeia. Imagine se dar ao trabalho de arquitetar um crime, fazer reuniões com a equipe para decidir os detalhes, contratar gente pra executar o plano e depois comemorar como a final de um campeonato qualquer... Gente doida de merda!
Com o falecimento de meu pai, no ano passado, herdei o cargo de porta voz da família. Hoje dei uma entrevista para o jornal A Gazeta, mas nem falei do crime direito, desses vinte arrastados anos de processo judicial. Procurei destacar o mesmo que sempre escrevi: que, acima de tudo, Maria era apenas uma mulher, mãe de cinco filhos, uma pessoa divertida que trabalhava, escrevia, adorava as artes e conhecia muito de cultura. Dane-se se ela era uma personagem folclórica dessa ilha controvertida e hipócrita. Tiraram a vida de um ser humano a mando de pessoas que estão impunes até hoje colocando, inclusive, a nossa vida em risco.
É como no crime da Araceli, disseram que a menina era aviãozinho que a mãe dela era traficante e o diabo à quatro. Mas não interessa nada disso não é verdade? Estupraram e mataram de forma grotesca uma menininha de oito anos (!) Se a mãe dela vendia drogas não é a questão, não passa nem perto. O que fizeram com essa menina e, mais tarde, no que deu todo o processo é o que importa, especialmente para entender a sociedade capixaba. Não vou ficar aqui falando, basta pesquisar na Internet, tem material à vontade.
Talvez a saída para o Brasil seja mesmo o aeroporto, como diziam em forma de piada na época da ditadura. Mais uma vez meus pensamentos se voltam para nosso pequeno e desprezado aeroporto de Goiabeiras, já anunciaram que iam o aumentar e nada, até o presidente Lula veio aqui, fez discurso e o coitado ficou do mesmo jeito: pequenininho e mal afamado. Mas é certo que ele existe e ainda vai ver muita gente ir e vir, uns para sempre voltar, uns para nunca mais...
A hipocrisia - do Aurélio: afetação (fingimento) de uma virtude, de um sentimento louvável que não se tem - é derivada da vaidade ou algo assim. Os hipócritas negam para todos – especialmente para si próprios - seus defeitos de fabricação, suas características indesejáveis. Justamente por não aceitar a totalidade e as limitações de seu ser, os hipócritas são desumanos. Doa a quem doer vão impor autoritariamente as suas “verdades”.
Na faculdade eu atravessava o auge de minha fase careto-vegetariana e notei que o fato de não comer carne, nem fazer uso de nenhuma droga lícita ou ilícita, incomodava algumas pessoas. Eu sei lá porque, mas tem gente que não gosta de ficar pratrás, especialmente nessa moralidade besta que nos circunda. Tinha um colega que dizia que não bebia também. Passado uns meses ele contava displicentemente que tinha saído com um amigo para um lugar “dechavado” e lá eles tinham tomado umas cervejas. Estranhei:
- Ué cara, você não disse que não bebia? – Pouco importava se ele bebia ou não, só estava curioso com a suposta recaída, mas ele me socorreu todo cioso de sua caretice:
- Não, mas ninguém me viu bebendo não... - É disso que estou falando, se as pessoas negam bobagens assim, querendo passar uma imagem do que não são, fico pensando nas coisas realmente cabeludas e contundentes que devem escamotear.
Um dos grandes problemas dos hipócritas é que eles não deixam a verdade vir à tona, impedem a história de ser contada ou então forçam a barra de todos pra contar do seu jeito. Aqueles que não têm acesso aos verdadeiros fatos de sua história nunca conseguirão racionalizar a trajetória de seu povo, nem filosofar sobre a existência. Esse é um dos pontos fundamentais para se entender o ostracismo cultural em que patina há décadas o Espírito Santo. Cachoeiro à parte, evidentemente.
Aqui não se pode falar certas verdades, geralmente as represálias não valem a diversão. Acho curioso isso porque no Brasil vemos revistas como Isto É descendo o malho nas inúmeras gafes do presidente Lula e, que se saiba, ninguém foi processado por isso. A coluna do Zé Simão, que é uma gozação de cima em baixo, simplesmente não poderia ser editada aqui se os representantes do três poderes e empresários locais fossem o alvo. É como se aqui todos estivéssemos acima do bem e do mal.
Se não aprendermos a nos indignar com nossas burradas e até rir de nós mesmos, de nossos defeitos - que todos os temos, graças a Deus - nunca iremos amadurecer como sociedade democrática. O nosso direito civil de liberdade de expressão torna-se uma falácia, vivemos numa linda Terra do Nunca, “preconizando” (atentem para a erudição) a famosa ilusão de que: “Aparentar estar bem é mais importante do que estar bem de verdade”.
O resultado desse estado hipocrático endêmico (Aiô Silver!) é colhido nas urnas quando reelegemos políticos de passado tenebroso - parece que Gratz está voltando com tudo – crimes pavorosos continuarão sem solução (quem matou Araceli mesmo?), enquanto isso proliferam a fofoca pura e simples, a inverdade é disseminada livremente até se tornar um senso comum. A história não pode ser contada porque é fundamentada na mentira, viveremos a realidade dos hipócritas e ela é uma dura realidade.
Como alguns de vocês já devem estar imaginando, escrevo isso porque se aproxima velozmente o dia 05 de julho, data que marca os vinte anos do assassinato da colunista social Maria Nilce Magalhães. Li sábado no jornal A Gazeta uma nota – se não me engano na coluna Victor Hugo - comentando que agora o crime vai prescrever e que podem dormir mais tranqüilos os demais participantes desse crime de repercussão internacional que ainda não foram apontados ou condenados pela justiça.
Maria Nilce foi uma das primeiras pessoas daqui a ter a ilusão de que dizer duras verdades é que era bacana. Foi agredida, agrediu de volta e o cidadão comum se divertia com esse espetáculo. Diferente de seus colegas colunistas, Maria dizia que o feio era feio, que a mal vestida estava mal vestida e que em Vitória o ridículo era uma tônica e não a exceção. Pagou uma conta cara com essa sociedade por teimar em expor suas chagas, mais caro pagaram seus familiares e os poucos amigos que até hoje lamentam sua perda.
A colunista teria hoje 69 anos recém completados, um número sexy que ela certamente aprovaria. Talvez a sua morte não tenha nada a ver com a incapacidade da elite capixaba rir de si mesma, mas certamente a hipocrisia e a frieza com que seu assassinato foi tratado pela cobertura jornalística e pelas pessoas responsáveis por certas respostas, nos impede até hoje de contar a sua verdadeira história, a não ser que a abordemos do ponto de vista das grandes lacunas deixadas. E isso é uma vergonha... Pra não dizer outra coisa.
Quem se lembra do filme “Como Eliminar Seu Chefe”? Lançado em 1980, era uma comédia com Jane Fonda e uma cantora de country americana chamada Dolly Parton, a trilha tinha uma canção chamada “9 to 5” que estourou como um dos maiores hits da década perdida. Para quem não tem obrigação de saber, esse “nove às cinco” refere-se ao horário comercial de trabalho americano e que deve ser, sei lá, o que rola na gringolândia até hoje. Dr. Rock que morou lá me ajuda aí, por favor.
Nem quero saber como é que se estabeleceu aqui essa jornada de trabalho de 8 às 18, que nos diferencia dos gringos por essas duas horas de pausa para o almoço, sei que é uma coisa arcaica e que se virou contra aqueles a quem deveria beneficiar. O que acontece na prática é que a maioria dos trabalhadores, ao invés de oito, investem dez horas em suas funções, fora o tempo do deslocamento de casa para o trabalho e o inverso. Do jeito que a Grande Vitória se desenvolveu, a diversidade de ofertas de trabalho fez moradores de Cariacica trabalharem na Serra e os de Vila Velha em Vitória e assim por diante. Tenho uma amiga que vem e vai de Aracruz a Vitória para trabalhar todos os dias (!)
Raros são aqueles que teriam a oportunidade de ir em casa almoçar, descansar e retornar ao seu emprego para as quatro horas restantes de trabalho. Dentro os poucos que têm essa oportunidade estão os patrões e os grandes burocratas. Estes têm carro com motorista, geralmente moram perto do trabalho, raramente almoçam nos self-services que proliferam ao redor de seus negócios para dar baixa na fome de seus empregados. Alem de desfrutar dessa pausa, a – vamos dizer assim – “elite” sabe muito bem que seus trabalhadores não vão e isso também é bom para os negócios.
Esse intervalo de duas horas no almoço pode ter sido muito bacana no passado e ainda deve ser para os que moram nas cidades bem pequenas, que é menos da metade da população hoje do Espírito Santo. Para o trabalho de verdade ele é ruim: dispersa as pessoas e suas idéias, desperdiça energia - inclusive elétrica - e tempo. Se fizéssemos como os gringos os trabalhadores ganhariam duas horas de seus dias, chegariam um pouco mais tarde, sairiam um pouco mais cedo, produziriam mais e viveriam melhor.
Sei que tem gente que vai argumentar na lata que a cultura americana é totalmente diferente da nossa e que o “lunch” deles é um lanche mesmo e não um almoço e que o cidadão brazuca precisa parar tudo mesmo para bater aquele prato de feijão com pimenta e uma boa buchada. Eu até concordo, mas também pergunto: quem leva duas horas fazendo isso?
O que acontece na prática é que todos saem do escritório vão até o restaurante da esquina, se o cara estiver sozinho come em dez minutos, se encontrar um amigo pode levar uma meia hora. E depois vai ficar fazendo o quê? Batendo pernas pela rua? Se for no verão (e o calor aqui dura quase o ano inteiro) ninguém agüenta. Volta todo mundo para seu lugar de trabalho, onde geralmente tem um ar-condicionado e fica lá gastando energia ou engatando logo no trabalho, como fazem os funcionários bons, especialmente para seus empregadores.
A pior faceta que já vi dessa jornada arcaica está no serviço público, mas creio que aconteça em empresas particulares também. É uma e quinze da tarde, a funcionária do setor já voltou do almoço porque não tem coisa nenhuma pra fazer pela rua, senta em sua “mesa de trabalho” - porque não teria outro lugar - e fica lá sem fazer nada. Se aparece alguém com alguma demanda ela vai falar displicente: “Agora não. Estou no meu horário de almoço”. E o pior é que ela está certa, errado é esse sistema doido em que vivemos.
Outro problema desse nosso “horário comercial” é que tem empresas, especialmente de serviços, que se pautam por ele causando transtornos para aqueles a quem deveriam atender. Não sei como não quebram. O exemplo que vou dar vem da patroa, mas já aconteceu comigo também. O meu bairro, Bento Ferreira, em certos aspectos ainda vive isolado num passado bucólico - o que eu adoro - mas têm coisas que muito bem poderiam ser atualizadas.
Os salões de beleza, por exemplo, só abrem no horário comercial (!) Eu mesmo cortava o cabelo dando pequenas escapulidas do trabalho e uma vez perguntei pra dona do estabelecimento: mas me fala uma coisa: tem gente que vem aqui às oito horas da manhã? Não seria melhor abrir mais tarde e fechar depois do horário comercial para pegar o pessoal na folga? Pouco coisando para minha argumentação, a mulher disse que o salão bombava logo cedo. Pode até ser, mas minha mulher falou que no sábado o salão fica parecendo um saloon daqueles filmes de faroeste: um verdadeiro furdúncio.
As pessoas são livres para viver do jeito que acham melhor e mudam quando sentem que precisam, se isso não as incomoda por que será que eu vou. Mas acho curioso esse nosso povo, porque os trabalhadores comerciários, se não me engano, brigaram na justiça pelo direito de ter folga aos domingos acabando com esse negócio de supermercado e shopping funcionar, o que sem dúvida é um direito deles, mas para os outros trabalhadores que não têm tempo livre - entre outras coisas - por causa desse horário comercial defasado, é um problema de ordem prática.
Então vamos vivendo assim resolvendo problemas com outros problemas, dando e recebendo a ilusão de que está tudo certo, afinal, nesses tempos bicudos, quem tem um emprego tem que comemorar. Bem que eu queria morar pertinho de meu trabalho – se um dia voltar a ter algo parecido com um emprego fixo - e poder almoçar em casa como meus pais faziam, os filhos em volta – quando finalmente os tiver – depois sentar pra assistir ao telejornal, dar uma cochilada, acordar, tomar um cafezinho, dar um cheiro na patroa e voltar pra labuta. É bom ser romântico, mas não vejo a hora de entrar na modernidade. Agora é tudo ou nada: ou isso, ou o fim da cotação do café!
Para quem não tem obrigação de conhecer o pianista canadense Glenn Gould, de quem falo no post anterior, não deixe de dar uma olhada nesse video. É uma boa mostra de seu talento e, especialmente, de seu jeito peculiar.
As filmagens foram feitas em uma casa de campo que seus pais tinham e conta com a participação especial de Banquo, seu cão de estimação, para quem Glenn escrevia cartas de sua tour pela Russia.
Nos anos setenta do século passado - os famigerados “enlatados” da TV Americana faziam grande sucesso no meio da garotada. Curiosamente três ícones muito cintilantes dessa era deixaram o mundo por agora, em um período muito próximo. Primeiro foi o gafanhoto David Carradine, astro da série Kung Fu quem nos deixou.
Que grande barato era assistir aquelas lições de moral made in China in Box, o discípulo aprendendo a caminhar numa folha de papel de arroz sem a desmanchar e depois pelas areias do deserto sem deixar pegadas. David se foi de maneira meio torta, mas felizmente não aprendeu bem as lições do sábio mestre do Kung Fu, seus passos permanecem impressos na memória de inúmeros admiradores do mundo inteiro.
Agora se vão Michael Jackson e a panteríssima Farrah Fawcett, que inicialmente tornou-se conhecida com o sobrenome Majors, porque era casada com o ator de outro enlatado famoso “O Homem de Seis Milhões de Dólares”, do qual tenho vaguíssima lembrança e, nem sei por quê, associava esse seriado com a furacônica passagem pelo Brasil do “paranormal” Uri Geller, um indivíduo que entortava colheres e fazia relógios funcionar, tudo somente com a força do pensamento.
As crianças corriam pela casa procurando algum relógio quebrado pra tentar fazer funcionar também, eu mesmo me lembro de ficar olhando sério pro relógio e ordenar concentrado: funciona, funciona!O que funcionava mesmo era o marketing esotérico desse esperto e boa pinta israelense que tempos depois caiu em completo descrédito taxado de charlatão.
As panteras faziam a cabeça das meninas da minha rua e a SWAT a dos meninos. Eu corria desembestado pelos prédios que tinham em frente da casa de meus pais, empunhando uma estrambótica metralhadora de plástico que tinha uma coisa laranja na ponta que entrava e saia e fazia barulho, era quase uma experiência sexual. Eu no meio da mulecada realizando bravatas imaginárias, ali no limite de Santa Lúcia com a Praia do Canto.
Uma das homenagens mais bacanas feitas à belíssima pantera loira foi a peruca do personagem Hedwig, do filme Hedwig: Sexo, Amor e Traição, um musical de 2000 baseado numa peça Off Broadway, que confesso não saber direito o que é. Aliás, deve ser como sair de cartaz do Theatro Carlos Gomes e estrear em Guaçuí. É Off Downtown Vitória. Huahuhauhauhauha!
Hedwig é um travesti líder de uma banda de rock cuja peruca imita os leoninos cabelos de Farrah Fawcett, o resultado é hilário, porém convincente. Quem gosta de roquenrou não pode perder esse filme, as piadas são ótimas, as letras criativas e inteligentes e a estrutura das canções lembra a dos anos setenta, com várias pontes, seções e viadu-tos.
Farrah já estava desenganada, mas a morte de Michael Jackson pegou o mundo de calças curtas. O Jackson 5 é uma banda que sempre ficou embaralhada em minha lembrança, confundo com a Família Dó Ré Mi e até com os Harlem Blobetrotters que em algum lugar do passado estiveram em Vitória com grande estardalhaço.
A Morte do excelente cantor e dançarino Michael Jackson me lembra a de um outro ícone da música só que da dita erudita, um fabuloso pianista canadense chamado Glenn Gould. Guardadas muitas proporções devidas, ambos eram cheios de famosas excentricidades, tinham um fã-clube fiel, viveram cercados de especulações quanto à sexualidade e eventualmente se retiravam da vida pública para curtir, ou amargar, longos períodos de reclusão.
Eram dois músicos muito diferentes capazes de fazerem coisas impossíveis e decolaram para o sucesso com muita velocidade. Em ambos os casos, a mídia adorava as esquisitices destes artistas e as destacava mais do que a própria música, as gravadoras, conseqüentemente, se aproveitavam para vender e estava tudo certo. Not! Gould era muito admirado por sua execução da música para teclado de Bach, mas nas apresentações ao vivo suas caretas ao tocar e a mania de reger e cantarolar, tudo ao mesmo tempo, denegria sua imagem junto ao conservador e sisudo público da música clássica.
Michael passou pela vida se debatendo contra a própria imagem, tentando se desconstruir, mas, como no caso de Gould, seu drama dava o que falar à mída e, mais uma vez, estava tudo certo. O problema com ele foram os escândalos sexuais, acusações de pedofilia que denotavam no cantor uma clara falta de centro emocional e realmente acabaram maculando para sempre sua carreira brilhante como dançarino e cantor pop.
Glenn Gould, que era o protótipo do hipocondríaco, morreu subitamente aos cinqüenta anos de idade em 1982, logo após regravar a obra que o tornara famoso na juventude “As Variações Goldberg” de J. S. Bach. Michael estava se preparando para voltar aos palcos e faleceu com a mesma idade de Glenn.
Coincidências à parte, fica a dor e a certeza de que a mídia, o público e as empresas que fornecem alimento para a indústria pop adoram bizarrices e excentricidades, mais do que a arte e, sobretudo, os seres humanos que a realizam. É triste, mas fica a sensação de que Michael e Glenn partiram para a eterna lembrança de suas loucuras, mais que suas maravilhas.
Durante muito tempo relutei em ter um blog, saca? Achava um modismo internetóide, coisa de gente “muderna” e, apesar de as vezes escrever até mais do que posto na Letra Elektrônica, rolava uma preguiça danada desse compromisso com forma e regularidade que os blogueiros têm. Vai daí que de vez em quando me aconteciam uns textos pequenos, retratinhos revolts do cotidiano que eu compartilhava com amigos e alcançaram uma certa popularidade, começou a rolar a cobrança pra não parar ou para organizar melhor essa minha coisação escrivinhatória.
Nessa onda preguiçosa de não ter um blog comecei postando alguns desses meus textos no do meu querido amigo o “Grilo Falante”, que tinha o nome de A Vingança de Prometeu. Era um desses ditos “espaços literários” com contos mirabolantes e complexos. Esse cara acabou fazendo uma série de amizades internauticas pelo Brasil e outros escritores afins, uns nem tanto, o visitavam e comentavam seus textos, daí ele ia no blog do amigo e comentava também e ficavam assim naquela rasgação de seda que os iludia com uma espécie sutil de popularidade. Minha participação melou o barato e em pouco tempo Prometeu deu fim à sua Vingança.
Acho que o Grilo ficou grilado porque os comentários feitos aos meus textos eram diferentes dos que faziam aos dele, que minhas histórias suscitavam debates enquanto as suas recebiam os tradicionais “muito bom o seu texto” e “bacana isso que você escreveu”. Nunca ninguém tinha o xingado ou comentado um texto seu com putaria, os meus... Logo entrou numa de que aquilo tudo não passava de um teatrinho de egos e abandonou a empreitada. Eu achei muito divertida a experiência e, como todo amigo sacana, ainda falei: num te disse que essa parada não tinha nada a ver?
Lembro muito bem até hoje de um tiro desses que levei no ego, o primeiro talvez. Foi no primário. Eu desenhava por diversão e passatempo, porque sempre achei a escola um porre. Adorava revistas de super-heróis, ainda adoro, então tentava reproduzir o Super-homem, o Batman e um dia minha professora ficou encantada com um desenho que eu tinha feito do Popeye, indicou meu desenho para participar de uma exposição e anunciou para toda a classe. Cheguei em casa me sentindo uma espécie de Monet, Rembrandt ou Massena, para ser mais regional.
A exposição estava marcada para o domingo lá no falecido Clube Vitória, point bacana da sociedade anos setenta capixabesca, de frente pro Parque Moscoso. Toda a família se arrumou para assistir ao meu debut no mundo das artes, eu estava feliz como criança quando fica doente: no centro das atenções. Circulando pelo local da exposição é que me foi cair a ficha: tinha tantos e tantos desenhos expostos que nem consegui encontrar o meu. Fiquei como o Pequeno Príncipe quando descobriu na Terra um campo enorme com inúmeras flores como a que ele tanto amava e que pensava ser única. Descobri que eu também não era.
Mas, enfim, por que estou contando essa historinha? Porque no próximo dia 07 de julho A Letra Elektrônica comemora um ano de atividade blogueira e bateu a onda de agradecer a vocês que têm me lido e incentivado desde o início. Nunca quis fazer um blog agressivo ou ficar bancando o dono da verdade, arbitrando o que é bom e o que é ruim em nossa sociedade botocuda conservadora e hipócrita. Tem muita coisa legal no mundo pra se dizer e o próprio ato de escrever é uma delas, compartilhar isso com vocês obtendo comentários e críticas é mais legal ainda, é fundamental.
Graças a vocês meus textos hoje estão republicados em sites como o do Professor Roberto Belling, sem falar nas participações especiais no Moquecada e em outros blogs amigos -, mantendo a gente em contato enquanto ainda estamos aqui. Ontem recebi um convite, que muito me envaideceu, para participar de uma mesa redonda em um encontro nacional de blogueiros. Entre tanta gente boa escrevendo é muito legal ser lembrado assim, mas isso não é o mais importante: o mais importante é manter nossas idéias circulando, porque pedra que não rola cria limo. I'm like a rolling stone...